domingo, 24 de setembro de 2006

PEQUENA AVENTURA FLUMINENSE (2)

As máquinas fotográficas nunca trabalharam tanto quanto naquela hora. Com tudo mais ou menos no lugar ainda e mais ou menos conservado, haja pilha pra dar conta de tanta fotografia, incluídas as fotos remakes que a gente tentou fazer com as mesmas pessoas e nas mesmas posições. Claro que não deu certo, mas valeu a tentativa. Na saída, defronte a casa ficava um comércio cujo dono nos foi apresentado pela Maria Zélia. Quando ela disse que éramos descendentes do Eurico que havia morado ali ele disse que se lembrava e que, pasmem, ainda havia com ele móveis do meu avô.

Ficamos por lá até mais ou menos o meio dia. A hora do almoço do seu José França Guimarães, pai da Maria Zélia que nos ciceroneava, tinha que ser respeitada. Afinal, quem tem uma qualidade de vida como ele chega fácil à idade que tem. Cem anos. Um relato vivo da história, lutou na revolução de trinta e dois e mantém a casa intacta, do mesmo jeito que construiu, claro que com algumas instalações mais modernas. No entanto, mantendo a mesma tradição de roça. Ele completou cem anos esse ano e chegou a nos convidar pro aniversário dele no ano que vem. Eu não sei nem se estarei vivo até lá, mas ele tem quase certeza de que sim. E continua lúcido, por dentro de tudo que acontece no país. Até falou mal do presidente. E quem é que não fala? Mas com argumentos fundamentados Maria Zélia é amiga de infância da tia Dora. Meu avô e o pai da Maria eram grandes amigos sessenta anos atrás. Ele mesmo reconhece que foi um grande amigo do meu avô e que ficou muito sentido com a ida dele pra Rio Verde em Goiás, que provavelmente será a próxima parada do tio Marcos.

Almoçamos lá. Tudo foi colhido da horta da casa. Acho que só o arroz que tinha sido comprado no mercado. De resto, foi tudo cultivado e colhido lá. O feijão, a couve, alface, tomate, rúcula, mas tenho que destacar outro componente que estava à mesa. O caldo de cana. Não um caldo de cana que a gente come com um pastel no chinês da esquina. A cana é mais grossa, diferente, suculenta e gostosa. Eu devo ter tomado uns cinco litros de caldo contando o que fiz questão de trazer pra casa. E vou me resguardar pra tomar caldo de cana só no verão pra manter ao máximo o sabor de uma cana natural e diferente. E a sobremesa? O doce de mamão que mais parecia carpaccios banhados na calda. Uma delícia. Levantar daquela mesa tava difícil, mas a gente tinha que conhecer outro cenário das fotografias que era o córrego que ficava no sítio. Das fotos pra cá parece que só mudou a qualidade da água devido a um abatedouro construído recentemente no terreno vizinho que contaminou o rio.

Uma cena que impressionou o Cláudio foi ver o seu Zé Guimarães em plena atividade depois do almoço moendo alguma coisa na mesma máquina que moeu a cana pra dar pros animais que depois se agachou levantando um tipo de estrado com uma das mãos e mexendo na mistura com a outra com uma facilidade incrível. São os hábitos e costumes da vida de uma cidade do interior. Coisas de Cantagalo. Só lá a gente via disputa de passarinhos de várias espécies e cores pra comer um pedaço de banana que estava exposta pra eles comerem.

Todo fim de semana meu avô ia pra lá com meus tios. A casa, em relação ao sítio, nem é muito longe, mas pra época deveria ser uma distância enorme, e eles ainda voltavam de noite na base da lanterna. Atualmente não existe, mas havia uma linha de trem pela qual eles eram obrigados a passar pra chegarem no sítio. Isso tá registrado em foto. Foi uma tarde maravilhosa e cheia de recordações.

