segunda-feira, 28 de março de 2005

MORRE UMA ESTRELA

Uma notícia me deixou estarrecido no início desse ano. Boa parte da minha infância e certamente da infância de muita gente da minha faixa etária ou não está prestes a fechar. A Estrela, fábrica de sonhos de muitas crianças, pediu sua falência. Há muito o brilho dela não era tão intenso como, por exemplo, nos áureos tempos em que um brinquedo era fundamental para mim, mas daí a se apagar para sempre é de tocar o coração.

Como dizia a propaganda dela própria, ‘todo segredo de um brinquedo vive na nossa emoção e toda criança tem uma estrela dentro do coração.’ Infelizmente não terão mais. A (de)cadencia da Estrela vem sendo notada na falta de novos lançamentos de brinquedos, principalmente em épocas mais apelativas para o consumo dos mesmos no Natal ou no dia das crianças, e na cessão do licenciamento e comercialização de vários de seus brinquedos para outras marcas. Produtos que hoje estão associados com apresentadores de tv, como a pipoqueira da Eliana, já fizeram parte do rol da Estrela.

A exceção dos bonequinhos de Playmobil, os quais tinha em grande quantidade, meus natais e aniversários eram uma constelação só. Além de vários jogos – Jogo da Vida, Detetive, Cara a Cara – eu tinha também a coleção completa dos ‘Super Powers’, os super heróis que formavam a minha ‘Liga da Justiça’ particular. Desde Super-Homem, Batman e Robin, Mulher Maravilha até os menos requisitados Homem Elástico, Lanterna Verde e Homem Pássaro. O mecanismo deles consistia em pressionar as pernas para mexerem os braços. Poucos funcionavam ao contrário. Não tenho certeza de que eles foram os meus últimos contatos com a Estrela, mas não lembro de brinquedos posteriores a esse que eu tenha ganhado sabendo que a possibilidade era grande. Depois dessa coleção, meus interesses se voltaram para outros ramos.

Todos os nossos brinquedos foram repassados para outras pessoas. Essa minha coleção, por exemplo, dei para um primo meu, criança na época. De todos, o único que mantenho, apesar de não estar pleno das suas funções mecânicas, porém completo em suas peças, é o Ferrorama. Dele, não me desfaço. A não ser que por ventura encontre um colecionador que esteja disposto a desembolsar uma boa quantia em dinheiro e tenha um argumento convincente para que eu possa aceitar a grana que me oferecer.
Pode ser que o que eu diga agora seja um clichê, mas a minha infância não poderia ter sido melhor. A geração anterior a minha fala o mesmo, e a posterior provavelmente falará também. No entanto, as pessoas com idade entre vinte e cinco e trinta e poucos anos, não têm do que se queixar. Além dos brinquedos, e muitos da Estrela, que nos divertiam em sua grande maioria ensinando e educando, os desenhos animados, (Pica-pau, Tom e Jerry, Corrida Maluca...) os programas infantis, (Balão Mágico, Arca de Noé, Sítio do Pica-pau Amarelo, Bozo...) os discos – na época ainda feitos de vinil – contando as histórias com o toque do João de Barro, o Braguinha e as brincadeiras saudáveis que visavam uma competição sadia e uma relação de respeito, solidariedade e confraternização, infelizmente estão se perdendo com o avanço da tecnologia e a queda na qualidade da educação. Ia enumerar também a violência, porém, seria o estopim para a discussão sobre se isso tudo é causa ou conseqüência da violência.

Bem, voltando à defesa de a minha infância ser a melhor é que a minha geração pegou e acompanhou mais de perto toda a transição da tecnologia. Do vinil para CD, da máquina de escrever para o computador que também faz vês de máquina de escrever, da longa e demorada pesquisa em livros de bibliotecas para a rápida busca na internet, enfim, da água pro vinho. Mas, sobretudo, sempre guardando e cativando a estrela de nossos corações acesa, ao contrário da (de)cadência da fábrica de alguns sonhos nossos.

terça-feira, 22 de março de 2005

PS do PS
Tia Tania me ligou hoje a respeito da correção da frase do poetinha. Segundo ela é assim: “Filhos, melhor não tê-los, mas se não temos como sabê-lo."

segunda-feira, 21 de março de 2005

GLOBAL

Você acredita em acaso? Se sua resposta for negativa pode considerar esse relato como destino, apesar de achar essa palavra muito forte e pretensiosa para o fato que vou descrever.

