quinta-feira, 30 de janeiro de 2003

ESPECIAL (4)



Estipula-se um valor acessível a todos - vinte reais foi o desse ano - e faz-se uma lista de presentes (em anexo) podendo a pessoa escolher o que lhe convém e/ou o que precisa geralmente escrevendo mais de uma opção. A surpresa, no caso, não é o presente em si, já que este é pré-estabelecido, mas quem vai te dar o presente e o que essa pessoa que sorteou seu nome, vai falar de você. Fica com um clima, um jogo de olhares, uma expectativa de último capítulo de novela onde todos apostam em quem explodiu o shopping, quem era o assassino ou quem matou Odete Roitman.



Todo o ano alguém dá o arranque para dar início à brincadeira - esse ano eu fui o escolhido - sempre falando alguma característica da pessoa, ou algum fato marcante que tenha ocorrido com ela durante o ano. Por exemplo, eu tirei tia Rosely e para descrevê-la disse a todos que “a minha amiga oculta ultimamente anda enfiando o dedo em lugares muito suspeitos”, em virtude de uma farpa que meses atrás entrou no dedo médio e infeccionou quase atingindo o osso.



Um fato engraçado que aconteceu durante a brincadeira foi que tia Marília não estava conosco na hora dela entregar o presente porque tinha que amamentar Matheus. Então, Pedro, enteado dela, e Ruizinho fizeram as honras no lugar dela. Pedro, falando por Marília, disse que o amigo oculto dela era Rui e entregou o presente a Ruizinho. Este agradeceu e abriu o presente. Percebeu que havia algo diferente com o presente, que ele não havia pedido uma camisa de pólo amarela. Descoberta a confusão. Rui, na verdade, não era Ruizinho, e sim o pai dele que tem o mesmo nome, e como Pedro distingue Rui (primo) - de ‘tio’ Rui cometeu esse pequeno deslize fazendo com que nós todos tivéssemos acesso de riso formando um coro de gargalhadas.



Tempos atrás, quando as vacas eram um pouco mais cheinhas, sempre tinha lembrancinhas natalinas para todos. Chegava na casa dos meus avós me sentindo um verdadeiro Papai Noel, ou, pela idade, um ajudante dele, e auxiliava na distribuição de presentes para todos. Mas, as vacas foram emagrecendo e os presentes ficaram escassos, não tendo condição nem de dar para os mais novos. Presente mesmo, eu só ganhei do meu padrinho, uma camiseta, e dei uma camisa pra ele também, além do presente dos meus pais. Em compensação, os comentários sempre rondam. Em qual loja comprou, em tal lugar está mais barato, na rua da alfândega sai mais em conta, principalmente entre as mulheres. E as crianças, essas ganham e dão seus presentes pros pais nas próprias casas pra não precisar ficar levando e trazendo mais coisas, já basta a comida e a sacola com os presentes dos amigos ocultos. Se couber na sacola, ótimo; se não, paciência. É Natal.













*** Só gostaria de ressaltar que agora nós esperamos dar as doze badaladas pra trocar os presentes de amigo oculto e logo depois fazermos nossa ceia.

Depois dessa longa exposição de especiais, aguardem a próxima postagem com material inédito e atualizado. Até a próxima.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2003

ESPECIAL (3)



Cada criança tem o seu momento de descoberta e decepção com o Natal e passa a enxergá-lo com outros aspectos.



Um aspecto que é enfatizado é a importância da união da família. União em tudo. Até na hora de montar a ceia. O combinado era que cada ‘núcleo’ levasse alguma coisa, pois como estão todos apertados em relação ao dinheiro, ninguém conseguiria bancar todo o farnel sozinho. Ficou assim dividido: Rubinho - pernil; Rui - chester - Roseléa - saladas, farofa e arroz; Roberto - bebidas(cervejas, refrigerantes e vinhos) e Rosely - frutas, assim não ficaria pesado pra ninguém. Só que houve um pequeno contratempo; como o pernil só chegou às dez e meia da noite, o chester serviu de tira - gosto, aperitivo, acabando rapidamente e sem ter outro pra substituí-lo na hora do jantar.



Por ter chegado por último, com exceção de eu que estava lá desde as oito e meia da noite, minha família não comeu o delicioso chester. A chegada foi igual a de todos os outros ‘personagens’ da casa. Ninguém tem raiva ou richa com ninguém. Todos se falam direito e por isso, quando um vai cumprimentar o outro, ninguém tem uma preferência pessoal.



Cumprimenta-se quem está na frente, independente de ser irmão, cunhado(a) ou sobrinho(a).

