segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005

AVENTURAS MINEIRAS (10)

O dia estava quente. Aliás, bastante quente. Provavelmente o dia mais quente da viagem. Fazia é calor, mas enfim, tínhamos que completar nossa jornada. Pra quem nunca foi a Matheus Leme, ou quem não vai lá há muito tempo, a ida leva uma eternidade, muito mais tempo que a volta quando a gente constata que andamos apenas em torno de uma hora. Saímos de BH e passamos por Betim, – famosa pela fábrica da Fiat – Contagem e outros municípios da região metropolitana. Era caminho. Por falar em caminho, nessa pouca mais de uma hora até a chegada a cidade era curioso o que alguns pontos de vendas de beira de estrada faziam. Punham cartazes com os itens dependurados em árvores. Verdadeiros menus a disposição dos motoristas. Pamonha, água de coco, pão com lingüiça, tinha de quase tudo. Passamos por uma fábrica da Ambev também.

A cidade que nunca parecia chegar surge ao nosso lado. A alegria da minha mãe é visível, afinal, 51 anos depois, finalmente, ela vai conhecer a cidade em que nasceu. Entramos na cidade e fomos direto para a praça principal, aquela da igreja e tal. Paramos o carro defronte a uma casa antiga ali e fomos rodar a região. De acordo com a memória da tia Dora muita coisa tinha mudado ali. Construíram até um coreto como extensão da praça, mas era naquela área que minha mãe havia nascido. Perguntamos a algumas senhoras que estavam proseando ali se alguém, por ventura, conhecia, mesmo que de fama, o médico da cidade de meia década passada. Elas nos indicaram fazer visita a uma senhora na casa cujo carro estava parado em frente. Tia Dora se lamentava em não ter às mãos o telefone de contato da Marlene – outra parenta distante da gente – que poderia nos auxiliar em estabelecer contatos mais definidos na cidade. Fomos até a tal casa e batemos à porta. Como o nosso cartão de visitas era a história da família, principalmente a da minha mãe, fomos contando a ela o que estávamos fazendo lá. Não só o estilo de construção da casa, mas os móveis antigos e duradouros me impressionaram. Conversa vai, conversa vem, mais uma descoberta. A anfitriã da casa, D. Edwiges, é irmã da Marlene. Saímos de lá e fomos almoçar num recém inaugurado restaurante que havia há cerca de 50 metros da casa. Esse estabelecimento se localiza exatamente ao lado do terreno, hoje baldio, mas que um dia foi a casa onde minha mãe havia nascido. Da casa, só restaram as jabuticabeiras. Fotos do local, só das árvores. Atrás, passa a linha do trem, cuja estação totalmente abandonada ainda se mantém de pé.

Pra encerrar nossa visita à cidade, só faltava o cemitério. Por ser véspera de finados, estava bastante movimentado pelos coveiros e funcionários. Brincamos de ‘caçadores do tumulo perdido’ onde estão enterradas Leonor, Georgeta e Branca – esta última, minha bisavó. A super memória da tia Dora nos deu a dica que estaria em algum lugar atrás da capela. Depois de vários minutos de busca, eu e tia Dora achamos a tumba devidamente fotografada pelo tio Marcos. Eu estava tentando decifrar que nome estava escrito na placa em alto relevo na cabeceira quando tia Dora viu gravado na louça fria o nome de Branca Marinho Sette e chamou por minha mãe e tio Marcos. Até o coveiro veio nos agradecer pelo achado, já que havia um problema administrativo a ser resolvido. Dissemos a ele que entraríamos em contato com a responsável pela cova, Maria Antonieta, para que ela resolvesse esse problema. Até hoje nem sei se ela foi avisada sobre.

