segunda-feira, 25 de abril de 2005

BENTO XVI

No início era a fumaça. Não se sabia bem se branca ou preta. Uma fumaça grisalha. Provavelmente por ainda ter alguns componentes químicos que a deixavam preta. Até que a dúvida foi esclarecida cerca de dez minutos depois, quando os sinos do Vaticano badalavam o resultado da votação dos cardeais anunciando um novo papa, na última terça-feira. A praça de São Pedro ficou lotada novamente, dessa vez por um motivo bom. As atenções do mundo se voltaram para uma sacada onde seria anunciado e apresentado à população o substituto de João Paulo Segundo.

Depois veio o cardeal anunciar o ‘habemus papa’. Após o terceiro pontificado mais longo da história, - João Paulo Segundo só perdeu para São Pedro e para, se não me engano, João XXIII, o alemão Joseph Ratzinger foi escolhido a melhor pessoa para conduzir a igreja católica e suceder João de Deus. Braço direito de Karol Wojtyla, tentou se afastar por diversas vezes sendo sempre impedido pelo próprio papa.

Por mais eufórico que o povo estivesse, e com razão, na primeira aparição pública como papa, Ratzinger não me transmitiu a mesma popularidade que o último papa deixava transparecer. Aos setenta e oito anos, completados três dias antes de se tornar papa, Ratzinger quis adotar o nome de Bento XVI. O último Bento, o XV, comandou a igreja na época da primeira guerra mundial. De acordo com a tradição, ao se adotar o nome, adota-se também a linha de conduta do antecessor do nome.

Adotar o nome de João Paulo Terceiro seria uma afronta à memória recente, ao pouco mais de vinte e seis anos de papado. Quanto ao nome Bento XVI, não sei qual foi linha adotada pelo Bento anterior, no entanto, a linha adotada por Ratzinger é a mesma que do seu antecessor João Paulo Segundo. Das duas, uma: ou ele faz o que pretende fazer, ou seja, manter o legado de João de Deus, ou começar a dirigir a igreja para uma frente menos conservadora, mais liberal, menos secular e mais aberta ao mundo contemporâneo. Bento XVI escolheu a primeira, não só pela força que essa corrente tomou com Wojtyla, mas, principalmente, por ser o braço direito do próprio papa. Tanto é que manteve praticamente a mesma equipe que auxiliava seu antecessor de papado.

Bento XVI, ao se aceitar como papa, tem vinte anos a mais que João Paulo Segundo. Considero isso como sendo mais um sinal. Sinal de que o papado de Ratzinger não será longo, ao menos aparentemente. Serão sete anos para igualar, em idade, a Wojtyla.

Numa das minhas previsões pessoais, confesso que errei. Achava que a igreja voltaria a ser comandada por um italiano. Porém, vendo a história episcopal de Bento XVI (um cardeal tem história episcopal ou eu acabo de inventar um neologismo?) e a história recente do mundo na qual João Paulo Segundo teve um papel de destaque, qualquer europeu que sentar no trono de Pedro será bem vindo e qualquer não europeu que se apossar temporariamente dele será uma surpresa.

A partir de agora, passada todas as cerimônias de posse, agradecimento e ritos de passagens, Bento XVI vai encarar seu maior desafio. O primeiro contato com o público, depois do anúncio, foi hoje. Agora que começará a ser construída uma identidade entre o novo papa e os seguidores da igreja católica, por mais mantenedor que ele seja em relação ao legado deixado por João de Deus.

Uma coisa é manter o legado do seu antecessor, outra coisa é querer se fazer passar pelo papa, tentar imitá-lo para ver se consegue o mesmo clamor popular, o mesmo êxito, o mesmo apelo que o outro tinha. Ratzinger tem que tomar bastante cuidado nesse seu início de papado para, mesmo que não tenha tal apelo, pegar uma confiança dos fiéis. Garantir a eles que a pegada na mão de Deus continua sendo segura e mesmo sem João Paulo II continuarão seguindo sempre e confortavelmente com Deus.

segunda-feira, 18 de abril de 2005

POLÊMICA

Já faz algum tempo que a discussão da eutanásia está em evidência. Começando no cinema, com os filmes ‘Invasões Bárbaras’ e os ganhadores do Oscar ‘Menina de Ouro’ e ‘Mar adentro’, e se destacando ao máximo com o caso da Terri Schiavo que se encontrava em estado vegetativo há quinze anos e morreu dias antes do papa. Segundo o noticiário ela ficou nesse estado ao sofrer um acidente provocando o pouco fluxo de oxigênio no cérebro dela.

Pegando a história da americana como referência, houve uma discussão que segregou a família dela com os pais lutando pela sobrevivência da filha e o marido querendo diminuir o sofrimento dela com a morte. Uma tentativa de interferência do governo foi mal sucedida quanto ao caso específico. Não adiantou de nada. O tubo de alimentação dela foi desligado e depois de quase quinze dias ela morreu de fome.

