sexta-feira, 27 de setembro de 2002

O Louvável Deus KU



Analisando a fundos os anais antropológicos, entre o ir e vir de testículos, ou seja, de pequenos fragmentos de textos, gozo de dados subversivos e libidinosos a partir da oral de um professor em uma aula.



Se dizemos que no Brasil a bunda é a preferida de dez entre dez brasileiros, independente de credo, raça e muito menos sexo, no Havaí o KU é um Deus. (KU não leva acento porque além de ser monossílabo tônico terminado em u, mal ou bem já está contido em um e, dependendo do caso, às vezes mais agudo que o normal)



Existem diferenças fundamentais na semelhança entre o KU havaiano e a bunda brasileira. A mais importante é que a bunda é farta em seu território, gigante pela própria natureza, forte, bela, impávido colosso, cuja grandeza revelou abundância de talentos lombares como Gretchen, Carla Perez, Sheilas, Rita Cadilac, Tiazinha e outras, enquanto o KU é um buraco cercado de águas carnudas por todo lado e situado mais embaixo geográficamente.



Sem perder o rebolado, tomando no KU uma referencia pornocultural do arquipélago polinesiano, os havaianos que idolatram o Deus KU, não ficam muito atrás da paixão brasileira. Ficam no mesmo nível, geralmente sentados à mesa, com um copo de cerveja ou drink colorido, alimentando a paixão e endeusando o KU. Ambos (bunda e KU) se mexem com as cadeiras ao som de um pagode ou hula - hula.



Por falar em hula - hula, não faz tanto tempo, a bunda homenageou o KU. O grupo Tchan que se fosse formado nos tempos de outrora seria grupo Perereca da Vizinha, no seu contínuo balanço pélvico, também conhecido como destronca cacete, seduziu as pessoas com a ingênua sacanagem sexual pornoinfantojuvenil, balançando o traseiro e intrinsecamente reverenciando o KU.



A história é longa, comprida, enorme e não dá pra ser introduzida de uma vez só. Aos pouquinhos é mais fácil de se acostumar. Portanto, recomendo que os interessados no KU dos havaianos leiam o livro de Marshall Shalins (“Ilhas de história” Capítulo 5) Ele sim, como um excelente antropólogo, entende dessas coisas talvez até melhor do que um sexólogo. Tudo no sentido passivo da posição.



Caso você leia realmente esse livro e mesmo assim, depois de várias tentativas brochar no entendimento da leitura, se achou que foi complicado entender como o KU é tão querido, aqui vai toPICAmente uma pequena síntese, um pequeno resumo da história do Deus KU.



Louva-se o KU fazendo sacrifício humano

KU chega as ilhas e ocupa o poder

O rei luta com Lono (Deus rival do KU) protegendo o KU

Lono oferece linguiça de porco ao KU e volta para sua terra

O KU é reaberto com cerimônia

KU foi habilitado com as relações sexuais

O poder é de KU

KU quebrou o tabu de Lono

KU tornou-se um mortal quando Lono roubou suas mulheres

Foi inserido dentro do KU metáforas históricas.

quinta-feira, 19 de setembro de 2002

O Verdadeiro BUG do Milênio



Vocês se lembram dele? Vou refrescar um pouco sua memória.



Nos últimos meses de 1999, discutiu-se muito sobre esse assunto. O bug era um verdadeiro bicho de sete cabeças espalhado pelos continentes que também são banhados pelos sete mares. Seria o bug uma coisa cabalística?



O mundo inteiro se preparou para brigar contra o tempo. Um segundo apenas poderia transportar toda a modernidade de volta a 1900, já que os computadores controladores do planeta fariam a passagem de 99 a 00, sem realmente computar (finalidade dos computadores) a mudança do Anno Domini corrente.

As preocupações da população, e suas investidas contra o ‘dragão da maldade’, iam desde uma simples conta bancária onde poderia repentinamente sumir ou aparecer enormes quantias de dinheiro nos extratos dos clientes, passando por blecautes, até os depósitos de ogivas nucleares espalhados pelo mundo da guerra fria que poderiam ser disparados em pleno reveillon. A previsão de Nostradamus, que já errara na data do fim do mundo em onze de agosto de noventa e nove, voltou a ganhar força com toda essa parafernália milenar. “De mil passarás; a dois mil não chegarás.”



