segunda-feira, 31 de janeiro de 2005

NA PALMA DA MÃO 2005



Devidamente coroado, Momo pede licença pra cair no samba. E como bom folião que sou, a parte dele está concedida até ele cair de cansaço na quarta feira de cinzas. Mais uma vez destilo minhas opiniões sobre os sambas que serão apresentados na Marquês de Sapucaí.



Pela ordem (de desfile), com a mudança do regulamento – que vigora até sabe-se lá quando - , quem abre o carnaval desse ano foi quem fechou o do ano passado, ou seja, a Mocidade Independente de Padre Miguel. O samba ‘Buon mangiare, Mocidade! A arte está na mesa’ foca a arte do preparo da comida. Sobretudo a comida italiana, visto que rolam boatos de que o consulado italiano colaborou com uma módica quantia de dinheiro para que se desenvolvesse esse tema. Aliás, módica quantia em dinheiro é o que tem ditado o carnaval nos últimos tempos. Ainda insisto na tese que a Mocidade fez sambas bem melhores que os atualmente apresentados, incluindo-se esse cujo refrão principal diz: “Buon mangiare, mocidade! Amor.../ Se a arte está na mesa, eu tô.../ É a trupe independente de Padre Miguel/ Brilhou uma estrela lá no céu.”



A segunda agremiação a entrar na avenida é a Império Serrano. Tradicionalíssima escola de samba está num jejum de mais de vinte anos no que diz respeito a título (o último foi em 82). Escolheu um tema bem batido; a preservação da natureza. E já que não tem quem lhe dê uma módica ajuda em dinheiro, o samba tem que ser levado no chão como as boas escolas sabem fazer. Com o título ‘Um grito ecoa pelo ar (Homem/Natureza – o perfeito equilíbrio)’ vem com um samba médio cujo refrão pode até levantar. “Clamando numa só voz, vem meu Império/ a gente tem que pensar, é caso sério/ pra natureza sorrir, o homem tem que mudar/ e aprender a preservar.”



Logo em seguida o Salgueiro vem incendiando a passarela do samba. Tendo como tema principal o fogo, o samba é de mediano pra bom. ‘Do fogo que ilumina a vida, Salgueiro é chama que não se apaga’ tem os refrões que podem esquentar os espectadores. O principal é esse: “Hoje o fogo da alegria/ se alastrou na academia por inteiro/ vem no show da bateria/ esse fogo que arrepia...é Salgueiro”. Também sem patrocínio, é torcer para que não apaguem o fogo salgueirense.



Caso oposto ao do Salgueiro é a Estação Primeira de Mangueira. Dinheiro nela jorra como poço de petróleo. Também, não é por menos. Bancada pela Eletrobrás e Petrobrás, a escola vem esbanjando riqueza e vai desperdiçar toda sua energia no desfile a fim de que não ocorra um black-out da sua presença no desfile das campeãs. ‘Mangueira energiza a avenida. O carnaval é pura energia e a energia é o nosso desafio’ é um samba mais uma vez bem estruturado, com a confecção harmônica tradicional perdendo um pouco na poesia da letra. “A energia do samba é o combustível pro amor, sou Mangueira/ nos braços do povo fazendo fluir/ a verde e rosa na Sapucaí” é o refrão principal criado pra levantar as arquibancadas, seguindo a fórmula de feitura do samba.



A surpreendente vice-campeã do carnaval vem com o tema ‘Entrou por um lado, saiu pelo outro...quem quiser que invente outro!’ onde é enfocado o imaginário popular. O refrão é bom (“Entrei por um lado, saí pelo outro a cantar/ e quem quiser invente outro lugar/ o meu paraíso, local mais perfeito não há/ faço do borel a shangri-lá”), mas o samba no seu todo é fraquinho. Só espero que a Unidos da Tijuca surpreenda por outros caminhos como no ano passado.



A Tradição, coitada, depois da releitura do ‘Contos de Areia’ feita no ano passado, amargura uma décima segunda posição e periga cair esse ano. O samba é fraco e o tema, soja, não caiu no gosto popular. ‘De sol a sol, de sol a soja – um negócio da China’ só se o desfile que apresentar for mesmo um grande negócio. “Eu também vou voar, eu vou voar na passarela// de sol a sol nesse chão/ vou semeando esse grão/ abençoada seja a plantação”. Não quero agourar, afinal é o desfile que é julgado, mas, a princípio, é a minha candidata a cair.



