domingo, 31 de dezembro de 2006

O ANO TERMINA E NASCE OUTRA VEZ

É impressionante a velocidade em que a terra tem girado. Mal você acostuma com o ano e já estamos em setembro, ou seja, chegar até dezembro não é nada. E o ano já acabou. O balanço que eu faço é positivo. Apesar do fiasco da seleção brasileira na copa do mundo e de não ter mudado praticamente nada em termos de eleições, que foram os assuntos que dominaram os noticiários, o ano pra mim foi positivo. Não sei se por eu ser genuinamente otimista e bem humorado, embora certamente houvesse fatos que me cortavam momentaneamente essas características, como em todos os anos, esse ano, numa escala entre um e dez tem grau oito e meio. E tá de bom tamanho.

Não sou jurado de escola de samba que fica tirando um ou dois décimos. Minha graduação é de meio em meio ponto. E de oito e meio pra nove e meio é apenas um ponto. Nota dez dificilmente eu dou, a não ser que seja um ano excepcional, daqueles em que pinta namoro firme, viagens ao exterior – de preferência bancado – e um trabalho que eu goste de fazer e que o retorno financeiro vá além das minhas expectativas. Espero que esse seja o ano que vem, ou que pelo menos chegue bem próximo a esse desejo.

O ano que termina já me deu um certo gosto no que diz respeito ao trabalho que eu goste de fazer e viagens, que não foram pro exterior, mas pra São Paulo e a trabalho. A experiência profissional que adquiri nesse ano foi muito grande. Quanto a isso eu não posso reclamar, pelo contrário, só tenho a agradecer as oportunidades que surgiram e que agarrei com unhas e dentes. Teve um contraponto que eu nem gosto de comentar, mas, olhando pelo lado ‘Poliana’ da vida, pra mim valeu e muito.

Foram duas incursões pelo cinema nacional. Dois filmes que serão lançados nesse ano que chega, e que, mesmo que meu nome não apareça nos créditos, tive certa participação neles e com isso aprendi como se faz, ou não se faz, certas coisas. Principalmente no que foi rodado mais pro fim do ano onde eu me vi praticamente como o co-produtor na parte de figuração do filme. Área cujos meandros estou conhecendo e me tornando um craque. Não. È muita pretensão minha. Mas estou indo por esse caminho. Posso não ser um craque agora, mas não estou longe de me tornar um. Que me apareçam mais oportunidades.

Não exatamente na área em que atuo, mas se pintarem oportunidades com ofícios que me agradam de uma maneira geral dou um jeito de me dividir. Claro que, como eu peguei o gosto e o jeito em relação à produção, irei continuar nesse filão, de modo que continuarei fazendo contatos que me podem ser importantes futuramente, ou não, como diria Caetano.

Estou aqui na contagem regressiva pro ano novo, pronto pra encarar tudo o que ele me proporcionar em todas as áreas. Não tenho medo de novidades. Aprendo que elas não são tão más assim, que a gente sempre tem como tirar uma lição boa mesmo dos maiores tombos que a vida dá. E olha que também to ficando craque em tombo e espero que não os sofra ou sejam bem menores no próximo ano. Não sou de fazer planos, tudo o que eu vivi até agora desde que entrei nesse ramo há quase dois anos foi a lá Zeca Pagodinho, deixando a vida me levar.

Continuo insistindo na tríade da letra ‘S’ como desejo fundamental pra todos no ano que está se iniciando. Saúde, sorte e sucesso. O resto vem como conseqüência. Não digo isso apenas no sentido profissional, mas de um modo bem mais amplo que engloba toda uma filosofia de vida, seja ela qual for. Saúde como base pra tudo, pois sem ela ninguém funciona direito. Sorte no que vier a ser apresentado pra você encarar. Sucesso na condução do que você teve a sorte de ser apresentado. Nunca é demais lembrar que a rosa tem espinhos, ou seja, faz parte. Desejo um excelente 2007 pra todos. Com amor.

domingo, 24 de dezembro de 2006

ENTÃO É NATAL

O ano terminando e a gente cansado de tudo, época de renovar votos e esperanças, ainda tem que enfrentar fila pra comprar o presente. Entra ano e sai ano e continua tudo igual. É a única coisa da qual eu reclamo nessa época do ano. As pessoas partindo pro ataque atrás dos presentes relacionados nas listas. Listas essas que pelo andar da carruagem diminuem a cada ano que passa.

Eu já senti isso. Não só pela idade, mas pela situação financeira também. Quando eu era pequeno, Natal era sinônimo de presentes. Creio que pra todas as crianças apesar dos pais explicarem o verdadeiro motivo. Padrinhos, pais, tios, avós, principalmente com família grande boa parte lembrava de mim e me dava nem que fosse um chaveirinho. Conforme a idade foi passando os presentinhos foram diminuindo e a grana dos padrinhos, pais, tios e avós também.

Com o tino comercial do Natal os shoppings fazem maratona. Aqui em Niterói o Plaza, principal shopping da cidade, por exemplo, abre às nove da manhã do dia vinte e três de dezembro e fecha às seis da tarde do dia vinte e quatro justamente para que os desesperados façam suas compras. Eu, se participasse e compartilhasse dessa idéia, sairia de casa às duas da manhã só pra ver como deve ser a freqüência das lojas no meio da madrugada.

Esse ano fui mais esperto. Não sei se posso admitir isso como esperteza. Mas que foi uma sacada genial da minha mãe, isso foi. Me prontifiquei a comprar os presentes dos amigos ocultos da família. Tirando o meu irmão que sempre esconde quem tirou e compra ele mesmo ou então pede pra outro comprar, lá fui eu enfrentar as ruas da cidade e o calor de dezembro. Ruas mesmo. Prestigiei o comércio das ruas do bairro de Icaraí ao invés de enfrentar as escadas rolantes de um shopping center. Como o valor dos presentes foi previamente estipulado e os pedidos estavam na listagem não tinha muito o que procurar, bastava conferir se a loja tinha a mercadoria. Se tivesse seria só comprar, se não tinha sempre outra loja por perto que certamente resolveria o problema.

Duas ruas, uma transversal a outra, foi o bastante pra comprar três presentes. O cruzamento da Gavião Peixoto com a Presidente Backer foi indispensável dois dias antes do Natal. Três lojas perto uma da outra em duas ruas que a pé, da minha casa, leva uns quinze a vinte minutos pra chegar na esquina. De ônibus, além da passagem que por enquanto está em um real e setenta e cinco centavos, o tempo cai em cinco a dez minutos com transito normal. Claro que economizei nas passagens, até por que o calor não estava tão forte assim comparado aos últimos dias. Em uma hora e meia, com as caminhadas e ainda passando numa farmácia de manipulação pra pedir pra fazer uns remédios pra minha mãe em outra rua, a Moreira César, segunda rua paralela à Presidente Backer, resolvi o problema dos presentes de amigo oculto.

Recomendo isso pra todo mundo. Quando chegar a época do Natal evite os shoppings centers e dêem preferência às lojas do bairro. Mesmo aquelas que ficam em galerias certamente são mais vazias que as dos grandes shoppings. Nem menciono os grandes centros de comércio popular como o Saara ou a vinte e cinco de março em São Paulo, esses então ficam impossíveis de transitar. Nada mais aprazível e cômodo que as lojas do bairro repletas de mercadorias que também são encontradas nos shoppings pelos mesmos preços praticamente. Natal sem estresse, sem paranóia e com tudo a mão é muito mais feliz que um que tenha como prévia o desentendimento ou aborrecimento que pode provocar uma multidão desesperada e praticamente ensandecida lotando, inclusive madrugada adentro, os shoppings. Tenham um Natal maravilhoso.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

DANDO CONTA

Só agora que estou dando conta realmente do tempo em que fiquei efetivamente afastado desse lugar. Somente resgatando e postando textos entregues aos professores do curso da pós-graduação. De material que eu considero inédito, além do texto em que falei da ausência da voz do Jamelão no disco das escolas de samba do carnaval 2007, tiveram os primeiros dias de filmagem do ‘Primo Basílio’ descritos.

Filmagem que me consumiu, daí a ausência de postagens digamos mais contemporâneas, ou mais cotidianas, como queiram. Mas agora acabou. O ciclo se fechou e mais uma etapa foi concluída. Claro que teve seus altos e baixos. Sempre tem. Mas foi bom. Mais uma experiência, mais conhecimento de como se faz ou como não se faz algumas coisas e mais bagagem pra mim. Mais uma vez eu saí ganhando. Esse comentário é do meu lado ‘Poliana’ – aquela personagem que vê e entende o mundo pelo ponto de vista positivo até das coisas negativas.

Confesso que as filmagens terminaram no último dia de novembro e que de lá pra cá poderia já postar textos normalmente e não pegar dos meus arquivos. Outra confissão: acabaram. Não tenho mais material inédito pra substituir como fiz ultimamente. Agora tenho que ter tempo para sentar e criar. Mais uma confissão: estava sentindo falta de fazer isso. Sei que é difícil de retomar qualquer atividade quando se fica muito tempo parado. Apesar de que não estava parado, apenas me dedicando a outra coisa e mesmo sem tempo de parar, sentar e escrever, postava material do meu arquivo. Mas o ato de parar, sentar, criar e escrever que obviamente requer tempo, coisa que eu não tive no último mês, e que estou retomando agora, era o que eu estava sentindo falta.

Deveria de existir uma fisioterapia pra escrita. Olha eu delirando. A fisioterapia da escrita não é nada mais nada menos que a sua própria prática. Então, podemos considerar essa postagem como um exercício de fisioterapia, já que por conta das filmagens não consegui parar, sentar, criar e escrever. Coisas que faço nesse exato momento.

Só agora estou dando conta que o ano está acabando, que semana que vem já é Natal e dentro de quinze dias já estaremos em um outro ano. Já havia dado conta de que o ano passou rápido, mas daí a ser Natal é muita velocidade para um ano só. E o pior é que a tendência é acelerar cada vez mais. Acho que já disse isso em alguma postagem, mas imagina se a gente tivesse morando em mercúrio, cujo ano só tem oito meses e nessa velocidade em que estamos vivendo. Acho que devemos nos mudar pra Marte. Ao menos lá teríamos dois meses a mais pra curtir o ano e que no fundo é o que a gente perdeu com a velocidade dos últimos tempos.

Bem, então estou de volta. Mais inédito do que nunca e sem frente, ou seja, sem estoque nenhum, sem nada mais além da minha imaginação, criatividade e disposição de tempo para transpô-las ao papel, ou melhor, à tela do computador. Só espero que o furor das festas de fim de ano não faça com que eu interrompa essa minha retomada. Não sou o cinema nacional, apesar de trabalhar nele de vez em quando, mas também tenho os meus momentos de retomada.

De volta e dando cota também de que há um limite nesse espaço que está acabando. Essa minha fisioterapia literária está fazendo com que além de eu retomar o fôlego pra parar, sentar, criar e escrever, está me mostrando os limites do meu recurso. Agora, por exemplo, tenho poucas linhas e quase nada mais pra falar. A única coisa que me vem à cabeça é a letra de uma música cantada pelo Roberto Carlos, também conhecido por rei. ‘Eu voltei/ agora é pra ficar/ por que aqui/ aqui é o meu lugar.’ Na verdade eu não voltei. Eu nunca saí. Como se volta pra um lugar do qual nunca saiu?

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

MAIS UMA PRA TAPAR BURACO (TRABALHO DA PÓS)

Foram tantas teorias expostas no decorrer do curso e em tão pouco tempo que eu não sei por onde começar. Sem contar o número de teóricos que passaram defendendo suas teses dentro da ‘moldura interativa’ limitada pelo espaço-tempo programado para tal exposição.

A visita, no meu caso, inédita de uns e o reaparecimento de outros que já me deram o ar da graça em outras ocasiões fez ficar mais vertiginosa a minha queda para a comunicação. Estudiosos como Lasswel, Lasarsfeld, Kurt Lung, Mc Combs, Kurt Lewin, Wright, Merton, Saussure, Deleuze e Bem Singer, pra citar uma das várias dezenas de nomes que povoaram nossos encontros, surgiram e serviram para, ao menos tentar, elucidar sobretudo a comunicação no transcorrer da sua existência.

Confesso que não tinha idéia sobre quem pinçar para dissertar sobre quando surgiu a proposta do trabalho e até a última aula essa dúvida pairava sobre minha mente. No entanto a luz começou a dar claros sinais de que sua energia estava começando a ser gerada no momento em que o giz (no caso o pilot) cuspiu na lousa o tema: “A mídia contemporânea: grotesco e espetáculo”. A partir daí as pontes foram se formando e as peças do quebra-cabeças se encaixando e se transformando em uma figura uniforme.