Pois bem, o ano 2000 chegou e não superou todas as expectativas. Talvez por não ser cronologicamente a virada do milênio – estudiosos dizem estarmos em dois mil e sete pela confusão que o Papa Gregório causou ao implantar seu calendário e que nós seguimos rigorosamente – que só acontecerá de dois mil para dois mil e um.



Esse assunto não passou de mera publicidade. Nos EUA até kit de proteção do bug estava sendo vendido contendo entre outras coisas uma lanterna para iluminar o apocalipse que ocorreria durante a virada do ano. O criador desse monstro de três letras é a própria humanidade que deixou o planeta de ponta-cabeça (no sentido figurado) com essa história. A notícia não foi exatamente o bug, mas o que poderia acontecer com o mundo com o bug. Portanto, outra hipótese é surgida daí. O bug não era o bug, e sim sua espera.



Isso tudo para contar uma história verdadeira e que deveria entrar no ‘Guinnes Book.’



Reveillon de 99 pra 2000 na casa da tia Branca, em Niterói. Família inteira (ou quase. Faltavam dois primos), e mais alguns agregados, reunida. Uma festa de arromba. Logo na recepção se ganhava aqueles óculos 2000 para usar durante a comemoração. Por lá, o bug passou longe. A farra foi tão boa que nem tivemos tempo para pensar nisso. Comemoração única. (Digo isso por nossos relógios estarem devidamente não sincronizados. Não exatamente a meia noite, mas dois minutos antes – no meu relógio – estipulamos o horário em que íamos ‘bugar’. Imediatamente começamos a tradicional contagem regressiva e explodimos como bombas nucleares de alegria.) Confetes e serpentinas ‘carnavalizaram’ a comemoração. Lá ninguém regrediu, ninguém voltou a mil e novecentos e nem perdeu a memória, os dados (principalmente os pessoais) e arquivos. Mesmos os que beberam de cair se lembraram no dia seguinte do que (e não aonde) tinham tomado.



Juntando a fome do reveillon com a vontade de comer da família, rolou de quase tudo. Músicas, roda de viola e ‘excursão’ dos jovens às praias mais próximas, apesar da chuva, soma-se isso a mais alguma coisa e o sono começa a chegar somente na manhã do primeiro dia do ano novo.



A distribuição dos ‘hóspedes’ já estava previamente combinada, dividindo as mais de vinte pessoas em três casas. Uma ao lado da outra e a outra relativamente perto. Justamente nessa outra casa relativamente próxima das outras duas, que é do tio Rodolfo, aconteceu o tão esperado e verídico bug do milênio.



Quanto a casa, não ocorreu nada de grave. Não foi nenhum transformador de energia que explodiu deixando a casa às escuras, nenhuma bomba (com exceção do Daniel, neto dele) a destruiu. Em relação a conta bancária, não apareceu, mas sumiu dinheiro. Não em grande quantidade por ele não possuir tamanha quantia, mas com festas de fim de ano sabe-se que vai gastar. Aparecer seria o ideal. Nem isso.



O verdadeiro bug do milênio aconteceu em um utensílio da casa. Não foi microondas, computador ou aparelho de som. Foi em um relógio. Desses de parede que marcam as horas e o dia.

O dia. Foi exatamente nesse dispositivo ‘dia’ que o bug do milênio surgiu na casa do meu tio. Ao invés de, como todo relógio, o dia virar de trinta e um para primeiro, mudou de trinta e um para trinta e dois. Meu primo Tiago foi quem viu isso.