Encerrando o primeiro dia de desfiles a Vila Isabel, campeã de 88, retorna ao grupo especial ‘Singrando em mares bravios...construindo o futuro’. O samba também é classificado por mim de regular a bom e tem algumas alusões à própria escola nas entrelinhas. Se dependesse somente da música, ficaria entre as 14 grandes e tem um refrão gostoso: “É carnaval, um rio de prazer/ cada turista que chegar vai ver/ é linda a Vila balançando nas ondas do mar/ rumo à vitória, navegar!”



Quem abre o segundo dia de desfiles é a Porto da Pedra. Nesse carnaval ela reedita o clássico samba apresentado há quinze anos pela União da Ilha ‘Festa Profana’ que tem o refrão “Oi, joga água que é de cheiro/ confete e serpentina/ lança perfume no cangote da menina.” Sem dúvida é um samba bom, mas, pelo que foi visto ano passado, reedição parece que não garante campeonato.



Em seguida vem a Caprichosos de Pilares com um samba que reporta aos bons tempos da escola, com graça, irreverência e bom humor. Falando dos vinte anos da Liga Independente das Escolas de Samba, são feitas algumas licenças poéticas, como a menção do ‘bumbum paticumbum’, samba anterior à criação da liga, e uma merecida homenagem à Rosa Magalhães, carnavalesca da Imperatriz e detentora de boa parte dos títulos desses vinte anos. Com o enredo ‘Carnaval, doce ilusão – a gente se encontra aqui, no meio da multidão! 20 anos de liga’ o refrão galhofeiro diz: “É carnaval, é samba a noite inteira/ mulata, cachaça, tem muita zoeira/ vem cá meu bem, me dê seu coração/ e não a bolsa, o relógio e o cordão.”



A ‘Viradouro é só sorriso.’ E é mesmo. De início, eu não gostei do refrão inicial. Achei que ele destoou um pouco da letra do samba. Poderiam ter dito a mesma coisa de outro modo, mas depois, com o costume aceitei. Achei o samba bom. Depois do Orfeu foi o melhor que eles já compuseram, de modo que é o mesmo grupo que ganha anos a fio a disputa dos sambas. “Eu quero ver você cantar, extravasar/ Quando a cidade-sorriso passar/ eu quero ver, eu quero ver/ geral gritar, já é, já é/ na Viradouro eu levo fé”. Eu também, claro. O melhor refrão é o do meio. Prestem atenção.



Depois tem a Portela dizendo ‘Nós podemos: oito idéias para mudar o mundo’, trazendo à tona as metas da ONU pro desenvolvimento mundial. Sambinha regular. Nem se compara aos de outros carnavais memoráveis. Se fosse somente por ele, ficaria em torno da décima colocação, mas não cai. E nem pode cair. “A mensagem da Portela/ é pra toda humanidade/ vamos semear amor/ pra colher felicidade.”



A Imperatriz vai fazer ‘uma delirante confusão fabulística’ promovendo o encontro de Monteiro Lobato com Hans Christian Andersen. O tema é interessante e dizem que o consulado da Dinamarca é quem está dando um apoio de módica quantia em dinheiro, bancando esse encontro. “A turma do sítio apronta/ a Imperatriz faz de conta/ Emília cantando assim/ vem viajar nessa história/ é só dizer pirlimpimpim.”



Módica quantia em dinheiro, menos módica que a Mangueira, mas também considerável, é a injeção de ‘motivação’ que a Nestlé está fazendo com a Grande Rio. O tema é o mesmo da Mocidade, ou seja, a comida. Mas a grana fez com que o enfoque fosse outro. ‘Alimentar o corpo e a alma faz bem’ traz várias referencias de marcas ou slogans de produtos da empresa. “A mensagem de paz, Grande Rio nos traz/ a verdade da vida, o prazer de viver/ alimentar o corpo e a alma faz bem/ meu bem-querer.”



E encerrando o carnaval desse ano, ‘O vento corta as terras dos pampas, em nome do pai, do filho e do espírito guarani. Sete povos na fé e na dor...sete missões de amor’ será o tema defendido pela bicampeã Beija-Flor. Mais uma polêmica está prestes a estourar por aí, já que a linha do tempo que eles vão pegar será do nascimento de Cristo até as missões jesuítas focadas no sul do país. “Em nome do pai, do filho/ a Beija-Flor é guarani/ sete povos na fé e na dor/ sete missões de amor.”



