quarta-feira, 23 de outubro de 2002

EU TENHO MEDO



O assunto está ficando cada vez mais grave. Essa semana então a luz começou a piscar o sinal vermelho indicando perigo. Não. Não estou me referindo àquelas declarações de Regina Duarte e Beatriz Segal apoiando a candidatura de José Serra agora no segundo turno. O alerta vermelho é sobre o meu futuro e não o futuro que eu vou ajudar a dar para nosso país.



Tive uma conversa séria com minha mãe. Tudo começou quando revelei o resultado da avaliação de um projeto de pesquisa para um mestrado em comunicação que me inscrevi. Precisava tirar no mínimo 7 para fazer as provas e eu honrei a última posição no ranking obtendo a nota 4. Segundo o dito popular, os últimos serão os primeiros.



O título desse meu projeto é ‘A cultura do quarto poder: visões culturais da manipulação da mídia’ onde queria mostrar, dentro da nossa literatura, música e cinema essa influência e interferência dos órgãos da mídia na sociedade. Só para exemplificar, no caso do cinema eu trabalharia com o filme ‘O beijo no asfalto’ da obra de Nelson Rodrigues. Não creio que seja uma má idéia trabalhar sobre esse tema, mas o fato foi que a UFF não gostou muito.



Minha mãe perguntou por que eu achava humilhante ir até lá e perguntar onde errei, pedir uma explicação para que meu projeto fosse melhorado. Eu respondi que era aquilo, ou aceitam ou não. Ela achou isso egocentrismo da minha parte, por ser do jeito que eu quero. Será? Quer dizer então que tenho que seguir a formatação deles? Ou seja, fazendo analogia com uma calça, eu, que sou gordo, teria que emagrecer pra caber no modelo de calça deles? Por que estou errado de pensar assim?



Na segunda parte do papo a pergunta foi: ‘E agora, o que você vai fazer da vida?’ Pra quem não sabe tenho 25 anos e desde abril – porém a data oficial é 26 de setembro – sou formado em Ciências Sociais. Existe um ofício que eu exerço extra-oficialmente que é escrever. Tenho 2 livros devidamente registrados na Biblioteca Nacional como obras não-publicadas. Quanto à resposta, disse que queria continuar fazendo o que gosto e, juntando o útil ao agradável, ganhar dinheiro com isso. Que mal há em ser escritor? Gosto de criar. Me dá prazer e já tenho idéias pra mais três. Eu sei que há uma dificuldade no início, já que a recusa é muito grande. Tenho arquivados alguns mails recusando o texto somente pela sinopse. Afinal, continuo sendo mais um na multidão querendo um lugar ao sol das grandes editoras.



O principal embate é continuar a escrita como hobby e deixa-la em segundo plano ou coloca-la em evidência. Eu tenho medo. E o que me aflige ao acatar a primeira opção é a frustração de ter que trabalhar a contra gosto, fazendo uma coisa que não me agrade só pelo fato de receber um salário no fim do mês. E se eu acatar a segunda, por enquanto, terei a frustração de não ter um livro publicado, a não ser que se pague pra isso, o que não acho certo para um escritor.



É a razão da minha mãe de estar preocupada com meu futuro, querendo que eu trabalhe por um salário no fim do mês, contra a minha emoção por querer trabalhar com o que eu mais gosto de fazer. Ela acha que ser escritor não dá dinheiro e eu acho que eu não sendo escritor não terei tanto prazer quanto preencher a tela branca desse computador com minhas idéias e criações.

Eu tenho medo de me magoar a mim e a ela. Eu tenho medo de tomar uma decisão errada e de jogar minha vida no lixo. Não acho que isso seja viver de sonhos. O que eu faço? Que caminho tomar? Continuo escrevendo, isso é fato, mas em que plano a literatura deve preencher minha vida? Pode me dar uma luz?

quarta-feira, 16 de outubro de 2002

DOMINGO NA PRAIA



Domingo pode ser um dia morto pra uns e bastante produtivo pra outros. Os meus oscilam dessa forma. Se bem que ultimamente eles têm sido mais produtivos do que mortos. O ‘não se ter nada pra fazer’ no domingo é pior que o ‘não se ter nada pra fazer’ numa terça, quarta ou sexta. Domingo também é sinônimo de Silvio Santos, nada que preste na tv, – salvo a TVE Rede Brasil – guerra de audiência entre Faustão e Gugu, e o pior pra quem trabalha, é véspera de segunda feira.



Mas esse último domingo em especial foi marcante graças a um evento promovido por uma grande rede de supermercados na praia de Copacabana – mais precisamente no posto três, perto do Copacabana Palace – onde se apresentaram dois grandes artistas, Gilberto Gil e como convidada Rita Lee.



Ele está divulgando o seu mais recente CD com as músicas de Bob Marley. Pra quem gosta de Gil é um ótimo trabalho de reggae e pra quem gosta de Marley, Gil o lapidou como um diamante. Um verdadeiro tesouro pra quem gosta de boa música.