Não acho que a morte dela foi digna, afinal, no fundo, apesar de todas as complicações, foi de fome que ela morreu. Não há confirmação de que ela tenha expressado essa vontade. Por causa da divisão da família e, por conseqüência, de todo o país, uma parte disse que ela tinha dito e outra garante que ela não disse. Ficou o dito pelo não dito e a justiça concedeu ao marido o direito de intervir na vida da esposa desligando os aparelhos. Isso por que se apenas fosse aplicado uma injeção letal, por exemplo, a versão já seria a de crime.

Debates e discussões nos diversos meios de comunicação assuntaram sobre o caso. De acordo com o bom senso, pelo menos dos que eu assisti, as pessoas concordavam que em acontecendo com elas mesmas, a melhor decisão seria a morte. Já com um parente próximo seria preciso pensar mais.

Por outro lado, o famoso filme de Pedro Almodóvar ‘Fale com ela’, sustenta outra tese. No enredo, um enfermeiro cuida vários anos de uma paciente em coma, ou seja, inconsciente, até que a paixão floresce, ele a engravida e é preso por isso. Supôs-se que a gestação a trouxe de volta para a normalidade da vida.

Podem me condenar, me apedrejar por isso, mas a minha modesta e humilde opinião é que qualquer pessoa que estiver em estado irreversível, situação crônica e não tem uma vida normal, que possa ser vivida em sua plenitude, deve optar pela seção da vida. Se ela não tiver a normalidade das faculdades mentais, a família tem que chegar num consenso e verificar se vale a pena manter a pessoa viva e conectada a aparelhos, se esse sofrimento para o paciente é viável, e, principalmente, se o plano de saúde sustenta a pessoa naquele estado.

Se for pelo Sistema Único de Saúde, corre o risco de morrer na fila mesmo. O governo brasileiro cogitou em selecionar pacientes que para se tratar e unidades de terapia intensiva deveria ter chances de reversão do quadro clínico. Os que não tiverem jeito morreriam. Mais uma polêmica causada, mais brados contra e por fim, o governo voltou atrás.

Pra encerrar o assunto, com toda essa crise da saúde que há um mês estourou na cidade do Rio, tendo o governo federal que intervir e convocar exército e marinha para instalarem seus hospitais de campanha, reparei que as filas de atendimento no início eram enormes e constatei dois motivos plausíveis para tal feito. O primeiro é que o povo é especialista em filas. Tem fila, entra atrás. Às vezes não sabe nem o motivo da formação dela. Fila é mesmo com povo brasileiro. O segundo é a ida ao médico por qualquer dorzinha. Uma unha encravada é motivo de ir ao médico, uma fisgada na panturrilha, por exemplo, pode ser um grava indício de asma. Umas coisas sem nexo, sem noção. Não é recomendada a auto-medicação, mas ir ao médico por qualquer motivo também não é cabível. Afinal, de médico e louco todos nós temos um pouco.

segunda-feira, 11 de abril de 2005

CADÊ A ROSINHA?

Essa semana ela estava lá, na catedral metropolitana, numa missa em intenção a alma do sumo pontífice. Apesar de ser evangélica, em respeito ao chefe supremo da igreja católica teve uma atitude sensata. Uma das poucas ultimamente. Aliás, ultimamente ela não tem aparecido. Por que será? O que a governadora anda fazendo as escondidas que ninguém sabe? Por que às claras percebe-se o que ela faz.

Tenho a impressão de que até a imprensa deu uma maneirada nas merecidas caceteadas que costuma dar nas atitudes que ela toma frequentemente. Mas o fato é que ela está sumida. O que fazer para ela aparecer mais entre a população? Não dizem que todo artista deve ir onde o povo está? E política não é uma arte? No entanto, por outro lado, se ela não for onde o povo está, ela não sabe o que está acontecendo e não toma atitudes típicas de uma populista.

Eu, cá com os meus botões, vou tentar dar várias sugestões de fazer com que a governadora do estado faça mais aparições e não fique apenas confabulando trancafiada nas torres do Palácio Guanabara, em Laranjeiras.

Há pouco tempo, foi divulgada uma pesquisa do IBGE dizendo que a população brasileira estava acima do peso – pra não dizer gorda. Pensei então em sugerir à nossa governadora pensar num projeto de uma academia a um real. O que as pessoas engordam nas refeições de mesmo preço, emagrecem na academia. Poderia se até incluso no orçamento da secretaria de saúde. Provavelmente na inauguração de uma academia a um real ela faria questão de aparecer para cerrar a placa.
Mas, e se a Rosinha não for?

Outro projeto que estive pensando em propor, agora mais ligado a secretaria do meio ambiente, é o projeto muda a um real. Ajuda a diminuir um pouco a poluição das ruas, sobretudo se cada habitante do estado tiver a responsabilidade de cuidar de uma muda de planta que futuramente se transforma numa frondosa árvore. Que tal? Rosinha inaugurar o Muda a um real? Será que nesse ela vai?
Mas, e se a Rosinha não for?