Decidi, – vai ficar redundante, mas vamos lá – por minha própria conta e risco, arriscar e priorizar a criatividade e originalidade do trabalho. Quer dizer, isso é o que eu acho. Falarei sim da mídia contemporânea, do espetáculo e do grotesco, porém de um outro ângulo. Esse ponto de vista me favorece no sentido de que meu trabalho profissional é executado dentro do que chamam ‘fábrica de sonhos’ ou, se quiser, de uma ‘indústria cultural’ que é o meio televisivo.

Foi citado um livro do Muniz Sodré em parceria com a Raquel Paiva de nome ‘O Império do Grotesco’ subdividindo as espécies do grotesco na tv. Pois é justamente daí que pegarei o gancho. A televisão do mesmo jeito que fabrica produtos sublimes – o jargão usado é esse mesmo: produto. Pois já que se trata de uma indústria, o que sai dela é um produto – não deixa de exibir o grotesco como contra partida. De acordo com essas divisões pré-determinadas pelo ‘Império do Grotesco’ o que pretendo mostrar aqui nessa manobra arriscada é apontar o grotesco e/ou suas nuances e insinuações dentro do texto de uma novela.

Trata-se de uma obra sublime para os padrões televisivos devido não só a integração do conjunto de profissionais que levantam e sustentam no ar por meses uma história bem arquitetada e orquestrada pelo autor, mas também, e principalmente, pelos elevados índices de audiência, sinônimo de produto bem vendido. Atualmente no ar pela Rede Globo de Televisão no horário nobre a novela – ou produto – Belíssima de autoria de Sílvio de Abreu tem todos os componentes característicos de um tradicional folhetim. Drama, suspense, comédia e ação dão a liga para o bom espetáculo exibido todas as noites. Dentre todos os ingredientes que servem para uma trama, o grotesco também tem o seu lugar.

Em minhas mãos (e agora nas suas, espero que temporariamente) está o quinto capítulo da novela e é ele que será analisado com o intuito de garimpar o grotesco ou o que se aproxima dessa classificação em todos os seus níveis, ou seja, escatológico, teratológico, chocante ou crítico. Não vou aqui fazer um tratado psico-sociológico das personagens da novela e nem contextualizar os diálogos exemplificados dentro da trama de modo que não há necessidade disso para a aparição do grotesco, ou de suas nuances e insinuações.

Aglutinando e adaptando o texto da novela nas sub-divisões acima descritas, como referência o escatológico poderíamos destacar o início do diálogo entre as personagens Mônica e Valdete na cena 10:

VALDETE – Seu irmão não é só bonito não. O André na cama é um fogaréu! Tem que ser muito mulher, viu?
MÔNICA – Quer parar com esse assunto, Valdete?
VALDETE – Olha a santinha! Se ouvir sacanagem vai ter que se confessar antes da missa de domingo, vai? Deixa de ser tonta, sexo faz bem pra pele, boba.
MÔNICA – Você está falando do André. Fico sem graça. É meu irmão, não quero saber das intimidades entre vocês.
VALDETE – Irmão só por parte de pai. Se eu fosse você arriscava umas. Ce não sabe o que tá perdendo.

Quanto ao setor teratológico, há uma personagem que se encaixa perfeitamente nessa característica facilmente dedutível até pelo fato do autor ter utilizado a mesma em novela anterior. Vamos a um trecho da cena 4:

JAMANTA – Jamanta não sabe.
PASCOAL – Não sabe, né? Maior bundão ce também. Tô apostando que deixou a porta da borracharia aberta antes de dormir.
JAMANTA – Jamanta não deixou aberta. Jamanta fechou tudo.
PASCOAL – Maior zica. Droga! Amanhã eu mifú!
MARIA JOÃO – Algum problema, Pascoal?
PASCOAL – Ce ta mesmo muito interessada nos meus pobrema.
MARIA JOÃO – Tô, sim, juro que tô.
JAMANTA – Jamanta vai pra dentro.

No nível do chocante, creio que não há um elemento que o defina em texto de novela. O choque fica mais no âmbito dos personagens podendo em alguns casos causar comoção também no espectador, sobretudo em se tratando da revelação de um mistério ou assassinato. O que mais se aproxima do chocante são os climas deixados pelos ganchos nos términos dos blocos ou do próprio capítulo. É o lado ‘Sherazade’ que aflora nos autores de modo que o intervalo comercial seja exibido ou que o dia passe e a vontade do espectador de querer acompanhar a trama seja aguçada. A cena 45, última do capítulo, demonstra isso:

JÚLIA – Você é sempre assim?
ANDRÉ – Assim como?
JÙLIA – Animado.
ANDRÉ – Não sei
ORNELA – Desculpe, estou meio perdida. A entrada pra São Paulo? Júlia?

E, pra finalizar, a parte crítica. Logo na primeira cena:

ORNELA – Quem é que Júlia está levando pros bastidores?
BIA – Não tenho a menor idéia. Depois você e o Gigi ficam falando que eu implico com ela. Viu o vestido jeca que escolheu justo hoje? Parece que faz de propósito para me irritar.
ORNELA – Jeca, não, Bia. Simplezinho.

Na cena 7:

BIA – Ninguém que seja realmente importante vem sozinho a um jantar como este. Está vendo, Ornela? Depois você não quer que eu me irrite com ela!
JÚLIA – Não sou mais criança, vó!
BIA – Então se comporte como adulta, assuma sua posição de presidente da empresa e pare de me chamar de vó!

Já na cena 9:

ALBERTO – Vou muito bem. Ce vai ou não vai me responder? Quem deixou você entrar aqui?
ANDRÈ – Eu não estou aqui como operário da Belíssima, seu Alberto.
ALBERTO – Ah não. E está aqui como o quê? De sapato engraxado, smocking alugado. Tá fazendo um bico de garçom?

E na cena 36:

JÚLIA – Eu não desconsiderei ninguém! Tratei todos muitíssimo bem, com a maior simpatia e atenção!
BIA – Que bonitinha. Imagine se sua mãe ia fazer uma desfeita dessas!
JÚLIA – Eu não sou a minha mãe!
BIA – Não precisa me lembrar. Essa verdade eu amargo todos os dias.

Bem, espero que eu tenha acertado na mosca ao escolher esses trechos de cenas como exemplos do grotesco exibidos em uma novela de televisão e que a escolha do foco dessa pequena exposição não tenha sido tão, digamos, grotesca. No mais, o que me resta é continuar me dedicando à coisa mais sublime e edificante para o ser humano: o trabalho.

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Carmen Miranda dá a nota.

A interferência das notícias de jornal em duas músicas gravadas por Carmen Miranda.

Um dos primeiros fenômenos de indústria cultural do século XIX foi a conexão jornal-romance cujas potencialidades criativas eram demonstradas por escritores como Manuel Antônio de Almeida e sua ficção era publicada em parcelas na imprensa periódica do Brasil. Essa conexão cria uma sinapse para com outros veículos culturais, tais como o cinema, o teatro, por exemplo, e o jornal. A proposta desse trabalho é a análise da mídia impressa através do prisma cultural da música tendo como principal exemplo canções registradas originalmente por Maria do Carmo Miranda da Cunha em duas fases da sua carreira.

Da atualidade, inspirada por uma crônica de jornal escrita por Arnaldo Jabor, a cantora Rita Lee em parceria com seu marido Roberto de Carvalho adaptou tal crônica e formulou o sucesso ‘Amor e Sexo’. Chico Buarque ao lado de Maria Bethânia em show de 1975 cantaram ‘Notícia de Jornal’ de Luis Reis e Haroldo Barbosa. Caetano Veloso e Gilberto Gil, no encontro em comemoração aos vinte e cinco anos de tropicalismo confeccionaram um álbum cujo uma das músicas se refere à violência marcante no ano de 1992/3 onde fatos como a chacina de Vigário Geral e do presídio do Carandiru onde morreram 111 presos serviram de alicerce para a canção ‘Haiti’. Esses são alguns poucos exemplos de músicas compostas ‘baseadas em fatos reais’ prensados pelas rotatórias.

Que ligação é essa que põe o periódico como influência para composições de música e se dá até hoje?

Voltemos à ‘pequena notável’. A composição de Assis Valente ‘E o mundo não se acabou’ gravada pela cantora no ano de 1938 e a de Vicente Paiva e Luis Peixoto ‘Disseram que eu voltei americanizada’ em 1940 demonstram que as notas de jornais serviam de base para a inspiração musical dos autores. A primeira se trata de uma nota referente a passagem de um cometa pelo espaço. A segunda é baseada na crítica sofrida por ela devido à recepção que o público teve com a sua primeira apresentação após uma longa temporada nos Estados Unidos.

Inspiração e criação são um constante denominador comum para atividades tanto de um compositor quanto de um jornalista e, dada as devidas proporções, o compositor tem uma liberdade maior, no entanto, ainda sente a necessidade de sorver do noticiário fontes para que o seu objeto final, a exceção de quando fala sobre as coisas do coração, tenha um molde de modo que seu protesto, indignação, paródia ou ironia seja evidenciado.

A relação do jornal com um veículo cultural precisa de uma maior atenção e, sendo a música um desses veículos a coloquei na berlinda, assim como também em destaque se encontra Carmen Miranda pelos cinqüenta anos de sua morte. Eternizando os sucessos acima mencionados, tanto a música de Carmen quanto referências de outros veículos culturais indicam um fato e/ou suas conseqüências retratados e servem também como fontes para pesquisa dos acontecimentos de uma época.

A conexão entre música e jornal é discutível no que diz respeito à pesquisa norte americana. Segundo a teoria empírica em campo ou teoria dos efeitos limitados estudada por Paul Lasarsfeld na década de 40, cuja conclusão final é de que cada indivíduo da sociedade é influenciado pelos meios de comunicação de massa; a teoria do agendamento perguntando sobre o que se pensar a partir daquela notícia e a teoria do gatekeeper que é a notícia como fato lapidado, tanto Assis Valente quanto Vicente Paiva e Luis Peixoto, compositores, se deixaram influenciar pelas notícias para fazerem suas músicas.

As notícias surgiram, os compositores sofrendo influência de um meio de comunicação de massa as transformaram conforme vontade própria e, no final, quem botou a boca no trombone e deu conta do recado foi a voz da pequena notável Maria do Carmo Miranda da Cunha, alcunhada e consagrada como Carmem Miranda.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

MAKING OF EM OFF(3)

Na quinta, sexta e sábado, foram feitas as primeiras filmagens em estúdio, no Pólo de Cine e Vídeo, na Barra. No domingo, além da votação pra segundo turno foi dia de folga. Os meus dias de folga são mais intensos que os do resto da equipe de modo que eles trabalham seis dias por semana e eu só quando tem figuração pra tomar conta. Como no caso da segunda-feira da segunda semana. Com um pedido de sete pessoas no total, três foram para o clube Marapendi gravar uma cena e quatro outras no estúdio. Eu tive que me dividir em dois. Mas até então as quantidades eram pequenas, o maior pedido tinha sido de vinte pessoas.

A cena iria ser megalômana. Iria ser, não. Foi. Já foi gravada inclusive. São Paulo, feriado de finados, Teatro Municipal seis horas da manhã. Hora marcada para a chegada do povo pra começar a se arrumar. O porque de ser tão cedo assim? Eram simplesmente duzentas e cinqüenta pessoas pra trocar de roupa, encabelar e maquiar no que diz respeito às mulheres. Claro que não estavam todas prontas na hora do primeiro ‘ação’, deveriam estar faltando umas quarenta pessoas ainda a fazer cabelo e maquiagem, mas no final deu tudo certo e todas estavam na platéia do teatro. Eu consegui fazer um feito incrível. Nunca entrei no Municipal do Rio e já conheço o de São Paulo. A gravação correu até as nove da noite. Foram quinze horas ininterruptas. Claro, teve um tempo pra almoço, mas que não foi de uma hora e os intervalos de gravação pra mudança de lente e posição de câmera e iluminação. E depois d todas as cenas no interior do teatro, ainda se gravou na escadaria, no foier se é que é assim que se escreve. Ou seja, era um sobe e desce interminável e incansável de pessoas que já no fim do dia ainda agüentaram fazer esse tipo de ‘exercício’. E o pior disso é que nessas horas a cena nunca sai de primeira, sempre tem que se fazer e refazer até chegar ao padrão de qualidade do diretor. Enfim, o ‘corta’ definitivo se deu pelas nove da noite, restando apenas uma cena a ser feita na fachada do teatro com mais cinco pessoas. Enquanto isso as outras já mudavam de roupa pra tomar o rumo de casa ou de qualquer birosca paulistana.