Na volta a gente ainda fez um lanche aqui em casa juntando, além da gente, Luis Antônio, Sara e as crianças, Marcelo e Elaina e Ricardo, que já estava aqui em casa pra ouvir as histórias e ver as fotos digitais passadas na televisão inclusive comparando com as antigas que estão num CD.

terça-feira, 19 de setembro de 2006

PEQUENA AVENTURA FLUMINENSE (1)

Mais uma daquelas aventuras esplendorosas. Mas essa não precisará de laudas e laudas de descrição. Talvez essa já seja o bastante, ou no máximo mais uma outra devido ao fato do acontecimento histórico-familiar ser presenciado pelo porta-voz que vos fala somente por algumas poucas e boas horas.

O alvo foi a cidade de Cantagalo, interior do estado do Rio, próximo de Friburgo, e o objetivo mais uma vez era escarafunchar os rastros familiares por lá deixados acerca de sessenta anos. A data foi um dos dias do prolongado feriado de sete de setembro, dia em que Tio Marcos e Gabriel aportaram por aqui. Fizemos uma pausa na toca do Tio Rodolfo e passamos o resto do dia na casa da tia Branca dentre outras coisas comendo sanduíche de mortadela. O Gabriel ficou lá na casa da tia Tereza e eu voltei com tio Marcos que decidiu dormir aqui em casa por ser mais perto do Salesiano. Teve uma missa em memória de um ano de morte do meu tio Tarcísio às sete e meia da manhã da sexta-feira e comparecemos em peso na igreja. Depois, o café da manhã foi aqui em casa. Tia Tereza, tia Branca, mamãe e tio Marcos sentaram e ainda discutiram coisas sobre Saquarema e em seguida cada um tomou seu rumo. Tio Marcos, tia Dora, e ia Tania, que foi a única que compareceu a missa e não veio pra cá até pelo fato dela também morar perto do Salesiano e ter que terminar e arrumar sua bolsa de viagem, rumaram pra Cantagalo. Eu havia combinado com tia Branca da gente ir e passar o sábado lá, visto que na sexta ela e o Cláudio trabalhavam e eu também tinha que resolver algumas coisas por aqui.

Situação armada. Fomos nós pegarmos a estrada pra encontrar tia Dora, tia Tania e tio Marcos em Cantagalo. Tia Branca não havia nascido na época em que meu avô morou por lá, mas como a cidade fica aqui perto e as antigas fotografias recuperadas pelo tio Marcos documentavam a passagem da família por lá, ela também queria rememorar as histórias que só conhecia de ouvido. Chegamos lá e após pegar um trecho em contramão, voltamos e paramos o carro em frente à praça. Toda cidade do interior tem uma praça com uma igreja na parte central. Eu e tia Branca estávamos apertados pra ir ao banheiro. Começamos a caça de um andando pelos estabelecimentos da rua. Até encontramos uma padaria que tinha banheiro, mas optamos pela certeza e hospitalidade do hotel, que por sinal havia fotos das fundações para a construção dele no álbum que tio Marcos carregava debaixo do braço. Quando saí do banheiro, meus tios mais a Maria Zélia estavam na praçinha esperando pela gente. Imagina se o celular não tivesse sido inventado. Teríamos que ter dado outro jeito pra avisar que estávamos chegando e provavelmente a demora iria ser maior.

Defronte a esse tal hotel, ficava a antiga agência do Banco do Brasil, na qual o meu avô trabalhava. Tio Marcos sem pestanejar sacou sua máquina e largou o dedo pra registrar e comprar com a foto antiga cujas fachadas praticamente permaneciam as mesmas, sendo uma ou outra mais moderna ou modernizada. O hotel também serviu como pano de fundo para fotos. A meta agora seria passar na casa em que eles moraram. Passamos numa loja defronte praça onde havia uma senhora que se não me falhe a memória é mãe da atual moradora da casa. Puxa-se o assunto dos tempos antigos e as fotos são mostradas para fim de reconhecimento. Localizada a dona da casa que – também se não me falhe a memória – passou por lá na hora em que estávamos. Totalmente receptiva Roseli, a atual dona da casa, abriu as portas e nós entramos. A emoção bateu forte no tio Marcos e na tia Dora. Tia Tania nem tanto, já que saiu de lá com dois ou três anos de idade. As reminiscências da primeira infância vieram à tona e logo que entrou na casa tio Marcos lembrou logo do quadro que surgiu na sua frente com a mesma vista para o mesmo jardim. As histórias mais uma vez foram reveladas.

