segunda-feira, 26 de dezembro de 2005

BALANÇO DO ANO

O Natal acabou de passar e no próximo domingo já estaremos no ano novo. Dois mil e cinco está dando a vez para dois mil e seis. Coincidências existem? Por que eu começarei o ano novo do mesmo jeito que comecei esse que termina, ou seja, num curso. Dessa vez é diferente pelo fato do curso ser um que eu corri atrás pra fazer durante pouco mais de um ano e não uma escola de adestramento como fiquei entre agosto de dois mil e quatro e abril de dois mil e cinco e que me valeu de pouco. A pós-graduação em Jornalismo Cultural pela Universidade Estácio de Sá, campus Tom Jobim – Barra da Tijuca, que eu freqüento todos os sábados entre oito da manhã e uma e meia da tarde, desde a volta da viagem ao sul me trouxe de volta o prazer de estudar. Como se assimila bem melhor as coisas quando se quer aprender do que ser forçado a fazer um curso que não tem nada a ver com a sua personalidade, não? Esse foi um ponto positivo no ano que acaba. Fazer uma pós-graduação que se tem vontade de fazer. E durante todo o ano novo, aos sábados o compromisso está selado. É cedo, é longe, é aos sábados, mas não reclamo por que eu quis que fosse assim.

Quanto aos meus alfarrábios, seguem normalmente o fluxo. Faltam dois capítulos, a princípio, pra eu dar por encerrado mais uma loucura literária. A de dois mil e quatro, ainda inédita, requer uma revisão – tarefa pro tio Rodolfo e a ele entregue como presente de aniversário em meados de fevereiro passado – para passar pelo meu último crivo antes de ganhar o público. A desse ano está parada desde a viagem, esperando sua complementação que será dada certamente até o próximo aniversário do tio Rodolfo, ou, no mais tardar, até o carnaval. A pausa proposital foi em favor da minha memória. Quanto a trama elaborada, uma releitura estratégica para a retomada de fôlego e consequentemente a conclusão da história ficou em segundo plano para que eu pudesse escrever todos os ‘diários de bordo’ do sul. A série completa conta no total com mais oito aventuras gaúchas, além das já publicadas, e oito curitibanas. Pelo calendário, excetuando a postagem tradicional do carnaval, a última postagem de todas as aventuras será no feriado do dia do trabalho, ou seja, direcionei todo o foco para a viagem desde a minha volta, pra não perder mais detalhes do passeio que as falhas da minha memória já o fizeram.

A viagem foi proporcionada por um outro fator que marcou meu ano. Graças aos cachês recebidos e juntando parte deles que consegui viajar. No mês de março comecei a fazer figuração na Globo com a minissérie ‘Mad Maria’. Em abril entrei em ‘América’ onde permaneci até o dia sete de setembro. A partir daí a agência na qual era cadastrado perdeu o produto e consequentemente perdi o trabalho. Depois dessa, a debandada da agência foi grande também. No entanto, em compensação, durante esses seis meses ganhei várias novas e verdadeiras amizades. Achei outros reais tesouros da minha vida. Tanto que foi por causa deles que me mantive no ramo sendo chamado no fim do mês de novembro por outra agencia e por intermédio de outro desertor da minha agência inicial pra fazer participações por, até agora, uma vez em ‘Belíssima’, duas no ‘Didi’ e quatro em ‘JK’. E as perspectivas nessa área apontam para um bom horizonte.

Todas essas conquistas do ano foram baqueadas por uma perda. No fim das contas a balança ficou equilibrada. Talvez um pouco mais pendendo pro déficit que pra todos esses saldos. A morte do meu tio Tarcísio foi um trauma muito forte. Acometido por uma pancreatite aguda grave necro-emorrágica e lutando contra suas conseqüências por praticamente três meses, não resistiu e nos deixou cinqüenta e três dias antes de completar meio século de vida. Desfalcando a sétima posição de um time de oito herdeiros dos meus avós maternos, estamos aprendendo a conviver com a ausência e saudade dele. A mais trágica lição que esse ano nos deixou. Vivendo e aprendendo.