Meu palpite infeliz para as cinco primeiras colocadas, ou melhor, quatro, já que eu ponho a Viradouro sempre entre elas, e ela sempre tem cumprido o papel de voltar para o desfile das campeãs, são Salgueiro, Porto da Pedra, Caprichosos e Vila Isabel. É capaz de eu não acertar nenhuma, ou só a Viradouro e/ou o Salgueiro vingar dessas cinco. No entanto, quero deixar bem claro que eu estou me guiando pelos sambas apresentados no disco. A apresentação na avenida é outra história. Ainda faço votos contra a Beija-Flor, Mangueira e Imperatriz ganharem o campeonato. Alguém tem que deter essa hegemonia. E que esse alguém seja a Viradouro. “Na Viradouro eu levo fé”. A queda brusca ficará a cargo da Tradição.



E como sempre digo, tiraremos nossas conclusões nas cinzas da quarta-feira. Que vença a melhor, ou melhor, que vença a que os jurados escolherem, que nem sempre é a melhor. Cabeça de jurado é uma coisa que não se entende, né?

segunda-feira, 24 de janeiro de 2005

AVENTURAS MINEIRAS (7)



Dissemos que chegaríamos logo após a missa dominical das oito da manhã. Realmente fizemos isso, mas o ‘logo’ não teve o imediatismo que lhe era cabível. A igreja já estava tomada pelas crianças da escola dominical. Ficamos meio perdidos nesse ínterim. (Devo dizer que o mais perdido fui eu, visto que não lembro se fizemos e o que fizemos entre a nossa saída da igreja e a entrada na casa da D. Nhanhá Dias.)



Ela nos recebeu com afeição e nós, com a tecnologia portátil, - lê-se gravador de bolso do tio Marcos – começamos a registrar os relatos dela sobre a cidade, a vida, o passado e tudo mais que ela conseguia lembrar. A irmã dela, D. Jacira, também apareceu por lá e ajudou dentro das limitações da memória dela. Para surpresa nossa, ela guarda um tesouro. Duas fronhas bordadas pela Dodoge que cobriram o travesseiro dos pais dela quando casaram – acho que era isso. Um outro paninho bordado por Dona Nicota, outra parenta nossa não sei de que grau, também é guardado até hoje com sentimentalismo.



Um relato impressionante foi o que aconteceu recentemente com a cidade. Uma tromba d’água fez o ribeirão que corta a cidade subir a tal ponto que a casa de D. Nhanhá Dias ficou com o primeiro andar praticamente coberto de água. Dava pra ver a marca deixada pela água nas paredes da casa dela. Uma enxurrada que carregou tudo. Uma tsunami de águas fluviais.



Conversa vai, conversa vem, chegou a hora em que foi aberto o álbum de fotos e feitas as devidas possíveis identificações, depois de vários e proveitosos minutos ela nos ofereceu um cafezinho. Falando nisso, um irmão dela, além da D. Jacira, chegou por lá também. Seu Zizinho – de nome Antônio, se não me engano – veio somar algumas poucas informações.



Eis que tio Marcos pergunta: “Onde é que fica essa pedra de Santa Cruz?”. Eles indicam a direção e seu Zizinho dá sua palavra de que nos levaria até lá. Na saída, - não me recordo bem se foi nesse momento ou na volta, quando o deixamos novamente na casa da irmã, mas eu acho que estou seguindo bem – o prefeito da cidade apareceu para nos cumprimentar. Não tenho idéia da linha política que ele segue, a qual partido ele pertence, mas o prefeito de Santa Cruz do Escalvado apertou a minha mão. A sensação que eu tive foi que simbolicamente ele nos entregou a chave da cidade.



Fomos de carro, acompanhados pelo seu Zizinho, até próximo à pedra do Escalvado, o corcovado de Santa Cruz. No caminho, de chão batido, passamos pelas obras da represa que estava sendo construída devido à tsunami feita pelo rio. Obras também de abertura e alargamento de estradas auxiliares. Já era tempo, a cidade só tem uma estrada que leva até ela. Descemos do carro e tiramos as fotos.