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

SEM O QUE FAZER

Estou eu aqui diante dessa tela branca em plena madrugada esperando a inspiração para que eu possa conseguir preenchê-la. Aliás, que madrugada fria. Essa semana o tempo não tá perdoando. O frio veio com tudo. Talvez ele queira se despedir do inverno que acaba em poucas semanas. E provavelmente o inverno mais quente dos últimos anos. É uma coisa que não dá pra entender. Na verdade tem muita coisa que não dá pra entender. Uma delas é um aspirante a escritor sem inspiração pra escrever. Imagino as pessoas que trabalham com jornal, por exemplo, que tem que entregar a matéria escrita no tempo exigido e com um chefe a beira de um ataque de nervos dizendo que vai cortar a cabeça de quem não entregar.

Continuo aqui diante dessa tela quase branca ainda esperando a inspiração chegar. Veja o que é o ato de escrever. Esse parto solitário e pra mim altamente prazeroso. Mesmo sem nada de concreto pra dizer a tela vai se enchendo de palavras. Podem até não fazer sentido, não expressar uma idéia, mas elas vão, praticamente por si só, preenchendo esse espaço que é destinado única e exclusivamente a elas. Claro que elas não aparecem assim, de supetão, eu as escrevo e as coloco aqui. Mas nessa noite fria de inverno elas não querem demonstrar uma idéia pelo simples fato de não terem um foco pra ser demonstrado. Culpa única e exclusivamente de quem as escreve, no caso eu.

A mancha gráfica tá crescendo e mesmo assim a inspiração não vem. Há uma história sobre uma música composta por Dorival Caymmi cujo título me escapa à memória que por falta de inspiração – nem só os grandes gênios são acometidos do mal que aflige a todos os artistas, os pequenos, como eu, também – ela levou cerca de vinte anos pra ficar pronta. Claro que eu não vou fazer o mesmo com esse texto. Mas, no caso, como ele é postado por inteiro, pode ser escrito pela metade. É o que eu vou fazer. Quem sabe amanhã a inspiração vem e eu consiga expressar algo mais conciso, mais específico, com um sentido maior do que apenas colocar as palavras aqui.

Pode parecer estranho, afinal a leitura é feita de uma só vez, mas a escrita nem sempre. O amanhã foi ontem, mas mesmo assim a inspiração não veio.Essa semana foi meio parada mesmo. Não sei se isso é bom ou mau sinal. Tomara que seja bom. Parada até por conta do feriado prolongado. Mais um ano de independência do país. Independência em termos. Taí. Pode ser que essa seja a inspiração, o mote, a pauta da semana. Não. Definitivamente não é. Tô sem a mínima vontade de escrever sobre essa data comemorativa. Será que esse marasmo vai me levar a algum lugar, a algum ponto de criatividade da minha imaginação? Por que em se falando de data comemorativa, reza a lenda que Cabral antes de aportar em nosso ‘porto seguro’ passou por uma calmaria. Será que eu vou descobrir alguma coisa que pode mudar a história do mundo? Tô ficando apreensivo.

Apreensivo e ainda sem inspiração. É. Acho que essa semana eu não tenho nada a declarar, nenhuma opinião pra dar ou bandeira pra defender. O negócio é esperar o que acontece nessa semana vindoura. Todavia esse espaço está sendo devidamente preenchido. O limite final está chegando e eu consegui escrever alguma coisa. Mesmo que sem um foco concreto. Agora o que me vem a mente são os meus mais variados desejos. As várias coisas que pretendo realizar. Não os expô-los-ei (a mesóclise caiu em desuso) aqui. De planos a cabeça ta cheia. Realizar todos e do jeito que eu quero é que é o problema. Mas vamos com calma. Complementando um ditado popular com o que foi dito aqui, primeiro a inspiração, depois a obrigação e aí sim a diversão. Se bem que eu acho que as dias últimas devem vir juntas, serem casadas. Aí a primeira vem muito mais forte. Esse assunto pode servir de inspiração pra uma outra postagem.

