segunda-feira, 30 de agosto de 2004

CIRCO DE PULGAS



Menos um. Conto assim, de modo regressivo. Esse foi o primeiro mês em que freqüentei um circo de pulgas. Não que eu assista a um espetáculo circense em que esses seres quase microscópicos se apresentam fazendo malabarismos a um público com binóculos super potentes. Nesse caso, a pulga sou eu. Uma delas.



Vamos aos fatos. Estou matriculado num curso preparatório para concurso público. A turma em que eu fui incluso é direcionada ao concurso para o Banco Central, mas isso não impede a prestação de provas para outros tipos de concurso, principalmente se tiver matérias coincidentes às duas provas desde que eu estude. De cara vos digo, e creio que vocês são cientes disso, que não é o que desejo para minha vida. Entretanto, forças da circunstância me levam para esse caminho. E é exatamente por isso que eu chamo o local de estudos, o curso para concurso, de circo de pulgas.



Sou uma pulga rebelde, que não concorda com os métodos por eles estabelecidos para tal curso. Somos um bando de pulgas pelo fato de estarmos lá para sermos adestrados por eles para passar em concursos públicos. Todo e qualquer tipo de conhecimento, de aprendizado, de sabedoria é desprezado. E isso acaba emburrecendo as pessoas que se prestam a cursar a ‘escola de circo de pulgas’. Só para dar um exemplo, numa aula de português uma menina soltou que o plural de mal é mais. Há limite pra tudo.



Por outro lado, atualmente, ninguém consegue fazer um concurso público se não fizer cursinhos. A não ser que seja uma pessoa de QI altamente elevado ou que tenha ‘Quem Indique’ para um cargo público qualquer. Ou seja, quem não se rende a essa indústria de pulgas, fábrica de clones tem a possibilidade de passar reduzida em larga escala em relação a quem, ao menos, freqüenta cursinho.



Fazendo uma grossa analogia, é o mesmo caso da Coca Cola. Todo mundo sabe que ela é uma empresa americana, imperialista, ianque, que quer dominar a qualquer custo, e não mede esforços para tal, o mercado de refrigerantes e mesmo mediante a todos esses fatos, se bebe essa marca.



O primeiro dia em que surgi lá foi na segunda semana do início do curso e justamente na aula de economia, mais precisamente macroeconomia. Claro que não entendi nada, principalmente quando eram expostas fórmulas e mais fórmulas e cálculos de assuntos que nem vale a pena mencionar para não fundir e confundir mais a cabeça de ninguém. Só de malucos que vão fazer concurso pro Banco Central. O segundo dia foi regado de direito constitucional. É bem mais inteligível pra mim, mas também é mais sacal. Curiosidade: sabe quantos incisos tem o artigo cinco? Setenta e sete. E a gente soube de todos. Como é complicada a carta constitucional brasileira. O terceiro dia está sendo dominado pela língua portuguesa, matéria que tenho mais facilidade, onde se relembra de regras e classificações como oração subordinada substantiva objetiva direta.



A princípio é só. Três dias, três matérias. Uma por dia. É isso que me conforta. Mais, também seria abusar da boa vontade do meu cérebro. Tomara que fique assim até o fim do prazo que eles estipularam para o curso. A duração é entre sete e nove meses, ou seja, no máximo até abril.



Nesse circo de pulgas, eu não serei o palhaço de jogar todo o meu conhecimento fora, de me tornar um ignorante para ser adestrado só pelo fato de ter um concurso em vista cujo único atrativo é um bom salário. Desde a minha matrícula nesse cursinho tenho pra mim que qualquer pessoa, proveniente daquele bando, ao passar num concurso público teve sorte. Em se tratando da minha pessoa, não será sorte. Garantir uma vaga em um emprego público seria um grande azar, compensado por bom salário.

segunda-feira, 23 de agosto de 2004

UM BOM FILHO À CASA TORNA



Depois de cento e oito anos ele voltou pra casa. Teve uma festa maravilhosa onde foi relembrada toda a sua história focada no gigantesco legado que deixou como berço da civilização e de várias vertentes intelectuais, culturais, esportivas e etc... Graças aos deuses que lá habitavam, suas lendas perduram até hoje e são tão fascinantes que os estudos e pesquisas sempre estão em alta.



Como toda boa festa, demorou um pouco a terminar, principalmente por causa da chegada de cerca de duzentas delegações e seus participantes. A ornamentação estava impecável, o show pirotécnico excelente e mais uma vez a tecnologia foi uma grande parceira. Pode-se dizer que o mar virou sertão em pouquíssimo tempo.



Desde a última sexta-feira 13, até o fim do mês, o mundo está unido em Atenas, Grécia, para competir nos jogos olímpicos. Uma tradição que se repete de quatro em quatro anos, salvos os três campeonatos que foram impedidos de se realizarem durante as duas guerras mundiais, em locais diferentes. Dessa vez volta para o berço.



