sexta-feira, 25 de abril de 2003

SANTA SEMANA



Essa semana teve o feriado mais longo do ano de 2003. Por coincidências lunares, o domingo de páscoa foi véspera de outro feriado: Tiradentes. Quando digo que foi por coincidências lunares é porque a páscoa é sempre realizada no primeiro domingo de lua cheia após o equinócio de outono que costuma ser no dia vinte e um de março. Equinócio é aquele dia em que o dia claro tem o mesmo tempo e duração que a noite. Daí a mobilidade da semana santa e, por conseqüência, do carnaval e de Corpus Christi. Por outro lado, Tiradentes é um feriado fixo que não precisa da lua pra se estabelecer e sempre cai no dia vinte e um de abril, ou seja, exatamente um mês depois do equinócio.



Pois bem. Um feriadão atípico como esse e que acontece raras vezes foi um dos motivos pra que minha família se reunisse. Acabamos indo parar em Guaratinguetá, São Paulo – pela Dutra em direção à capital paulista, a cidade anterior a romarística Aparecida – pra mais um evento familiar. Meu tio Marcos que mora lá fez aniversário no sábado de aleluia, mais um motivo. Como pra gente tudo é motivo de comemoração e, quando possível, de reunião, esse feriadão foi a grande ocasião pra nossa união. E até tio Sérgio que mora em Londrina (PR) foi. Aleluia.



Cheguei lá na sexta feira. Como agora é só meu tio que tem casa lá, - tia Tânia morou lá por seis anos, mas já tá de volta – não cabia todos que foram dentro da casa dele. Quatro quartos foram alugados no flat Del Rey para que os primos dormissem fora da confusão. No entanto fiquei das duas da tarde, hora em que cheguei lá, até quase uma hora da manhã na casa do meu tio. Fazia assim. Ia pro flat só pra dormir. Aliais, era um apartamento onde cinco pessoas poderiam dormir folgadas – pelo menos no quarto em que eu fiquei, pois tinha uns menores. Uma mini cozinha com pia, microondas e frigobar, sala de estar com mesa de quatro lugares, bancadinha para a tv, quarto com armário, penteadeira e três camas, sendo uma, a parte de baixo da bicama e um bom banheiro.



Porém, antes mesmo de pensar em ir dormir no flat, ainda na noite de sexta feira fui ver uma procissão. Cidade do interior ainda cultiva essa tradição. A grande também pode cultivar, mas a do interior é mais enraizada. Essa procissão, dada as devidas proporções, parecia um desfile de escola de samba. Na passarela, que era as ruas da cidade, caminhavam as personagens do antigo testamento, desde Adão e Eva, passando por Moisés, Salomé até chegar na crucificação de Cristo. O ponto alto era o canto de Verônica, aquela que inventou a fotografia. Ela cantava e tinha como backing vocal as Marias Bius, carpideiras profissionais. Muito legal mesmo. Isso sem falar da cavalgada que nos trancou na cidade por mais de meia hora quando tentávamos sair pra regar a estrada e voltar pro Rio. É outro desfile tradicional e os cavalos, como em todo desfile que tem cavalos, andavam e cagavam pra nós.



Guará tem disso. Sabe transformar procissão em acontecimento turístico. É uma boa e típica cidade do interior em progresso lento, mas constante. Conservadora na sua liberalidade ou liberal no seu conservadorismo. Existe lá um shopping construído e nunca inaugurado por impedimento dos comerciantes locais. O Mc Donald’s está chegando lá agora com um trailer experimental pra ver se vale a pena abrir uma loja. Mesmo assim, a cada vez que chego lá, algo está diferente, modificado. Tem sempre umas casas novas, umas ruas diferentes. Não vai demorar muito e Guará se tornará mais uma a integrar a lista das cidades mais visitadas no país se já não é. Não pelas suas belezas naturais, que não tem ou se tem eu não conheço, mas, principalmente, por estar do lado de uma delas que é Aparecida.



