domingo, 29 de outubro de 2006

RETRATOS DE FAMÍLIA

‘Essa família é muito unida e também muito ouriçada.’ Nós não brigamos por qualquer razão. Claro que temos nossos desentendimentos – e qual família que não tem – mas procuramos sempre nos manter unidos. Isso vem sendo passado de geração pra geração e cada vez com mais afinco.

Por parte de pai meus avós tiveram cinco filhos e uma reunião completa de família tem no mínimo dezessete pessoas. Já por parte de mãe foram oito os filhos que eles tiveram sem contar um criado junto. Desses oito um já não está mais entre nós. E qualquer festinha vira um evento devido a quantidade enorme de pessoas que compõe esse ramo da minha família. Se por parte de pai dezessete já é uma boa quantidade de pessoas, por parte de mãe esse mínimo aumenta pra trinta e nove. Digo no mínimo por não ter incluído noivas, namoradas, rolos, casos e respectivas famílias, fora um ou outro que cai de pára-quedas e parentes de graus superiores ao primeiro, em suma, o que a gente chama de agregados e/ou afins.

O foco é na parte materna. Não que eu despreze a paterna, muito pelo contrário. Pelo menos três vezes ao ano – meu irmão nasceu no mesmo dia que eu – há pontos de união, onde ambas as partes se juntam, e que são justamente os dias do nosso aniversário. Enfatizo a parte materna por que foi a partir dela que tive a idéia de fazer esse texto.

No último feriado prolongado nós nos encontramos pra fazer um evento. Já não bastam as reuniões de família por motivos tradicionais como festas, casamentos, batizados e velórios, agora nem motivo específico temos pra nos juntar. Esse acordo foi firmado há dois anos no primeiro grande encontro nosso. Na época uma tia minha aproveitou o ensejo e comemorou o aniversário de cinqüenta anos visto que a mesma aniversariava vinte dias depois desse evento. Esse foi o nosso ponto inicial, o marco zero, o primeiro ENAFABA.

Na verdade a sigla surgiu pra essa reunião de agora. Eu inventei e minha prima fez a logomarca pro segundo ENAFABA, que significa Encontro NAcional da FAmília Barcel(l)os e Afins. O Barcel(l)os a gente deixa assim mesmo pelo fato de que alguns foram registrados com uma e outros com duas letras ‘l’. A proposta é essa: reunião e confraternização. Esse ano a emoção teve seu espaço devido a uma perda que tivemos ano passado. E por essa ser a primeira reunião sem um membro, certa hora a lembrança tomou conta e por um lapso de tempo a memória dele ficou mais forte e atingiu boa parte da família causando a boa sensação de saudade. Daí quanto mais união mais forte ficamos pra enfrentar e encarar os percalços da vida.

domingo, 22 de outubro de 2006

AINDA SEM TEMPO

Mais uma vez repruduzo coisas do arquivo.

A distância entre o ideal e a realidade propagada pela Organização das Nações Unidas (ONU), uma espécie de guardiã da idéia de um mundo melhor, humano, pacífico e democrático sempre foi grande. O potencial da ONU como reguladora das relações internacionais diante de uma realidade em que as oposições disponíveis e os alinhamentos não obedecem a uma lógica única e facilmente previsível foi ampliada com o fim da Guerra Fria. Os conflitos armados continuam sendo uma realidade, mas sua natureza é distinta. A pobreza e o subdesenvolvimento continuam assolando numerosos países, mas não é possível manter as estratégias de desenvolvimento do passado. Atuar de forma consistente sobre as causas estruturais e imediatas dos conflitos é um novo desafio tendo como objetivo a preservação da paz e segurança.

Na década de 1990 a ONU realizou uma série e conferências mundiais estabelecendo grandes princípios consensuais. O fim da bipolaridade ideológica certamente jogou um papel central na realização de tais eventos e na adoção de documentos abrangentes de compromissos. Os objetivos nacionais, conseqüência da criação de oportunidades externas que por sua vez provêm das nossas necessidades internas reforçam e coincidem com os valores universais. A ONU foi criada com o objetivo de “salvar as futuras gerações do flagelo da guerra” e teve êxito em certos aspectos. Lançou as bases para a cooperação econômica global, estabeleceu mecanismos de proteção dos direitos humanos e criou uma atmosfera pra evitar uma nova guerra mundial. No entanto a ONU precisa influenciar mais tanto na prevenção dos conflitos quanto na solução deles.

A violação sistemática dos direitos humanos é a marca dos conflitos contemporâneos. Em regra, hoje o que move os conflitos é a exarcebação de ódios étnicos, a manipulação de teses racistas e a busca de monopólios e privilégios no que se refere à exploração de recursos naturais e não mais a ideologia. É por isso que muitos conflitos armados não diferenciam civis de militares arrasando na prática um princípio básico do direito internacional humanitário. O problema é que a ONU tem privilegiado mais a busca de soluções para os conflitos já em andamento do que o cultivo de instrumentos capazes de detectar a violência em seu nascedouro, de modo a evitar que atritos e tensões desemboquem em violência armada. Essa situação precisa mudar, caso se queira realmente salvar as futuras gerações do flagelo da guerra.