Em famílias muito ortodoxas é costume esperar até a meia noite para começar a ceia. Lá em casa é diferente. Começa-se a ceia quando todas as opções e variedades estão postas a mesa e prontas a serem servidas. Esse ano, como o pernil atrasou um pouco, quase que nós começamos a comer a meia noite praticamente sem chester, mas a quantidade foi ideal para que todos comessem e alguns repetissem o prato.



Depois de um bom prato e o estômago forrado, uma conversa jogada fora até que ia bem. E foi. Assuntos diversos foram abordados. Desde a Niterói de antigamente e as aventuras infanto -juvenis dos adultos da casa até o futuro de Matheus e o planejamento de sua vida. Todos os adultos participavam da conversa. Uma verdadeira mesa de botequim. Lembranças reminescentes de passado remoto, casos famosos de amigos mais próximos e parentes mais distantes e a diferença entre a razão e a emoção foram umas das que mais tempo levaram a deixar os seus interlocutores.



O bate papo só foi terminar lá pelas três horas da manhã, quando a cerveja também acabou e, sendo Natal, ninguém mais tinha pra onde correr - a não ser pra cama - e arranjar mais. As despedidas foram praticamente iguais aos cumprimentos da chegada. A única diferença era que as baterias das crianças estavam recarregando e Marília já estava ficando chateada com o marido dela porque ele tinha prometido voltar pra casa mais cedo por causa do bebê e pra ela poder descansar pra pegar a estrada no dia seguinte e levar os pais a Poços de Caldas - ida e volta no mesmo dia - e ele não tinha cumprido o trato. Paciência. É Natal.



Na saída, quase sofremos um acidente de carro com uma ré bem dada por tio Rui que quase nos acerta a dianteira. Mas ficou só no quase. Desculpas foram dadas. Tudo bem. Paciência. É Natal.

Não exatamente a meia noite, mas um pouco antes, por mera coincidência, pois nós não seguimos a tradição das doze badaladas, começamos a nossa troca de presentes, o nosso tradicional ‘Amigo Oculto’. Todas as atenções se voltam para a pessoa que vai dar o presente. É uma brincadeira que todo ano a gente faz.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2003

ESPECIAL (2)



Pois bem. Todos aceitaram a decisão de mudar o ‘quartel general’ da noite natalina. Foi uma batalha difícil. Eu mesmo fui voto vencido, porque apesar da morte de minha avó a vida continua, e eu não queria quebrar uma tradição de, pelo menos pra mim, 21 anos. Mas somente eu e mais dois ou três (na época éramos dezesseis ao todo) permanecemos com essa idéia. Mas, como isso aqui é uma democracia, (pelo menos é o que parece) o combinado era a mudança definitiva da casa anfitriã na noite de Natal. Esse encargo agora passa a ser da tia Roseléa, que pegou o papel que até então (1996) era da minha avó Léa, que representava a matriarca da família. Como dizem os italianos, - pais do qual minha família descende - a casa ‘Q.G.’ era a da “mama” , no meu caso a da “nona”.



A casa estava enfeitada para a festa, mas nenhuma das bugigangas climatizavam o motivo da celebração. Parecia mais uma reunião de família, ou aniversário de algum parente do que o próprio Natal. A única diferença era o pinheiro montado com um presépio nas entranhas da árvore e a guirlanda dependurada na porta, além de uma mesa de apoio (a que contém a louça) com toalha especial e dois castiçais que estavam lá por estar mesmo, sem motivo especial.



Porque o pinheiro, a guirlanda e outras tantas representações? Acho que é um motivo meramente comercial. Cada país deveria representar o Natal de acordo com seu clima, costumes e até tradições. Um exemplo é a roupa do Papai Noel. No Japão, o certo é ele usar um kimono; no Oriente Médio, aquelas túnicas e no Brasil bermuda, chinelo e uma camiseta. E o pinheiro? O certo seria, pelo menos aqui no Brasil, que ao invés do pinheiro verde puséssemos uma bananeira. As meias penduradas na beira da chaminé, os sapatinhos nas janelas das casas que não têm chaminé, é tudo uma grande ilusão, uma criação sustentada pra alimentar sonhos infantis nem sempre com objetivo alcançado quando o ‘bom velhinho’ não atende o pedido da criança. Quando chega a frustração de saber que Papai Noel não existe, não passa de uma fantasia, que na verdade ele é pai e mãe comprando o presente do filho, é revelada a primeira grande decepção da vida. Parece que a criança é obrigada a passar por isso durante cinco, seis, sete anos de sua vida, e dificilmente ela quebra a ilusão de uma criança menor que ainda está nessa fase. A pergunta “O que é que você pediu a Papai Noel?” permanece até hoje, nessa época do ano, alimentando a criatividade dos baixinhos. Bem, pra alguma coisa isso serve: pra troca de chupetas e mamadeiras por presentes.