Com chuva desde a região metropolitana de BH, primeiro pelo fato do calor em excesso e depois com uma queda de temperatura, voltamos pra Barbacena chegando no início da noite, comprando já a passagem pro dia seguinte às 10 da manhã e contando as novidades pro pessoal de lá. E dessa vez ficamos por lá mesmo, sem ir pra hotel.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005

AVENTURAS MINEIRAS (9)

Desde o início da viagem, mais precisamente do nosso encontro casual de propósito na parada do ônibus nos arredores de Juiz de Fora, minha mãe sempre falava que durante a nossa incursão queria comer pão com lingüiça de algum jeito. Pois então, só próximo a Belo Horizonte que o desejo dela foi satisfeito. Depois de enfrentar a buraqueira da estrada e chuva em alguns trechos do percurso, – não consigo lembrar se enfrentamos chuvas realmente nessa parte – era preciso abastecer o carro que começava a dar sinais de baixo teor de gasolina, indicado pela luzinha amarela no canto do painel.

Num posto de gasolina de beira de estrada já entrando na região metropolitana de BH paramos para abastecer. Minha mãe pediu para eu perguntar se tinha pão com lingüiça. Tinha. Pra falar a verdade era a especialidade da casa, digamos assim. Uma tripa inteira estava sendo frita na chapa e a gente aproveitou pra comer. O pão era bem guarnecido com as lingüiças que nem chegava a fechar. E como a gente não tinha almoçado e a única coisa que nosso estômago trazia eram as empadinhas do Antônio Gil, acho que nunca uma lingüiça me deu tanto prazer – sem maledicências, por favor – quanto a que estava entre as duas bandas do pão.

Mais alguns minutos dentro do carro e chegamos à capital mineira. O local cuja parada seria a primeira, ou seja, na casa de Maria Antonieta, não ficava muito distante do rodo-anel da cidade. E pra gente que estava buscando as raízes da família, casualmente ela morava praticamente defronte a praça da igreja em que a minha mãe foi batizada. Pra surpresa nossa quem estava lá com ela? Luizinho. Um outro primo nosso (essa família é tão grande que eu só consigo distinguir meus primos de primeiro grau dos outros, ele compõe ‘os outros’) e sobrinho dela. Situando, Maria Antonieta é sobrinha da minha avó, isto é, prima da minha mãe e meus tios.

Paramos pra conversar. A conversa foi rápida. Se a gente considerar a hora em que chegamos, por volta das dez da noite e a hora em que fomos dormir, por volta das duas da manhã foi uma conversa rápida, tal qual com Antônio Gil. Talvez a dele tenha se estendido mais um pouco. Isso sem contar a busca por um hotel pro nosso pernoite entre telefonemas e visitas, que foi só uma mesmo e no hotel que dormimos. Por sinal, a poucos metros de onde mora Maria Antonieta, que deixou de ir aquele dia para a cidade de Formigas com o Luizinho, visitar o Mauro, que se não me engano é irmão dela, só para nos receber e postergou por mais um dia – pra falar a verdade algumas horas de modo que tanto eles quanto a gente iria deixar a cidade pela manhã.

A noite que passamos em Belo Horizonte, em termos de descanso, foi a pior noite que eu passei. Não dormi direito. No café da manhã, no refeitório do hotel descobri que ninguém tinha dormido bem. Sei lá. Segundo tia Dora poderia ter sido a excitação do dia anterior. Afinal não é todo dia que se vai à terra natal da minha avó e se conversa com pessoas que, de certo modo, conviveram com ela, além de visitar os locais como a famosa Pedra do Escalvado e o grupo escolar construído em mutirão sobre a supervisão de Sá George. (Depois da viagem recebi uma foto da época que mostra exatamente como a escola foi erguida, inclusive minha avó está entre as pessoas que fizeram essa tarefa.)

E por falar em terra natal, era a hora de irmos a Matheus Leme, terra natal da minha mãe. Ela só é nascida lá. Se mudou pra Barbacena com poucos meses de idade e desde então não havia colocado os pés nela. Aliás, esse foi o principal motivo dela embarcar nessa turnê; conhecer sua cidade natal.

Terminamos de tomar o café, pegamos nossas malas, pagamos a conta do hotel, fomos até o estacionamento onde estava o carro, cerca de cinqüenta metros do hotel – não chegava nem a isso – e partimos com o objetivo de chegarmos a Matheus Leme

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2005

AVENTURAS MINEIRAS (8)

E depois do resgate de memórias e recordações de histórias sobre o grupo escolar de Santa Cruz do Escalvado e de uma boa e gelada garrafa de água no bar defronte a escola devido ao enorme calor que fazia, voltamos, conforme prometido ao Antônio Gil, para Ponte Nova, para uma rápida visita a ele, já que a estrada nos esperava e consequentemente Belo Horizonte também.