Eu cheguei em casa, ou melhor, onde estava hospedado, morto. Foi o tempo de tomar um banho e cair na cama pra recuperar pro dia seguinte. Cenas no cemitério da Consolação. Quando vou a São Paulo me hospedo no apartamento do meu primo que fica na própria rua da Consolação e próximo ao centro histórico da cidade. Eram poucas e em três horas tudo estava acabado. Até porque a equipe iria voltar para o Rio no início daquela noite. Não sei se foi intencional, mas achei a sacada de gravar cemitério no dia seguinte ao de finados sensacional, pelo menos foi menos trabalho pro pessoal da produção de arte já que o local estava todo limpo, florido e arrumado. Novo encontro na sexta 10. Dessa vez no estúdio no Pólo Cine, na Barra. Em relação à figuração eram só dias pessoas. Um pintor e um marceneiro pra fazer a cena da reforma do quarto na casa da Luiza, personagem de Débora Falabella. Arte dentro da arte.

Se cinema é a sétima arte, dentro dele, pelo menos pra quem faz, tem uma outra arte embutido nele. A arte da espera. Por ser mais minucioso que a tv, no cinema espera-se mais até por que o ajuste da luz, do enquadramento é mais fino, medido com trena. Por conta disso a preparação pra cada cena é mais longa e demorada que na tv. Chegamos, eu e meus pupilos que iriam figurar na cena por volta do meio dia, a gravação só rolou às oito e pouca da noite. Bem, até o dado momento esse é o making of em off de uma produção cinematográfica nacional. Pra encerrar, palavras do diretor assim que acabaram as gravações no Municipal de São Paulo. “Muito obrigado, senhores. O cinema nacional agradece.”

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

MAKING OF EM OFF(2)

Não ponho a filmografia e os trabalhos deles aqui pra não encher o saco. Qualquer coisa é só dar uma olhada no verbete dele no site da Wikipédia. No entanto destaco um. Como ator, o clássico Os Cafajestes o consagrou ao lado de Jece Valadão e Norma Benguel na primeira aparição de nu frontal numa seqüência longa. Atualmente está produzindo o longa ‘O Primo Basílio’ baseado no romance de Eça de Queiroz e adaptado para os anos cinqüenta e por eu estar diretamente participando da produção compondo o casting de figuração farei aqui uma espécie de making of por escrito dos dias de filmagem nos quais minha presença se fez nos sets de filmagens.

Antes de começar, só pra relatar que minha experiência com cinema nessa parte de produção começou há alguns meses, mais precisamente durante a Copa do Mundo, quando tive a mesma função no filme ‘Caixa 2’ do Bruno Barreto. Também uma adaptação, dessa vez teatral, para o cinema, o que, aliás, ultimamente, tem sido bastante feito. Haja visto o próprio filme do Daniel Filho ‘A Partilha’ além de ‘Trair e Coçar’, ‘Irma Vap’ e em pós produção ‘Polaroides Urbanas’ de Miguel Falabella na adaptação de sua própria peça ‘Como Encher um Biquini Selvagem’.

Anteriormente minha experiência no ramo do audiovisual era somente em televisão, em novelas precisamente falando. O cinema tem outro rítimo, é mais artesanal, é mais detalhista, não tem a preocupação de uma resposta mais imediatista como uma novela de tv, considerada uma obra aberta. Talvez essa seja a maior diferença entre cinema e tv. No cinema o que se exibe é o resultado final. Já a novela depende da opinião pública para tomar um rumo, mesmo que na sinopse esteja previamente escrita o caminho a ser tomado pelas personagens, além da velocidade industrial que se dá a uma produção de tv.

Pois bem, voltemos ao making of por escrito da nova produção comandada por Daniel Filho. O primeiro dia de gravação foi no dia 23 de outubro, uma segunda feira numa rua pacata do bairro do Grajaú, Rio e Janeiro. Em alguma coisa essa casa teria que se assemelhar a alguma outra da década de cinqüenta em São Paulo, já que a história do filme se passa lá. E na pacata rua do bairro do Grajaú, ao se instalar a equipe de filmagem já deixou de ser tão pacata assim. Não é toda rua que tem o privilégio de ser fechada para servir de locação para um filme e por conta da movimentação alheia à rotina da rua, muitos transeuntes ficaram curiosos com o que estaria acontecendo e grande parte deles pararam pra observar aquilo tudo. A molecada de escola então, que não está acostumada a ver os globais circulando por aquela área cataram máquinas – que nessas horas surgem do nada – papéis e canetas a fim de que se surgisse alguma brecha, atacariam os atores.

Antes do início da filmagem, elenco e equipe se uniram numa espécie de corrente pra frente, uma forma de pedir licensa aos deuses das artes para que tudo ocorresse bem durnate as filmagens não só daquele, mas de todos os dias de filmagem. Parece que eles escutaram bem porque até o presente momento nada deu errado. Claro que tem uma apreensãozinha daqui, uma cobrança a mais de lá, mas o resultado final está sendo elogiadíssimo. Continuemos assim. Ainda nessa evocação, o diretor fez um gesto e carinho distribuindo rosas brancas para todas as mulheres que estavam lá naquele dia. Durante três dias o Grajaú viveu momentos intensos e frenéticos, mais precisamente a rua Itabaiana. Essa já conquistou seus quinze minutos de fama. Os populares enlouqueciam ao verem os atores.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

MAKING OF EM OFF (1)

Na última segunda-feira 6, a rede de cinemas Cinemark participou do VII Projeta Brasil Cinemark. Esse projeto tem como finalidade dar acessibilidade à população em assistir algumas das produções nacionais do ano por um preço simbólico e reverter toda a renda ao próprio cinema nacional. Os filmes em cartaz durante esse dia em um dos Cinemark espalhados pelo Rio foram Casseta e Planeta, Didi, Zuzu Angel, Irma Vap, Se eu fosse você, Trair e coçar, O maior amor do mundo e Muito gelo e dois dedos d’água. Na minha lista particular os três últimos citados eram os que eu queria assistir, mas o Muito gelo e dois dedos d’água estava esgotado para todas as sessões já as três da tarde.

Pode-se levantar a discussão sobre o porquê desses filmes serem escolhidos para exibição. O cinema nacional vem crescendo em larga escala e inúmeros filmes são produzidos no país, talvez não com tanta penetração quanto esses escolhidos para serem exibidos nos Cinemark da vida ou não com a forte rede de distribuição e divulgação dos citados acima. Por outro lado, como esse projeto se fundamenta no apelo popular, é bem provável que um filme que não tenha uma cara conhecida em seu elenco não ganhe espaço nesse tipo de projeto. Um filme com caras desconhecidas pode ser muito melhor técnicamente, através da sua luz, fotografia e até interpretação dos atores do que um com caras conhecidas.

A proposta desse projeto é excelente, mas sua execução ainda não chegou ao ideal. Ceder um dia à população pra conhecer parte da produção nacional a preços módicos é o primeiro passo para que outros eventos como esse apareçam. A que se deve o estrondoso sucesso de ‘Muito Gelo e Dois Dedos D’água’ a ponto de todas as sessões ficarem esgotadas? Ao elenco global, ao recente lançamento do filme, à estrutura do roteiro e seus diálogos assinados por Fernanda Young e Alexandre Machado, autores de programas de tv como Os Aspones, Os Normais e Minha nada mole vida ou a mais um com o toque genial do diretor Daniel Filho? Bem, eu tentei, mas não consegui assisti-lo, pelo menos por enquanto, mas acho que todos os fatores descritos acima contribuíram de certa forma.

Daniel Filho é um nome consagrado no cinema nacional. Com a ajuda do Wikipédia a ficha dele tá aqui: “João Carlos Daniel, mais conhecido como Daniel Filho, (Rio de Janeiro, 30 de setembro de 1937) é ator, diretor e produtor de televisão e cineasta brasileiro.De família circense, filho de Juan Daniel e Mary Daniel, começou profissionalmente com os pais, em 1952. Depois de atuar no teatro de revista e em filmes como "Boca de Ouro" (1962), foi convidado para trabalhar na TV Tupi do Rio de Janeiro. Interpretou o papel principal em "Maria Caxuxa", de Juracy Camargo, passando a colaborar simultaneamente também para a TV Rio. Participando de diversas produções, logo passou a freqüentar a ponte aérea, contratado também pela TV Paulista. Com a experiência adquirida na convivência com nomes como Zé Trindade, Eva Todor, Tônia Carreiro e Agildo Ribeiro, transferiu-se para a TV Excelsior e iniciou-se como diretor, assinando programas como "Time Square e Chico Anysio Show". Já na TV Globo, dirigiu 24 novelas ("Irmãos Coragem", "Roque Santeiro", "Dancin´Days"), dez seriados ("Malu Mulher", "A Vida como Ela É...") e quatro minisséries, além de especiais e musicais. Na TV Cultura, dirigiu a série "Confissões de Adolescente". Entre os prêmios obtidos, conquistou como diretor o "Roquete Pinto", o "APCA", o "Emmy International" e o Festival de Cinema de Miami. Assinou a direção de filmes como "A Partilha", "A Dona da História" e "Se Eu Fosse Você". Foi produtor de "O Auto da Compadecida" e "Cazuza - o Tempo Não Pára", além de produtor associado de "Cidade de Deus", "Caramuru - A Invenção do Brasil", "Carandiru", "2 Filhos de Francisco", entre outros. Atualmente possui sua própria produtora, Lereby Produções, e ainda excerce a função de supervisor artístico da Globo Filmes.”

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

SUBSTITUIR O INSUBSTITUÍVEL

Já era de se esperar, apesar de ainda não ser – e não sei até que ponto isso é bom ou ruim – do jeito que eu, pelo menos, imaginava. Desde pequeno, ou melhor desde que eu passei a curtir carnaval e samba-enredo, enfim, desde pequeno – devia ter uns sete pra oito anos – vozes de intérpretes de samba sempre foram marcantes pra mim.

Da média entre doze e dezesseis escolas que disputavam o campeonato do grupo especial (no próximo ano serão treze até voltar ao número de doze novamente sendo que pra mim o ideal são catorze como até então) quatro cantores são de grande valia para o mundo do samba. Na verdade todos são, mas esses quatro tem mais identidade e empatia com o carnaval. Infelizmente um, por motivos de saúde e pela escola não está mais entre as grandes já há uns seis anos, já não é tão lembrado assim. Aroldo Melodia sempre foi o representante oficial da União da Ilha e tem gravações memoráveis como ‘É hoje’, ‘O Amanhã’, ‘De bar em bar’ e ‘Domingo’ por exemplo.

Dominguinhos do Estácio que além da escola que leva no nome já passou também pela Imperatriz Leopoldinense e criou um vínculo forte com a Viradouro há dez anos é outro ser emblemático do carnaval. A Beija-Flor tem o seu Neguinho e um não vive sem o outro. Não dá pra imaginar um sem o outro. Do mesmo jeito que não se concebe a Mangueira sem o mestre Jamelão.

No entanto, uma notícia que eu escutei semana passada me deixou bastante apreensivo. Mestre Jamelão sofreu uma isquemia e está impedido pelo médico de gravar o samba da escola por esse ano. Bem, descartando a hipótese de que ele vai contrariar a palavra do médico e soltar a voz no alto dos seus mais de noventa anos pra defender a Mangueira, a pergunta que não quer calar é quem vai substituir o insubstituível?

Que eu me lembre, somente no ano em que a Mangueira sim teve Braguinha e foi consagrada campeã do carnaval daquele ano que, se não me engano foi no ano de 84, que a gravação do samba não foi feita por ele. Não lembro do resultado na avenida, mas tenho a gravação oficial com um tal de Jurandir, que mais tarde fiquei sabendo que é compositor da escola e integrante da velha guarda da verde e rosa. Outra história, essa eu ouvi falar mas não me lembro, foi num ano, creio que já na era sambódromo, em que Jamelão não chegou a tempo de entrar na avenida junto com a escola e quando o avião estava descendo para pousar no aeroporto passou por cima da passarela do samba e ele chegou a ver a Mangueira por cima. Não sei se essa história é verídica ou lenda urbana, mas ela também ficou no meu imaginário de infante sambista.

O fato é que Jamelão adoeceu e a princípio não poderá estampar sua voz no disco das escolas de samba e provavelmente sua cara na Marquês de Sapucaí, ao menos enquanto intérprete do samba. Que outra pessoa poderia conseguir chegar a mesma patente que José Bispo Clementino dos Santos e segurar a escola na avenida durante a hora e meia de desfile e, ao mesmo tempo, ter a cara da Mangueira? Por enquanto não consegui ver outra pessoa no lugar dele.

