quinta-feira, 28 de outubro de 2004

APELO NATALINO



Eu poderia estar roubando. Eu poderia estar matando. Mas não. Eu estou apenas pedindo. Sei que mal entramos no mês de novembro e a princípio ainda é cedo para fazer esse tipo de pedido, porém engana-se. Num piscar de olhos já é Natal. Por isso estou pedindo encarecidamente para que colabore com a minha ceia de Natal. Farofa é fácil de ser feita, arroz também, salada, então, nem se fala. Confesso desde já que o meu problema será o famoso peru.



Tenho noção que a vida não está mole para ninguém e é justamente por esse fato que eu estou aqui, novamente ocupando o seu tempo e enchendo a sua paciência para que, com a sua voluntária, ou seja, não-obrigatória, porém altamente bem vinda contribuição eu consiga endurecer o meu peru (de Natal).



A proposta que vos faço é a mais simples e menos trabalhosa possível. Em época natalina a proliferação de amigos ocultos se dá em progressão geométrica. E pode ter certeza de que você nunca sabe qual é o presente, ou a lembrança que agrada a pessoa cujo nome está escrito naquele mínimo pedaço de papel dobrado de todas as formas possíveis e imagináveis (às vezes até inimagináveis). Pois para isso eu tenho a solução para os seus problemas sem mesmo fazer parte do conselho deliberativo das ‘Organizações Tabajara’.



No entanto, vamos supor que por uma felicidade do destino, você não participe esse ano de um amigo oculto. Minha proposta também abrange as pessoas militantes do SAO (Sem Amigo Oculto) e que têm que fazer um agrado a alguém, seja o chefe, a sogra, o cunhado chato, enfim, uma variedade de indivíduos que te cobram pelo resto do ano se não receberem uma lembrança de você.



Natal também significa época de shoppings lotados, lojas cheias onde mal se anda e quando se consegue dar um passo obrigatoriamente se esbarra em desconhecidos. Sem falar no produto o qual é de seu grado ou está esgotado ou está na mão de um ser que chegou cinco minutos antes de você e o adquiriu.



Aqui comigo há um livro. (Claro, o que eu lancei esse ano ‘Morte não é meu forte’) Livro esse que, se der sorte, encontra nas livrarias na faixa dos R$ 25. No entanto, para que o meu peru (de Natal) seja rijo, robusto, altivo e imponente na minha ceia de natal, teremos uma promoção que irá morrer de véspera, ou seja, no dia 24 de dezembro. A saber:



1 exemplar ao preço de R$ 20

2 exemplares ao preço de R$ 30, saindo cada exemplar a R$ 15

3 exemplares ao preço de R$ 40, com cada exemplar custando R$ 13,33

4 exemplares ao preço de R$ 50, nesse caso a R$ 12,50 cada



Essa promoção faz a alegria dos bons leitores.



Para que o meu peru (de Natal) encontre o forno que bem o aqueça, além dos exemplares em quantidades estabelecidas ao seu critério, serão inteiramente gratuitos três – não é apenas um nem tão somente o par, mas três - marcadores de livros por exemplar adquirido. Todos nós sairemos ganhando. Você se diverte com essa história sensacional em que você também é uma vítima ao morrer de rir e eu fico feliz com a nobre e frondosa ave sobre a mesa da minha ceia natalina.



Trocando em miúdos sem fazer alarde, a sua contribuição com a aquisição dos exemplares do meu livro nada mais é do que o fortalecimento, podemos até dizer o viagra, do meu Natal e, consequentemente, do meu peru.

segunda-feira, 25 de outubro de 2004

(Parte 4)



Não, minha senhora, filmes como eu sonho em ver um dia “não dão Ibope, nem rendem bilheteria”! Vide O rap do Pequeno Príncipe contra as almas sebosas. Quem foi ver esse filme há 10 reais no cinema? A senhora foi? E sua filha?



