segunda-feira, 27 de junho de 2005

PROFISSÃO?

Semana passada, tive uma surpresa ao ir ao oftalmologista fazer a revisão do grau dos meus óculos. Ele não trabalha mais no Hospital de Olhos e passou toda sua clientela para uma parenta dele – não me recordo de sobrinha ou prima. Como foi nosso primeiro contato perguntei o que teria havido com o meu velho doutor da vista. De acordo com ela, meu oftalmologista oficial a partir de agora só trabalhará na confecção de lentes de contato, o que pra mim é uma boa de modo que estou com vontade e uma certa necessidade de aposentar os óculos e usar as lentes de contato. Vai demorar uns meses ainda. Depois de uma bateria de exames que ainda tenho que marcar e apresentar a ela os resultados, terá a fase de adaptação para saber se eu e as lentes seremos mesmo compatíveis. Sempre tive receio em andar com objeto estranho dentro do meu corpo, tal como brincos ou piercings e lentes de contato. Não que eu vá aloprar de vez e fazer tudo de uma vez só. Muito pelo contrário. Serão só as lentes.

Sentado à frente dela, naquele rápido interrogatório onde eu confirmava o telefone, idade, aquelas coisas rotineiras, afinal era outra pessoa, veio a lacuna da profissão. Por intermináveis três segundos tive que pensar. O que é uma profissão? Se eu respondesse de acordo com meu diploma e formação acadêmica eu responderia cientista social, ou sociólogo, para facilitar as coisas. Se eu respondesse a profissão que eu gostaria de ter e tento, de alguma forma ser, a resposta seria escritor. Agora, se eu respondesse pela atividade que exerço atualmente e que, bem ou mal, sou remunerado para tal teria que dizer que era figurante. Não escolhi nenhuma das três. Disse que era estudante mesmo. Me dei mal. Ela insistiu no assunto e me perguntou o que eu estudava. Disse que atualmente fazia curso preparatório para concurso, o que é uma mentira deslavada já que tem mais de mês, graças a Deus, que esse maldito curso acabou. Além da pequena mentira por mim aplicada, o que mais me incomoda é ter que responder ainda que sou estudante. Por isso me pergunto até quando terei que responder a mesma coisa.

Eu ainda quero estudar, mas não mais quero ser, ou, ao menos, me classificar como estudante. Eu sei que é uma contradição, uma controvérsia o que eu acabei de dizer, mas é a pura verdade. Estou atrás de uma turma de pós-graduação (especialização) em jornalismo cultural para depois fazer um mestrado na área de comunicação. Tenho até um tema para desenvolver numa futura tese de mestrado. Mas também só desenvolvo se for a que tenho em mente. De qualquer forma quero fazer a pós-graduação.

Coincidência ou não, na segunda e na terça, enquanto esperávamos para gravar, levantei essa questão com alguns colegas de trabalho, como diria Sílvio Santos. Perguntei se, por acaso, eles se hospedassem num hotel e preenchessem a ficha, colocariam na lacuna da profissão a palavra figurante. Ninguém tem coragem de assumir, pelo menos num hotel, que é figurante. Apenas um, quando fez um cadastro em alguma coisa relacionada à internet, colocou figurante na sua profissão.

Martelei isso na minha cabeça durante toda a semana. Qual é a minha profissão, afinal, que nem eu sei? Estou começando a me autoproclamar ‘vagabundo de carteirinha’. Sigam o meu raciocínio. Valendo o fato de que quando a gente vai para o projac fica por horas a disposição da produção da novela, e enquanto eles não chamam, nós não fazemos absolutamente nada, somos sim vagabundos. No entanto um vagabundo diferente, já que recebemos para sermos vagabundos e, por que não, interpretar um vagabundo de modo que dá-se a entender, pelo menos essa é a visão de quem está por dentro, ou seja, a minha, que em ‘Ocean Drive’ - o mesmo que Miami Beach – não existe mais nada a fazer a não ser vadiar a qualquer hora do dia ou da noite.

segunda-feira, 20 de junho de 2005

I’M BAD

Ele próprio já afirmou isso. Mas agora, quando o bicho pegou pra valer, disse que não era assim, que estavam deturpando as coisas e acusado em dez processos o júri popular resolveu absolvê-lo de todos. O menino mau, segundo essas pessoas, não é tão mau assim, mais ainda se acha menino apesar dos seus mais de quarenta anos.