Meu primo Tiago foi quem deu a melhor definição para o progresso da cidade em questão. “Aqui o arco-íris ainda é preto e branco.” E ele mora lá. Até a próxima!

quarta-feira, 16 de abril de 2003

ABAIXO AO QUE FOI ABAIXO



Às vezes eu fico estarrecido com algumas cenas que vejo. Hoje em dia, com qualquer ser humano normal, não é difícil que isso aconteça. O dia-a-dia, o cotidiano está aí e cenas estarrecedoras são vistas a qualquer hora e a qualquer lugar. Basta a gente colocar o nariz pra fora de casa. Ou nem precisa de tanto. É só ligar a televisão no noticiário e escolher a notícia mais estarrecedora. Estou falando tanto na palavra estarrecedor, mas apesar de existirem várias palavras de significado semelhante, essa é a ideal.



Estou sentindo que há uma espécie de conformismo com as cenas, os atos, as atitudes estarrecedoras, como se aquela anormalidade fosse a coisa mais corriqueira do mundo. Não quero nem me aprofundar na palavra mundo, visto que esse está mais de cabeça pra baixo do que morcego dormindo depois de ter tomado doses morcegais de lexotan. Se a gente se prender somente no que tem acontecido com a sociedade brasileira dá pra perceber que alguma coisa não está indo bem. É filha matando pais, neto matando avó, pais atirando filhos em pára-brisa de carro... Vivemos numa selva de pedra cuja lei da sobrevivência nem é mais respeitada. Não vale o que está escrito, não se preserva mais o que está de pé. E nós, cidadãos comuns, infelizmente não podemos fazer nada – pelo menos é o que achamos – para, no mínimo, evitar que a conduta moral construída por nós e nossas leis venham abaixo. Quando, enfim, acabarem com nossos sonhos, aí não haverá mais ao que recorrermos.



No entanto não falarei de pessoas já que essas têm meios de se reerguer por si próprias. O que me estarreceu essa semana foi ver um sonho meu ir por água abaixo. Água não, trator abaixo. Um sonho que eu não vou mais concretizar mesmo, porque nem se eu tivesse como reverter a situação, o realizaria. Não era um sonho exorbitante, muito pelo contrário, era até modesto. Pra realizar esse sonho, queria somente visitar uma casa antiga que hoje não existe mais. Onde antes havia concreto moldado de forma que eu pudesse concretizar meu sonho, hoje não há mais nada e amanhã concreto é o que não vai faltar moldado de outra forma.



Niterói tem crescido muito, principalmente pra cima. O número de arranha-céus que vem sendo feito na cidade é estarrecedor. E não pára de crescer. Só da janela da sala aqui de casa dá pra ver no mínimo cinco edifícios sendo construídos, isso sem contar nos que subiram nos últimos cinco anos e fora os outros que não estão no alcance do horizonte da visão que se tem. É apartamento que não acaba mais pela região em que moro. Não demora muito essa área vai parecer com a China em termos de densidade demográfica.

Tudo bem. Niterói tem sim uma qualidade de vida bem melhor que a cidade do Rio. Eu mesmo não troco minha cidade por nada (Lagoa ou Leblon eu até cogito um pouco). Mas eu penso, pode até ser erroneamente, que essa qualidade de vida é diretamente proporcional a quantidade e pessoas que vivem naquele lugar, ou seja, um prédio de quinze andares construídos em um terreno onde havia casas abrigando quatro famílias faz com que a qualidade de vida fique, ao menos, duvidosa.



Quanto à casa do meu sonho, era o último baluarte da época de ouro. A última casa da orla de Icaraí que lutava bravamente para permanecer em pé e remeter a minha imaginação a um tempo que fica plasmado em minha mente e foi vivido pelos meus avós e pelos meus pais, perdeu a batalha da especulação mobiliária e breve completará de fato o paredão de edifícios imponentes da praia de Icaraí.