Aliás, por falar nisso, não queira dizer às pessoas que filmes como o de Cazuza denigrem a imagem de nosso país, pois se assim fosse Elvis seria odiado nos Estados Unidos. O que “denigre nossa imagem” é o fato de que existem crianças fora das escolas e escolas abandonadas, 35 milhões de miseráveis, hospitais caindo aos pedaços, analfabetos, pessoas passando fome, nossas riquezas nas mãos dos estrangeiros, o comando delta e por aí vai. Esse é o tipo de retórica que odeio, dizer que um cantor vítima da AIDS e de seus próprios excessos seja um fator determinante para o nosso país não ser levado a sério...



Precisamos pôr na cabeça dessa turma da película que não é enganando o cidadão que se conseguirá fazê-lo participar das discussões. Essa discussão em torno de Cazuza é muito mais séria que se imagina. Tanto que somente um trecho da carta da mãe me deixou realmente preocupado:



Cazuza era um traficante, como sua mãe revela no livro, ao admitir que ele trouxe drogas da Inglaterra, e quantas festinhas regadas a essas drogas ele promoveu? Um verdadeiro criminoso! Concordo com o juiz Siro Darlan quando ele diz que a única diferença entre Cazuza e Fernandinho Beira-Mar é que um nasceu na zona sul e outro não.



Até aí, nada demais a não ser por um detalhe: como pode esta ilustre senhora colocar no mesmo patamar Cazuza e Beira-Mar? Pode! Pois ela, assim como uma boa parte de nossa população, é mais uma dessas pessoas que não está por dentro dos fatos, uma vez que não tem acesso às informações, ou prefere apenas se deixar convencer com personagens fictícios da televisão. Essa visão estreita acaba jogando o foco principal da discussão para outro lugar e assim o verdadeiro elemento permanece impune.



Eu não quero acreditar que comércio de baseado e farinha é o suficiente para se ter uma dúzia de bazucas russas, uma centenas de fuzis e milhares de “profissionais liberais” do tráfico, tais como aviões e outros. Isso é impossível! Se alguém conseguir me provar isso, hoje mesmo vou ao morro do Amor e me alisto no Movimento, pois sei que se fizer um bom papel serei um Barão do Pó...



Um conselho eu dou a essa senhora: procure se informar melhor sobre o narcotráfico, pois assim não se deixará iludir por bravatas vindas de Siros Darlans da vida... O próprio Beira-Mar admitiu que “tem muita gente grande envolvida”, deixando claro que “grande” mesmo não é ele. E é isso mesmo. Os “grandes” não trocam tiros com PMs; assistem as Olimpíadas em uma telão de cristal líquido 40 polegadas, com uma garrafa de Chivas do lado, numa mansão paradisíaca em Bariloche...



Outra coisa: Cazuza “trouxe drogas da Inglaterra” para vender ou distribuir gratuitamente em suas festas? Que eu saiba, a palavra tráfico significa comércio ilegal e eu não creio que o elemento vendia pó aos seus parceiros. Isso eu gostaria de ser melhor esclarecido. Esse esclarecimento é muito importante, pois não devemos atribuir a alguém que não pode se defender algo que ele não foi. É através da verificação das informações que podemos formular opiniões. Ser viciado é uma coisa, ser traficante é outra. Mas como é mais fácil jogar nele todos os pecados do mundo, um pecado a mais ou a menos não faz muita diferença, não é mesmo?



E por fim:



Como no comercial da Fiat, precisamos rever nossos conceitos, só assim teremos um mundo melhor. Devo lembrar aos pais que a morte de Cazuza foi conseqüência da educação errônea a que foi submetido. Será que Cazuza teria morrido do mesmo jeito se tivesse tido pais que dissessem NÃO quando necessário?

Lembrem-se, dizer NÃO é a prova mais difícil de amor. Não deixem seus filhos à revelia para que não precisem se arrepender mais tarde. A principal função dos pais é educar, é a base! Não se preocupem em ser amigo de seus filhos. Eduque-o e mais tarde ele verá que você foi a pessoa que mais o amou. Que você foi, é e sempre será o seu melhor amigo, pois amigo não diz SIM sempre.