Confabulando com meus botões de rosa pensei nas caras mais tradicionais da Mangueira, como Alcione, Beth Carvalho e Ivo Meireles, mas nenhum deles tem a antipatia cativante do mestre Jamelão. Claro que pela idade avançada ultimamente ele ficava acompanhado por uma equipe de cantores. Todos eles ficam, mas com o Jamelão havia uma preocupação maior. Tudo bem que Alcione, Beth Carvalho e Ivo Meireles são mangueirenses convictos como Jamelão, mas será diferente. Eles ou qualquer outro que substituir o insubstituível não vai dar o tom certo para a agremiação, por mais que se acerte tudo. Por outro lado imagino também a frustração do mestre Jamelão ao ver a sua escola desfilando na avenida e ele assistindo de casa sem poder fazer nada, sem sua presença para apoiá-la.

domingo, 29 de outubro de 2006

RETRATOS DE FAMÍLIA

‘Essa família é muito unida e também muito ouriçada.’ Nós não brigamos por qualquer razão. Claro que temos nossos desentendimentos – e qual família que não tem – mas procuramos sempre nos manter unidos. Isso vem sendo passado de geração pra geração e cada vez com mais afinco.

Por parte de pai meus avós tiveram cinco filhos e uma reunião completa de família tem no mínimo dezessete pessoas. Já por parte de mãe foram oito os filhos que eles tiveram sem contar um criado junto. Desses oito um já não está mais entre nós. E qualquer festinha vira um evento devido a quantidade enorme de pessoas que compõe esse ramo da minha família. Se por parte de pai dezessete já é uma boa quantidade de pessoas, por parte de mãe esse mínimo aumenta pra trinta e nove. Digo no mínimo por não ter incluído noivas, namoradas, rolos, casos e respectivas famílias, fora um ou outro que cai de pára-quedas e parentes de graus superiores ao primeiro, em suma, o que a gente chama de agregados e/ou afins.

O foco é na parte materna. Não que eu despreze a paterna, muito pelo contrário. Pelo menos três vezes ao ano – meu irmão nasceu no mesmo dia que eu – há pontos de união, onde ambas as partes se juntam, e que são justamente os dias do nosso aniversário. Enfatizo a parte materna por que foi a partir dela que tive a idéia de fazer esse texto.

No último feriado prolongado nós nos encontramos pra fazer um evento. Já não bastam as reuniões de família por motivos tradicionais como festas, casamentos, batizados e velórios, agora nem motivo específico temos pra nos juntar. Esse acordo foi firmado há dois anos no primeiro grande encontro nosso. Na época uma tia minha aproveitou o ensejo e comemorou o aniversário de cinqüenta anos visto que a mesma aniversariava vinte dias depois desse evento. Esse foi o nosso ponto inicial, o marco zero, o primeiro ENAFABA.

Na verdade a sigla surgiu pra essa reunião de agora. Eu inventei e minha prima fez a logomarca pro segundo ENAFABA, que significa Encontro NAcional da FAmília Barcel(l)os e Afins. O Barcel(l)os a gente deixa assim mesmo pelo fato de que alguns foram registrados com uma e outros com duas letras ‘l’. A proposta é essa: reunião e confraternização. Esse ano a emoção teve seu espaço devido a uma perda que tivemos ano passado. E por essa ser a primeira reunião sem um membro, certa hora a lembrança tomou conta e por um lapso de tempo a memória dele ficou mais forte e atingiu boa parte da família causando a boa sensação de saudade. Daí quanto mais união mais forte ficamos pra enfrentar e encarar os percalços da vida.

domingo, 22 de outubro de 2006

AINDA SEM TEMPO

Mais uma vez repruduzo coisas do arquivo.

A distância entre o ideal e a realidade propagada pela Organização das Nações Unidas (ONU), uma espécie de guardiã da idéia de um mundo melhor, humano, pacífico e democrático sempre foi grande. O potencial da ONU como reguladora das relações internacionais diante de uma realidade em que as oposições disponíveis e os alinhamentos não obedecem a uma lógica única e facilmente previsível foi ampliada com o fim da Guerra Fria. Os conflitos armados continuam sendo uma realidade, mas sua natureza é distinta. A pobreza e o subdesenvolvimento continuam assolando numerosos países, mas não é possível manter as estratégias de desenvolvimento do passado. Atuar de forma consistente sobre as causas estruturais e imediatas dos conflitos é um novo desafio tendo como objetivo a preservação da paz e segurança.

Na década de 1990 a ONU realizou uma série e conferências mundiais estabelecendo grandes princípios consensuais. O fim da bipolaridade ideológica certamente jogou um papel central na realização de tais eventos e na adoção de documentos abrangentes de compromissos. Os objetivos nacionais, conseqüência da criação de oportunidades externas que por sua vez provêm das nossas necessidades internas reforçam e coincidem com os valores universais. A ONU foi criada com o objetivo de “salvar as futuras gerações do flagelo da guerra” e teve êxito em certos aspectos. Lançou as bases para a cooperação econômica global, estabeleceu mecanismos de proteção dos direitos humanos e criou uma atmosfera pra evitar uma nova guerra mundial. No entanto a ONU precisa influenciar mais tanto na prevenção dos conflitos quanto na solução deles.

A violação sistemática dos direitos humanos é a marca dos conflitos contemporâneos. Em regra, hoje o que move os conflitos é a exarcebação de ódios étnicos, a manipulação de teses racistas e a busca de monopólios e privilégios no que se refere à exploração de recursos naturais e não mais a ideologia. É por isso que muitos conflitos armados não diferenciam civis de militares arrasando na prática um princípio básico do direito internacional humanitário. O problema é que a ONU tem privilegiado mais a busca de soluções para os conflitos já em andamento do que o cultivo de instrumentos capazes de detectar a violência em seu nascedouro, de modo a evitar que atritos e tensões desemboquem em violência armada. Essa situação precisa mudar, caso se queira realmente salvar as futuras gerações do flagelo da guerra.

O fortalecimento do Estado de Direito democrático, a educação para os diretos humanos e a cooperação internacional para o desenvolvimento complementam iniciativas como a diplomacia preventiva, desarmamento preventivo, sistema de alerta precoce e deslocamento preventivo de tropas. Uma vez superado o conflito, a chamada “construção da paz pós-conflito”, para usar o jargão da ONU, deverá lidar com tensões localizadas que podem levar a retomada da luta armada. A desigualdade e a exclusão dos benefícios gerados pela economia é a geradora de ressentimentos e conflitos mais do que a pobreza, apontada por especialistas como uma das causas estruturais que contribuem para a eclosão de conflitos. Por definição a previsão será mais bem-sucedida quanto menos chamar atenção, pois o resultado é a ausência de um conflito que não chegou a ser constatado, já que abortado nos seus primórdios. Em outras palavras, o resultado não é palpável, diz respeito a um conflito que poderia ter existido, mas não chegou a se materializar.

Caso as condições econômicas e sociais continuarem inalteradas os mecanismos na área da paz e segurança para prevenir conflitos serão pouco eficazes. A conexão entre a prevenção do conflito e a agenda social da ONU é evidente.

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

SEM TEMPO

Completamente sem tempo pra elaborar um texto melhor tive que resgatar alguma coisa pra postar essa semana. Espero que as coisas se aliviem na próxima.

“Muito mais que um crime” (Music Box) é muito mais que um filme. È uma história cujas estrelas maiores são a ética e a moral. A trama começa quando Michael Laszlo (Armin Mueller-Stahl) recebe uma notificação da justiça onde após russos revelarem alguns documentos o seu pedido de cidadania americana é posto em xeque devido a acusações de crimes que ele teria cometido ainda na Hungria, seu país de origem, durante a Segunda Guerra Mundial.

Deixando o caso nas mãos de Ann Talbot (Jéssica Lange), sua filha e advogada, ele confia na sua inocência devido ao próprio histórico construído como cidadão americano como o fato de trabalhar numa siderúrgica ou uma certa revolta anticomunista durante uma apresentação de dança folclórica húngara, fato que o colocou em evidência na mídia poucos anos antes do imprevisto que estava envolvido naquele momento, e a educação passada aos seus filhos.

Como estrutura de trabalho ela torna a atuar pelo escritório de advocacia do seu ex-sogro Harry Talbot (Donald Moffat) que se subtende ela ter deixado à época em que se separou não só por questões familiares como por questões éticas, apesar da recomendação do ex-marido Mikey Talbot (Lucas Haas) para não representar o pai diante do juiz por conta dos laços consangüíneos de modo que qualquer choque iria afeta-la diretamente.

Um ponto contra Michael Laszlo é a escolha de um juiz judeu, Juiz Silver (J.S. Block) Já que a acusação é dele ser um integrante de um grupo de extermínio da Gestapo denominado “Arrow Cross”. Um outro, e a partir daí se desenrola todo o processo do julgamento, é a descoberta de uma ficha com a foto dele e a assinatura cuja analise em uma fotocópia foi dada como autêntica.

Todas as testemunhas o acusava de crimes bárbaros e Ann, por sua vez, defendia com total afinco o seu cliente e pai sempre revertendo o jogo a seu favor, ou seja, demonstrando a inocência dele em relação às atrocidades descritas pelas testemunhas de acusação. Internamente seu conflito aumentava com a pressão que aqueles depoimentos exerciam sobre ela , afinal o pai não era aquele monstro todo que as pessoas descreviam. Muito pelo contrário. Uma pessoa meiga, doce, que dedicou sua vida aos filhos e que agora se apegava ao neto. Quem estava sendo julgado era um monstro , um animal e não o pai dela. No entanto a desconfiança já se tornava irriquieta no seu coração.

A última cartada da acusação era o depoimento de uma testemunha que estava hospitalizada em estado terminal na própria Hungria, Istvan Boday (Sol Frieder) Com o juiz, os advogados de defesa e acusação e uma intérprete o depoimento foi tomado não acrescentando nada contra o réu sentenciando assim, o juiz, a inocência do réu. A passagem de Ann pela Hungria não se ateve ao fato de escutar um depoente. Ela aproveitou pra tentar rever a história do pai enquanto húngaro.

Em visita a uma velha senhora, cujos dados foram passados para Ann por uma companheira de trabalho, Melinda Kalman (Elzbieta Czyzewska) e ela relutava em pegar até entrar no avião, percebeu ali, através das fotografias penduradas na parede e de algumas perguntas cujas respostas a reportava aos depoimentos das testemunhas de acusação, que sua tese defendida diante do juiz e de toda população vitoriosa por inocentar seu pai tinha acabado de desabar.

Claro que o texto não está completo. Cortei um bom pedaço pra caber aqui. Se deu vontade de ver o filme é muito bom. Vale a pena ver.

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

DESCARTADO

Como eu tô meio sem tempo pra pensar em alguma coisa e tentei fazer um esboço para um trabalho de faculdade que foi recusado, não pela idéia, mas pela abordagem do tema, é isso que eu tenho pra essa postagem.

Há algum tempo atrás o Brasil foi atingido por uma moda. Ou melhor, duas. Enquanto uma declinava do seu auge a outra surgia como novidade. A primeira foi uma série de livros cujo título é “Onde está Wally?”. Wally é uma personagem desenhada com uma roupa específica – camisa listrada de vermelho e branco, calça azul, um gorro e um óculos tipo fundo de garrafa – e que se perdia em vários cenários históricos e contemporâneos. A jogada do livro era achar a personagem camuflada nos desenhos.

Isso me reportou para um tempo pouco mais remoto. Me lembro dos desenhos animados da ‘She-ra’ onde sempre no final aparecia uma criatura parecida com um esquilo de rabo colorido e de nome Geninho que no final de cada episódio, além de dizer a moral da história se revelava escondido em algum trecho do desenho. Era praticamente a mesma essência e proposta do Wally.

Voltando à moda, a segunda foi uma série de desenhos também encadernados em um livro em que se existia uma técnica para descobrir o que estava aparecendo por detrás daquela imagem. Esses diziam ser em terceira dimensão. Uns desenhos bonitos, que poderiam até ser confundidos com obras de arte e com estética diferente. A técnica para se descobrir o que surgia daqueles desenhos era encostar o nariz no centro do papel e ir afastando gradativamente o papel para que surgisse, por exemplo, um leão mostrando sua garra, uma corrida de cavalos, um peixe ou um elefante. Confesso que nunca vi além do que estava desenhado no papel. Talvez a minha capacidade de abstração seja menor do que a das pessoas que viam. Aquilo era uma viagem cujo embarque sempre perdia.