Nossa missão estava quase concluída. Ainda faltava um lugar para ser visitado. A sede do Grupo Escolar, hoje escola municipal, construída sobre supervisão da Dodoge. Era domingo, trinta e um de outubro, dia de segundo turno em Niterói e eu, mamãe e tia Dora tínhamos que justificar o voto. E onde era a sessão eleitoral? Exatamente. Lá mesmo. Não era muito longe – como nada lá é longe, chega a ser uma redundância falar isso; o único ponto distante mesmo era a pedra – da casa da Nhanhá Dias e bem perto da praça da igreja.



Foi só a gente pisar lá que novamente as memórias da tia Dora voltaram. Lembrava dela quando criança de quatro anos ao lado do meu avô num platô mais elevado, no alto de uma escadaria de uma meia dúzia de degraus, jogando balas para as outras crianças. E, como o universo conspirou a nosso favor, uma das três pessoas que lá estavam na sessão eleitoral era a coordenadora da escola, Dona Menininha, de nome Aparecida. Mais papo e trocas. Acho que só a gente apareceu por lá pra justificar voto.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2005

AVENTURAS MINEIRAS (6)



Paramos o carro defronte a uma praça. Deveria ser a praça principal da cidade, visto que no entorno dela havia uma igreja e uma escola e eu não tinha reparado se existia outra maior que aquela. A primeira atitude que tomamos ao chegarmos a Ponte Nova foi a tentativa de contato através de um telefonema com Antônio Gil, primo dos meus tios e filho da tia Mimita, irmã mais velha da minha avó, que vem a ser a madrinha da minha mãe. O telefone dava ocupado constantemente. Resolvemos então ir em busca de um hotel. Havíamos passado na frente de dois, porém só tínhamos percebido um na avenida (ou numa das) principal.



Esse outro imperceptível, quem nos deu a dica dele foi um casal que estava saindo da igreja cujo carro estava estacionado atrás de onde o ‘guerreiro azul’ deu sua descansada. Eles deram essa dica pelo fato do dono ser parente deles. Acatamos a dica e seguimos para o hotel que não era lá grandes coisas. Pra falar a verdade era uma merdinha de hotel que mais parecia de alta rotatividade noturna, mas nada que nos incomodasse devido ao alto nível de cansaço em que nos encontrávamos. Eu e tia Dôra fomos andando. Não era tão longe e queríamos esticar as pernas. Aproveitamos para dar uma olhada nos bares da vida, naqueles que ainda poderiam servir uma boa refeição por àquela hora da noite de um sábado. Dentre os vários pelos quais passamos, o ‘Labareda’ nos chamou a atenção. No entanto, antes, o registro no hotel pra garantir a noite.



A gente logo percebeu que o hotel não era um bom lugar. Na discussão se ficaríamos ou trocaríamos, acabamos ficando. Mesmo por que assim que deitássemos na cama o mundo poderia cair que certamente estaríamos ferrados no sono. Deixamos nossa mala lá, trancamos o quarto e ao deixar a chave na recepção pedimos recomendação ao funcionário sobre qual o lugar em que poderíamos comer. O ‘Labareda’ foi o escolhido. Ainda cogitou-se outro que nem me lembro o nome, mas, segundo ele, o ‘Labareda’ tinha uma comida com tempero caseiro e de melhor qualidade. Foi pra lá que a gente foi sem antes tentar novamente falar com o Antônio Gil. Pedimos a lista telefônica para conferirmos se não tínhamos anotado o número errado ou coisas do tipo. O próprio atendente se ofereceu para procurar e ao saber quem estávamos procurando nos indicou logo a rua onde ele morava. A casa dele ficava a poucos metros do hotel. Ligaríamos para ele depois do jantar.



Fomos comer. Uma comida gostosa, bem temperada, caseira, um primor de comida principalmente para quatro estômagos famintos. Aquela refeição caiu como uma luva. Só tínhamos comido o mágico macarrão da Maggie em Conselheiro Lafaiete até então. Nosso sábado terminou logo depois, quando voltamos para o hotel tomamos um banho relaxante e despencamos na cama. Eu tive um sono pesado, de pedra, mais do que de costume e acredito que minha mãe e meus tios também. Devido à hora avançada o telefonema ficou para o dia seguinte pela manhã antes de voltarmos a Santa Cruz do Escalvado visto que havíamos combinado sobretudo com D. Nhanhá Dias uma visita para a manhã do dia seguinte a fim de recapitular histórias, identificar fotos e etc...