Tomar o comercial da Fiat como exemplo é ótimo, mas tudo bem... Valeu a intenção, pois é verdade que os conceitos precisam ser melhor dispostos não apenas para nossos filhos, mas para nós mesmos. As perguntas que realmente devemos fazer são:

· Estou sendo um bom pai para meu filho?

· Estou sendo franco com ele, sem apelar para a pieguice das telinhas?

· Será que bravatas de juízes, intelectualóides e canetas de aluguel são a solução?

· O que meu filho tem ou faz para se divertir?

· Ele bebe muito ou não sabe beber? Ele fuma muito ou não sabe fumar? Enfim, ele faz tudo demais ou não sabe fazer coisa alguma?

· É possível que ele venha a ser igual ao cara que ele viu na telinha ou no telão? Será que ele tem personalidade para se dissociar do que é real e o que não é?

· Enfim, será que conheço bem o filho que eu tenho em casa?

· E o mais importante: será que eu, que tenho mais idade que meu filho, sei o que é certo e o que é errado?



Como finalizou a mãe aflita, “Pensem nisso !!!”

segunda-feira, 18 de outubro de 2004

(Parte 3)

Vou mais longe: partir do pressuposto de que seu filho vai se tornar homossexual, se drogar, participar de bacanais e escrever “Faz parte do meu show” porque viu o filme do Cazuza é o mesmo que afirmar que quem assistiu Homem Aranha vai tentar ser picado por uma aranha para não só ganhar superpoderes como também para arrebatar uma ruiva gostosa qualquer... Esse é o tipo de pré-conceito que deve ser eliminado. É como se você não confiasse definitivamente na personalidade de seu filho e se esse for o caso acorrente-o, amordaçe-o e ligue para a polícia ou para a Colônia Juliano Moreira...



E mais: esse tipo de visão é mais comodista que propriamente esclarecedora. É mais fácil dizer “não beba, o álcool faz mal à saúde!” que dizer “meu filho, você está bebendo? Então peraí, aê mulher, traz café e broas pra mim e pro Argemiro! Beleza, valeu! Filho é o seguinte...” e aí o pai diz ao filho o que ele precisa ouvir e não ficar repetindo o que o filho está cansado de ouvir... Enquanto isso não ocorrer, os jovens realmente continuarão pensando em “liberdade, fama, sucesso”... Mas alto lá: esses jovens terão punição sim! Principalmente se forem filhos da classe média pra baixo...



Numa coisa eu concordo: se pelo menos se “copiasse” a atitude que Tim Maia e Lobão tinham em relação ao jabá, duvido que o lixo cultural vigente sobrevivesse por tanto tempo. Esse é o tipo de “transgressão” que todos, inclusive a autora do texto, deveriam copiar, boicotando programas dominicais e shows de lixo-music, além de não ir a uma loja de CDs e se abastecer dessas bobagens. Quanto ao fato de Tim ter morrido como morreu, bem aí já é uma outra questão. Pois se pegarmos a questão por esse lado, não se deveria prestar tributos a um bêbado esfarrapado que pôs a Inconfidência Mineira a perder e nem mesmo associá-lo a Jesus, pintando-o com cabelos longos e cara de quem carregou os pecados do Brasil...; não se deveria ter eleito um usuário de cocaína para o cargo de Presidente da República; e assim por diante.



Vamos lá:



Meu Deus, a que ponto chegamos! Será que não estamos exagerando? Será que não está na hora de crescer, de melhorar, de mostrar pros nossos filhos e lá fora, que nós temos coisas e pessoas infinitamente melhores pra cultuar e pra mostrar do nosso país!!!

Por que não são feitos filmes de pessoas realmente importantes que tenham algo de bom para essa juventude já tão transviada? Será que ser correto não dá ibope, não rende bilheteria?