Inesperadamente, a expectativa do bug do milênio atingiu o relógio do meu tio. Não tivemos tempo de registrar no Guinnes o mês mais longo do ano de 99, talvez do segundo milênio. Ficamos aguardando a oportunidade de vinte e nove de fevereiro, posto que o ano 2000 era bissexto. A expectativa da minha família era a de que no calendário do relógio do meu tio, além de dezembro ter trinta e dois dias, fevereiro ter, no mínimo, trinta. A expectetiva do bug do milênio, pra gente, se transformou na expectativa do bug do mês de fevereiro, ou, pela proximidade, o bug do carnaval.



Infelizmente isso não aconteceu. Aí passou o ano 2000, 2001, 2002......

quinta-feira, 12 de setembro de 2002

11/9



Um ano se passou. Me lembro exatamente o que estava fazendo naquela manhã. A faculdade estava em greve e quando não tenho nada pra fazer na parte da manhã, durmo. As torres despencando e eu dormindo.



Minha mãe, na época trabalhando lá no Rio, ainda tentava me acordar por telefone. Como ela mesmo diz, o mundo pode acabar que eu não acordo. Coisas de profetiza?



Até que por fim eu acordei, minha mãe me ligou e acompanhei tudo. Não acreditava no que via e, apesar de repudiar veementemente os ataqures de qualquer natureza, confesso que sentia uma certa admiração pela mente que orquestrou os ataques. Pelo visto foi o Osama, ou quiseram que fosse ele, nunca se sabe.



Tenho uma certa simpatia pelas mentes criminosas. Isso não quer dizer que eu seja ou me torne um criminoso. Por Favor. Não vá andar na rua com medo de mim. Não faço mal nem a uma mosca. Mas acho que esse pessoal que articula ataques tipo de um ano atrás têm uma mente brilhante.



Nunca fui à Nova Iorque. Tenho vontade de ir pra ver o tamanho do buraco que ficou no chamado 'Ponto Zero'. Eles souberam começar do zero e causar uma reviravolta no mundo inteiro. Creio que deveriam construir alguma coisa ali. Não exatamente arranha céu de mais de cem andares, mas um edifício baixo, um memorial, sei lá, alguma coisa ali.



Um ano depois a vida continua.

quarta-feira, 4 de setembro de 2002

Do fundo do baú



Quando eu estava nos tempos do colegial, a proposta em uma das aulas de redação era escrever um texto cuja última frase teria que ser 'Vende-se uma moto.' Essa foi a mesma proposta que teria caido em um vestibular acho que de uma faculdade de São Paulo. Olhem o que eu fiz:



Marieta e Galileu



Há certas coisas na vida da gente, que acontecem inesperadamente e somos obrigados a nos conformar, como por exemplo, a perda de um ente querido.

Marieta e Galileu era um casal de velhinhos beirando os noventa anos. Viviam apaixonados desde 1930, quando Galileu batalhou na revolução e Marieta era voluntária de enfermagem, que cuidou dele quando levou um tiro entre as nádegas - maldito muro.

Passaram os anos 30 em eterna lua de mel. Nos anos 40 tiveram três filhos: Hugo, o mais velho, José, o do meio e Luís, o caçula; os anos 50 com problemas financeiros que conseguiram superar; nos anos 60 foram pra França exilados, voltaram nos anos 70 para cuidar dos netos, aposentaram-se nos anos 80 ganhando da previdência sempre o equivalente a dois salários mínimos, e agora, nos anos 90, aconteceu o tão esperado inesperado.

Galileu, como em toda manhã, acordou cedo, foi a padaria comprar o pão de cada dia e foi, também, comprar o seu jornalzinho matinal. Manchete do jornal: “Sobe o índice de pessoas mortas por atropelamentos.”

Como fazia após comprar o jornal, lia a manchete e voltava à sua casa que era ao lado de uma concessionária, defronte a padaria.

Ao atravessar a rua, Galileu morreu atropelado. Marieta correu para tentar acudi-lo, mas já não dava tempo. Ele tinha morrido mesmo.

O povo juntou para ver a cara do defunto enquanto na concessionária tinha um anuncio que até chamava a atenção de alguns curiosos. ‘Vende-se uma moto.’





E pensar que esse texto é do século passado. Estou ficando velho.

Até a próxima.