terça-feira, 20 de dezembro de 2005

AVENTURAS GAÚCHAS (7)

Quando acabou o meu tempo na Lan House pensei: tenho que matar o tempo até o Paulinho voltar. Cogitei de ficar dando voltas no parque Redenção, mas nessa fração de segundos que minha mente processou isso tudo, meu celular toca. Era o Paulinho dizendo que a o compromisso dele havia acabado e que estava voltando pra casa. Não tive dúvidas em voltar o mais rápido possível. Mostrei a ele todos os panfletos que tinha pegado na casa de cultura, não só em relação à viagem que a gente ia fazer, mas outras coisas também, principalmente um mapa da região metropolitana.

Nesse mapa tinha vários números úteis de telefone, inclusive o da rodoviária. Passei a mão no aparelho e liguei pra lá pra pegar os horários do turno da manhã dos ônibus que iriam pra Gramado. Estávamos decididos em ir no dia seguinte e voltar no subseqüente e a idéia inicial era essa de ir na parte da manhã. Mas ficou sendo somente a inicial.

Mais uma vez peço perdão pela minha memória, ou melhor, pela falta dela, uma vez que deixarei um hiato entre esse meio de tarde e o fim de noite que, essa sim, foi realmente inesquecível. Não me lembro exatamente o que fizemos nesse período, mas certamente mais algumas páginas do livro foram devoradas.

Aquele dia era aniversário do Solimar. Esse sujeito é primo do Diego, o camarada com quem o Paulinho dividia o apartamento antes de morar sozinho, e é quase que uma lenda. Não que todos da cidade o conheçam, mas pra quem de certo modo convive com ele, mesmo que somente em bares da Cidade Baixa, já é uma pessoa lendária. Ele ligou pro Paulinho e disse que por volta das dez da noite estaria passando lá para comemorar mais um ano de vida. Quando a gente desceu do apê pra encontrar com ele e o irmão que eu de fato o conheci pessoalmente e consequentemente personifiquei o tão escutado Solimar com suas hilariantes aventuras. Em seguida, passamos no apê do Diego a uns cinqüenta metros adiante. Primeira parada: Bells. Nós cinco, incluindo aí também o irmão do Solimar, se não me engano chamado Rodrigo. Eu não bebo cerveja e o Rodrigo também não, mas nesse ponto ele é mais radical. Bebe água tônica, subentendendo que álcool nem pensar e não come nenhum tipo de carne. Vegetariano convicto. Meu paladar só reprova a cerveja mesmo, portanto a boa, velha e generosa caipirinha de cachaça preenche o espaço etílico.

Essa noite tinha mesmo que ficar pros anais da minha história. Depois do bar decidiram, e como eu era apenas um convidado-turista fui no bolo, ir à casa noturna Druida ali perto. Perguntado o valor do ingresso na porta o segurança respondeu dez reais. Porém, uma menina nos ofereceu outro convite cujo valor era dois reais mais barato. Ela estava fantasiada de bruxa. Na verdade, os estudantes do oitavo período do curso de odontologia da UFRGS estavam promovendo naquele dia e naquela boate uma festa a fantasia. Eu me senti como um peregrino em terras pagãs. Estava ali caído de pára-quedas. Depois de análises das mais diversas formas e conteúdos estavam decididos a entrar. Somente o Diego que não quis se arriscar e voltou pra casa.

Boate é boate em qualquer lugar do mundo, certo? E as músicas que tocam acompanham as tendências das regiões em que elas se situam. Esse seria o normal, mas em se tratando daquela específica noite e daquele local em que estávamos o conceito de normalidade é bastante discutível. Até mesmo pelo fato de nós quatro termos disposição para freqüentar uma festa gerenciada por aspirantes a dentistas fantasiados dos mais diversos personagens do imaginário. Desde quando isso é normal? Onde estávamos com a cabeça, ou melhor, onde eles estavam com a cabeça? É impressionante como estudantes de uma das mais bem conceituadas universidades do país se acabam em requebrar diante do que alguns chamam de música cujos versos têm profundidade pífia.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

AVENTURAS GAÚCHAS (6)