Estava eu deitado na cama da minha mãe, na tarde de 25 de novembro do ano passado, tentando absorver alguma coisa da matéria de estatística – que tendo como base a matemática não é o meu forte, mesmo gostando um pouco dela – daquele abominável curso do ‘circo de pulgas’, quando meu tio Rui me liga dizendo que havia me mandado um male com os telefones de uma pessoa que estava recrutando gente para fazer elenco de figuração da novela das 8 que estreou agora, América. Para minha segurança, ele mesmo ligou para essa pessoa, de nome Alexandra McGregor, e confirmou as informações comunicando a ela que o filho dele – nessas horas eu troco de pai – entraria em contato com ela para se apresentar, visto que as características necessárias eram ser alto e se fazer passar por um americano. O telefone dela estava no mail que eu ainda não tinha visto e que também foi encaminhado para minha tia Tania. Detalhe: 25 de novembro é aniversário dela.

Se ele só tivesse me repassado o mail e não tivesse tido essa preocupação toda, na certa eu o apagaria sem titubear, mas, como ele já tinha falado com ela, liguei e para um pouco de desespero meu ela atendeu. Disse que estava ocupada naquele momento e que retornaria a ligação mais tarde para me passar maiores detalhes.

Fui pra casa da tia Tania sem resposta nenhuma. Comentei o fato com ela que não teve o mesmo êxito que eu, até mesmo pelas suas atribulações naquele dia. Pensei com meus botões e estabeleci o 3 como o número limite para contatos com a minha iniciativa, de modo que o primeiro já tinha sido estabelecido. No sábado à noite, na volta de outra comemoração do aniversário da tia Tania, no Icaraí Praia Clube, onde se realizou uma roda de samba e choro, tentei pela segunda vez mandando um torpedo para o celular da Alexandra falando sobre o assunto. Terça-feira a tarde insistiria pela terceira e última vez.

Descobrindo telepaticamente minhas intenções, ela me liga na terça pela manhã, atrapalhando – graças a Deus – a sacal aula de Direito Comercial. Me passou um endereço na Barra da Tijuca e pediu para que eu estivesse lá na quinta às 2 horas da tarde para fazer o meu cadastro na agência. Liguei pra tia Tania e ele disse que iria também, que apesar de não ter o perfil exigido poderia servir para outras produções adequadas às características delas.

Fomos lá. Na quinta-feira seguinte, dia 2 de dezembro, exatamente uma semana depois do nosso primeiro contato, finalmente conheci a Alexandra. Preenchi uma ficha, tirei uma foto, ela confirmou o meu telefone e saímos de lá. Eu fui preparado para passar o dia todo lá, mas não demoramos 15 minutos.

Passou o Natal, veio o ano novo, me esbaldei no carnaval e tinha esquecido completamente de que poderia haver a possibilidade de ser figurante de novela, aliás, pra ser sincero, saí do escritório da agência dizendo que nem adiantava me preocupar que eu não seria selecionado e foi o que eu fiz.

Não é que na terça feira, dia 15 de fevereiro, a Alexandra me liga novamente? Perguntou se eu ainda topava fazer a figuração e minha disponibilidade de horário. Respondi a ela que sim e que preferencialmente à tarde, mas nada impedia uma convocação extraordinária para uma manhã ou uma noite, por exemplo. Replicando minha resposta disse que até o fim do mês de fevereiro a agência me ligaria. No dia 2 me ligam pedindo para que eu estivesse no Projac no dia seguinte para gravar. Mudança de planos e minha primeira participação foi na minissérie Mad Maria que está entrando em sua última semana de exibição.