O ser humano considerado maior astro pop do mundo, que logo no começo dos anos oitenta bateu o recorde de vendas de um álbum de músicas atingindo a quantia de vinte e seis milhões de discos vendidos, e conhecido por suas excentricidades extravagantes, durante alguns meses voltou a ser o centro do noticiário, dessa vez na sessão policial.

Michael Jackson teve um julgamento de estrela como realmente é, e dos dez processos que pendiam sobre suas costas o mais grave era o de pedofilia. Acusado de manter relações sexuais com uma criança de treze anos, hoje com quinze, sugiram boatos e confirmação dos tais que aumentavam a excentricidade dele e revelaram um lado psiquiátrico que todos desconfiavam.

Me lembro do primeiro fato sinistro que aconteceu com ele. Ao gravar um comercial para a marca Pepsi, um dos efeitos especiais, que eram fogos de artifícios, caiu na cabeça dele queimando seu cabelo. Isso foi no auge, nos áureos tempos em que ele se destacava na liderança de vendas de discos. Depois, vieram o embranquecimento devido ao vitiligo, as inúmeras plásticas que deformaram o rosto dele transformando praticamente num símio do planeta dos macacos, os escândalos pessoais, os dois casamentos fracassados possivelmente por serem armados, os supostos filhos, o rancho de Neverland com um parque de diversões no quintal...

O último grande sucesso de vendas dele – isso não vem de nenhuma fonte, mas da minha suposição – foi o álbum ‘Dangerous’, com quase seis milhões de cópias vendidas, ou seja, vinte a menos que o ‘Thriller’. De lá pra cá, afloraram os escândalos que mais detonaram com a carreira dele. O Brasil estava em dois deles. O primeiro ainda na ocasião do ‘Dangerous’, onde ele escolheu duas locações pra rodar o clipe ‘They don’t care about us’ (Eles não ligam pra gente) no Pelourinho em Salvador e no Morro Dona Marta, no Rio. E o segundo foi justamente uma das histórias que surgiram agora em virtude do julgamento onde consta que o astro queria mandar essa tal criança mais a mãe dele que o acusou ele de abuso para cá, para viverem a clandestinidade sendo bancados por ele ao invés de botarem a boca no trombone, como realmente fizeram.

Que ele foi o maior é inegável; se os Beatles revolucionaram a música, Michael Jackson revolucionou a apresentação da música criando o videoclipe. A perspicácia dele foi tamanha que todos os direitos das músicas do quarteto de Liverpool são propriedade dele. Isso é uma fortuna, não só material e artística, quanto em termos de grana mesmo. Me lembro de Rita Lee falando que teve que mandar uma cópia de seu disco que homenageava o grupo inglês para que ele desse o crivo. Fortuna essa que vem perdendo por causa dos gastos com os advogados. Dizem até que ele está falido. Não acredito muito nisso não, mas, caso seja verdade é sinal de que é falta de uma boa administração dos milhões obtidos com o suor do seu trabalho. Isso é que dar ser pop-star e excêntrico.

Os doze jurados, oito homens e quatro mulheres, que absolveram Michael, em entrevista coletiva, disseram que a mãe do garoto que o acusava era arrogante, má educada e meio desmiolada, nitidamente só estava atrás de um único objetivo que era a fortuna que está sendo deteriorada pelo próprio.

Arrasado moralmente, apesar de uma legião de fãs e metade da opinião pública concordando com a decisão, a recuperação da carreira será sua maior dificuldade.

domingo, 12 de junho de 2005

ISSO AQUI O QUE É?

