terça-feira, 27 de abril de 2004

AVENTURAS PAULISTANAS (1)



Tudo começou com uma simples pergunta: “Quer estar na bienal?”. A resposta foi de imediato: “Claro.”. Qual é o autor louco que não gostaria de estar no maior evento literário do país? Depois de feitos os contatos com a Fernanda, da paulista Editora Scortecci, o agendamento foi feito para o último sábado (24). A hospedagem estava garantida no apê que Lucinho divide com o Marcelo, dois amigos meus.



Embarco na quinta (22) no ônibus da Viação 1001, cuja saída estava prevista pras duas horas da tarde. Devido a um pequenino atraso o ônibus saiu quase as duas e meia. Começamos bem. Antes mesmo de o ônibus chegar ao primeiro pedágio da Dutra a caixa de câmbio quebrou e ficamos parados um bom tempo. Pouco tempo depois encostou um outro ônibus com oito vagas pra quem quisesse se habilitar. Eu fiquei. O que eu estava já não estava muito cheio. De pouco mais de quarenta lugares, vinte, se muito, estavam ocupados e com a debandada de mais oito, só umas dez pessoas compartilharam o espaço de um outro ônibus vindo diretamente da garagem pra substituir o quebrado.



Chego em São Paulo por volta das nove e meia da noite. Uma hora e meia depois do previsto. Estava com as indicações de como chegar na casa do Lucinho, mas apesar disso nunca tinha andado por aquela cidade, muito menos sem companhia. Eu tinha que pegar o metrô no próprio terminal rodoviário do Tietê – uma grande vantagem pra uma cidade grande ter terminais rodoviários acoplados a estações de metrô – descer na estação da Sé, trocar de linha e ir até a estação terminal da Barra Funda. Só pra se ter uma idéia, a linha um ou linha azul que liga o Tucuruvi ao Jabaquara tem vinte e três estações. Contei em uma das minhas incursões subterrâneas na capital paulista. Não faço a mínima idéia de quantas estações tem a linha dois do metrô carioca que vai até a Pavuna.



Voltando pra São Paulo, perguntei pra uma segurança como fazia para ir pra Sé. Ela me indicou o sentido e fui tranqüilo. Já dentro da composição tenho um estalo. Havia esquecido o meu banner no bagageiro do ônibus. A primeira coisa que me veio na cabeça foi um palavrão que não pronunciei em respeito aos demais passageiros. Apenas pensei. O segundo pensamento foi: ‘minha mãe vai me matar.’ A terceira e mais racional: ‘Vou ligar pra 1001 quando chegar em casa pra ver se dá pra recuperar, senão fodeu.’. Troquei de linha na Sé e fui pra estação terminal da Barra Funda. Lá, perguntei novamente como eu fazia para chegar na Avenida Sumaré. Um barraqueiro de cachorro quente da porta da faculdade que fica em frente aquela estação me explicou e fui segundo as indicações dele. Cheguei até ao Shopping que o Lucinho disse que havia perto do endereço dele. Mesmo assim perguntei ao segurança do shopping e ele me indicou. Não era longe, acontece que eu nunca tinha ido até lá e enquanto não chegava achava que não iria chegar. Enfim, cheguei.



Depois de ser recebido com honras de chefe de estado (estado deplorável) pelo Lucinho e pelo Marcelo, de ter descarregado a mala no meu aposento e a bexiga no banheiro, perguntei se eles tinham catálogo telefônico. Falei do banner. Eles não tinham a lista, mas o Marcelo – santo Marcelo – tinha gravado no celular dele o telefone da rodoviária. Liguei pra lá, pedi o telefone da 1001, liguei pra 1001 e eles me passaram um outro número, o da garagem, pra ligar no dia seguinte a partir das oito da manhã.



No dia seguinte (sexta, 23) além de ter que ir pra Pinheiros acertar com a Fernanda da Scortecci os últimos detalhes da minha passagem pela Bienal, também teria que dar uma passada na garagem da 1001 que somente com o telefonema saberia onde ficava. Tudo isso acompanhado por um guia de ruas da cidade cedido gentilmente a mim pelo Marcelo pra que eu pudesse me locomover pela superfície paulistana.

terça-feira, 20 de abril de 2004

ARQUIVO



UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIENCIAS SOCIAIS

Curso de Ciências Sociais

Disciplina: Globalização e Neoliberalismo

Aluno: Rafaello Barcelos DRE: 098143355



ATUAL CONJUNTURA



Em meio ao apagão, eis que me surge uma luz. Logicamente as hidroelétricas geradoras de minha luz são as várias opções de assuntos a serem discutidos.

