terça-feira, 28 de outubro de 2003

UMA LIÇÃO: A,E,I,O, URCA

(Zuenir Ventura) 04/08/2001



Foi preciso o faro de uma repórter, a Joana Ribeiro, para introduzir um pouco de informação e memória nesse choque de opiniões apaixonadas em que se transformou a discussão sobre as Apacs (Área de Proteção do Ambiente Cultural), dividindo as pessoas em preservacionsitas e derrubacionistas, como se não houvesse possibilidade de construir um pouco de razão e bom senso no meio.

O que ela fez? Simplesmente descobriu que a Urca tem Apac há 23 anos, a primeira do Rio, e foi lá verificar o que aconteceu com o bairro depois de 1978, quando um decreto determinou a preservação de vários imóveis, impedindo que eles fossem demolidos ou modificados.



Tudo bem que a Urca não é o Leblon, como já se alegou, e que cada lugar tem suas peculiaridades, mas o fato é que 23 anos de proteção ambiental fizeram muito bem ao bairro, sem que acontecesse lá o que muitos temem vir a acontecer no Leblon ou em todas as áreas atingidas pelas Apacs.

“Quando o decreto foi assinado”, explicou a presidente da Associação dos Moradores da Urca, “houve quem achasse que sua casa seria desvalorizada, mas foi justamente o contrário. Todos os imóveis, mesmo os que são preservados, foram bastante valorizados”.



Além disso, essas restrições não impediram que a Urca se transformasse em um bairro de elevado IDH (Índice de Desenvolvimento Humano): está em 6 lugar, à frente de Ipanema e Copacabana, e atrás da Lagoa, Gávea, Jardim Botânico, Leblon e Barra da Tijuca. É bem verdade que já esteve melhor: nos anos 80, o bairro ocupava o primeiro lugar do ranking, com desenvolvimento humano comparável ao da Bélgica. Mas parece que isso não tem nada a ver com as Apacs, e moradores históricos como o publicitário Jomar Pereira da Silva acreditam que o bairro vai voltar ao primeiro lugar.



Tenho pela Urca o maior carinho, pois fui um apaixonado urcaniano, como foi também Arnaldo Jabor e como continuam sendo Ricardo Cravo Albin, Técio Lins e Silva, Amauri de Souza, Ana Lecticia, Roberto Carlos. Morei dez anos lá, onde meus filhos foram nascidos e criados. Com eles pesquei nas pedras, brinquei na praia e vi Mario Vianna, já velho, jogando dupla de vôlei na areia.



No meu simpático sobrado da Otavio Correia, 34, em que não havia chave na porta (era só empurrar o vidro, enfiar o braço e abrir o trinco; os amigos já sabiam e os ladrões só não sabiam porque não existiam), reunia-se uma turma da pesada, sem falar no melhor, que eram os campeonatos de futebol de botão (até Gato Barbieri jogou no meu campo). Desconfio que foi depois de perder uma partida para Ziraldo que Carlos Leonam criou a expressão “esquerda festiva”.



Lá, Glauber Rocha e Leon Hirszman discutiram interminavalmente “O capital”, de Marx, que um não tinha lido e o outro, lido mal. Foi na varanda da frente, durante uma festa, que Paulo Francis e Fernando Gabeira travaram um acalorado debate ideológico, em meio ao qual se ouviu a frase que ficaria famosa — “do caos nasce uma nova ordem” — atribuída a Gabeira, mas que não confirmo, pois convenientemente eu não estava por perto. Lá também se ouviu, nessa ou em outra noite, Milton Temer (na época, no Partidão) lançar sobre Gabeira (já sonhando com a luta armada) uma maldição em forma de presságio: “Você ainda vai estar à minha direita”. O tempo adora fazer humor.



Numa tarde chuvosa, uma jovem cantora levada por Norma Pereira Rego, uma certa Gracinha, dedilhou uns acordes de violão e cantou algumas músicas. Seu nome depois foi Gal. Em outro dia, Jabor e eu saímos pela vizinhança recolhendo colchões velhos, roupas de cama, qualquer coisa para levar de Kombi até a PUC, base da campanha de ajuda aos desabrigados da enchente e desabamentos daquele verão de 1966, acho.