Só um parêntese. Ao sairmos da cidade, ainda na estrada que levava à Santa Cruz, um comentário da tia Dora complementado por tio Marcos me fez gargalhar. Tia Dora comentava sobre a igreja, dizendo que ela não era tão grande quando ela esteve lá há cinqüenta e seis anos. Segundo ela, o altar não ficava distante da porta central da igreja. Que com a reforma ela foi estendida nas duas pontas. De acordo com tio Marcos, a parte que permaneceu foi a metade do meio. Ora se é metade é do meio. Feitos e entendidos as devidas explicações, a crise de riso me atacou.
Apesar de ele e a Lúcia, sua esposa, serem médicos, a nossa visita não foi tão rápida assim, como supúnhamos que iria ser. O dia estava quente sim, mas a tarde ficou mais agradável e o local onde fica a casa dele não insidia o calor que pegamos em Santa Cruz do Escalvado. Conforme o sol foi baixando o calor foi amenizando.

Como bom parente mineiro distante, a recepção foi calorosa. Eu só sabia dele através das visitas feitas para a madrinha da minha mãe, casualmente mãe dele também, quando ela relatava o que ele estava fazendo, como estava a família dele, etc. Não lembrava de tê-lo visto em outra ocasião. Alias, ele, minha mãe e meus tios não se viam há tempos. Há muito tempo. De sunga e sandália de dedos, ele aparece no portão da casa nos guiando, já que estávamos perdidos, porém praticamente defronte a residência, procurando o endereço.

Engraçado também foi ele apresentando os cachorros. Um pastor belga e um labrador. Se ele é Gil, um cachorro é o Chico e outro o Caetano. Brincalhão, com um senso de humor ótimo, Antônio Gil tem a marca da família, um espírito leve, pra cima e acolhedor. Não estou depreciando outros membros da família que não demonstram isso, mas nele essas características se sobressaem mais. Foi uma tarde agradabilíssima e o fim dessa reunião ‘íntima e informal’ me deu a certeza de que não será uma constante os nossos encontros com ele, mas todos serão executados no mesmo estilo que esse.

Lá pelas cinco da tarde nós fomos embora. Tínhamos que chegar em Belo Horizonte ainda naquele dia, pois já tínhamos avisado para a Maria Antonieta, outra prima – sobrinha da minha avó – ainda lá em Santa Cruz do Escalvado que chegaríamos lá à noite para outra roda de conversa. Uma das características de Minas é essa, a conversa, o papo agradável geralmente em torno da mesa farta. Não era o caso do Antônio Gil, mas também alguém tinha que ser a exceção e ele é a personificação da exceção em se tratando desse conceito. Mas vocês não têm noção das empadinhas que nós comemos lá. Teve fartura sim, e fartura de empadinhas.

A estrada, já falei aí pra trás, estava horrível. Talvez essa tenha sido a pior de todas porque além dos vários e seqüentes buracos, a sinalização era quase inexistente. Quase por que ainda havia, em alguns trechos, resquícios de tinta no asfalto indicando que algum dia já teve uma faixa de sinalização e as placas que estavam inteiras, em sua grande maioria estavam mal conservadas ou escondidas atrás de matos altos. E, para complicar um pouco mais, uma chuva caiu de modo que o instinto e a experiência como piloto do tio Marcos falou mais alto. Sem contar que praticamente atingimos o céu. O que a gente subiu por aquela estrada foi uma coisa de louco. E tem gente que ainda faz questão de ir pro Aconcágua ou pro Himalaia. Se o Pico da Neblina é o ponto mais alto do Brasil, aquela estrada deve passar pelo ponto mais alto do estado de Minas.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2005