Era uma das 70 mil pessoas – público estimado – que deram o ar da sua graça nas areias da princesinha do mar. Fui com alguns amigos meus e soube de outros que também foram pro show, mas, diante daquele mar infindo de espectadores.



A Joana – uma das que foram e eu não encontrei – foi a protagonista da minha conversão para a seita de fãs de Rita Lee. (Sabendo que fã vem da palavra fanático, não acho que eu, e nem a Joana, sejamos tão fãs assim da Rita, apesar de ela ter a coleção completa dos trabalhos feitos pela Rita. Fã fanático, aquele que beira a loucura, tem recortes de jornais, revistas e vai atrás de entrevistas e reportagens feitas com o ídolo. Eu digo que sou um admirador dela e sempre que tiver oportunidade, como esse show na praia em que ela participou, a acompanharei em suas apresentações, caso que aconteceu no início do ano quando ela estreou o show em janeiro e voltou ao palco do Canecão em março. Pela primeira vez na minha vida assisti a um mesmo show mais de uma vez.)



Da turma que foi comigo – eu, Paulo, Nadine e Léo – a pessoa que mais se aproximava de mim em termos de Rita Lee era a Nadine. Não sei se essa alcunha já existe, se não, acabo de inventar, mas nós éramos os mais ‘ritaleiros’ do quarteto.



Gil a introduziu ao público como a coisa mais linda, mais cheia de graça. Concordo com ele. E a própria Rita também, pois enquanto ela ‘estiver viva e cheia de graça talvez ainda faça um monte de gente feliz’. A dúvida não cabe na frase dada a quantidade de pessoas que se direcionaram pra Copacabana – eu saí de Niterói – a fim de vê-la com Gilberto Gil. Pequenos encontros de grandes astros iluminam e engrandecem meu conceito de felicidade.



Dentre todas essas pessoas que foram assistir a um grandioso espetáculo na praia no último domingo, figuravam diversos Paulos, Léos, Lucienes, Joanas, Bobs, Ritas, Gilbertos, Josés, Joãos, Marias. Alguns eram as ovelhas negras de suas famílias, outros estavam se refazendo, mas todos se perguntavam se aquilo que estavam sentindo era amor fosse em qualquer nível. Porém um sujeito me chamou bastante a atenção.



Bem no clima da festa, com cabelo rasta, ele apareceu no palco já no fim da apresentação. Despojado e de olho nas ‘mina’, se apresentou como Aníbal. Me pareceu gente fina, que gosta de um bom papo, principalmente se o assunto for mulher.



Espero que o Aníbal não demore a visitar o Rio novamente e convença a Rita Lee de voltar também. De braços abertos, o Rio de Janeiro continua lindo. E pra Rita Lee aquele abraço.

quinta-feira, 10 de outubro de 2002

BOCA DE URNA



No jingle da sua campanha para uma boa campanha eleitoral, o Tribunal Superior Eleitoral afirmou em alto – dependendo do volume do rádio ou tv – e bom som que ‘votar é fazer valer a sua opinião’. Propaganda enganosa. Por essa e outras não fiquei satisfeito com os resultados que as urnas eletrônicas indicaram sobre as eleições aqui no Rio.



As constatações que estou fazendo aqui começaram antes mesmo do cumprimento do meu dever cívico. Espero que um dia a democracia seja mais democrática e acabe com a obrigatoriedade do voto.



Pra começar eu voto longe da minha casa. Dá pra ir a pé, mas é uma boa caminhada que dura cerca de dez a quinze minutos. Por sorte a maior parte do trajeto fiz de carona com Santa Vera em um milagre eleitoral, porém em um pequeno trecho tive que caminhar mesmo. Notei, e isso deve ser comum em todos os lugares, a zona que a cidade ficou com um tapete de santinhos de candidatos esparramados pelo chão e entregues pelas pessoas que, segundo a própria Santa Vera, ganharam esse ano R$ 10 para ficarem se escaldando debaixo daquele sol e sendo cúmplices na sujeira da cidade. Não tem uma lei que multa quem joga lixo no chão? Como é que uma pessoa quer legislar se ela mesma burla a lei? Isso tem que ser revisto para as próximas campanhas. Desde já minha opinião começa a não valer.



Já na minha seção, mais um teste de paciência. Fila. E olha que o máximo de pessoas que eu peguei na minha frente até então foram cinco. Esse ano a fila ficou em duas etapas. A primeira pra evitar que as pessoas subissem até o terceiro andar da escola em que eu voto, ou seja, uma fila com as quatro seções e mais, quando éramos liberados, ainda tínhamos que enfrentar a fila dos votantes especificamente das seções. Felizmente o tempo total da minha espera foi menor que a média do tempo total de uma fila de banco, nada que passasse dos seus vinte minutos. Nos noticiários vi gente que desistiu de votar por causa das filas.



Chegou na minha vez. Entre números e tecla verde foram em torno de vinte e cinco botões apertados.



Agora, com a divulgação da apuração, descobri que não tenho opinião, ou melhor, que tenho, mas não vale nada. Nenhuma das pessoas em que confiei meus votos se elegeram. Apenas um teve uma votação expressiva e foi para o segundo turno. Como que eu vou acreditar que votar é valer minha opinião se as opiniões não são respeitadas.