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

VOTO VÁLIDO?

Ano de eleição. A campanha já está nas ruas. Falta pouco menos de um mês para o pleito. Candidatos a deputado estadual e federal, senador, governador e presidente estão cada um vendendo seu peixe. Aliás, do jeito que a política está fedendo, parece mais um mercado de peixe, cada um garantindo que o seu tá mais fresco que o do outro. Em termos de campanha pelo menos essa tá mais limpa sem aqueles galhardetes que poluíam visualmente a cidade. Os santinhos ainda resistem. Outro dia, na porta do teatro municipal do Rio uma senhora me entregou o dela de deputada estadual. Só vi qual era o partido. Nem me lembro do nome da sujeita.

Sinceramente, como estão as coisas, pela primeira vez eu to pensando em anular meu voto. Na verdade eu tô pensando em não ficar na minha zona eleitoral só pra continuar com a minha coleção de justificativas, já que no segundo turno pra prefeitura e no referendo das armas eu não estava em Niterói. Mas, estou prevendo que isso não vai acontecer. Então, terei que cumprir meu dever cívico, ou melhor, minha obrigação cívica e comparecer depois de duas votações à urna. De acordo com as intensões de voto que são divulgadas em telejornais, tudo indica que tanto o governo federal quanto o estadual – falando do Rio – vai ficar na mesma e bem provável que em um turno só. Daí também a minha vontade de fugir da zona no dia da eleição.

Mas, voltando a vaca fria, pela primeira vez eu tô pensando em anular o meu voto pra todos os cargos. De deputado estadual a presidente. Completamente descrente e desmotivado, não tem outro jeito de renovar se não limpando. A lei diz que se metade mais um dos votos forem considerados nulos, os candidatos que concorreram estarão proibidos de se candidatarem, ou seja, pelo menos em um pleito as caras serão novas e daí a gente pode começar a pensar em tirar os peixes podres da banca, apesar do cheiro já impregnado. Claro que não iríamos nunca conseguir isso. Tem sempre uns rabos presos que não anulam seus votos nem em troca de favores.

Se o quadro se apresenta assim, de que adianta validar meu voto se não vai mudar em nada? Os peixes podres espalham seu cheiro pelo ar e quem fica sentindo é a gente, pobre povo brasileiro, que na maioria das vezes não tem nem material suficiente pra aprender a pescar. Em que o meu único voto vai diferenciar no resultado das eleições? Nada. Então anula-se.

Um outro caminho é o que eu chamo de voto de protesto, que no fundo acho que não faz diferença nenhuma do nulo, é o voto de protesto. É votar em outro candidato só pra tirar a vantagem de quem ta na frente. No entanto, pelo que mostram as pesquisas de intenção de voto quem está na frente está muito na frente. E não é um voto, muito menos o meu, que vai diminuir a gritante diferença. E quais seriam os outros candidatos que por acaso mereceriam o meu voto, mesmo que não fosse de confiança, mas de protesto? Será que tem alguém digno a isso?

Caso eu não anule a minha tão requisitada contribuição para o pleito eleitoral, já que a minha tendência é essa, estou pensando seriamente em votar nas saias. Não em qualquer saia, mas as saias mais convincentes, também pra todos os cargos. Tirar um pouco a política de dólares nas cuecas pra introduzir a de euro nas calcinhas. Os homens nós sabemos que são mesmo capazes disso, mas e as mulheres? As oportunidades para elas não tem sido dadas de modo suficiente. Há umas exceções, ou umas aberrações, como aquela que dançou na câmara dos deputados em comemoração a absolvição de um companheiro de partido acusado de participar de um desses escândalos, ou a senhora que governa esse estado. Mas elas já estão contaminadas, já são maçãs poderes. Será que tem diferença, será que procede esse meu pensamento? Bem, eu tenho mais um mês pra pensar nisso tudo, mas a princípio levanto a bandeira do voto nulo.