COISAS DO CARNAVAL



A Tradição caiu. Não falo somente da escola de samba que no próximo ano desfila no grupo de acesso, conforme previsão feita por mim na última postagem. Escolas das mais tradicionais do carnaval carioca estão em maré de má-sorte. O Império Serrano, que ano passado reeditou o samba Aquarela Brasileira conquistando o nono lugar esse ano caiu para décima segunda posição. A Portela que ficou em sétimo no ano passado também por ter reeditado o samba Lendas e Mistérios da Amazônia enfrentou uma série de problemas esse ano que refletiu no seu desempenho na avenida. Definições tardias no quadro deliberativo da escola, verba apenas seis meses antes do carnaval, um incêndio no barracão destruindo o carro abre alas na véspera do desfile, a águia rapidamente reconstruída desfilando sem asas, a quebra do último carro que traria a velha guarda da escola e o impedimento da mesma em desfilar mesmo que no chão acometeu a escola de uma queda brusca para a lanterninha do ranking.



Por outro lado, a dobradinha Beija-Flor e Tijuca mais uma vez deu certo. Dessa vez, ao invés de oito a diferença foi de apenas um décimo. A escola de Nilópolis precisa se cuidar mais no próximo carnaval. A Grande Rio de um conturbado carnaval ano passado onde ficou em décimo, volta a ocupar a terceira posição também dela no ano retrasado. A imperatriz sobe uma posição, de quinto para quarto e em quinto fica o Salgueiro que também ficou atrás da Imperatriz no ano passado. A Mangueira de terceiro caiu para sexto. Em sétimo e oitavo, tal qual o primeiro e segundo lugares, ou seja, por uma diferença mínima ficaram a Porto da Pedra que reeditou o samba Festa Profana da Ilha e a Viradouro que pela primeira vez desde o ano em que ganhou o campeonato em 1997 não voltará para o desfile das campeãs, mais uma vez caindo a tradição. Não acho que a Viradouro merecesse ganhar, apesar de sempre torcer pra ela a, mas pelo desfile que ela apresentou, apesar do problema do carro quebrado, pelo menos entre as seis primeiras creio que ela deveria estar.



Meu carnaval começou na quinta com dose dupla. Dos Escravos da Mauá fui direto para o último ensaio da Viradouro. Na sexta, para não extravasar muito, acompanhei o bloco Dominó aqui pelas ruas da vizinhança. Mantendo a tradição carnavalesca desde 1918 o Cordão do Bola Preta arrastou muita gente pelas ruas do centro do Rio. As estimativas ficaram entre oitenta e cento e vinte mil pessoas, mas é muito bom. Pela primeira vez fui conferir esse ano e freqüentarei todos os demais possíveis. À noite, a diversão ficou por conta do desfile do grupo de acesso na Sapucaí. Puxei o grito de é campeã para a Ilha, mas também gostei da Rocinha que passou depois e falei que o campeonato estava entre as duas. A Rocinha levou. O Domingo não foi muito produtivo em termos de folia. Foi aniversário do meu primo Pedro e fomos até Ipanema por volta das oito da noite pra ver se ainda tinha alguma coisa lá, tipo o finalzinho do ‘Simpatia é quase amor’ ou do ‘Que merda é essa’. De acordo com a programação às nove da noite teria o bloco ‘Empolga as nove’, mas deu nove e meia e não tinha nada que empolgasse de vez. Só uma meia dúzia de gatos pingados que faziam uma batucada lá, mas acabaram com ela as nove e meia e mais nada aconteceu. Na segunda fomos ao tradicional Bloco de Segunda, na Cobal. Um dos melhores blocos do Rio e esse ano considerado um dos mais cheios também, com estimativa de quatro mil pessoas. Eu nem o acompanhei até o fim. Saímos antes. Domingo e segunda ainda dá pra se ver os desfiles, mas e terça? Tem alguns blocos ainda que saem por aí, mas eu não fui atrás de nenhum deles. Em compensação tive um convite para ir no baile do Clube do Bola Preta e me diverti muito. O carnaval foi fechado com chave de ouro. Ainda tem alguns blocos até o fim de semana, mas até lá eu penso se vou ou não.



Em tempo: ano que vem o carnaval cai no último dia do mês, a melhor época.