Mudei-me da Urca há uns quase 30 anos, quando era mais fácil comprar um apartamento barato aqui do que lá. Adoro Ipanema, sou um ipanemense convicto, mas isso não impede que, de vez em quando, eu tenha acessos de nostalgia urcaniana. A sua experiência dá o que pensar. Sei que há outras áreas de Apacs com resultados diferentes. Tudo bem. Mas se a Urca não for um exemplo a ser copiado, deve ser pelo menos uma lição a ser estudada, nesse momento em que muitos acham que preservação é sinômino de atraso e obscurantismo.

terça-feira, 21 de outubro de 2003

UM ANO



Cada dia que passa, passa mais rápido que o dia anterior. Isso parece que é uma constatação geral. As vinte e quatro horas de duração de um dia, não são as mesmas do mesmo dia cinco anos atrás. A impressão que se tem é que tudo o que foi inventado pra facilitar a vida da gente, como telefone celular, por exemplo, estão nos deixando cada vez mais atarefados e dependentes da tecnologia.



Se eu estivesse escrevendo esse texto numa máquina datilográfica, poderia faltar luz tranqüilamente que de qualquer forma ele sairia. Hoje não. Depois da proliferação dos computadores pessoais estamos dependentes da corrente elétrica, ou seja, se faltar luz ninguém mais produz nada. Cruzam-se os braços a espera da re-estabilização de energia.



Confesso a vocês que eu sou um neurótico-paranóico quando falta luz. Me sinto um impotente e inútil. Eu já estou completamente dependente e submisso ao computador. Não consigo dormir (quando estou em casa) sem dar uma checada nos mails e visitar algumas páginas da internet. Incluindo essa pra ver se alguma alma caridosa deixou um comentário pra mim, – o que não acontece - mas a esperança é a última que morre.



Vocês podem não imaginar, ou pode não parecer, mas nesse mês de outubro esse blog está completando um ano. Na verdade um ano e quatro meses, mas os primeiros quatro meses foram de adaptação e ajuste ao novo tipo de mídia. De maio a setembro foi começando devagar até estrear esse modelo de layout em outubro. O primeiro texto ‘sério’ que eu escrevi pra ser postado tem o título de ‘Demônio do mundo’ e fala – mal, é claro – do presidente americano na iminência de ser estourada a guerra do Iraque.



O primeiro blog que eu vi, e a partir dele comecei a perceber que estava cada vez mais concreta uma realização pessoal minha, foi o Joanar. Esse blog foi desativado logo depois das eleições presidenciais – época em que estava consolidando o meu – e era administrado pela minha amiga, confidente, guru e ídola Joana. Foi ela quem me ensinou e ajudou a dar os primeiros passos nesse avassalador mundo virtual das palavras, onde podemos expor o que a gente pensa sobre todos os assuntos e sem nenhum tipo de censura.



Se colocarmos na balança, apenas uma semana que deixei de postar – e não faz muito tempo – por motivos técnicos. No entanto, a postagem que eu fiz no carnaval valeu por duas semanas, ou seja, deu resultado de soma zero. Mesmo assim o saldo foi positivo apesar de eu ainda achar que ninguém lê esse blog, que escrevo pras moscas, já que não aparece nenhum comentário. Tudo bem. Continuarei jogando palavras ao vento. Isso não me desanima nem me desestimula.



Passou rápido. Um ano-luz. Muita coisa aconteceu de lá pra cá. Algumas aqui expostas e outras aqui omissas. Opiniões e palpites que podem ser derrubados a qualquer momento, ou não. Um bolo de palavras preparadas com paciência e com cobertura de muita dedicação. Sendo servido fatia por fatia, semanalmente, para apreço com deleite ou desgosto daqueles que perdem alguns minutos pra abrirem essa página e me investigaram.