O escolhido foi a atual conjuntura. A história de Stanislaw Ponte Preta mencionada sobre o samba do crioulo doido onde um pobre coitado de um compositor de samba sem instrução nenhuma teve que passar, a partir do Estado Novo, a compor sambas com temas absolutamente nacionalistas, como por exemplo, a abolição da escravatura, me conduziu a falar sobre tal tema. Corri.



No entanto, minha corrida não foi armamentista como o dito ´dono do mundo` está querendo voltar a fazer. Corri pra tentar fazer um samba falando sobre o assunto, mas fui impedido por falta de dons musicais e talvez até de tempo mesmo.

Mesmo assim a inspiração continuou. Apesar de trocada da incandescência do momento por uma luz mais fria e econômica, não desisti da idéia; apenas da composição do samba.



Passando o último feriadão em Londrina (PR), adquiri dois volumes de disco de um dos maiores gênios da música brasileira, ou melhor, dois gênios. Mas o homenageado certamente tem o mérito maior do que o homenageante. O título do disco: Viva Noel de Ivan Lins.



Depois de ter violado o lacre do disco e pego no encarte, viajei no mundo de Noel Rosa e descobri que em certos trechos de diversas músicas, mesmo tendo viajado pra década de 20 e 30 não saí do lugar. Dessa percepção, então, que fiz o mote para esse trabalho. Das mais de 30 músicas registradas no álbum, segue, no final, a lista das que votaram pela cassação de um texto menos significativo.



Conscientemente, com essa montagem eu corro o risco de não saber o que digo, dessa proposta ser um “Palpite Infeliz”, mas acho que... aliás, não acho nada porque “quem acha vive se perdendo”.



Portanto segue, exclusivamente com letras de músicas de Noel Rosa, uma carta, um comunicado, um bilhete, um memorando, um texto desabafando, para um representante do modelo que aí está ou até mesmo para o contexto em que nos encontramos, sobre a atual conjuntura produzida pela globalização e neoliberalismo que arruína nossa vida e que faz muitas pessoas se calarem, tudo pensar e nada falar.



“Vai haver barulho no chatô. Nesses tempos delicados, cuidado é fundamental; se você não põe babado derrepente se dá mal. Com o seu aparecimento todo o céu ficou cinzento”.



Estou vivendo com você num martírio sem igual. Não posso com a crueldade. È o veneno que escolhi pra morrer sem sentir dor. Não vou por gosto, o destino é quem quer. O mundo é um samba em que eu danço sem nunca sair do meu trilho. Tem pena desse moribundo que já virou vagabundo só por ter sofrido. Tu não tens pena de mim. Nos meus olhos você vê que sofro cruelmente.



Tua falsidade é profunda. É com a mentira que a gente se sente mais contente por não pensar na verdade. O próprio mundo nos mente e ensina a mentir chorando ou rindo sem ter vontade, e se não fosse a mentira ninguém mais viveria por não poder ser feliz. Pra que fingir assim? E está interessada em fingir que não me vê. É futurismo, pois não é marcha nem aqui nem lá na China.



Deus vê tudo e tudo sabe, mas não sabe calcular a hipocrisia que cabe dentro deste teu olhar. Tu também vives cego às mentiras dessa vida. A sua vida nem você escreve e, além disso, você tem mão leve. Eu só desejo ver você nas grades pra dizer baixinho: Deus lhe guarde. Meu Deus; quanta hipocrisia! E o povo já pergunta com maldade: Onde está a honestidade? Onde está a honestidade?



Agora eu não ando mais fagueiro, pois o dinheiro não é fácil de ganhar. Mesmo eu sendo um cabra trapaceiro, não consigo ter nem pra gastar. Meu chapéu vai de mal para pior e o meu terno pertenceu a um defunto maior. Me empresta algum dinheiro que eu deixei o meu com o bicheiro. Vá dizer ao seu gerente que pendure essa despesa no cabide ali em frente. A minha sopa não tem osso nem tem sal, se um dia eu passo bem, dois ou três eu passo mal. Isto é muito natural. Não tenho herdeiros, não possuo um só vintém. Eu vivi devendo a todos, mas não paguei nada a ninguém.