Será que não deveríamos exigir mais qualidade? Será que não deveríamos boicotar esses filmes que só dão maus exemplos e denigrem a imagem do nosso país?



Chego ao ponto que julgo mais polêmico do ensaio. Eu disse que a faceta da autora da carta estava se desenhando. É que quando li esse texto da primeira vez tive uma impressão. Uma sensação de deja vù.



Não faz muito tempo: li uma carta em O Globo onde a autora se dizia “pasma” com o fato de que “ninguém mais queria ser marceneiro, pintor de paredes, serralheiro, carpinteiro, servente, padeiro e outras profissões de importância e relevância” e que todo mundo queria ser doutor! E era exatamente com essa frase que a criatura começava “Meu Deus, a que ponto chegamos!”



Ficou claro para mim que se tratava duma daquelas pessoas extremamente conservadoras, que não aceitam que alguém possa almejar algo a mais pelo simples fato de que veio de camadas menos privilegiadas. Entrei no site do Globo e escrevi o seguinte: “Em relação à carta de blábláblá, apenas duas perguntas: qual a sua profissão? Será que a senhora batalhará para que seu filho siga o exemplo de seu marido e seja um ladrilheiro (sem ser o do Maracanã...)?” Logicamente, minha carta não foi publicada...



Tracei um paralelo entre a mãe aflita e a mulher do ladrilheiro e pensei no seguinte: coincidência?



Não! Pois esse “rompante de indignação” é próprio de quem está habituado a ver o mundo com uma visão extremamente “não é comigo, então foda-se!” Não seria mais interessante acabar com esse simplismo cínico e encarar a questão de frente? Pois bastou que a filha dessa senhora fosse ver o tal filme para que a indignação chega-se ao seu extremo. E quanto ao fato de que essa ida ao cinema poderia ter sido evitada? Por que não chamar a filha e dizer o que esse sujeito chamado Agenor de Araújo, vulgo Cazuza, foi e fazer com que ela pensasse bem se gastava 10 reais para ver-lhe a história? Vocês verão no fim do ensaio que essa senhora já tinha lido o livro de Lucinha Araújo sobre seu filho, o que lhe dava argumentos de sobra para em sua visão impedir que a filha “use drogas, participe de bacanais e beba até cair”...



Temos muitos exemplos de pessoas que fizeram história em nosso país, não obstante ninguém faz filmes sobre essas pessoas a menos que haja algo que se possa subverter, como foi o caso de A Guerra de Canudos, que mostra um Beato Salú travestido de Antônio Conselheiro (ainda que José Wilker tenha sido perfeito...). Retratar Conselheiro como um Gentileza às avessas é fácil para que se tenha motivos para rir dele, ou melhor, para que se desvie o foco principal em torno do que ele fez e deixou de exemplo para nosso país. Por isso, não quero que façam o mesmo com Zumbi, Chico Mendes, João Cândido e outros menos cotados.

segunda-feira, 11 de outubro de 2004

(Parte 2)

Esse é um ponto interessante. Todos sabemos que Agenor era um filho da burguesia. Mas quantos filhos de classe média vivem nessas condições de extrema “vagabundagem”? Não quero com isso defender os burgueses, mas existe uma fatia da classe menos abastada que vive como um burguês... ou pelo menos acha que vive. Conheço relatos de pessoas que afirmam que no Espigão do Méier o que mais tem é carro do ano zerado saindo da garagem, que mais parece o estacionamento do Barrashopping... Mas que 70% da galera está devendo condomínio! Como é que pode? Pode. Pois esse é o modelo vigente, o que diz que “não basta ser, é preciso parecer ser”, uma sentença que é a preferida dos capitalistas, em especial os que ocupam cargo que lhes confere poder. E status é sinônimo de um certo “algo mais”. E é isso que esses pais deixam de exemplo para seus filhos, não é muito diferente do que fizeram João e Lucinha Araújo, como afirma a mãe aflita (se bem que não sei se eles atrasam condomínio... Quem é rico paga condomínio? Com a palavra, Raphael Juju!).