Veja o caso do Careca Barbudo de São Paulo. Mais de um milhão e meio de malucos votaram nele e por causa dessa palhaçada – mais um erro, na minha opinião - de coeficiente eleitoral, candidatos do Prona que não tiveram números de votos suficientes nem para o cargo de vereador, gente que eu nem sabia da existência, e muita gente também não, vão representar São Paulo na Câmara Federal. Bem feito pra eles.



Confesso que fui dormir na noite de domingo na expectativa de um segundo turno aqui pro Rio, mas a apuração da madrugada nos traiu. Com uma péssima idéia, 51, de percentagem de votos válidos, a candidata mal cheiRosinha ganhou o governo do estado. Bem feito pra gente.



Eu acho – e Noel Rosa já cantava que quem acha vive se perdendo – que essa mistura de religião com política não deveria existir. Uma coisa é a igreja ou templo religioso ou qualquer outra forma que signifique isso, seja de qualquer religião e a outra é o governo de um dos mais importantes estados do Brasil. Pelo visto, as pessoas que já eram, ficaram mais crentes de que ela fará um bom governo. Vamos ver no que essa crença toda vai dar.



Como minha opinião não é válida nem na boca de urna, vou parar por aqui.

quinta-feira, 3 de outubro de 2002

DEMÔNIO DO MUNDO



Acerca de 17 anos - foi em 1985 e nunca fui bom em matemática – ganhei um presente de aniversário da minha madrinha. Um disco de vinil. Até então, tudo bem. Sempre gostei de música. Mas esse disco tinha uma causa especial por detrás da gravação. Diversos artistas americanos, se não me engano liderados por Michael Jackson, se uniram para gravar uma canção de solidariedade aos paises africanos que enfrentavam o problema da fome. E a maioria continua enfrentando. O nome desse disco e o da faixa título é ‘We are the world’ que em português significa ‘Nós somos o mundo’.



Mais recentemente há mais ou menos 10 anos, foi exibida uma novela sobre vampiros cujo papel principal – noveleiros de plantão, me corrijam se minha memória estiver falhando – era da atriz Cláudia Ohana, onde ela interpretava uma cantora, estrela da música pop nacional e por acaso vampira, de nome Natasha. Por conseqüência do sucesso do folhetim, ela, Natasha, estourou com duas músicas na parada de sucessos – pelo menos dos que eu gosto de ouvir. Uma foi ‘Quero que vá tudo pro inferno’ de Roberto e Erasmo Carlos, e a outra se tratava de um sucesso dos Rolling Stones ‘Sympathy for the devil’, cuja tradução seria mais ou menos uma afeição a um demônio ou gênio do mau.



Fiquei sabendo alguns dias atrás – roqueiros de plantão, me corrijam se estou faltando com a verdade – da história da composição dessa música. Numa das suas primeiras visitas ao Brasil, fins de 60 ou início dos 70, eles visitaram um terreiro de macumba e surgiu a inspiração pra essa música.



Mas vamos falar de outra história, a que nós estamos vivenciando agora, ao final de 2002. A pergunta que eu faço é: o que tem a ver ‘We are the world’ com ‘Sympathy for the devil’? Deixa que eu mesmo respondo. Aliais dá pra convergir a resposta em um ponto ou um nome em se tratando dos dias atuais. George W. Bush. Por que? Pela afeição que ele tem em um terrível gênio do mau, Saddam Hussein. Isso porque ele e o Tony Blair acham que ele é um demônio. Tudo bem, concordo que ele não é uma flor que se cheire, mas daí a rotulá-lo como o inimigo mundial número um já é demais.



O ditador iraquiano já abriu as portas de algumas das supostas fábricas de armamentos químicos destruidores de massa em potencial, concordou com a volta dos inspetores das nações unidas ao país para fazerem uma checagem e nada do Bush recuar. A Organização das Nações Unidas, com exceção da Inglaterra, está contrária a invasão americana. Várias manifestações estão sendo feitas por toda parte para que esse perigo iminente não deixe de ser apenas iminente. Porém ele próprio em declaração bombástica – pra quem quer uma guerra essa palavra pode ser um estouro – disse que quer atacar o Iraque por razões pessoais. Provavelmente tem o dedo do papai Bush e reminiscências da Guerra do Golfo.



Pela frustração de não ter achado Osama Bin Laden, Bush tratou de arrumar um inimigo e apontar todas as armas pra ele. Sobrou para Saddam. E ainda diz que quem não está a favor dele, está contra. A ONU faz de tudo para que o estopim não seja estourado por livre e espontânea vontade de Bush.



Acho que agora é hora da entrada em cena da Organização Mundial da Saúde pra que seja colocada uma camisa de força no Bush. Enquanto ele é amarrado, grita aos quatro ventos: “O inimigo do mundo é ele. Estão internando o homem errado. A América só quer fazer o bem pro mundo. O mundo tem que derrotar o inimigo. Nós somos o mundo. Nós somos o mundo.”

Vamos ver quem será o louco que poderá impedir a loucura do presidente da maior potência mundial.