PS - A respeito da última postagem errei, segundo tia Tania, nos dizeres do poetinha. Ela me mandou o mail com a frase correta, mas, num descuido meu, deletei e agora não sei qual é a frase certa.

segunda-feira, 14 de março de 2005

CRIANÇA FELIZ?

Faz algum tempo, eu ainda fazia bico de professor de inglês numa escola primária, eu presenciei uma cena que de vez em quando eu paro pra pensar. Geralmente as mães choram ao verem seus filhos se apresentando em alguma festividade escolar, tipo dia das mães ou celebração de fim de ano, por exemplo. A situação que eu vi foi de encontro a essa regra e a mãe chorou pelo fato do seu filho se rebelar e não ter participado da apresentação de sua turminha.

O motivo dele não querer se exibir juntamente com os outros certamente não condizem com a minha opinião que é justamente a discussão que estou propondo. Porém, vamos supor que o menino não quis participar pelo fato de achar ridícula aquela exposição. No mundo de hoje, uma criança com 9, 10 anos já sabe discernir, principalmente nessa fase pré-adolescente, o que ele acha bacana e o que é o chamado ‘mico’. A chave da questão é quem está errado nesse caso? O filho, por não querer participar daquela palhaçada, ou a mãe, por estar na expectativa de que ele participe normalmente, como todos os outros amiguinhos da turma? Será que aquele momento é tão importante pra ela a ponto dela se decepcionar com a criança?

Quando é pequena, até concordo que a criança faça o papel ridículo de ‘margaridinha do jardim da tia Juju’ na comemoração da primavera. É bonitinho, é engraçadinho e pela pouca idade ela não tem noção do que está se passando naquele momento. Mas a partir de uma certa idade, principalmente depois da alfabetização, a criança já começa a ver as coisas com outros olhos. Claro que aos 6 anos, que é a idade média de aprender a ler e escrever, ela não tem uma formação a ponto de expressar sua opinião e falar que não quer e ponto.

Alguns de vocês podem não concordar quando eu chamo essas apresentações de palhaçada, mas é exatamente o que eu acho. Do mesmo jeito que deveriam ser proibidas as crenças em seres imaginários como o coelhinho da páscoa e Papai Noel. O certo é saber, conhecer a história tanto desses dois exemplos quanto dos outros que não tem o mesmo marketing em cima como as lendas do folclore mula-sem-cabeça, o boto, boitatá, curupira e outros não tão nacionais como lobisomens, vampiros, bruxas e duendes.

Papai Noel nunca existiu como ele é apresentado hoje em dia e o coelhinho da páscoa não passa de uma simbologia. Fazer uma criança acreditar nisso é nutrir nela expectativas que com o tempo se desconstroem e além da decepção ser grande, aquela fantasia toda que floreia o imaginário infantil acaba por despencar como um verdadeiro castelo de cartas. Creio que nenhum responsável gosta de ser visto como um mentiroso pelo seu próprio filho. E, se as explicações para tal são as convenções sociais, que elas sejam esquecidas ou revertidas. Essas mesmas convenções que forçam a crença num ser eterno e velho são as que levaram o Natal, a Páscoa a se transformarem estritamente em comerciais deixando de lado o verdadeiro significado de suas comemorações. Isso sem contar as outras datas tipo dia das mães, pais e, porque não, o próprio dia das crianças, por exemplo.

Criança deve ter liberdade total dentro dos limites impostos pelos pais e sua criação deve ser a mais transparente e verdadeira possível incluindo essas revelações bombásticas. Ela ainda leva a vantagem da sinceridade inocente em cada fala pronunciada. Assim, o mundo provavelmente se encaminharia para ser menos hipócrita, menos mentiroso e consequentemente menos violento, por mais que a verdade doesse para alguns. As transformações do mundo atingem a infância, mas isso é outro papo.