Como forma de agradecimento a Joana pelo incentivo e apoio e pra comemorar esse ano de vida do meu blog terei a ousadia, com todo o respeito, honra e créditos merecidos, de me apropriar de um artigo feito pelo Zuenir Ventura, cuja escrita é bastante apreciada por mim, para o jornal O Globo, onde ele cita uma reportagem que Joana fez pro mesmo jornal sobre alguma coisa, que não me lembro bem, da Urca – acho que era sobre o patrimônio cultural ou arquitetônico, sei lá. Confira na próxima semana. Parabéns pra nós, muito obrigado e até a próxima!!!

terça-feira, 14 de outubro de 2003

ENFIM, O FIM



Depois de duzentos e três capítulos, no ar desde pouco antes do carnaval, chegou ao fim, finalmente, a novela ‘Mulheres Apaixonadas’. Uma novela polêmica e marcante como a maioria das novelas do autor Manoel Carlos que foram exibidas no horário nobre. Se lembra de ‘Laços de Família’?



De acordo com o que foi divulgado nos jornais, foram 59 pontos de ibope com picos de 65, o que equivalia a 77% de aparelhos ligados no último capítulo da novela. (Eu, sinceramente, até hoje não sei como se faz essa medição.) E mais. Parece que a Central Globo de Produção em Jacarepaguá teve seu dia de Fórmula 1 na sexta-feira. É que o último capítulo foi escrito na quinta feira e gravado, editado e finalizado momentos antes de ir ao ar. Enquanto era exibido o segundo bloco, por exemplo, o quarto era sonorizado para se exibido em instantes. Provavelmente esse foi o motivo desse capítulo em especial levar duas horas para ser exibido por completo. A duração que um filme de cinema tem, em média.



Essa novela, em especial, não tinha necessidade do último capítulo ser feito às pressas. Os fins dos personagens já eram previsíveis e não havia suspense necessário para que esse esquema fosse armado. Se fosse desvendado um crime sendo revelado um assassino, como em ‘A Próxima Vítima’, ou quem havia explodido o shopping – ‘Torre de Babel’; ambas do Sílvio de Abreu e por isso que me lembro – aí sim esse esquema de corre-corre teria um sentido mais concreto.



Apesar de não ter acompanhado a novela, a não ser pelos comentários das pessoas na rua, e por mais previsível e fantasioso que é, acho que não só o Manoel Carlos, ele é o que está em evidência, mas todos as pessoas envolvidas nesse tipo de produto – novela é considerada produto como uma goiabada industrializada – são uns heróis. O autor por criar e sustentar uma loucura durante meses, e a equipe de produção por tornar a loucura viável.



Manoel Carlos, ele ainda, disse que não quer mais escrever novelões como essa última. Ele se prontifica a escrever minisséries de até 50 capítulos. Porém, se for pedido a ele uma outra sinopse até 2008 ele tem que entregar. (Eu tenho quase certeza que vem outra obra dele por aí antes dele repensar o contrato. Tem mais cinco anos pela frente.) Quanto a essa decisão que ele pretende tomar, eu sou partidário. Só maluco pra embarcar nessa. Vamos às contas. Quarenta páginas por capítulo. Uma semana equivale a 6 capítulos, ou seja, 240 páginas por semana. Agora, se a gente multiplicar o número de páginas por capítulo pelo número de capítulos, o resultado é 8.120 páginas. Nem eu, que gosto de escrever, por mais que me esforçasse, conseguiria atingir esse número no tempo de uma gestação, praticamente. E por isso que tiro o chapéu pra todos eles, embora não acompanhe assiduamente seus trabalhos.



Eu já tinha dito, no início do ano, que só acompanhava novelas, como compromisso, se for escrita por Silvio de Abreu, Agnaldo Silva quando em parceria com Ricardo Linhares e pelo Gilberto Braga. A substituta das ‘Mulheres Apaixonadas’ do Manoel Carlos é a ‘Celebridade’ do Gilberto Braga. Não sei se tenho mais paciência pra acompanhar novela diariamente. Farei um esforço pra ver o primeiro e o último capítulo, como em todas (ou quase) as novelas globais, e um esforço ainda maior pra tentar recuperar o hábito de parar para ver novela, coisa que eu não faço desde o tempo de ‘Porto dos Milagres’ e ‘As Filhas da Mãe’.