A questão da CPI dos correios, o esquema do 'mensalão', a absolvição de Sérgio Naya e tantos outros escândalos que estão sendo estampados nos jornais é uma excelente pauta. No entanto, ao dar minha caminhada no calçadão da praia com o meu walk-man tocando uma fita qualquer gravada há algum tempo, escuto duas músicas antigas que traduzem – não, traduzem não é a palavra certa – que reportam a todo esse caos político em que o país se encontra. Uma delas é a música do malandro, de Chico Buarque.

“O malandro/ Na dureza/ Senta à mesa/ Do café/ Bebe um gole/ De cachaça/ Acha graça/ E dá no pé/ O garçom/ No prejuízo/ Sem sorriso/ Sem freguês/ De passagem/ Pela caixa/ Dá uma baixa/ No português/ O galego/ Acha estranho/ Que o seu ganho/ Tá um horror/ Pega o lápis/ Soma os canos/ Passa os danos/ Pro distribuidor/ Mas o frete/ Vê que ao todo/ Há um engodo/ Nos papéis/ E pra cima/ Do alambique/ Dá um trambique/ De cem mil réis/ O usineiro/ Nessa luta/ Grita puta/ Que pariu/ Não é idiota/ Trunca a nota/ Lesa o banco/ Do Brasil/ Nosso banco/ Ta cotado/ No mercado/ Exterior/ Então taxa/ A cachaça/ A um preço/ Assustador/ Mas os ianques/ Com seus tanques/ Tem bem mais/ O que fazer/ E proíbem/ Os soldados/ Aliados/ De beber/ A cachaça/ Ta parada/ Rejeitada/ No barril/ E o alambique/ Tem chilique/ Contra o banco/ Do Brasil/ O usineiro/ Faz barulho/ Com orgulho/ De produtor/ Mas a sua/ Raiva cega/ Descarrega/ No carregador/ Este chega/ Pro galego/ Nega arrego/ Cobra mais/ A cachaça/ Tá de graça/ Mas o frete/ Como é que faz/ O galego/ Tá apertado/ Pro seu lado/ Não tá bom/ Então deixa/ Congelada/ A mesada/ Do garçom/ O garçom vê/ O malandro/ Sai gritando/ Pega ladrão/ E o malandro/ Autuado/ É julgado e condenado culpado/ Pela situação”

É um querendo dá a volta no outro e no fim quem se dá mal é quem menos tem culpa no cartório. Essa história não me é estranha. Bem, a outra foi gravada pela Simone lá pelo fim da década de oitenta, no disco Sedução – sei disso tudo porque tinha o disco.
O nome dela é ‘Disputa de Poder’ e pede um basta em tudo o que estava acontecendo no país.

“É ruim de segurar/ Assim não dá/ É padecer/ Do jeito que está/ Vamos pagando pra sobreviver/ Se trocou não mudou nada/ Jogo de carta marcada/ É só perder/ A panelinha armada/ Tem muita brasa/ E ninguém bota pra ferver/ Isso aqui ta brincadeira/ Ou será que não está/ Brasileiro brasileira/ Tá na hora de lutar/ Chega/ De levar tanta porrada/ Vamos ver se a papelada/ Dessa vez é pra valer/ Chega/ Ta virando sacanagem/ As promessas são bobagens/ Que só faz aborrecer/ Cansado/ Rasgo a fantasia/ Dessa anarquia/ Na disputa do poder/ Piuí piuí/ Puá puá/ Eu quero ver onde essa zorra vai parar”

Bem, pelo menos agora tem vindo tudo a tona porque tudo isso que está acontecendo não é novidade. Duvido que nos governos anteriores essa prática não ocorresse. Claro que sim. O que tem espantado a população é o fato de o governo Lula estar participando da trambicagem também. Um líder partidário visto como o defensor dos oprimidos, sempre combativo no que dizia respeito a todo esse cambalacho e que agora percebe na carne como é difícil.