Pra você ver. Algumas pessoas viam o que eu não via. Mesmo o desenho sendo um só e o mesmo modo de enxergá-lo era diferente, o modo de olhar era diferente. Eu olhava como todos, mas alguns viam além da minha capacidade. Ver e olhar, apesar de partirem da mesma fonte, o olho, são duas coisas completamente distintas. Até na língua inglesa existe essa diferença representada pelos verbos to see e to look. O ver é um olhar mais aguçado unido ao fator percepção. Quem apenas olha pode não ver, mas quem vê olha, enxerga.

E tem gente que enxerga longe, que tem uma percepção bastante apurada. Geralmente esses são os artistas. Ninguém, nem o mais perfeito falsificador vai pintar a Gioconda como o Da Vinci nem o teto da Capela Cistina, por mais que eu queira fazer o mesmo desenho no teto da minha casa, será de forma igual. Por mais que se queira reproduzir e que se olhe as mesmas gravuras, mesmo olhando as originais, o modo no qual a sua percepção age diante das obras é completamente diferente da do autor da obra. De qualquer obra.

No entanto, numa obra publicitária a percepção é o principal mote, é o principal mote, é o que se vê. Vide Roland Barthes e a famosa foto dos produtos Panzani. Não são só os produtos que ficam em voga, mas tudo que os cerca sugerido pela imagem. A percepção está ligada à bagagem cultural que a gente carrega. E por falar em bagagem cultural, em percepção, em artistas, vamos dar ênfase às diversas formas do olhar em outros aspectos da percepção que não a visual. No caso o link será com o sentido da audição. Percepção visual transformada em melodia.

E foi justamente isso que eu acabei de dizer que fez com que esse trabalho fosse recusado. Percepção visual não pode ser através da música, e sim de uma imagem qualquer. Agora tenho que pensar em outra coisa para o trabalho. Espero que dê tempo.

domingo, 1 de outubro de 2006

BOLO, GUARANÁ

Já estamos no mês de outubro. O ano está quase no fim. Não. Não vou me precipitar e fazer o balanço do ano até por que ele não acabou ainda e em três meses muita coisa pode acontecer. Isso eu deixo para a última postagem em dezembro. Mas outubro é um mês especial pra mim, ou melhor, pra nós. Há exatos quatro anos eu comecei uma coisa que sempre tive vontade de fazer e tenho prazer, apesar de algumas vezes não ter paciência e/ou inspiração para tal. Esse nosso encontro semanal nos moldes que está aniversaria em outubro.

Na verdade, o blog por si só existe há mais tempo. Se fosse levar ao pé da letra comemoraria o ‘blogversário’ no mês de maio que foi quando eu abri e consegui fazer a primeira postagem graças a minha amiga Joana que na época também tinha um e me deu todas as coordenadas e ajuda pra fazer esse aqui. O dela durou pouco. Cerca de um ano e mesmo assim não tinha uma freqüência regular.

Me lembro dessa primeira postagem como se fosse hoje. Não posso precisar exatamente as palavras, mas escrevi que iria viajar e na volta teria novidades pra contar. Já em embrião com esse espaço viajava pra depois relatar. Várias vezes fiz, e continuarei fazendo sempre que oportuno, uma espécie de diário de bordo. Na época eu fui pra Califórnia visitar minha prima Jana. Nem sei se relatei a viagem. Talvez não com os detalhes das viagens posteriores. Tem que ver no arquivo, se é que tem arquivo dessa época e se é que eles guardam também porque eu não guardei.

Entre maio e setembro, postava não com tanta regularidade e nem com tanto tamanho. Estava aprendendo a mexer com essa nova ferramenta e não imaginava que eu pudesse fazer o que faço até hoje. Achava que tinha que escrever enquanto conectado e na época não tinha banda larga, tinha medo de a conexão cair e ter que recomeçar tudo novamente. Até que fiz um teste que deu certo e desde então consolidei o formato das postagens do blog.

A primeira postagem nesse formato aconteceu em outubro de 2002, semanas antes da eleição presidencial. Aliás, eleição que aconteceu hoje novamente com um quadro completamente diferente da última. No texto – me lembro bem até por que foi a partir daí que comecei a guardar meus alfarrábios – falava mal de um personagem do qual se fala até hoje e com toda razão. Abri meus trabalhos criticando George W. Bush e juntei Rolling Stones com uma novela antiga da Globo chamada Vamp. O primeiro título da configuração mais séria desse blog foi ‘Demônio do Mundo’. Ainda bem que a seriedade só parou na configuração. Não sou especialista em nenhum assunto, estou aqui dando meu pitaco em tudo que tenho vontade. Às vezes acerto a mão, às vezes não.

Nesses quatro anos muita coisa mudou, muita coisa aconteceu e grande parte delas eu tentei compartilhar com vocês. Engraçado que eu escrevo pensando que muita gente acessa o blog, me sentindo como se estivesse escrevendo em um jornal de grande circulação. Quase um Veríssimo. Quando na verdade sei que dá pra contar nos dedos de uma só mão quantas pessoas lêem e mesmo assim creio que não no ritmo da postagem que é semanal. Perdi algumas coisas. Não dá pra confiar nem em memória de computador, apesar de ter a grande maioria em disquete até pelo fato de ainda não preencher o espaço total de um CD. Mas, mesmo com essas perdas já são contabilizadas mais de cento e oitenta páginas de texto escrito. É praticamente um livro pronto.

Meus parabéns. Pra mim, lógico, que ainda insisto em escrever aqui e pra quem perde uma parte do tempo lendo as besteiras que escrevo. Quatro anos passaram muito rápido e a idéia é continuar por mais quatro, oito ou até encher o saco ou não ter mais tempo. Mas aí é só remodelar a configuração das postagens e começar tudo novamente por mais quatro, oito... Agradeço de coração pela força. Obrigado.

domingo, 24 de setembro de 2006

PEQUENA AVENTURA FLUMINENSE (2)

As máquinas fotográficas nunca trabalharam tanto quanto naquela hora. Com tudo mais ou menos no lugar ainda e mais ou menos conservado, haja pilha pra dar conta de tanta fotografia, incluídas as fotos remakes que a gente tentou fazer com as mesmas pessoas e nas mesmas posições. Claro que não deu certo, mas valeu a tentativa. Na saída, defronte a casa ficava um comércio cujo dono nos foi apresentado pela Maria Zélia. Quando ela disse que éramos descendentes do Eurico que havia morado ali ele disse que se lembrava e que, pasmem, ainda havia com ele móveis do meu avô.

Ficamos por lá até mais ou menos o meio dia. A hora do almoço do seu José França Guimarães, pai da Maria Zélia que nos ciceroneava, tinha que ser respeitada. Afinal, quem tem uma qualidade de vida como ele chega fácil à idade que tem. Cem anos. Um relato vivo da história, lutou na revolução de trinta e dois e mantém a casa intacta, do mesmo jeito que construiu, claro que com algumas instalações mais modernas. No entanto, mantendo a mesma tradição de roça. Ele completou cem anos esse ano e chegou a nos convidar pro aniversário dele no ano que vem. Eu não sei nem se estarei vivo até lá, mas ele tem quase certeza de que sim. E continua lúcido, por dentro de tudo que acontece no país. Até falou mal do presidente. E quem é que não fala? Mas com argumentos fundamentados Maria Zélia é amiga de infância da tia Dora. Meu avô e o pai da Maria eram grandes amigos sessenta anos atrás. Ele mesmo reconhece que foi um grande amigo do meu avô e que ficou muito sentido com a ida dele pra Rio Verde em Goiás, que provavelmente será a próxima parada do tio Marcos.

Almoçamos lá. Tudo foi colhido da horta da casa. Acho que só o arroz que tinha sido comprado no mercado. De resto, foi tudo cultivado e colhido lá. O feijão, a couve, alface, tomate, rúcula, mas tenho que destacar outro componente que estava à mesa. O caldo de cana. Não um caldo de cana que a gente come com um pastel no chinês da esquina. A cana é mais grossa, diferente, suculenta e gostosa. Eu devo ter tomado uns cinco litros de caldo contando o que fiz questão de trazer pra casa. E vou me resguardar pra tomar caldo de cana só no verão pra manter ao máximo o sabor de uma cana natural e diferente. E a sobremesa? O doce de mamão que mais parecia carpaccios banhados na calda. Uma delícia. Levantar daquela mesa tava difícil, mas a gente tinha que conhecer outro cenário das fotografias que era o córrego que ficava no sítio. Das fotos pra cá parece que só mudou a qualidade da água devido a um abatedouro construído recentemente no terreno vizinho que contaminou o rio.

Uma cena que impressionou o Cláudio foi ver o seu Zé Guimarães em plena atividade depois do almoço moendo alguma coisa na mesma máquina que moeu a cana pra dar pros animais que depois se agachou levantando um tipo de estrado com uma das mãos e mexendo na mistura com a outra com uma facilidade incrível. São os hábitos e costumes da vida de uma cidade do interior. Coisas de Cantagalo. Só lá a gente via disputa de passarinhos de várias espécies e cores pra comer um pedaço de banana que estava exposta pra eles comerem.

Todo fim de semana meu avô ia pra lá com meus tios. A casa, em relação ao sítio, nem é muito longe, mas pra época deveria ser uma distância enorme, e eles ainda voltavam de noite na base da lanterna. Atualmente não existe, mas havia uma linha de trem pela qual eles eram obrigados a passar pra chegarem no sítio. Isso tá registrado em foto. Foi uma tarde maravilhosa e cheia de recordações.

Na volta a gente ainda fez um lanche aqui em casa juntando, além da gente, Luis Antônio, Sara e as crianças, Marcelo e Elaina e Ricardo, que já estava aqui em casa pra ouvir as histórias e ver as fotos digitais passadas na televisão inclusive comparando com as antigas que estão num CD.

terça-feira, 19 de setembro de 2006

PEQUENA AVENTURA FLUMINENSE (1)

Mais uma daquelas aventuras esplendorosas. Mas essa não precisará de laudas e laudas de descrição. Talvez essa já seja o bastante, ou no máximo mais uma outra devido ao fato do acontecimento histórico-familiar ser presenciado pelo porta-voz que vos fala somente por algumas poucas e boas horas.

O alvo foi a cidade de Cantagalo, interior do estado do Rio, próximo de Friburgo, e o objetivo mais uma vez era escarafunchar os rastros familiares por lá deixados acerca de sessenta anos. A data foi um dos dias do prolongado feriado de sete de setembro, dia em que Tio Marcos e Gabriel aportaram por aqui. Fizemos uma pausa na toca do Tio Rodolfo e passamos o resto do dia na casa da tia Branca dentre outras coisas comendo sanduíche de mortadela. O Gabriel ficou lá na casa da tia Tereza e eu voltei com tio Marcos que decidiu dormir aqui em casa por ser mais perto do Salesiano. Teve uma missa em memória de um ano de morte do meu tio Tarcísio às sete e meia da manhã da sexta-feira e comparecemos em peso na igreja. Depois, o café da manhã foi aqui em casa. Tia Tereza, tia Branca, mamãe e tio Marcos sentaram e ainda discutiram coisas sobre Saquarema e em seguida cada um tomou seu rumo. Tio Marcos, tia Dora, e ia Tania, que foi a única que compareceu a missa e não veio pra cá até pelo fato dela também morar perto do Salesiano e ter que terminar e arrumar sua bolsa de viagem, rumaram pra Cantagalo. Eu havia combinado com tia Branca da gente ir e passar o sábado lá, visto que na sexta ela e o Cláudio trabalhavam e eu também tinha que resolver algumas coisas por aqui.

Situação armada. Fomos nós pegarmos a estrada pra encontrar tia Dora, tia Tania e tio Marcos em Cantagalo. Tia Branca não havia nascido na época em que meu avô morou por lá, mas como a cidade fica aqui perto e as antigas fotografias recuperadas pelo tio Marcos documentavam a passagem da família por lá, ela também queria rememorar as histórias que só conhecia de ouvido. Chegamos lá e após pegar um trecho em contramão, voltamos e paramos o carro em frente à praça. Toda cidade do interior tem uma praça com uma igreja na parte central. Eu e tia Branca estávamos apertados pra ir ao banheiro. Começamos a caça de um andando pelos estabelecimentos da rua. Até encontramos uma padaria que tinha banheiro, mas optamos pela certeza e hospitalidade do hotel, que por sinal havia fotos das fundações para a construção dele no álbum que tio Marcos carregava debaixo do braço. Quando saí do banheiro, meus tios mais a Maria Zélia estavam na praçinha esperando pela gente. Imagina se o celular não tivesse sido inventado. Teríamos que ter dado outro jeito pra avisar que estávamos chegando e provavelmente a demora iria ser maior.