Assim como é estarrecedor ver que o ser humano está perdendo suas referências morais e comete crimes ou vive situações inimagináveis, também é estarrecedor quando a gente perde um patrimônio histórico e/ou cultural da nossa cidade. Até a próxima!

quinta-feira, 10 de abril de 2003

POUCAS E BOAS



Mais um dia de confusão no Rio de Janeiro nessa madrugada. (8 para 9/4) Queima de ônibus, ataques a shoppings, policiais mortos... Não sei qual está pior, se o Rio ou Bagdá. Existe um direito, não sei se está na constituição ou na declaração dos direitos humanos, que é o direito de ir e vir. Vagabundo não pode tirar esse direito de trabalhador honesto tirando a condução dele e impedindo que ele faça o itinerário de todo dia. Aliais, acho que os direitos humanos são para humanos. Animais que se passam por humanos não deviam ter direitos. Apesar e eu achar que os crimes deveriam ter um grau de penalidade – um exemplo é diferenciar ladrão que rouba pra dar de comer aos filhos de ladrão que rouba pra sustentar um ciclo vicioso – certos criminosos deveriam ser tratados como eles tratam as vítimas deles. E por que atacar os shoppings ou os prédios da Vieira Souto? Só pelo fato de que quem mora lá tem mais poder aquisitivo do que quem joga as bombas lá. Seria uma guerra subtendida dos ditos pobres contra os ditos ricos? A finalidade é tomar a Vieira Souto como os americanos estão tomando Bagdá? Até onde esses ataques irão? Até o massacre da população por bombas ou balas perdidas e depois voltar à barbárie? Tem-se muito a resolver e pouco a discutir. O assunto é longo e em outra oportunidade vou me estender.



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A governadora Rosinha Garotinho é uma sumidade. Não gosta de que falem do seu cabelo chapeado e processa gente como Artur Xexéo e Mauro Rasi por sugerirem que, além do restaurante popular, ela criasse o alisamento japonês popular também a um real; diz que não tem dinheiro pra pagar os servidores estaduais e vai a São Paulo, na loja Daslú e gasta tubos de dinheiro com roupas, conjuntos de calcinha e sutiã, chapéus e etc... Não sei ao certo o valor gasto nessas compras, mas a quantidade de zeros tiraria vários servidores da situação em que se encontram. Não adianta. Daslú não é clinica de estética. Quem sabe um Pitanguy resolvesse? O Garotinho que deve ter ficado extasiado quando viu princesa que tem em casa vestindo essas roupas. Quem ama o feio bonito lhe parece, mesmo com roupas da Daslú.



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Ontem quando eu estava fazendo minha caminhada noturna pelo calçadão da praia vi uma coisa inusitável. Que a baia de Guanabara é suja, todos nós sabemos. Se existe um programa de despoluição, não está andando. Se está, fica sempre a um passo da eternidade no que se trata do fim. A situação é tão gritante que ontem eu vi uma televisão, isso mesmo, uma televisão jogada nas águas da baia. Ta certo. Exagero um pouco. Não estava nas águas, mas na faixa de areia da praia das Flexas, próximo às Sendas. Não era bem uma televisão. Era o tubo de imagens sem a carcaça protetora. Se não querem mais a tv, não precisa destroçar e muito menos despejar o tubo de imagem na praia. Nenhum peixe – se é que eles ainda nadam naquelas águas poluídas – vai querer saber sobre o noticiário da guerra. Talvez um mais pinguço até se interessará pelo filme comercial da Brahma que está sendo veiculado atualmente durante os reclames. Concordo com a ordem dada em naufrágios que mulheres e crianças devem ir ao mar primeiramente, mas não dentro de tubos de tv.