Não se ri de quem padece. Às vezes é um sorriso que acompanha uma esperança. Esperança nos ilude ajudando a suportar do destino o golpe rude que eu não canso de esperar.



Pobre de quem já sofreu nesse mundo. Felicidade é o vil metal quem dá. Acaba mal quem é ruim, pois o feitiço vira contra o feiticeiro. Eu vivo bem pensando assim, quem ri melhor é quem ri no fim.”



Músicas Utilizadas:



De babado

Gago apaixonado

As pastorinhas

Verdade duvidosa

Vai haver barulho no chateaux

Pra me livrar do mal

Fita amarela

Cor de cinza

Vejo amanhecer

Pela décima vez

Conversa de botequim

Seja breve

Boa viagem

Três apitos

O orvalho vem caindo

A B Surdo

Mentir

Até amanhã

Com que roupa

Rir

Quem ri melhor

segunda-feira, 12 de abril de 2004

BEM NA FOTO



É. Não deu. Não foi dessa vez e juro que não serei mais insistente em tentar colocar fotos ou figuras nesses textos que eu escrevo e posto aqui semanalmente. Cansei de ser minha própria cobaia e sempre falhar nas experiências. Agora só mesmo um sábio que saiba fazer isso. Eu jogo a toalha quanto as fotos. Não quero mais queimar meu filme.



Falando nisso, por conta também e/ou ainda da semana passada, quando lancei meu livro “Morte não é meu forte. As frustrações de um serial killer”, gostaria de informar aos meus parcos leitores que a partir de agora, e até o mês de junho, estou servido de uma assessoria de imprensa. Para, como o nome diz, me assessorar em eventuais aparições, entrevistas, reportagens e eventos em geral. E já aconteceram alguns.



Hei-los aqui. Minha primeira experiência em rádio para divulgação do lançamento e do livro foi numa rádio comunitária daqui de Niterói chamada Rádio Ideal FM. O programa era sobre o ideal da família e da mulher. Agora, o que um livro que fala sobre crimes e morte tem a ver com ideal da família e da mulher? Foi o que eu tentei explicar, mas acho que não convenci – pelo menos não convenci a mim, o que já é o bastante. Como experiência, tudo foi válido.



Na mesma segunda feira, mais à tarde, baixei na Super 1440 AM, casualmente a rádio em que meu pai comenta os jogos de futebol, no programa ‘Batida de Samba’ comandado pelo Alpa Luís. O programa é bastante legal, divertido e descontraído. Vai ao ar diariamente entre quatro e seis da tarde e eu recomendo. Mas voltando à entrevista, dei uma sorte danada. Pelo fato de eu ser muito inexperiente e diria até imaturo nessa vida de entrevistas e celebridades, ele só me botou no ar dez minutos antes do fim do programa. Ainda penso em voltar lá pra levar um exemplar pro Alpa, mas antes vou deixar o barco andar um pouco.



Terça feira foi o grande dia. E como não poderia deixar de ser, aconteceu uma coisa muito curiosa. É a primeira vez que eu vejo penetra nesse tipo de evento. Teve gente que foi pra lá com a cara de pau e a coragem de entrar, assinar o livro de presença, sentar pra comer e beber e simplesmente me ignoraram. Não deram a mínima pra mim, nem quiseram saber quem eu estava fazendo ali.



Na quarta, véspera da semana santa, gravei mais um programa de rádio na Super 1440 AM. ‘Estúdio Livre’ com Jorge Cosenday. Também recomendo apesar de não saber em que horário é exibido, só que é domingo à noite. Foi o programa todo e gravado a toque de caixa, sem intervalos e com as músicas que pontuam o programa escolhidas por mim. Rita, Gal, Chico e Bethânia. Mais uma vez retomo à minha inexperiência pelas mancadas da entrevista, mas foi um papo legal, agradável.

Essas entrevistas foram dadas de supetão, marcadas meio que de última hora pra ver se alavancava o evento do lançamento. Mas a partir de agora, com a minha assessoria de imprensa vai cuidar de mim e da minha imagem pra que eu não queime mais meu filme e saia bem na foto.