Defronte a esse tal hotel, ficava a antiga agência do Banco do Brasil, na qual o meu avô trabalhava. Tio Marcos sem pestanejar sacou sua máquina e largou o dedo pra registrar e comprar com a foto antiga cujas fachadas praticamente permaneciam as mesmas, sendo uma ou outra mais moderna ou modernizada. O hotel também serviu como pano de fundo para fotos. A meta agora seria passar na casa em que eles moraram. Passamos numa loja defronte praça onde havia uma senhora que se não me falhe a memória é mãe da atual moradora da casa. Puxa-se o assunto dos tempos antigos e as fotos são mostradas para fim de reconhecimento. Localizada a dona da casa que – também se não me falhe a memória – passou por lá na hora em que estávamos. Totalmente receptiva Roseli, a atual dona da casa, abriu as portas e nós entramos. A emoção bateu forte no tio Marcos e na tia Dora. Tia Tania nem tanto, já que saiu de lá com dois ou três anos de idade. As reminiscências da primeira infância vieram à tona e logo que entrou na casa tio Marcos lembrou logo do quadro que surgiu na sua frente com a mesma vista para o mesmo jardim. As histórias mais uma vez foram reveladas.

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

SEM O QUE FAZER

Estou eu aqui diante dessa tela branca em plena madrugada esperando a inspiração para que eu possa conseguir preenchê-la. Aliás, que madrugada fria. Essa semana o tempo não tá perdoando. O frio veio com tudo. Talvez ele queira se despedir do inverno que acaba em poucas semanas. E provavelmente o inverno mais quente dos últimos anos. É uma coisa que não dá pra entender. Na verdade tem muita coisa que não dá pra entender. Uma delas é um aspirante a escritor sem inspiração pra escrever. Imagino as pessoas que trabalham com jornal, por exemplo, que tem que entregar a matéria escrita no tempo exigido e com um chefe a beira de um ataque de nervos dizendo que vai cortar a cabeça de quem não entregar.

Continuo aqui diante dessa tela quase branca ainda esperando a inspiração chegar. Veja o que é o ato de escrever. Esse parto solitário e pra mim altamente prazeroso. Mesmo sem nada de concreto pra dizer a tela vai se enchendo de palavras. Podem até não fazer sentido, não expressar uma idéia, mas elas vão, praticamente por si só, preenchendo esse espaço que é destinado única e exclusivamente a elas. Claro que elas não aparecem assim, de supetão, eu as escrevo e as coloco aqui. Mas nessa noite fria de inverno elas não querem demonstrar uma idéia pelo simples fato de não terem um foco pra ser demonstrado. Culpa única e exclusivamente de quem as escreve, no caso eu.

A mancha gráfica tá crescendo e mesmo assim a inspiração não vem. Há uma história sobre uma música composta por Dorival Caymmi cujo título me escapa à memória que por falta de inspiração – nem só os grandes gênios são acometidos do mal que aflige a todos os artistas, os pequenos, como eu, também – ela levou cerca de vinte anos pra ficar pronta. Claro que eu não vou fazer o mesmo com esse texto. Mas, no caso, como ele é postado por inteiro, pode ser escrito pela metade. É o que eu vou fazer. Quem sabe amanhã a inspiração vem e eu consiga expressar algo mais conciso, mais específico, com um sentido maior do que apenas colocar as palavras aqui.

Pode parecer estranho, afinal a leitura é feita de uma só vez, mas a escrita nem sempre. O amanhã foi ontem, mas mesmo assim a inspiração não veio.Essa semana foi meio parada mesmo. Não sei se isso é bom ou mau sinal. Tomara que seja bom. Parada até por conta do feriado prolongado. Mais um ano de independência do país. Independência em termos. Taí. Pode ser que essa seja a inspiração, o mote, a pauta da semana. Não. Definitivamente não é. Tô sem a mínima vontade de escrever sobre essa data comemorativa. Será que esse marasmo vai me levar a algum lugar, a algum ponto de criatividade da minha imaginação? Por que em se falando de data comemorativa, reza a lenda que Cabral antes de aportar em nosso ‘porto seguro’ passou por uma calmaria. Será que eu vou descobrir alguma coisa que pode mudar a história do mundo? Tô ficando apreensivo.

Apreensivo e ainda sem inspiração. É. Acho que essa semana eu não tenho nada a declarar, nenhuma opinião pra dar ou bandeira pra defender. O negócio é esperar o que acontece nessa semana vindoura. Todavia esse espaço está sendo devidamente preenchido. O limite final está chegando e eu consegui escrever alguma coisa. Mesmo que sem um foco concreto. Agora o que me vem a mente são os meus mais variados desejos. As várias coisas que pretendo realizar. Não os expô-los-ei (a mesóclise caiu em desuso) aqui. De planos a cabeça ta cheia. Realizar todos e do jeito que eu quero é que é o problema. Mas vamos com calma. Complementando um ditado popular com o que foi dito aqui, primeiro a inspiração, depois a obrigação e aí sim a diversão. Se bem que eu acho que as dias últimas devem vir juntas, serem casadas. Aí a primeira vem muito mais forte. Esse assunto pode servir de inspiração pra uma outra postagem.

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

VOTO VÁLIDO?

Ano de eleição. A campanha já está nas ruas. Falta pouco menos de um mês para o pleito. Candidatos a deputado estadual e federal, senador, governador e presidente estão cada um vendendo seu peixe. Aliás, do jeito que a política está fedendo, parece mais um mercado de peixe, cada um garantindo que o seu tá mais fresco que o do outro. Em termos de campanha pelo menos essa tá mais limpa sem aqueles galhardetes que poluíam visualmente a cidade. Os santinhos ainda resistem. Outro dia, na porta do teatro municipal do Rio uma senhora me entregou o dela de deputada estadual. Só vi qual era o partido. Nem me lembro do nome da sujeita.

Sinceramente, como estão as coisas, pela primeira vez eu to pensando em anular meu voto. Na verdade eu tô pensando em não ficar na minha zona eleitoral só pra continuar com a minha coleção de justificativas, já que no segundo turno pra prefeitura e no referendo das armas eu não estava em Niterói. Mas, estou prevendo que isso não vai acontecer. Então, terei que cumprir meu dever cívico, ou melhor, minha obrigação cívica e comparecer depois de duas votações à urna. De acordo com as intensões de voto que são divulgadas em telejornais, tudo indica que tanto o governo federal quanto o estadual – falando do Rio – vai ficar na mesma e bem provável que em um turno só. Daí também a minha vontade de fugir da zona no dia da eleição.

Mas, voltando a vaca fria, pela primeira vez eu tô pensando em anular o meu voto pra todos os cargos. De deputado estadual a presidente. Completamente descrente e desmotivado, não tem outro jeito de renovar se não limpando. A lei diz que se metade mais um dos votos forem considerados nulos, os candidatos que concorreram estarão proibidos de se candidatarem, ou seja, pelo menos em um pleito as caras serão novas e daí a gente pode começar a pensar em tirar os peixes podres da banca, apesar do cheiro já impregnado. Claro que não iríamos nunca conseguir isso. Tem sempre uns rabos presos que não anulam seus votos nem em troca de favores.

Se o quadro se apresenta assim, de que adianta validar meu voto se não vai mudar em nada? Os peixes podres espalham seu cheiro pelo ar e quem fica sentindo é a gente, pobre povo brasileiro, que na maioria das vezes não tem nem material suficiente pra aprender a pescar. Em que o meu único voto vai diferenciar no resultado das eleições? Nada. Então anula-se.

Um outro caminho é o que eu chamo de voto de protesto, que no fundo acho que não faz diferença nenhuma do nulo, é o voto de protesto. É votar em outro candidato só pra tirar a vantagem de quem ta na frente. No entanto, pelo que mostram as pesquisas de intenção de voto quem está na frente está muito na frente. E não é um voto, muito menos o meu, que vai diminuir a gritante diferença. E quais seriam os outros candidatos que por acaso mereceriam o meu voto, mesmo que não fosse de confiança, mas de protesto? Será que tem alguém digno a isso?

Caso eu não anule a minha tão requisitada contribuição para o pleito eleitoral, já que a minha tendência é essa, estou pensando seriamente em votar nas saias. Não em qualquer saia, mas as saias mais convincentes, também pra todos os cargos. Tirar um pouco a política de dólares nas cuecas pra introduzir a de euro nas calcinhas. Os homens nós sabemos que são mesmo capazes disso, mas e as mulheres? As oportunidades para elas não tem sido dadas de modo suficiente. Há umas exceções, ou umas aberrações, como aquela que dançou na câmara dos deputados em comemoração a absolvição de um companheiro de partido acusado de participar de um desses escândalos, ou a senhora que governa esse estado. Mas elas já estão contaminadas, já são maçãs poderes. Será que tem diferença, será que procede esse meu pensamento? Bem, eu tenho mais um mês pra pensar nisso tudo, mas a princípio levanto a bandeira do voto nulo.

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

MEU MUNDO CAIU

Uma decisão tomada essa semana por cientistas astrônomos do mundo inteiro e divulgada me deixou de queixo caído. A gente quando criança que começa a estudar e observar o mundo faz umas construções que depois ficam difíceis de serem derrubadas. Essa foi uma. Desde quando aprendi, creio que na 3ª série, decorei a ordem dos planetas no sistema solar. Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. Depois ainda descobriram algo semelhante a um planeta que no caso seria o décimo, mas não concederam a patente de planeta pra ele, que nem me lembro mais o que era. Agora, decidiram que Plutão não é mais um planeta. Como assim? Só porque tá longe da Terra, ou tem um tamanho n vezes inferior ao planeta azul? Então por que o colocaram como planeta se as características que ele possui não dão o grau de componente do sistema solar? Pra mim Plutão sempre será o nono planeta do sistema solar, queiram ou não os cientistas desocupados que resolveram rebaixá-lo.

Seguindo essa linha de derrubada de mitos, tive medo de ir ao cinema e ver o filme do novo ‘Superman’. Sou conservador até na ficção. Na minha concepção o homem de aço é o Christopher Reeve que viveu o personagem em uma série de quatro filmes entre o fim da década de setenta e o início da de oitenta, ou seja, minha infância. Eu até acompanhava uma série chamada ‘Lois e Clark’ e uns poucos episódios do ‘Smallville’ que também falam do Super-homem pra linguagem da televisão. Mas no cinema, aquele ‘Superman’ é imbatível pra mim. Mesmo agora depois de morto. Fica até esquisito dizer que o Super-homem morreu, mas, obviamente, não é a personagem, mas o ator que a interpretou. Em maio de 95, após a queda de um cavalo ele fraturou uma vértebra e ficou tetraplégico. De lá pra cá se tornou cobaia em vários experimentos científicos, principalmente com células-tronco, mas infelizmente deve ter uns três anos que ele voou dessa pra melhor.

Mitos caem mesmo quando eles cientificamente não foram levantados. Outro exemplo é o olho. No curso que faço de pós-graduação aos sábados pela manhã, tem uma matéria que foi iniciada há duas semanas, abrindo o último módulo do curso, chamada Teoria da Imagem, que começou explicando o olho na sua parte fisiológica, o seu funcionamento físico e químico. E por conta dos cones e bastonetes que existem nele associados com a intensidade de raios incidentes nas superfícies dos objetos é possível – pelo menos foi isso que foi afirmado em sala de aula – distinguir a cor de cada objeto. Ou seja, a cor é só o reflexo da intensidade da luz de modo que uma coisa que se vê de cor cinza, por exemplo, não e cinza, e sim fruto da sua imaginação combinada com a física e química do seu olho. Pode ter uma explicação científica plausível, mas não me é convincente. Pra mim o cinza vai ser sempre cinza, o azul, o verde, o amarelo, o vermelho e qualquer outra cor, mesmo aquelas que eu não sei identificar, tipo fúcsia, serão sempre cores e não reação químico-física do meu olho.

O mundo está em constante transformação. Acompanhei a divisão do estado de Goiás em dois (Goiás e Tocantins) e os mais antigos acompanharam o mesmo com o estado de Mato Grosso. Isso eu aceito por que não houve a supressão de nada, apenas transformações, mas as terras continuam lá, do mesmo jeito que a Rússia para com a União Soviética, A Iugoslávia, para com a Bósnia, Sérvia, Montenegro e etc... Berlim para com a Alemanha.

Mas tenha a santa paciência. Destituir Plutão do seu posto de nono planeta do sistema solar é uma sacanagem. Tudo bem que isso não vá interferir em nada na vida terráquea. Eu sou defensor ferrenho de Plutão. Ele não pode ser substituído, se é que tem outro planeta em vista para tal. Dizer que o mundo não é colorido, que tudo é fruto de efeitos físico-químicos também é demais. E esse ‘Superman’ não é convincente.