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Espero que dessa vez eu consiga postar. Semana passada não houve como. Help.

quarta-feira, 2 de abril de 2003

BBB 3



O primeiro foi tchan; o segundo foi tchum; e agora tchan tchan tchan tchan... O Big Brother Brasil 3 acaba nessa semana. Quem será que vai ser o mais famoso anônimo da televisão brasileira? A Elane ou o Dhomini? Façam suas apostas. Eu acho que vai dar o Dhomini. Por que? Não sei.



Não acompanho esse tipo de programa. Talvez das três edições que aconteceram somente a primeira, até por ser novidade, eu tenha acompanhado com mais freqüência. Essa edição eu fiz questão de fechar os olhos pra televisão até na hora em que passava a chamada do programa justamente pra não ver a cara dos infelizes que ficaram presos naquela casa desde o início do ano.



Esse é o tipo de programa de dois gumes. Um é que deve ser realmente fascinante você ter a experiência de conviver com onze pessoas diferentes e que nunca tinha visto anteriormente. Novos contatos, novas amizades que podem fazer você rever alguns conceitos. Outro é o fato de ter sua vida exposta e não ter mais sossego, ao menos enquanto durar essa febre de programa tipo zoológico humano. E o pior. Além de virar celebridade, o sucesso subir à cabeça. Tem que saber administrar tudo direito. Dos participantes, acho que os que mais se sobressaíram depois do término do programa foram os participantes da primeira edição. Só pra relembrar, os três finalistas se deram bem. O André gravou o CD dele, A Vanessa acabou fazendo a última novela das seis e o Kleber Bam Bam, com ou sem Maria Eugênia, se enturmou com o Didi. O cow-boy Rodrigo, vencedor da segunda edição, sumiu da mídia. Fez bem. Mas continua fazendo rodeios. Faz mal. Agora tem esse casal. Se a tradição permanecer é ponto para o Dhomini, mas se a Elane ganhar o público feminino achou algo mais interessante em outro canal. Se eu estou sabendo do que acontece nessa competição é estritamente via imprensa e/ou internete.



Eu não sei se teria coragem de participar de um programa desse nível. Perderia bastante da minha privacidade, me tornaria famoso sem atingir objetivo nenhum e não é de interesse meu ser célebre apenas por ser famoso. Além disso, ficar trancafiado durante três meses sem poder ver e nem falar com minha família e meus amigos, sem poder ler um jornal, um livro, ter que competir por comida, acompanhar as notícias do mundo... será que eles sabem da guerra? Mas talvez quem sabe uma ou duas semanas lá dentro não fariam mal. É o tempo máximo que eu agüentaria.



Li nos jornais que a próxima edição do Big Brother só ocorrerá no ano que vem. Creio que provavelmente no próximo verão. Espero que até lá eles mudem de idéia. Pelo menos não vamos escutar ninguém falando mal de nenhum enclausurado nos próximos dez meses. Deveriam de haver programas feitos pra levantar a qualidade apresentada ao público. Não é pra ter uma espécie de programa intelectualizado. O programa tem que ser tão popular quanto o Big Brother, mas que façam as pessoas pensarem. Das emissoras abertas acho que a única que tem essa característica é a TVE – Rede Brasil, aqui no Rio. Vide Sem Censura.



A grande maioria dos programas de televisão no Brasil é tratado como produtos que são tirados de circulação caso não tenham vendagem atingindo a tal patamar querido pelos donos das emissoras. Isso faz com que a qualidade caia e nomes que nunca deveriam desaparecer no cenário televisivo, de vez em quando se escondem. Pra exemplificar o que eu acabei de dizer, Silvio Santos, por exemplo, acabou com três programas da grade do SBT, inclusive o ‘De frente com Gabi’. Não estou depreciando o Silvio, pelo contrário, acho ele um gênio. Mas é um gênio que falha de vez em quando.



Espero que não me vejam como consumidor de produto, mas sim como um espectador de programa e formador de opinião.



(escrito na véspera do fim do programa BBB3)