Há ainda a grande possibilidade da minha ida à Bienal de São Paulo ainda esse mês além dos próximos programas e entrevistas que serão posteriormente marcados pelas minhas assessoras.



Essa parte ‘celebridade’ é muito nova e assustadora pra mim. Tenho que aprender a lidar com isso tudo. Não estou preparado para ser famoso apesar de querer. Se eu quero sair bem na foto é pelo meu trabalho, e não por essa carinha bonitinha que meus pais esculpiram. Pra mim, essa expressão ‘sair bem na foto’ é ter o trabalho reconhecido, o que é o desejo de todos os trabalhadores seja de qualquer profissão.

segunda-feira, 5 de abril de 2004

OUTRA VEZ



Teimei. Mais uma vez, a exemplo do último mês de setembro, estarei lançando mais um trabalho meu. Dessa vez o lançamento do meu livro “Morte não é meu forte: As frustrações de um serial killer” será no Espaço Cultural Mauá, na Avenida Rio Branco, número um, centro, Rio de Janeiro, às seis horas da tarde do dia seis de abril, terça feira próxima.



Mas agora está sendo diferente. Esse livro está sendo editado por uma editora e não por minha pessoa, e por conta disso haverá uma distribuição mais ampla, abrangendo o território nacional.



Claro que ainda não é meu ideal, mas é mais um passo para que eu possa chegar lá. Nunca se chega ao fim de uma escada se não subir o primeiro degrau. Tem aqueles sortudos que sobem direto de elevador e outros mais sortudos ainda que têm elevador privativo.



Eu estou feliz em tentar emplacar mais um livro, agora com muito mais exemplares que o primeiro. Tenso, mas feliz. Não sei ainda lidar com essa coisa toda, não tenho estrutura para ser uma, digamos, celebridade. Gostaria – e acho que isso é desejo de todo artista – que as pessoas conhecessem o meu trabalho. Se eu não precisasse mostrar a minha cara seria melhor ainda, mas são ossos do ofício.



Vou aproveitar esse momento também pra tentar fazer o que eu sempre quis, mas nunca consegui. Colocar fotos. Abaixo, vai o release do livro e do autor, no caso eu, com uma pequena foto da minha cara no canto esquerdo. Originalmente é assim. Pode ser que a foto não seja encaminhada corretamente como o texto está sendo, no entanto é mais uma tentativa. Espero que não seja frustrada como as tentativas do personagem do meu livro. Se der certo, quem não conhece minha cara vai ficar conhecendo. Não se assuste, eu não mordo.



Bem, espero que vocês consigam um exemplar, leia e agrade o gosto.



SOBRE O LIVRO

Essa história traz ao leitor, a proposta de observar uma mente criminosa através do prisma do humor. São duas vertentes incompatíveis, unidas de um modo leve divertido, focadas nas tramas de um pretenso matador. Um crime pode ser perfeito? Se o assassino tiver como grave defeito à falta de sorte, não. Ele tentou sete vezes. Eram sete mulheres, sete vítimas do trágico fim de suas vidas, que tinham em comum, um homem. Que pessoas tão instigantes eram essas? Como e porque foram escolhidas por ele, para vítimas? Como as frustrações aconteceram? Lendo o livro o leitor vai desvendar todo esse mistério e ainda mais, vai descobrir que tipo de humor é esse, que há por trás do personagem e dos planos dele para se tornar um serial killer. Seria ele um candidato a “celebridade nacional” às avessas?



SOBRE O AUTOR

RAFAELLO BARCELOS apresenta a cena editorial brasileira, pela editora Muiraquitã de Niterói, o segundo livro que ele escreveu. Tendo dessa vez, realizado a sua criação literária em apenas sete semanas, entre Novembro e Dezembro de 2002. O que ele nos mostra é fruto de uma experiência surpreendente e bem sucedida, resultando na mistura entre o humor e a violência absurda, diariamente noticiada pelos veículos de comunicação. Esse jovem autor niteroiense, de 26 anos, é solteiro, formado em Ciências Sociais pela UFRJ e, aprecia teatro, cinema, música, bons papos com a família e os amigos e, claro, uma boa leitura de autores como João Ubaldo Ribeiro, Carlos Heitor Cony, Luis Fernando Veríssimo, Graham Greene, entre tantos outros que ele admira.