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

JOGO CONTRA

Não me lembro bem se foi no início do ano passado ou no fim do retrasado quando a Ediouro lançou o ‘Almanaque Anos 80’. Estava no auge da festa ploc, que em São Paulo tem o nome de trash. A festa ainda rola em vários lugares, não com a mesma intensidade da época, mas certamente pelo fato de ter cativado a geração anos 90. Eu li esse almanaque de cabo a rabo e fiquei feliz por terem conseguido condensar a minha infância num único volume de um livro. O sucesso foi tão grande que chegaram a lançar dois discos com catorze musicas cada, um nacional e outro internacional de músicas que foram sucessos na década referida.

Esse ano, eu estava em São Paulo quando passando na livraria de um shopping me deparei com o ‘Almanaque Anos 70’ da mesma editora. Confesso que esse eu ainda não li e não sei se terei o mesmo entusiasmo ao lê-lo de modo que conta a fase de outra geração apesar de eu viver os resquícios dela. Na última quarta-feira, a autora desse, a jornalista Ana Maria Bahiana, falou em entrevista ao programa ‘Sem Censura’ da TVE que a década de setenta teve um marco divisório nítido e que seriam duas décadas em uma. Eu deduzo que ela chegou a essa conclusão porque aos meus olhos essa talvez tenha sido a década mais acelerada do século vinte. Acelerada nos termos principalmente da tecnologia, ou seja, uma rápida evolução de tudo o que se consumia. Quem viveu esse tempo é mais tarimbado pra dizer o real motivo desse divisor de águas.

Que bom que se tem essa maravilhosa idéia de registrar em livros, melhor dizendo, em almanaques a moda, o costume, os hábitos dessas décadas. E, pelo que se consta, não vão parar por aí. O registro da década de sessenta está por vir. Eu fico imaginando como se fazer um livro desse, onde uma imensa pesquisa é feita, se só se utilizasse os centros de documentação e arquivo existentes na cidade. Provavelmente iria sim ser lançado, mas não com um intervalo de tempo tão curto quanto esse. A elaboração, apesar de moldes pré-estabelecidos inclusive no conceito de diagramação e edição dos livros, custaria a sair, creio eu, caso nós não tivéssemos, por exemplo, uma internet pra trocar figurinhas.

O tempo joga a favor, nesses casos, mas contra no dia-a-dia. O dia tinha vinte e quatro horas nas décadas de setenta e oitenta como tem hoje, mas não parece. A cada dia que se acelera na evolução a fim de se economizar tempo, principalmente, a impressão que se tem é de que o tempo também acelera. A minha geração teve, não sei dizer se o privilégio, de crescer acompanhando essas mudanças. Quando minha avó me deu uma vitrolinha no meu aniversário de quatro anos de idade – que, aliás, mantenho pela afetividade, apesar de não funcionar perfeitamente tanto pela idade quanto pelo tipo de mídia que não existe mais - mal sabia ela que o vinil dez anos depois estava condenado a sumir das lojas. Se fosse hoje, eu ganharia um som com cd player, que nada mais é que um toca disco moderno, ou seja, a vitrola da nova geração. E já profetizam o fim do cd. Agora MP3 e I-POD’s são a coqueluche do mercado no patamar de aparelhos de som portáteis. (Ah! A minha vitrolinha também é portátil. Mas além dela tinha que carregar penca de vinis.)

Além dessa tecnologia toda, a gente fazia pesquisa em livros, enciclopédias – a boa e velha Barsa – que hoje são todos os volumes condensados em um único cd-rom. O computador é indispensável e quem não sabe utilizá-lo em grande parte de suas ferramentas é praticamente um analfabeto. Hoje em dia é tudo no sistema. Os caixas de banco, pra desespero dos velhinhos aposentados que faziam a fila do banco seu ponto de encontro e esperavam ansiosamente para serem atendidos pelos funcionários, se transformaram em máquinas de auto-atendimento. Imagino Graham Bell e um celular.

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

SORRI

Nada como um dia após o outro. Isso é um clichê, mas também é a mais pura verdade. Ano passado o urubu pousou sobrevoou minha cabeça no mês de setembro. Esse ano foi mais cedo, no mês de julho. Foi só eu voltar de São Paulo que lá veio ele pousar no meu ombro. No entanto agora ele tá sinalizando levantar vôo. Sinto que as asas dele já estão sacudindo e dentro de pouco tempo ele vai embora pra voltar no próximo ano. Dizem que todos nós passamos por um inferno astral e essa fase é no mês anterior ao aniversário. O meu tá sendo agora justamente pra quebrar essa regra.

Não vou ficar aqui me lamuriando, contando minhas mazelas e as porradas que me foram dadas pela vida todas concentradas nesse mês, pelo menos até agora as mais fortes, até porque uma parte delas foi contada na última postagem. Isso tudo está me servindo de lição. Estou aprendendo muito, talvez na melhor escola que é a da vida.

O mês já mudou. Estamos em agosto, um mês temido por uns, considerado de mal agouro por outros. Eu não acredito nisso. Sempre achei agosto um mês como outro qualquer. Aliás, pressinto que será um mês excelente de modo que perto do que foi o meu mês de julho, todos os outros serão excelentes a não ser que esse urubu dê cria, coisa que não vai acontecer.

Engraçado como é a vida. A gente aqui preocupado com tudo o que ns cerca enquanto os bebês não estão nem aí pra nada. Pego como referência o Miguel e a Luiza. Os dois mais novos membros da minha extensa família, nascidos nesse mês e com pequenos problemas que estão sendo ou já foram contornados. Eles é que estão bem, naquela fase de recém nascidos onde só se come e dorme, sem saber de nada, sem preocupação nenhuma enquanto rola a guerra entre Israel e Líbano, por exemplo.

Por mais que fases se alternem não existe outro modo de encarar a vida do que sorrindo. Só o fato de olhar pra essas crianças já me dá uma alegria indescritível. E se acontece algo de ruim, se se passa por uma fase penosa, no meu caso já está acabando, tira-se proveito dela olhando por um outro ângulo. Uma coisa meio Poliana – personagem de história infantil que via o lado bom em todas as coisas que a cercava.

Descobri até uma espécie de hino pra esses momentos da vida considerados os piores. É uma música de Charles Chaplin, John Turner e Geoffrey Parsons com versão de João de Barro que se chama ‘Smile’ e na tradução veio como ‘Sorri’. Quer saber, eu não tenho mesmo do que reclamar. Segue a letra da música.

Sorri
Quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos, vazios
Sorri
Quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
Sorria sim
Quando o céu perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados, doídos
Sorri
Vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz

segunda-feira, 31 de julho de 2006

COM LENÇO, MAS SEM DOCUMENTO

Já contei aqui que fui roubado no dia seguinte em que cheguei a São Paulo e que consegui recuperar parte do que me tomaram. No entanto, os principais documentos – identidade, CPF e carteira de motorista – além do cartão do banco não voltaram pras minhas mãos. Passei todo o mês de junho em São Paulo andando com o boletim de ocorrência no bolso. Tem um serviço muito bom lá chamado Poupa Tempo onde se tira segunda via de documentação com uma certa facilidade e rapidez, mas eu teria que mudar todos os prontuários dos documentos pra lá pra poder tirá-los novamente. Resolvi esperar e voltar pro Rio pra reavê-los.

Existe uma lei, que segundo o que consta é estadual, dizendo que o boletim de ocorrência isenta a vítima de pagar taxas para tirar a segunda via. Eu estava contando com ela para me beneficiar. Quando fui ao Detran munido do papel de São Paulo a informação que obtive é de que como a lei é estadual o registro de lá não servia pra cá. Bem, eu acho que se a lei é estadual deve beneficiar os cidadãos cuja base da sua documentação fique em qualquer cidade dentro do Estado do Rio de Janeiro não importando se ele foi roubado em São Paulo, na Bahia ou no Acre. Esse é um tipo de interpretação que precisa ser bem debatida e posta em prática.

Enfim, na esperança de me fazer valer dessa vantagem, que supostamente estava a meu favor pedi conselhos pra Milena e pro Fernando, meus primos e excelentes advogados. Eles me instruíram pra ir à delegacia e fazer uma ocorrência por aqui. Cheguei na delegacia e o policial lá me disse ara entrar no site da delegacia virtual pra fazer a minha queixa on line. Voltei pra casa, entrei na internet e fiz o registro. Três folhas foram geradas, uma pra cada documento. Dois dias depois volto eu no Detran munido da lei, do papel de São Paulo e dessas três folhas. Disseram que o procedimento estava certo, mas que deveria ter um carimbo da delegacia de repressão de crimes de informática (DRCI). Voltei pra delegacia e disseram que essa delegacia específica ficava no centro de Rio, na rua da relação que, em relação às barcas não é muito perto. Pra ser franco é longe pra cacete e anda-se um bom pedaço. Lá estando, pedindo informações, descobri que não era lá e sim próximo ao sambódromo. Andei mais um pouco. Finalmente cheguei na DRCI, mas, por pura falta de sorte, o sistema estava fora do ar e a polícia não pode fazer nada, muito menos eu.

Dias depois, recuperado da andança e de fôlego e paciência recarregados volto eu lá pra perto do sambódromo torcendo pra que dessa vez o sistema (de informática) estivesse conspirando a meu favor. E estava apesar do policial não ser tão gentil comigo. Também não foi grosso. Foi indiferente. O tal papel que eles teriam que carimbar deu cria e a polícia gerou outro, cada um pra cada documento devidamente carimbados e assinados. Volto eu pro Detran com essa resma de papel na mão e eles alegam que não haveria problema caso na ocorrência não estivesse escrito extravio. Ou seja, muito barulho por nada. E o pior é que está escrito no registro de SP que aquele papel não é válido como documento sendo apenas para obtenção de segunda via e garantia de direitos jurídicos.

Se eu tivesse que depender da boa vontade da polícia carioca eu morreria como indigente. Resolvi pagar as taxas e retirar os documentos. A habilitação já está em minhas mãos, a identidade dentro de um mês. Mas o que mais me deixou jururu foi que dentro da legalidade eu não pude exercer o direito que me é concedido. Até poderia ir a qualquer delegacia e ter mentido dizendo que tinha sido roubado há poucos minutos atrás, mas o meu receio nesse caso é que, bem ou mal, meu registro está nos autos policiais e se eles quisessem cruzar os dados eu poderia me ferrar. Mas no fundo, são eles que nos obrigam a sermos ilegais para que a legalidade esteja a nosso favor.

segunda-feira, 24 de julho de 2006

PANDORA

Está rolando desde o dia treze de julho uma campanha pra batizar o símbolo dos jogos pan-americanos que vão acontecer a partir do dia treze de julho do ano que vem no Rio de Janeiro. Geralmente mascotes de jogos olímpicos são animais, ou alguma coisa que os lembra. O urso Micha das olimpíadas de oitenta em Moscou, ou até o próprio leão estilizado da copa do mundo da Alemanha. No Rio essa tradição foi quebrada. O único bicho que eu me lembro que pode representar a cidade é o Zé Carioca. Mas esse já foi criado e é de propriedade americana. Então, para simbolizar o Rio e Janeiro desenharam e criaram um sol. Faz sentido. Rio, sol, carnaval. Está tudo dentro dos conformes. Os três nomes escolhidos para serem votados são Cauê, Luca e Kuará.

Cauê vem da língua tupi. È o nome próprio, provavelmente derivado de Auê, que é uma saudação tupi. Em dicionários de nomes significa “homem bondoso”. Faz parte de uma lenda que evoca a nossa mistura de raças e a colonização do Rio de Janeiro. Cauê seria filho de uma branca, a francesa Amanda, e do cacique Ararê.

Luca vem do latim e significa “luminoso”, “nascido na terra da luz”. Representa o Rio, o Brasil e os trópicos: terras de luz. Faz referência à origem latina de nossa língua portuguesa.

Kuará vem do Guarani Kwaray, o sol. Na cultura deste povo, é o filho do deus criador e representa a igualdade e o caminho do bem. Faz parte da lenda da criação do mundo para os guaranis. Essas informações foram tiradas do site pan2007.globo.com.

Eu não dei o meu voto e nem vou dar. Pra mim o nome do solzinho tinha que ser pandora. Não tem um significado especial. O que tem não tem nada a ver com os jogos pan americanos. Ou até pode ter visto que ao ser aberta a caixa de pandora, segundo a mitologia, a única coisa que ficou dentro da caixa foi a esperança. E se espera muito do Rio para que ocorra tudo bem em todos os setores. Não só nos jogos, mas principalmente no entorno como transporte e segurança. O ideal seria manter em atividade todos os avanços que a cidade terá por conta do pan americano, mas daí a se concretizar são outro quinhentos. Na música ‘Dona Doida’ de Rita Lee ela diz que ‘a vida é uma caixa de pandora e se abrir estoura dinamite’. Esse dado não interfere em nada do que eu to falando. Só liguei o fato dela também falar e dar uma outra interpretação à caixa de pandora.