É estranho falar de competição, principalmente por que é a primeira vez que acontece um evento dessa importância desde quando eu criei esse blog. Estou sendo desvirginado no que diz respeito à relação blog e eventos esportivos mundiais. Oficialmente, considero o mês de outubro como aniversário desse meu espaço. No entanto, os cinco meses anteriores que foram de testes e acertos até chegar à forma definitiva, que é essa que está sendo exposta, aconteceu a Copa do Mundo em que a seleção canarinho foi pentacampeã e por esse fato não é considerado oficial enquanto existência do blog.



Primeira olimpíada do milênio e primeira da gente também. As chances de medalhas são visivelmente boas em modalidades tipo o vôlei, tanto o masculino quanto o feminino e o de praia, a vela e a ginástica olímpica. Não digo que são as favoritas. Aliás, o favoritismo existente poderia ser dobrado, triplicado se houvesse uma política de esporte melhor elaborada, investimentos maciços e centros desportivos como o de ginástica em Curitiba, no Paraná e o de vôlei em Saquarema, no Rio.



Primeira olimpíada da minha vida foi a de Moscou, em 80. Era pequeno, tinha três anos, mas uma imagem me marcou. Acho que a todos. A mim principalmente até pelo fato de ser uma criança na época. A lágrima que o mascote, o urso Micha, derramou na cerimônia de encerramento. A tecnologia da época não era lá grandes coisas, se comparada a de hoje, ainda vivíamos num mundo polarizado e os soviéticos formavam um país cuja cidade de Moscou era a capital. Mas o efeito especial dessa lágrima, com centenas de pessoas formando a figura com o mosaico de cartazes e os que estavam abaixo do olho do urso momentaneamente se tornavam branco causando um efeito marcante e inesquecível. Por incrível que pareça, essa olimpíada, e a seguinte, em Los Angeles, nos Estados Unidos, não obedeceram ao espírito dos jogos olímpicos pelos boicotes que um país fez ao outro e vice-versa.



Inesquecível, marcante e emocionante também foi a chegada daquela maratonista, se não me engano foi em Los Angeles mesmo, que esgotou todas as forças que tinha e que não tinha para cruzar a faixa final. Até hoje me comove aquela imagem sempre que a passam. Pra se ter uma idéia ela fez mais história nos jogos do que as medalhistas da maratona. (Se alguém tiver uma memória boa me diga o nome delas.)



No mais é torcer por nossos heróis e heroínas e tentar expurgar a urucubaca que nos colocaram em Sydney, na Austrália, há quatro anos atrás, onde trouxemos doze medalhas e dentre elas, nenhuma de ouro, seis de prata e seis de bronze. Que todas as divindades gregas mitológicas nos olhem, nos guiem e torçam pelos seus companheiros tupiniquins e nos presenteie com alguns ramos de louros ou oliveiras da vitória dourada.

segunda-feira, 9 de agosto de 2004

PARA INGLÊS VER



Londres sempre me passou a imagem de uma cidade sisuda, cinzenta, nebulosa, fria e formal, a mais completa tradução de uma cidade realmente inglesa, que o é de fato. E certas atitudes a fazem ficar mais londrina.



Atitudes estranhas como a que eles adotaram lá. Não sei se é lei, mas criou-se certa convenção que os nativos discípulos da rainha, ao tirarem fotografias, especificamente para passaportes, estão expressamente proibidos de sequer esboçar um sorriso. Ou seja, a sisudez do fotografado estará também no passaporte e caracterizará, além do brasão da capa, a origem do viajante inglês.



Geralmente fotos de documentos nunca saem boas. Sempre tem um olho mais sobressaltado que o outro, o nariz abatatado, a boca mais carnuda, um lado da face diferente da outra e a gente nunca fica satisfeito com a nossa cara e morre de vergonha se alguém, mesmo um amigo, pedir para ver a nossa carteira de identidade, por exemplo, onde, além dessas desgraças, ainda tem o agravante da idade. Aquela foto de muitos anos atrás que às vezes até você mesmo se assusta. Em umas você sorri e em outras está sério. Mas daí a fazer da imagem séria uma obrigação já é demais.



O argumento que eles utilizaram tinha relação com o terrorismo, ou com o contra-terrorismo. E eu, na minha santa ignorância me pergunto: O que a foto tem a ver com isso? Se alguém tiver uma explicação plausível, cartas para a redação, por favor.



Fico imaginando a seguinte situação. Digamos que um executivo inglês recebe a missão de representar sua empresa em outro país e tem que agilizar seu passaporte, mas está feliz – inglês também tem momentos de felicidade – por algum motivo. Ou por ter saboreado a vitória do time de futebol no dia anterior, ou por causa do nascimento do filho naquela semana, ou pela morte da sogra – não sei se vocês sabem, mas as sogras também morrem na Inglaterra – ou por ter inalado gás hilariante... não importa. Ele está feliz e vai tirar uma foto.



Aperta o nó da gravata, senta-se no banco com aquele fundo branco atrás, pendura a data no bolso do paletó e olha para a lente da máquina. Aí o fotógrafo lá diz:

- Não posso tirar a foto.

- Por quê?

- O senhor está muito feliz.

- E daí?