O poetinha era quem estava certo mesmo: “Filhos, melhor não tê-los, mas se tê-los, como sabê-los.”

segunda-feira, 7 de março de 2005

ABAIXOU POEIRA

Agora que a brasa das cinzas acabou, vamos discutir as especulações que começaram a circular por aí e, consequentemente, o futuro do carnaval. Da campeã, Beija-Flor, a comissão de carnaval pode ser desfalcada ou até mesmo desconstituída. Um dos integrantes, Cid Carvalho, a princípio, teve seu dia de piti. Não há nada de concreto ainda, mas, caso a saída dele se concretize, haverá um abalo grande em time que está ganhando ou sendo vice desde 1998.

Pelas bandas de cá, o carnavalesco Mauro Quintaes, há 3 anos assinando os desfiles da Viradouro, está prestes a ser destituído do cargo. Tendo suas posições respectivamente em 6º, 4º e 8º lugares, dificilmente, o que não significa que esse quadro não possa ser revertido, ele virá a frente da escola em 2006. As opções seriam Renato Lage, que renovou com o Salgueiro e o Max Lopes que fez o polêmico carnaval mangueirense esse ano. Caso ele retorne à Viradouro ressurge também a idéia da releitura do enredo sobre os ciganos, assinado por ele próprio em 92, 2º ano da escola no grupo especial, e que fatidicamente pegou fogo num carro alegórico na avenida, fazendo com que a escola perdesse 13 pontos e mesmo assim conseguindo o 8º lugar daquele ano. Boatos de que o Dominguinhos e o Ciça, mestre de bateria, iriam sair, foram espalhados, porém, para o bem de todos e felicidade geral de Niterói, os dois renovaram seus contratos.

E por falar em renovação, outro que se fixou foi o surpreendente Paulo Barros. Na Tijuca novamente ano que vem ele é responsável por uma nova tendência para os desfiles das escolas de samba que pode descaracterizar mais ainda o carnaval. Todos ficaram boquiabertos ao verem o tão falado carro do DNA em 2004 com mais de 100 pessoas fazendo uma coreografia que dava vida e beleza a alegoria e, como nada se cria e tudo se copia inclusive no carnaval, várias escolas fizeram o mesmo esse ano. No entanto, novamente surpreendendo, esse ano ele fez isso com praticamente todos os carros alegóricos. Estudiosos e palpiteiros andam dizendo que essa é a nova tendência do carnaval, que o Paulo Barros revolucionou os desfiles, que ele é o nome que aparece depois de Joãosinho 30 e etc... A única vantagem que eu vejo nesse tipo de apresentação é que como ferro e homem interagem, a elaboração e montagem das alegorias é muito mais simples e, consequentemente, barata de modo que a verba restante pode ser distribuída por outros setores da escola.

Folião que é folião gosta de brincar e os desfiles estão a cada ano mais sérios. Primeiro que está mais parecido com desfile militar visto que há uma formação onde cada componente tem o seu metro quadrado – principalmente os que ficam nas primeiras filas das alas – e evolui nesse espaço, mas, ao menos, brinca. E com essa nova tendência de carros e alas coreografadas não existe a brincadeira, essência fundamental do carnaval. Impera a preocupação em não errar a coreografia e com isso não se aproveita do desfile. A plástica do espetáculo em um nível de hierarquia está na frente da alegria do componente.

Se essa tendência sair dos parâmetros de tendência para se tornar via de regra, as agremiações se tornarão grandes companhias teatrais e de dança que apresentarão seus espetáculos uma vez ao ano. A iluminação do sambódromo com aqueles canhões e holofotes superpotentes apontados para o céu e visto de várias partes do Rio e até mesmo da janela daqui de casa já é afinada para tal.

Outro comentário surgido nesse hiato de tempo foi a fixação de datas para os desfiles sempre no final do mês de fevereiro independentemente do feriado. Se o carnaval está sendo descaracterizado em dias de folia, fora de época, mesmo que próximo da data, apesar dos desfiles característicos, não será mais carnaval.