Bem, em termos de novela, certamente a melhor é aquela em que nós somos os autores e protagonistas; a novela de nossas vidas. Quanto ao roteiro, muitos dizem que está escrito nas estrelas. Estando ou não, somos nós que fazemos os melhores dramas e comédias e que as mulheres apaixonadas se tornarem celebridades em nossas vidas.

terça-feira, 7 de outubro de 2003

DIVAS



Nesse exato momento em que começo a escrever, passa na televisão um especial de Maria Rita. Tanto a cara, quando focalizada em alguns ângulos, quanto a voz em quase todos os momentos, além dos trejeitos com os quais ela interpreta algumas músicas, reportam a minha lembrança para a imagem da mãe dela.



Não acompanhei a carreira de Elis Regina. Era pequeno quando ela morreu e só comecei a tomar conhecimento da grandiosidade, do brilho da estrela de Elis a partir do fim da minha adolescência, apesar de sempre ouvi-la em discos e rádios quando lembravam de executar suas músicas. Pelo que me parece, Elis Regina teve uma carreira meteórica e veio a falecer no auge dela. Essa rapidez juntamente com o estrondoso sucesso se assemelha com outra cantora que se encaixa nessas mesmas características: Cássia Eller.



Maria Rita, filha do casamento de Elis Regina e César Camargo Mariano e irmã de Pedro Mariano que também já consolidou sua carreira como cantor, não está chegando para substituir a mãe, mas quer ter seu espaço, assim como milhares de outras cantoras anônimas, e está conseguindo sem sombra de dúvidas e sem sombra de ninguém. A comparação é inevitável, não há dúvidas, mas os momentos são extremamente diferentes e certamente dá pra conseguir desvencilhar uma da outra. Apesar das semelhanças citadas acima, dá pra cortar o cordão umbilical. Mesmo tendo uma gerado a outra, terem ido pelo mesmo caminho profissional (será que é uma questão de genética?), as estradas são diferentes. A própria Maria Rita já declarou que relutou muito antes de ser uma cantora profissional até mesmo pra evitar comentários de ser ‘filha da Elis’. Ela tem dom e talento para a profissão dela e mesmo se não fosse filha de quem é, querendo abraçar a carreira, conseguiria, talvez não com a velocidade atingida, mas certamente seu espaço no mercado fonográfico estaria garantido. Foi assim com tantas outras cantoras que fazem sucesso por aí. (Eu disse cantoras e não produtos)



Sempre gostei mais das vozes femininas e acho que as vozes das cantoras brasileiras contemporâneas descendem de quatro grandes damas. Assim como as cores primárias azul, amarelo e vermelho quando misturadas dão origem a outras, tenho uma tese de que as vozes das cantoras vêm da mistura das que eu chamo de quatro divas da música contemporânea. (Lê-se contemporâneo aquelas que foram mais ativas na minha existência) Marisa Monte, Maria Bethânia, Elis Regina e Gal Costa.



Quanto a esta última, começou contrato novo já com problemas. Em matéria publicada no ‘Segundo Caderno’ do jornal O Globo do último domingo (5/10), após adiamento do show de gravação do seu próximo disco, ‘Todas as coisas e eu’, houve o cancelamento do show e o disco, cujo repertório será de músicas que fizeram sucesso entre as décadas de 20 e 50, será gravado em estúdio.



Sem gravadora desde o fechamento no início do ano da Abril Music, Gal assinou contrato com a Indie Records indicando o nome de Bia Lessa para a direção desse tal show. Apresentado e aprovado o projeto dela, agora não pode realizar o projeto tal como foi concebido, descaracterizando-o agora quando reduzido.



E nós, público dela, como ficamos? Quando teremos oportunidade de ver um show bem estruturado de uma diva? Artistas do porte, do calibre de Gal Costa não pode ficar sofrendo jogo de intriga de gravadora, muito pelo contrário. Pela história de vida artística que ela construiu ao longo da carreira as gravadoras deveriam se estapear para que ela entrasse no elenco. Isso reforça mais ainda a tese de que nas gravadoras o lucro tem preferência deixando a qualidade musical em segundo plano, quando na verdade o resultado tem que vir ao contrário. Até a próxima!!!