Na volta, para encerrarmos de vez toda essa caminhada e exploração pelos pontos turísticos do centro da cidade, comemos um sanduíche numa cadeia de fast-food própria de Porto Alegre, o Cavanhas. Tinha sanduíche de tudo quanto é tipo, até de estrogonofe. Eu comi um que eu acho que só tem lá, um cuja carne do recheio era um aglomerado de coração de galinha. Diferente, mas muito bom. O sanduíche valia uma refeição e era mais barato do que qualquer promoção dessas de ‘Mc Donalds’ da vida. Além do coração de galinha, o Paulinho me apresentou o tal do pão de cervejinha. De cervejinha mesmo só o nome que o gosto passa longe. Eu bobeei. Poderia ter pedido o sanduíche com esse pão, mas pedi com o pão normal mesmo. Ficou para a próxima.

Chegamos em casa depois das nove da noite. Andamos o dia todo. Não me lembro, mas tenho quase certeza de que aquela noite a gente não saiu para tomar umas nos bares da vizinhança. Até pelo fato de o Paulinho ter que cumprir seus compromissos na manhã do dia seguinte e da gente ter se cansado de andar tanto durante o dia todo. Antes da gente dormir, tínhamos que resolver a questão do dia seguinte. Eram vários compromissos que o Paulinho tinha para apenas uma chave do apartamento, ou seja, ou eu ficava preso do lado de dentro de casa, ou do lado de fora. O decidido por mim foi ficar do lado de dentro pela manhã, dormindo, e quando ele fosse pros compromissos vespertinos eu saia junto e retornasse junto com ele. Dito e feito.

Quando eu acordei na quinta feira, dia 20 de outubro, estava preso dentro de casa. O Paulinho já tinha saído e eu fiquei lendo o ‘Fortaleza Digital’ até ele chegar. Perto da hora do almoço surge meu amigo me libertando do cárcere. Ele sugeriu que eu fosse novamente à Casa de Cultura Mário Quintana para pegar informações sobre a cidade de Gramado, já que a idéia de visitá-la estava bem ativa e o fim de semana estava chegando. Almoçamos num restaurante de comida natural, perto da casa dele. Como já disse, a comida lá é barata e gostosa. Depois ele foi pra faculdade e eu tinha que fazer alguma coisa pra passar o tempo. Conforme sugerido, voltei na casa de cultura, me dirigi ao balcão de informações turísticas e comecei a pegar tais informações. Pensei que fosse me perder, pois dessa vez estava sem cicerone, mas até que me saí bem e não precisei perguntar pra ninguém que caminho tomar ou como chegar até a casa de cultura. A atendente foi me dando várias dicas e me entregando mapas e vários folders sobre as cidades da serra gaúcha. Na minha santa ignorância, achava que Gramado e Canela não ficavam na serra gaúcha, mas o fato é que a será gaúcha é dividida em três áreas onde se destacam, além das duas cidades que a gente queria visitar, Caxias do Sul, Bento Gonçalves entre outras. Enquanto eu perguntava e a atendente respondia no balcão, uma mulher mais ou menos da minha faixa etária se aproxima e me dá a dica de hospedagem de um albergue. Segundo ela, já havia reservado para a semana seguinte para quando ela fosse. Ela era de São Paulo e também estava passeando por lá. Disse a ela que iríamos num dia pra voltar no outro, já que eu tinha pouco tempo. Ela também aproveitou para pegar as informações que precisava.

De lá, corri pro mercado municipal, pois tinha em mente trazer uma lembrança da cidade e nada melhor que a representasse se não a cuia, a bomba, que não passa de um canudinho para a ira dos tradicionais, e um pouco de erva para fazer o tradicional chimarrão. E nada melhor que o mercado municipal pra comprar esse tipo de mercadoria por um preço bastante accessível, inclusive pra turista. Voltei para próximo de casa. No caminho tive uma vontade louca de tomar um caldo de cana, mas acabei mesmo foi tomando duas garrafinhas das de vidro de Coca, que na minha opinião é a mais saborosa, e pegando o troco em balas para, em seguida, me dirigir a Lan House e gastar um tempinho lendo meus mails e mandando scraps para a minha lista do orkut.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