Cabeça a um real. Barbeiros e cabeleireiros estejam dispostos e aptos a pegar na cabeça da população do estado do rio. Cortes, chapinhas, permanentes, luzes, reflexos, barba e por mais um real a feitura dos pés e das mãos. Essa é boa. Salão de beleza a um real. Não iria ter salão suficiente pra comportar todo mundo que vai a uma festa no fim de semana, nem que seja informal, tipo um churrasco com molho e farofa. Visualizo a apresentação do projeto com um mutirão de cabeleireiros e manicuras nos jardins do palácio, atendendo a fila interminável de transeuntes que às vezes entram em rabeira de fila sem saber pra qual finalidade. Na residência oficial ela não vai se dar ao luxo de não comparecer. Ou vai? Lá ela aparece.
Mas, e se a Rosinha não for?

Recapitulando, já temos comida a um real, remédio a um real, torcida a um real, balé a um real... Tá, mas e o resto? De que adianta o preço simbólico em algumas coisas se a educação não melhora. Professores continuam ganhando mal, as instalações escolares mais precárias do que nunca e a qualidade da educação a níveis baixíssimos. Se a saúde está praticamente morta, já que nem tratamento intensivo e decente recebe. Se a segurança não cumpre seu papel de assegurar a tranqüilidade e paz da população, em alguns casos invertendo os valores, como a gente constatou na recente chacina de trinta pessoas em Nova Iguaçu, repetindo a história de Vigário Geral. Cadê a Rosinha? Qual a posição dela perante o caso? O que ela disse?

Acho que o mínimo que ela deveria fazer é ir aos enterros ou cerimônias ecumênicas em memória dessas pessoas também. Mas, e se a Rosinha não for?

segunda-feira, 4 de abril de 2005

O PAPA É POP

Eu cheguei a começar a escrever esse texto e iria postar no mês passado, mas, devido às circunstâncias, não o concluí. Pelo contrário, deletei as poucas linhas que já havia escrito. Hoje a situação é diferente. A notícia da morte do papa no último sábado nos comoveu. Depois de várias tentativas de recuperação da sua saúde já debilitada e pela idade avançada ele não agüentou.

Poderia ter dito que ele não tinha resistido mais, mas resistência era o forte dele. Resistiu até o fim da vida. Tanto no aspecto saudável como na maneira em que ele encarava e conduzia a própria igreja.

Desde que eu me entendo por gente, ele era quem guardava as chaves da Basílica de São Pedro. Seu papado durou praticamente a minha vida até agora e eu, quando criança, via nele uma imagem de avô bonzinho. Com o passar do tempo eu fui crescendo, o mundo foi mudando e ele estava lá, firme e forte, fazendo valer suas convicções enquanto chefe supremo da igreja católica e chefe de estado do Vaticano, negociando a paz em regiões de conflitos e deixando suas opiniões em todos os acontecimentos de proporções mundiais, sejam atentados feitos pelo próprio homem em virtude de um pensamento político e ideológico ou catástrofes da natureza.

Um tiro, que parece que era o terceiro segredo de Fátima, operações, mal de Parkinson, operações e agora no final, como tentativas derradeiras de restabelecimento, uma traqueostomia e uma sonda alimentar. Ele resistiu a tudo como e quanto pôde resistir.

É inegável que João de Deus tinha uma forte presença e era respeitado por todos de qualquer religião e mesmo dos católicos que não concordam com certas posições polêmicas defendidas com veemência por ele e consequentemente pela igreja, tais quais os métodos contraceptivos e o uso da camisinha, por exemplo. Creio que nenhum outro papa, quem quer que seja, terá a mesma popularidade, o mesmo carisma e a mesma conduta que teve João Paulo II.

Pela primeira vez na minha vida irei acompanhar o ritual de escolha e um novo papa. No início desse ano li um livro do Dan Brown, autor do Código Da Vinci, condenado pela igreja pela polêmica levantada na trama que vai de encontro aos dogmas seculares, chamado Anjos e Demônios que explica como é feito esse ritual. O carmelengo tranca os aposentos papais e prepara o enterro. Dentro de quinze a vinte dias haverá um conclave onde os cardeais do mundo todo se isolam para escolher um novo papa. Quando sair a fumaça branca do alto da Capela Sistina é sinal de que há um novo chefe da igreja católica.

Karol Voitila, além de seguidores, deixará saudades. Crio que assim como temos os lacerdistas, getulistas e brizolistas uma nova classificação entre os fiéis, talvez voitilistas, surgirá com a perda do papa pelegrino.

Dentre as inúmeras viagens que fez suas vindas ao Brasil foram inesquecíveis, mas uma me marcou mais. Quando esteve aqui no fim da década de 90, já no início de sua decadência física, com dificuldades para andar, teve uma aparição dele no maracanã, onde a Fafá de Belém foi convidada para cantar a ‘Ave Maria’ brasileira e quebrando totalmente o protocolo, comovida e bastante emocionada, ela se dirigiu até ele e lhe deu um abraço tão inesperado e ao mesmo tempo gratificante que somente depois ela se lembrou de que a formalidade dizia para se beijar o anel sem contar a tirada espetacular e de bom humor que ele teve na mesma ocasião. Disse que “se Deus é brasileiro, o papa é carioca.”

Não há momento melhor para pedir a benção de João de Deus e dizer com a maior transparência e sinceridade possível um fique com Deus.