O problema não é o Lula propriamente dito, mas quem o cerca que não são lá flores que se cheirem. Principalmente quando nesse jardim fedido que orna o Congresso Nacional, a grande maioria das plantas foi cultivada pelas mãos ancestrais que cuidavam delas desde antes do Brasil ser Brasil. A raiz é tão profunda que cortar o mal por ela vai demorar muito ainda. Espero que esse seja o início do fim. Uma primeira borrifada de pesticida nesse jardim.

segunda-feira, 6 de junho de 2005

TEMPO

Quanto mais a gente tem, mais a gente precisa. Vinte quatro horas estão ficando poucas para o que eu gostaria de fazer num dia. Principalmente quando a gente trabalha parte ou às vezes o dia todo e chega em casa esgotado. Por essas e outras que eu pedi um tempo pra mim e fiquei algumas semanas sem postar. O tempo ainda está escasso pra mim e não me policiei ainda para ter uma hora, parar, sentar e escrever aqui toda semana. Até pelo fato de não ter mais uma rotina certa. Agora só quando o tempo se associar ao meu dia que eu poderei fazer o que estou fazendo nesse exato momento. Tenho que tentar ser mais ágil que ele.

Grande parte das pessoas reclamam da falta de tempo. Parece que quanto mais a tecnologia avança pra nos deixar com mais tempo livre, mais a gente fica atribulado com ele. É uma relação diretamente proporcional. Outra impressão que a gente tem é de que o tempo está passando mais rápido. Só pra gente se situar, mal o ano começou e já estamos em junho. Um dia hoje aparenta ser mais curto do que um dia há quinze anos atrás, que diziam ser mais curto que tempos mais remotos.

Agora que eu estou conhecendo melhor o interior do universo televisivo, posso falar de tempo, ao menos de uma das interpretações que é dada a ele. A gente que faz parte da galera da figuração sempre chega antes de todo mundo. Sempre fica pronto primeiro e o que nos resta é gastar o tempo que nos dão antes de sermos chamados pra fazer a cena. Vida de figurante é esperar. Só não se espera mais que mulher grávida. E uma cena que fica, por exemplo, dois minutos no ar, pra ser realizada na sua totalidade, com vários planos e closes para compô-la e exibi-la no ar, demora horas pra sair bem e na montagem ficar perfeita. Na última quinta-feira mesmo, quando a gente gravou a cena que a Sol, personagem da Débora Secco, ganha dez mil dólares no cassino, pra fazer as quatro ou cinco cenas levamos a manhã toda, entre sete e uma da tarde. No entanto, apesar da demora, a gente se diverte. Eu pelo menos vou lá para me divertir. Perco o meu dia passando muito tempo sem fazer nada, ganho um troquinho e me divirto, o que é cada vez mais difícil hoje em dia.

Tenho uma tia que está preocupada com o tempo. Esse ano, mais precisamente no mês que vem, ela entra na casa dos quarenta e está desesperada sentindo o peso da idade. Imagina quando ela chegar aos cinqüenta, sessenta... Está se sentindo velha. Acho que a idade só chega para quem quer. Conheço muito velho de trinta e muito jovem de setenta. Tudo depende da cabeça de quem está no controle. O tempo pode ser cruel e também um grande aliado, assim como a falta dele dependendo da ocasião.

No meu tempo era tudo muito melhor. Todo mundo acha isso e a tendência é essa mesmo. Mas todo mundo também se esquece que está vivendo o tempo de hoje. O tempo é o agora. Isso me remota aos meus tempos de infância – creio que o da maioria das pessoas, pelo menos as da minha geração – onde era proferida uma frase que dizia que o ‘Brasil é o país do futuro’. Pelos meus cálculos, o Brasil está sendo o país do futuro há quase trinta anos. Repare bem que esse futuro está demorando um pouco a chegar. É bem provável que as gerações que sucederem a minha, também serão capazes de escutar essa mesma frase.

Apesar desse tempo que tive que me dar pra poder retomar o fôlego, descobrir outro jeito de manter esse contato e da nova roupagem, digamos assim, que minha vida está tomando com menos tempo do que eu tinha pra me dedicar as coisas que eu gosto – as que eu não gosto também, mas pra essas faço o tempo ser mínimo – continuarei de alguma forma dedicando tempo a esse espaço que pra mim é de suma importância e vital. E, puxando a brasa pra minha sardinha, quando você tiver tempo, assista a novela ‘América’ que, prestando atenção em quem está por trás do elenco, posso ser achado lá.