Acordamos. Eu não sou de comer quando acordo, salvo meu copo de leite com achocolatado. Mas em viagens, eu como por não saber a que horas comerei novamente estando em esquema como esse de cada dia dormir num lugar diferente. Quando hospedado na casa de outros, entro no ritmo dos anfitriões. Depois do café regado a sucos, saímos novamente para Santa Cruz não sem antes dar um telefonema para o Antônio Gil e conseguir, finalmente, falar com ele. Perguntou por que não tínhamos falado com ele antes. Explicamos a situação e prometemos que antes de ir para Belo Horizonte passaríamos na casa dele para lhe dar um longo abraço. Santa Cruz do Escalvado, aí fomos nós, novamente, com o companheiro de sempre, o ‘guerreiro azul’.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2005

AVENTURAS MINEIRAS (5)



Apesar de ser sobrinha, minha avó era tratada como filha de uma pessoa revolucionária em Santa Cruz do Escalvado, sobretudo na questão educacional. E em conseqüência disso todos conheciam a tia da minha avó, de nome Georgeta, conhecida por lá como ‘Sá George’ e por aqui como Dodoge. A diferença de idade entre minha avó e essa senhora que cuidava da sacristia da igreja é de uns vinte anos. Mais ou menos a diferença entre ela e uma irmã que morava ali perto. Dona Jacira, nome dela, depois da nossa identificação como parentes da fundadora do grupo escolar, se surpreendeu com tão inesperadas aparições – como todo o resto da cidade, mas ela ainda tinha uma ligação mais afetiva com os fatos por ser uma nativa de mais idade – e após as trocas de algumas palavras, de lá mesmo da sacristia ligou para a irmã dela falando que nós estávamos lá e pedindo para que ela trouxesse uma foto antiga da cidade. Mais precisamente de 1921, ou seja, dois anos antes da minha avó nascer.



Nesse meio termo meu tio Marcos foi no carro pegar um álbum de fotografias onde algumas precisavam de identificação e, provavelmente, os nativos mais velhos poderiam identificar. A missa estava prestes a começar, os missionários e fiéis chegavam e ocupavam suas bancadas na igreja e Dona Jacira tinha que tomar as últimas providências pro início da celebração. Nós, então, a deixamos terminar os preparativos e caminhávamos para fora da igreja quando a própria Dona Jacira se lembrou de nos apresentar a uma outra pessoa, também dos áureos tempos da cidade (lê-se áureos tempos do início da década de 40 pra trás). Já na nossa apresentação como os parentes de ‘Sá George’ a comoção e a alegria tomaram conta da cara dela. Quando minha mãe e tia Dora disseram que eram filhas de minha avó, aí então que ela ficou mais feliz ainda. Mas surpresa maior quem teve foi a tia Dora quando ela disse o nome dela pra gente. Dica Pereira. Tia Dora prontamente disse que a conhecia e ela não desgrudou da mão da minha tia durante um bom tempo.



Relembrou da minha avó, recordava também do meu avô e de alguns fatos que ela não havia esquecido sobre o noivado deles e que pra nós era novidade. Com o anúncio do noivado, Georgeta, auxiliada pela população, fez uma plantação de painas de seda para que na época do casamento já estivessem a ponto de serem colhidas a fim de preencher o travesseiro do casal na noite de núpcias. Outro dado para constar nos autos da família relatado pela Dica Pereira: as ‘meninas’ ajudaram a fazer o enxoval da minha avó bordando crochê nas calcinhas da minha avó.



Imagino que em cidade do interior, principalmente do tamanho de Santa Cruz do Escalvado quarenta anos passados, casamento de quem quer que fosse era uma festa de parar a cidade. Em se tratando da sobrinha da dona do grupo escolar e praticamente educadora de todos os moradores da cidade, devia ser o maior evento do século. A mobilização de todos nos preparativos da festa já era um acontecimento.



Saímos de dentro da igreja, que enchia cada vez mais, e dos domínios da Dica Pereira. Lá fora, tio Marcos folheava o álbum de fotografias para uma outra senhora – cujo nome não me recordo agora – que por sinal era a mãe do prefeito de Santa Cruz do Escalvado. A tal irmã de Dona Jacira se aproximava subindo as escadarias da igreja com a tal foto antiga da cidade na mão. Dona Jacira nos apresenta à irmã dela. Nhanhá Dias é como ela é conhecida na cidade. Aliás, ninguém lá e conhecido por nome e sim por apelido.