A conclusão que eu cheguei em escolher esse nome para o mascote dos jogos do Rio no ano que vem não tem nada de extraordinário. Pandora seria apenas a junção de pan, do próprio pan americano com dora que vem de dourado que se não é a cor do próprio sol é a cor que ele deixa no corpo de quem curte uma boa praia. E praia além de ser a cara do Rio não há outra combinação senão com sol. Claro que eu sou carta fora do baralho. Afinal a minha opinião não está entre as três pra ser escolhida e nomear o símbolo do Rio 2007. Guardemos então a caixa de pandora pra outra oportunidade.

As obras estão em andamento. Algumas bastante atrasadas, mas com promessas de serem entregues em tempo. Acredito que serão, mesmo que sem o acabamento necessário. O maracanãzinho, coitado, tá todo descassetado. È o mais atrasado. Assim como as obras do autódromo que estão sendo feitas a toque de caixa sem mudar o traçado do circuito. O estádio do engenhão parece que segue normalmente, mas a mais avançada é a Vila do Pan, até por causa da especulação imobiliária, de modo que os apartamentos serão vendidos logo assim que o Pan acabar. Nesse caso, se por ventura o Rio sediar uma olimpíada de verdade teria que ser construída outra vila pan americana? Ainda na linha de eventos esportivos há a expectativa da Copa do Mundo de 2014 ser aqui no Brasil. O desenvolvimento do Pan pode ajudar ou prejudicar nessa candidatura.

segunda-feira, 17 de julho de 2006

EH SÃO PAULO

Quem me acompanha nesse espaço notou a minha ausência durante a Copa do Mundo. Infelizmente não fui pra Alemanha nem por conta própria, nem a convite de alguém e muito menos por conta de uma premiação qualquer. Durante o campeonato mundial de futebol fiquei em São Paulo. Eu cheguei a escrever sobre o início da campanha da seleção brasileira, ou melhor, da Copa, mas pelo fato de estar sem acesso à internet lá não cheguei a postá-lo. E depois do vhexame (que tal esse trocadilho?) não tem nem o que comentar.

Fiquei em São Paulo trabalhando no casting de figuração do filme do Bruno Barreto chamado ‘Caixa 2’ que deve estrear em outubro nos cinemas. Mês bem propício pra se falar em caixa dois de modo que as eleições também são realizadas nesse mesmo mês. E a história do filme também tem a ver com a relação entre o ser humano e o poder. O roteiro é muito interessante, engraçado e bem estruturado. Baseado na peça de mesmo nome do Juca de Oliveira, o próprio Juca e Márcio Alemão adaptaram a peça pra cinema. Do elenco da peça só o Fulvio Stefanini que permaneceu no filme interpretando outro papel. Na peça ele fazia o personagem que o Cássio Gabus Mendes faz no filme e no filme ele faz o papel que o Juca fazia na peça, ou seja, o Luis Fernando, dono do ‘Banco Federal’. Além dos já citados, o elenco principal do filme conta com Geovana Antoneli, Thiago Fragoso, Zezé Polessa e Daniel Dantas.

A cidade continua angustiante, com prédios pra todos os lados em que se olha. E pra quem teve a oportunidade de vê-la de cima por várias vezes, chega ser angustiante. A cidade não tem fim, não tem limites e cresce cada vez mais. Isso sem contar a nuvem negra de poluição que a encobre. Aqui pelo menos o mar é nossa linha limítrofe. Quando dizem que o Rio termina no mar é a mais pura verdade.

Voltei de lá na hora certa. Aqueles ataques que aterrorizaram a cidade no mês de maio voltaram à tona semana passada. No entanto o que mais me espantou foi que eu fui vítima da mais antiga e silenciosa forma de assalto já sabido em toda cidade grande. No dia seguinte em que cheguei lá, fui pra produtora pegar no batente. Horas depois de chegar lá percebi que o local da mochila destinado a minha carteira estava aberto. Achei que havia esquecido em casa, pois foi o último objeto que mexi antes de ir pra lá. Por sorte coloquei a chave de casa dentro da moedeira, senão não teria como entrar em casa novamente. Poucos minutos depois dessa constatação recebo um telefonema da minha mãe dizendo que alguém da Saraiva – tinha um cartãozinho da livraria dentro da minha carteira – ligou pra lá avisando que meus documentos estavam no setor de achados e perdidos do metrô da Praça da Sé. Fui vítima de um batedor de carteiras que na mão leve, sem eu perceber e nem sentir nada levou a minha. Só levou a carteira. Na mochila objetos cujos valores somados passariam de R$1.000.

Eu que nasci no estado do Rio, dito um dos mais violentos e que nunca sofri nada desse tipo aqui fui pra São Paulo pra ser roubado. Ou seja, São Paulo está precisando mais de segurança que o Rio, daí a eclosão novamente dos ataques e dos atentados contra agentes penitenciários. Mas isso é um outro assunto.

Quanto aos meus documentos (sem fazer alusão à pasta do Windows) dois dias antes de voltar pra casa fui na Praça da Sé pela terceira vez em um mês atrás deles e qual foi a minha surpresa ao vê-los quase todos lá dentro de um pequeno plástico prontos para serem devolvidos a mim. Além do cartão do banco e da nota de cinqüenta reais não reavi também minha identidade, meu cpf e minha habilitação. Mesmo com toda essa dor de cabeça e apesar de não gostar muito da cidade em si, pretendo voltar à São Paulo várias e várias vezes. Vamos ver se de repente me aparece na caixa de correios o convite da estréia do filme. Sendo assim, Dutra ou ponte aérea me aguardem.

segunda-feira, 5 de junho de 2006

ESTAMOS APRESENTANDO

CENA 1 – SALA DA CASA – INTERIOR / NOITE

MAROCA E CANDOCA ASSISTEM ATENTAS À ÚLTIMA CENA DO CAPÍTULO EXIVIDO NA TV

CANDOCA – Acabou/...

MAROCA – Eu sabia/... Não podemos perder o capítulo de amanhã/... Essa revelação será bombástica e essencial pra trama/...

CANDOCA – Aposto que você já sabe quem é o assassino/...

MAROCA – (PEGANDO A XÍCARA DE CAFÉ) Você ainda tem dúvidas, Candoca?/... Cadê a Glória Peres, a Ivani Ribeiro, a Janete Clair, a Glória Magadan que existe em você?/...Tá na cara quem é o assassino/...

CANDOCA – E eu lá tenho tempo pra ficar pensando em novela?/... Eu vejo pra me distrair/... Não assumo compromisso com a tv pra nada como fazem umas pessoas que não perdem um capítulo de novela desde a época em que a Rádio Nacional exibia ‘O Direito de Nascer’/...

MAROCA – Amiga, se pra algumas pessoas a vida é uma novela, pra mim é o contrário/... Novela é minha vida/... Lá em casa sempre foi assim/... Me lembro do meu avô lendo os folhetins de jornal que ele guardava/... Meu pai herdou isso/...


CENA 2 – MESA DE BAR – EXTERIOR / NOITE

PEDRO E MIGUEL CURTEM UM SAMBINHA

PEDRO – Miguel, era incrível/... Sempre que tinha almoço no dia de domingo reunia eu e meus primos e contava uma história/...

MIGUEL – A gente lá em casa não almoçava sem antes bater uma bolinha/... O futebol era sagrado/...

PEDRO – Cara/... Olha aquela mulata ali/... Que show/... Conjunto, evolução, comissão de frente, alegorias e adereços/... É tudo nota 10/...

MIGUEL – Que maravilha/... Mas, voltando ao assunto, você não é noveleiro não, é?/...

PEDRO – Não como a minha mãe/... Acho que ela reteve os conhecimentos como ela/... Eu prefiro ler um livro, sabe/... É hábito/... Via tanto meu avô com livro na mão contando histórias/...

MIGUEL – Você também não é de ficar em casa/... Chega e já chama os amigo logo pra uma roda de samba/...

PEDRO – Claro/... Ficar vendo as celebridades inatingíveis?/... Prefiro vir aqui e apreciar uma anônima linda como aquela que samba ali/...

MIGUEL – Além do mais, sua mãe já arrumou uma boa companhia pra assistir as novelas com ela/... (TOMA UM GOLE DE CERVEJA)


CENA 3 – COZINHA DA CASA – INTERIOR / NOITE

MAROCA – Sobre o que os nossos filhos devem estar conversando agora?/...

CANDOCA – Sobre o quê os homens falam, Maroca?/... Futebol, né?/...

MAROCA – Espero que seja, querida/... Porque de mulher já basta a última namorada que o meu Miguelzinho arrumou/... O que ela aprontou foi coisa de novela/...

segunda-feira, 29 de maio de 2006

AQUI É MEU LUGAR

Pelo menos por mais um tempo. Deixa-me explicar melhor para quem não está entendendo nada. Outra coisa que aconteceu durante esse tempo em que postava as aventuras foi a minha saída de casa.

Nos dois últimos meses fiquei fazendo a ponte Niterói-Jacarepagua ficando lá durante a semana e voltando pra casa nos fins de semana e, às vezes, dando uma fuga pra cá durante a semana também. Foi uma experiência bacana e curiosa. Dois meses convivendo com gente que nunca havia visto antes, com exceção de uma pessoa, e fazendo descobertas ótimas. Não me arrependo de ter feito isso e assim que me surgir oportunidade novamente farei novamente. No entanto tive que voltar por ter mudado a minha prioridade.

Quatro pessoas, comigo cinco, completamente diferentes, de lugares diferentes, com histórias diferentes, sonhos, desejos e interesses diferentes convivendo num apartamento de dois quartos. Sem contar os amigos vizinhos que volta e meia batiam lá pra chamar alguém ou ficar jogando conversa fora. Carlos William, Letícia Cristina, Diego e Lílian Karina foram as pessoas com quem eu morei.

A minha decisão de ir pra lá foi única e exclusivamente pra ficar mais próximo do projac e acabar com o sacrifício de enfrentar horas dentro de dois ônibus pra ir e voltar de lá. Onde eu fiquei, um condomínio alcunhado de ‘espigão’, era quinze minutos de distância caminhando da Central Globo de Produção, ou seja, uma espécie de anexo do projac. Essa foi a única vantagem que eu vi de querer ficar por lá, uma questão de comodidade. Mas comodidade por comodidade eu preferi continuar, durante mais um tempo, a enfrentar o sacrifício que havia deixado de fazer durante esses dois meses pra começar a me preparar pra realizar uma difícil façanha, mas que não é impossível.

Tive que optar por voltar pra casa por um conjunto de fatores que não vem ao caso descrever agora, mas, principalmente, por que a decisão que tomei agora vai demorar um bom tempo pra ser realizado e preciso concentrar todas as minhas economias e por isso, o dinheiro que eu gastava no aluguel tem que ser reservado para tal também. Senão continuaria por lá.

Tem outra coisa que me fez voltar pra cá além da realização dessa missão quase impossível. Quem é nascido e criado em Niterói não consegue se desvencilhar da cidade. É impressionante, mas eu não conseguiria morar em outro lugar. Por isso as idas e vindas. Não estou pronto pra mudar de porto seguro. Ainda mais que minha vida, minha família, meus amigos estão todos aqui. As vezes que me pegava sozinho no apartamento de Jacarepaguá, e sentia um eremita, isolado de tudo. Pode ser que a falta da TV a cabo e da internet tenham agravado mais essa condição de ‘isolamento’. Todos que estão a minha volta, moram aqui. Se precisarem de mim pra qualquer coisa, como atender prontamente já que estou a duas horas de distância.

Escolhi morar perto do trabalho, mas decidi voltar e ficar perto da minha família e dos meus amigos, por que é deles que eu preciso pra recarregar minhas forças e encarar o que me espera pela frente. Não que as novas amizades que lá fiz não cumprissem esse papel, mas como diz o ditado ‘panela velha é que faz comida boa’. Carregarei sempre a experiência de não morar em casa, apesar de fazer questão de não ter desatado o nó do laço com as pessoas que já faziam parte da minha vida. Espero ter outras oportunidades como essa, mas agora a meta é outra.

Falando em oportunidades, minha mãe sempre diz que eu as deixo passar. Dessa vez não. Raciocinem comigo. Se eu estou querendo comprar um carro e minha amiga está querendo se desfazer de um, o que teremos pela frente? A resposta correta é negociação. Pois então a meta agora tem rodas, motor e me leva pra onde eu quiser.