Aliás, cuidado com esse tipo de conclusão. Será que realmente o pai e a mãe foram tão omissos assim? Será que não existe nada por trás dessa “omissão”? Eu conheço pais extremamente liberais que no entanto em se tratando de temas polêmicos são extremamente “caretas”. E aí?



Pois é assim que eu vejo essa classe extremamente degradante chamada classe média. Ela dita o ritmo por ser maioria dentro das decisões. Assim como a autora da carta. Mas alto lá, isso não quer dizer que compactuo com essa maioria, até porque sou vítima em potencial dessa maioria. Graças aos meus coleguinhas médios, não posso mais chegar em casa às 4 da matina sem ter medo de ser assaltado, baleado ou na pior das hipóteses parar numa blitz. São esses indivíduos que vão pra rua vestidos de branco gritar na Rio Branco por pessoas executadas no Novo Leblon... Esses filhos não podem ser maculados. Morei por 20 anos na Rua Hermengarda e jamais vi um piquete que fosse!!! (nem mesmo topográfico, Cardinho, você, Célio e seu pai podem explicar isso?!?) E olha que já vi cada cena... Mataram um malandro a tiros quase em frente à minha casa. Procurei saber se havia algum representante de ONG por ali. Não havia ninguém, além duma solitária vela posta no capô do carro...

En avant:



Fiquei horrorizada com o culto que fizeram a esse rapaz, principalmente por minha filha adolescente ter visto o filme. Precisei conversar muito para que ela não começasse a pensar que usar drogas, participar de bacanais, beber até cair e outras coisas fossem certas, já que foi isso que o filme mostrou.

Fiquei preocupada também, porque sabemos que aqui no Brasil, os malandros, os transgressores são admirados e copiados!!! Os jovens querem ter liberdade, fama, sucesso, querem transgredir e se sentem o máximo por isso. E ainda não ter punição !



Há de se tomar cuidado com esses tipos de afirmação. Será que o filme quis passar o que ela afirma? Muitas vezes, a juventude copia um modelo como o descrito acima mais por “modinha” (besta, por sinal) que por faltar-lhes a noção de certo e errado. A prova disso é que todo mundo fez questão de dar a sua filhinha de 7 anos o shortinho da Carla Perez, enquanto esta “botava a mão no joelho e dava uma abaixadinha”. Será que nêgo pensou na gravidade desta questão? Não pensou! Ao contrário, havia “justificativas plausíveis” na cabeça dessa gente que deveriam ter sido temas de novela: “A maldade está na cabeça das pessoas”, “O tchan é inofensivo”, etc. Mas se seguirmos a mesma linha de raciocínio da mãe preocupada (cuja faceta está se desenhando em minha mente e eu falarei sobre isso também) veremos que tão nociva quanto a influência de Cazuza é a da galera da pornô-music, pois se o modelo “exagerado” de viver leva a uma auto-destruição em massa, o modelo “a baiana desce, havaiana sobe” (é isso ou o contrário “havaiana desce, a baiana sobe”? Questão de vestibular no futuro, podem anotar isso...) pode levar também a um aumento considerável de casos de pedofilia e outros estupros “menos aberrantes”. Ponham na balança: o que pesa mais? Eu digo: ambos!



Isso é uma realidade e os pais não podem simplesmente achar que não. Os pais devem dialogar com os filhos, mas no sentido de se trazer a discussão à baila e não com o discurso na ponta da língua do tipo “meu filho, isso é muito feio, não faça isso, faça aquilo!” Devemos nos lembrar que as crianças não são mais tão crianças assim, as coisas têm ocorrido para elas de forma precoce. Mundo de fantasia e criação em redoma de vidro tendem a piorar a situação quando estas crianças se tornarem jovens e posteriormente adultos. Discursos como esses são simplistas e tiram o foco da discussão.

segunda-feira, 4 de outubro de 2004

(Parte 1)

SOCIEDADE, VIVA CAZUZA?