Devido à falta de luminosidade suficiente, início da missa, cansaço da viagem e mais outros fatores, combinamos de voltar pra Santa Cruz no dia seguinte já que ainda tínhamos que voltar pra Ponte Nova e procurar um pouso para tomarmos um banho e passarmos a noite. Isso sem contar com a fome que castigava nossos estômagos.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2005

AVENTURAS MINEIRAS (4)



Nunca tive uma experiência com abdução extraterrestre. Contatos imediatos de grau zero com seres verdes de corpos longos e finos e cabeças do tamanho de melancias. No entanto, pelos relatos que a gente ouve em documentários de TV e lê em livros de ficção, acho que a experiência pela qual passamos se aproxima das informações descritas. Não que nós tenhamos feito contato com seres estranhos. No nosso caso, éramos os próprios extraterrestres.



Imagine só um carro como o Fiat uno azul metálico com placa de Guaratinguetá chegando à cidade, parando defronte ao coreto na praça da cidade e dele saindo quatro pessoas absolutamente estranhas ao ambiente da cidade – que mais parece ainda um vilarejo – munidas de máquinas fotográficas, agendas e etc. Ninguém entendeu nada e nos observavam com caras indagadoras. E como novidade em cidade pequena corre mais rápido que rastilho de pólvora, em pouco tempo as pessoas se aproximavam das janelas das casas para ver quem eram aqueles quatro forasteiros que surgiram na cidade.



Ponto de referência para busca de documentos antigos em cidade do interior – e pequena – é a igreja. No momento em que chegamos, ela estava fechada apesar de sermos recebidos ao toque falso de sinos e avisando a população que eram seis horas da tarde. Falsos porque não passava de um alto-falante instalado próximo ao campanário. Valeu a intenção. Havia somente na casa paroquial um senhor que não era de Santa Cruz, e sim de Ponte Nova, que estava lá como missionário trancado pelo padre que, se não me engano, havia saído em procissão com outros missionários já que as missões estavam no fim e a missa de agradecimento pelo término dessas missões seria dali a instantes.



Defronte a igreja havia uma barbearia com duas cadeiras e um barbeiro que pela aparência era provável que em algum momento sua vida tenha cruzado com a vida dos personagens que buscávamos. Minha mãe tentou uma conversa com ele que foi simpático e atencioso, mas não conseguiu tirar muitas informações dele. Resolvemos, então, dar uma volta na cidade e conhecer o lugar onde minha avó passou infância e juventude até ser encontrada pelo meu avô.



Nesse trecho devo, e estaria cometendo uma omissão enorme se esquecesse, destacar e ressaltar a esplêndida e grandiosa memória da minha tia Dora. Não é a primeira vez que ela tinha ido a Santa Cruz do Escalvado. Porém, em sua primeira visita, tinha sido há cinqüenta e seis anos, ou seja, antes mesmo da minha mãe nascer. Não se lembrava de todos os detalhes de sua estadia por lá, apenas os mais importantes e marcantes para uma criança de quatro anos de idade. Tão marcantes que ela sabia do local exato onde ficava a chamada ‘casa grande’ que, a saber, ficava ao lado da também extinta casa do padre. Tudo isso porque ao passar pelo local ela reconheceu uma cerca, que não era a da época, mas tinha o mesmo estilo, que fazia a divisão entre as duas casas. Olhando ao redor, reconheceu também uma fachada que ainda estava de pé onde hoje é o posto policial e nos contou um caso, outro marcante em sua temporada por lá, quando tinha fugido para o velório de um menino que havia morrido aos seis anos de idade e estava sendo velado numa casa ali perto e fugia para comer bolo em outra casa, acho eu – agora é minha memória que está me faltando.



Voltamos e finalmente encontramos a igreja aberta. O mesmo missionário trancado na casa paroquial agora estava prestes a recepcionar os fiéis que estavam pra chegar. Enquanto ele ficava nessa expectativa, nos apontou para uma senhora que estava na sacristia cuidando dos preparativos da missa. Ela sim era nativa e poderia ter informações que poderiam satisfazer nossas curiosidades em relação à vida da minha avó anterior ao casório dela com meu avô. E não é que ela conhecia a minha avó?