Aqui em casa todos já passaram dessa fase de acreditar nessas sandices. Apenas o Matheus que nem sabe ainda o que é isso tudo, já que tem quatro meses. Dos netos (primos), o mais novo antes do Matheus, André, tem nove anos e o mais velho sou eu.



Eu, por exemplo, acreditei nisso tudo até os seis anos. Me lembro como se fosse hoje. Tinha ganhado o Circo do Playmobil - um dos brinquedos que mais adorava - quando descobri que tudo era uma farsa, um plano bolado estrategicamente pelos meus pais. Enquanto eu me distraia - ou me distraiam - na casa dos meus avós, um dos dois vinha pra casa sem que a gente percebesse, tirar o presente do esconderijo e o colocava debaixo da árvore de Natal com meu nome. Mas eu senti que meu pai estava demorando muito na casa do seu Zezinho, vizinho dos meus avós. Quando voltamos pra casa, a surpresa estava lá. Uma caixa enorme embrulhada pra mim. Papai Noel esteve aqui. Passadas algumas semanas eu me toquei de que meu pai não tinha ido à casa de seu Zezinho. Ele foi em casa dar uma de Papai Noel. Daquele dia em diante, Papai Noel tinha morrido pra mim, e no Natal seguinte eles ficaram surpresos quando disse que não acreditava mais nele.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2003

ESPECIAL (1)



RUBINHO - Livro: “A imprensa e o caos na ortografia” Autor: Marcos de Castro Ed.: Record

GERUSA - Short jeans 46 ou outra coisa

RAFA - CD das Escolas de Samba - Carnaval 99 - Grupo Especial

RICO - CD Titãs Volume Dois



RUI - Camisa polo amarela ou CD Fagner

LEILA - Short jeans cadarço 42

RUIZINHO - Fita de vídeo game Supernintendo “Pilot Twings” ou boneco X - MAN

ANDRÉ - Óculos escuros metal vespa



ROSELÉA - Um par de sapato preto de salto

PAULO - Bermuda ou camiseta de manga (42)

JANA - Agenda da Modamania (preta)

BELA - CD Nirvana “In Utero” ou “Nevermind”



ROBERTO - Uma camisa de malha

MARÍLIA - CD Torre de Babel - Internacional

PEDRO - CD Play - Station “Twist Metal 3”

MATHEUS - Brinquedo



ROSELY - Maiô de natação ou CD Phill Collins - Hitz



“Hoje é um novo dia de um novo tempo que começou. Nesses novos dias as alegrias serão de todos, é só querer. Todos nossos sonhos serão verdades. O futuro já começou. Hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa, é de quem quiser, quem vier.” Embalados, como todos os anos, por essa música otimista e global, indicando-nos o final do ano e início das festividades, lembramos que hoje é Natal. Início do fim de ano. Reúnem-se amigos e famílias para uma grande comemoração.



Aqui em casa é a mesma coisa todos os anos. Já virou tradição, assim como o Natal. Aqui vai mais ou menos um pequeno histórico, pelo menos desde o meu primeiro Natal; que, não sei porque, não me lembro direito.



Até o ano de 1996, a ceia era realizada na casa dos meus avós (lembrando que essa família é por parte do meu pai), mas, como a vida não é eterna, a minha avó veio a falecer em meados de 1997 - meu avô já havia falecido no início de 1995 - praticamente obrigando-nos a quebrar a tradição. Isso porque chegou-se a um consenso de que a lembrança dela ficaria muito forte se continuássemos a celebrar o Natal lá, onde agora mora minha tia Rosely. Então, ficou estipulado que a partir do ano de 1997 a festividade realizar-se-ia na casa da tia Roseléa, a filha mais velha dos meus avós.



Veja que engraçado. Eu falei que a vida não é eterna, mas todo ano se comemora o aniversário de Jesus Cristo. Não pelo fato dele ser quem foi, mas por todo ano lembrarem de que ele nasceu e não comemorarem o milésimo novicentésimo nonagésimo oitavo aniversário dele, por exemplo, de acordo com o calendário gregoriano. Comigo ninguém faz isso. Muito pelo contrário. Todos soltam aquele comentário: “Ficando mais velho.” Ora, será que ninguém imagina que Jesus completa nessa noite 1998 anos, pra fazerem esse comentário com ele ou com a imagem dele? Todos ficam elogiando o lindo bebê que veio ao mundo e ao mesmo tempo escondendo a idade dele. Uma pessoa que de alguma forma é lembrada durante 1998 anos tem que ser muito especial mesmo. Ou ele foi muito importante mesmo, ou há quase 2000 anos somos enganados com a precisão de um grande picareta.