- Vai pegar mal seu rosto no passaporte. O governo não vai gostar. Segundo um outro cliente meu, eles podem até te impedir de sair do país.

- Por causa da minha cara?

- Mais especificamente por causa do seu sorriso.

- Isso não pode acontecer. A empresa já marcou a data da minha viajem. Tenho que tirar essa foto hoje para dar entrada nos papéis. Qual a sua sugestão?

- Fica sério.

- Como?

- Sei lá. Imagina uma situação de tristeza. Pensa, por exemplo, num gato morto. Você tem gato?

- Hahahahaha. Por mim todos os gatos poderiam morrer. Detesto gato. Meu animal de estimação é um furão.

- Pare de rir, senhor. Tem uma foto para ser tirada, não lembra?

- Tive uma idéia genial. Você tem computador?

- Sim senhor. Por quê?

- Então não teremos problema em tirar a foto com a minha cara alegre. E você sabe por quê? Afinal, pra que inventaram o fotoshop?

segunda-feira, 2 de agosto de 2004

SEU NOME É GAL



Gostaria de situar o caro leitor de que escrevo essas linhas hora e meia depois de ter chegado em casa da mais famosa casa de espetáculos do Rio de Janeiro, o Canecão. Ela foi a terceira artista, com exceção de Rita Lee, a me fazer deslocar de Niterói para Botafogo e se deliciar com o repertório escolhido para ser apresentado por ela. O show ‘Todas as coisas eu’, título também do seu mais recente trabalho, foi um dos espetáculos mais lindos em termos e concepção e mais comoventes em termos de emoção que eu me lembre de ter visto pelo menos nos últimos três anos. A saber, os outros dois artistas foram Ney Matogrosso quando acompanhei minha mãe e minha tia no show que fez do disco ‘Um Brasileiro’ sobre a obra de Chico Buarque e Marisa Monte na temporada da última apresentação que lá fez, exibindo seu trabalho chamado ‘Barulhinho Bom’. Confesso que foi depois desse show que comecei a acompanhar melhor o trabalho dela. Quanto a Rita Lee, bem, essa é uma outra história.



A minha relação com o trabalho da Gal data de quase dez anos. Ela estava dando uma entrevista para o Jô Soares a respeito do disco ‘O sorriso do gato de Alice’ e cantou uma composição do Djavan chamada ‘Nuvem Negra’, presente no disco, pela qual fiquei encantado. Dias depois adquiri o disco. Sobre esse mesmo trabalho, ela causou polêmica durante o show no extinto ‘Imperator’, uma casa de shows que havia no bairro do Méier, por mostrar os seios. (Não me recordo se na hora da execução da música ‘Vaca Profana’ do Caetano ou ‘Brasil’ do Cazuza, mas pela polêmica guardo essa foto até hoje no encarte do CD.)



Lá se vai algum tempo. A partir de então era ela lançar um disco e eu correr nas lojas para comprar. O gato de Alice, além do sorriso, me abriu os ouvidos para uma voz maravilhosa e inconfundível que me agrada e cativa a cada tom, bemol ou sustenido. Sempre falo isso e vou repetir. Se o Brasil tem as quatro damas da música, em termos de voz, são Gal, Bethânia, Elis e Marisa Monte.



Com um repertório fabuloso de canções que eu não conhecia, talvez pelos meus vinte e sete anos, ou por não terem sido resgatadas por ninguém até então, e outras mais conhecidas, principalmente pelas gerações anteriores a minha, é surpreendente e cativante. Os quatro músicos que a acompanham são espetaculares, os arranjos sensacionais, por mais minimalista que pareça, no palco, se torna grandioso, magistral.



O fato de ela ter posições pessoais no que diz respeito a tal senador baiano e que não agrada a alguns formadores de opinião, simplesmente desaparece diante do talento dessa mulher e da potência que carrega na sua garganta. O dia em que a voz for vista como um instrumento musical, a Gal será o mais valioso instrumento do mundo.



Sempre quis ir a um show de Gal Costa por ser um consumidor assíduo dos trabalhos dela, mas sempre me faltou oportunidade. Salvo uma vez, na praia de Copacabana, quando ela se apresentou ao lado de Bethânia, Caetano e Gil, numa reedição dos ‘Doces Bárbaros’. (Assistir ao vivo ela desfilando pela Mangueira em 94 conta? Acho que não.) A partir de agora, depois desse show que reportou minha memória a meu avô, responsável por eu saber grande parte das letras das canções apresentadas por ela, sempre que ela vier soltar a voz, estarei lá, todo ouvidos.



Temo em ser repetitivo quando, na verdade, quero ser enfático. O show é sensacional, os músicos são espetaculares, a concepção do espetáculo é um primor, a escolha do repertório é comovente e a Gal é a Gal. Não tem adjetivo que a qualifique. Ela já é superior, divina, diva.



Agora, tenho mais um motivo para que minha ida de Niterói para Botafogo compense o valor do ingresso, qualquer se seja ele. Mais uma cantora na certeira lista de shows. Além de Rita Lee, o Canecão terá o prazer de me receber nos shows de Gal.