AVENTURAS GAÚCHAS (5)

Fomos os primeiros a chegar uns quinze minutos antes do último horário do tour que o ônibus faz às seis horas da tarde. O funcionário colocou um vídeo pra que a gente pudesse esperar formar o grupo. O vídeo dizia sobre as maravilhas da cidade e, pasme, uma das cenas era a do trem que não anda funcionando. Deviam ser imagens do teste. Até o Paulinho se surpreendeu em ver aquele trem andando. Enquanto o vídeo ia passando mais gente ia chegando e querendo participar do mesmo passeio. Não chegou a juntar dez pessoas. Éramos oito no total. No entanto, recebemos a informação de uma funcionária que devido a uma ‘tranqueira’ o passeio iria atrasar no mínimo uma meia hora. Traduzindo do gauchês pro português, a palavra tranqueira que eu sempre interpretei como sendo ‘coisa’, eles vêem como o que a gente conhece por engarrafamento. É engraçado quando o significado de uma palavra se encaixa em um contexto completamente diferente do que você está acostumado.

Por conta desse atraso o Paulinho decidiu passar em casa e eu fui junto. Dava tempo de beber água, ir ao banheiro e voltar pra lá, pois era a alguns metros dali. Foi o que a gente fez. Porém, quando voltamos, pra nossa surpresa, não havia mais ninguém lá. Pensei logo que eles foram embora sem a gente. Na verdade foi isso que aconteceu, mas cada um pro seu canto. O passeio tinha sido cancelado. Principalmente por causa daquela ‘tranqueira’. O motivo do engarrafamento, e consequentemente do atraso que culminou com o cancelamento desse passeio era uma partida de futebol no Beira-Rio entre o colorado Internacional e o argentino Boca Júniors. O ônibus, em virtude do atraso, não teria tempo hábil de passar pelos pontos turísticos, já que ele tinha tempo pra ser recolhido. Não foi daquela vez. Deixamos para uma outra ocasião. Quem sabe no fim de semana? Veríamos.

Visitamos o parque da Redenção com seu amplo espaço ao ar livre para se fazer atividades físicas, dar aquela caminhada de fim de tarde, levar crianças e cachorros pra dar uma volta e encontrar a turma. Um lugar bastante agradável, apesar de se comentar sobre o perigo de circular sozinho ali pela noite. Só que a gente não fomos loucos de nos arriscar a fazer isso, por mais que tenhamos a tarimba de violência daqui do Rio. Por falar nisso, o maior índice de violência lá é o de roubo de automóveis.

Uma passada defronte a prefeitura para que uma foto tipicamente turística fosse tirada e ao lado dela não poderia ter coisa melhor do que o mercado municipal de porto alegre. Infelizmente, ao chegarmos lá, pelo avançado da hora, grande parte das lojas já estavam fechando. De acordo com a lenda do lugar, aquilo tinha sido num passado remoto o lugar onde eram aglutinados os escravos para que fossem escolhidos e vendidos a quem os comprasse. Hoje, como mercado, está bem estruturado, organizado, não só com barracas de venda de artigos pra todos os gostos, principalmente em se tratando de cozinha, mas também com os bares e restaurantes que servem de tudo, inclusive comida japonesa, localizados na parte superior com seus mezaninos.

Em frente a entrada principal do mercado municipal há um bar e restaurante que estava tendo uma happy hour. De couvert artístico pagava-se apenas um real pro sujeito que tocava um violão razoavelmente bem. O nome desse local é Praça XV. Talvez pela sua estrutura arquitetônica se assemelhar com o antigo mercado que avistamos da barca ao nos aproximarmos do Rio. No pátio, embaixo, amplo espaço para as mesas com um número considerável de gente. Ainda havia um pequeno salão fechado, coberto para casos de chuva. Claro que nem se compara ao espaço de fora. E em cima, onde ficamos o tempo necessário para tomar, no meu caso, um chá gelado, uma vista mais panorâmica tanto do próprio mercado municipal, quanto das pessoas que freqüentavam a parte inferior do bar. O clima ameno contribuiu para a boa degustação visual do local.