Vida louca vida, vida breve, já que eu não posso te levar, quero que você me leve



Esse refrão, escrito por Lobão nos anos 80, parece ter sido feito sob medida para o elemento central de meu primeiro ensaio oficial. Não à toa, o próprio gravou essa canção em seu show “O tempo não pára”, um show memorável que trazia um elemento já muito carcomido pela fatal e bestial AIDS.



É assim que abro esse texto sobre Agenor Araújo. Com uma frase emblemática. Tão emblemático quanto o nome Cazuza.



Eu já estava querendo escrever algo sobre o elemento em questão. Mas foi um texto de nosso querido Rafaello Barcelos, futuro imortal, que me fez pensar muito sobre o assunto. E o interessante é que ontem conversando com um amigo de meu irmão Alex Oluchi parecia até que a coisa conspirava e dizia “escreva sobre o assunto, escreva!”... E aqui estou eu.

Mas retornando a Rafaello... O texto que o niteroiense me mandou era um desabafo duma mãe que foi assistir o filme sobre Cazuza. Transcreverei o texto em partes para melhor analisá-lo.



Relato de uma mãe preocupada:



Fui ver o filme Cazuza há alguns dias e me deparei com uma coisa estarrecedora. As pessoas estão cultivando ídolos errados. Como podemos cultivar um ídolo como Cazuza? Concordo que suas letras são muito tocantes, que suas músicas tinham balanço, mas reverenciar um marginal como ele é, no mínimo, inadmissível. Marginal sim, pois Cazuza foi uma pessoa que viveu à margem da sociedade, pelo menos uma sociedade que tentamos construir (ao menos eu) com conceitos de certo e errado.



Até que ponto um “marginal” pode ser redimido? Observem que ao mesmo tempo em que apedreja Cazuza, ela faz uma pequena concessão. Essa concessão pode ser explicada pelo fato de que Cazuza escrevia letras com teor engajado, como se dissesse à sociedade aí galera, sou burguês, mas não sou boçal! Essa é uma discussão antiga. A velha questão classe social ´ consciência social. Afinal de contas, pode soar como legítimo “um cabra ter grana e gritar por quem não tem”, como bradou Agnaldo Timóteo, numa entrevista ao Pasquim em 1973?



Esse tema foi bem descrito por Paulo César de Araújo no excelente Eu não sou cachorro não, onde o autor diz que temas de cunho conscientizador se feitos ou cantados por uma parcela de músicos do naipe de Chico Buarque ou Gonzaguinha, freqüentemente citados no livro, soam com falsos por artistas vindos dessa classe massacrada pelo capitalismo selvagem e que se esses mesmos artistas (os chamados bregas) o compusessem cairiam no ridículo, seriam achincalhados, etc. Sem entrar na qualidade musical das duas vertentes musicais, mas a discussão é realmente válida, principalmente em se tratando dum sujeito como Cazuza.



Todos sabemos de sua vida pregressa, embora tenham me dito que no filme a imagem que se passou foi a de um sujeito extremamente fútil, como se nada de bom tivesse. Não posso afirmar nada sobre o filme, pois não o vi, mas se de fato mostraram as facetas que muitos insistem em criticar, que bom não? Não é isso que todos queremos, menos hipocrisia e mais relaidade? Ou o filme foi irreal?



Que sociedade é essa que se “tenta construir a partir de noções de certo e errado”? Nem eu conheço essa sociedade... Essa eu destrincho logo mais.



Bem, continuando:



No filme, vi um rapaz mimado, filhinho de papai que nunca precisou trabalhar para conseguir nada, já tinha tudo nas mãos. A mãe vivia para satisfazer as suas vontades e loucuras. Nunca teve limites. O pai preferiu se afastar das suas responsabilidades e deixou a vida correr solta. São esses pais que devemos ter como exemplo? É esse jovem que queremos de exemplo para os nossos filhos? Vivia nas orgias, nas drogas, na vagabundagem... e agora é reverenciado por nossos adolescentes e jovens!