O fortalecimento do Estado de Direito democrático, a educação para os diretos humanos e a cooperação internacional para o desenvolvimento complementam iniciativas como a diplomacia preventiva, desarmamento preventivo, sistema de alerta precoce e deslocamento preventivo de tropas. Uma vez superado o conflito, a chamada “construção da paz pós-conflito”, para usar o jargão da ONU, deverá lidar com tensões localizadas que podem levar a retomada da luta armada. A desigualdade e a exclusão dos benefícios gerados pela economia é a geradora de ressentimentos e conflitos mais do que a pobreza, apontada por especialistas como uma das causas estruturais que contribuem para a eclosão de conflitos. Por definição a previsão será mais bem-sucedida quanto menos chamar atenção, pois o resultado é a ausência de um conflito que não chegou a ser constatado, já que abortado nos seus primórdios. Em outras palavras, o resultado não é palpável, diz respeito a um conflito que poderia ter existido, mas não chegou a se materializar.

Caso as condições econômicas e sociais continuarem inalteradas os mecanismos na área da paz e segurança para prevenir conflitos serão pouco eficazes. A conexão entre a prevenção do conflito e a agenda social da ONU é evidente.

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

SEM TEMPO

Completamente sem tempo pra elaborar um texto melhor tive que resgatar alguma coisa pra postar essa semana. Espero que as coisas se aliviem na próxima.

“Muito mais que um crime” (Music Box) é muito mais que um filme. È uma história cujas estrelas maiores são a ética e a moral. A trama começa quando Michael Laszlo (Armin Mueller-Stahl) recebe uma notificação da justiça onde após russos revelarem alguns documentos o seu pedido de cidadania americana é posto em xeque devido a acusações de crimes que ele teria cometido ainda na Hungria, seu país de origem, durante a Segunda Guerra Mundial.

Deixando o caso nas mãos de Ann Talbot (Jéssica Lange), sua filha e advogada, ele confia na sua inocência devido ao próprio histórico construído como cidadão americano como o fato de trabalhar numa siderúrgica ou uma certa revolta anticomunista durante uma apresentação de dança folclórica húngara, fato que o colocou em evidência na mídia poucos anos antes do imprevisto que estava envolvido naquele momento, e a educação passada aos seus filhos.

Como estrutura de trabalho ela torna a atuar pelo escritório de advocacia do seu ex-sogro Harry Talbot (Donald Moffat) que se subtende ela ter deixado à época em que se separou não só por questões familiares como por questões éticas, apesar da recomendação do ex-marido Mikey Talbot (Lucas Haas) para não representar o pai diante do juiz por conta dos laços consangüíneos de modo que qualquer choque iria afeta-la diretamente.

Um ponto contra Michael Laszlo é a escolha de um juiz judeu, Juiz Silver (J.S. Block) Já que a acusação é dele ser um integrante de um grupo de extermínio da Gestapo denominado “Arrow Cross”. Um outro, e a partir daí se desenrola todo o processo do julgamento, é a descoberta de uma ficha com a foto dele e a assinatura cuja analise em uma fotocópia foi dada como autêntica.

Todas as testemunhas o acusava de crimes bárbaros e Ann, por sua vez, defendia com total afinco o seu cliente e pai sempre revertendo o jogo a seu favor, ou seja, demonstrando a inocência dele em relação às atrocidades descritas pelas testemunhas de acusação. Internamente seu conflito aumentava com a pressão que aqueles depoimentos exerciam sobre ela , afinal o pai não era aquele monstro todo que as pessoas descreviam. Muito pelo contrário. Uma pessoa meiga, doce, que dedicou sua vida aos filhos e que agora se apegava ao neto. Quem estava sendo julgado era um monstro , um animal e não o pai dela. No entanto a desconfiança já se tornava irriquieta no seu coração.

A última cartada da acusação era o depoimento de uma testemunha que estava hospitalizada em estado terminal na própria Hungria, Istvan Boday (Sol Frieder) Com o juiz, os advogados de defesa e acusação e uma intérprete o depoimento foi tomado não acrescentando nada contra o réu sentenciando assim, o juiz, a inocência do réu. A passagem de Ann pela Hungria não se ateve ao fato de escutar um depoente. Ela aproveitou pra tentar rever a história do pai enquanto húngaro.

Em visita a uma velha senhora, cujos dados foram passados para Ann por uma companheira de trabalho, Melinda Kalman (Elzbieta Czyzewska) e ela relutava em pegar até entrar no avião, percebeu ali, através das fotografias penduradas na parede e de algumas perguntas cujas respostas a reportava aos depoimentos das testemunhas de acusação, que sua tese defendida diante do juiz e de toda população vitoriosa por inocentar seu pai tinha acabado de desabar.

Claro que o texto não está completo. Cortei um bom pedaço pra caber aqui. Se deu vontade de ver o filme é muito bom. Vale a pena ver.

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

DESCARTADO

Como eu tô meio sem tempo pra pensar em alguma coisa e tentei fazer um esboço para um trabalho de faculdade que foi recusado, não pela idéia, mas pela abordagem do tema, é isso que eu tenho pra essa postagem.

Há algum tempo atrás o Brasil foi atingido por uma moda. Ou melhor, duas. Enquanto uma declinava do seu auge a outra surgia como novidade. A primeira foi uma série de livros cujo título é “Onde está Wally?”. Wally é uma personagem desenhada com uma roupa específica – camisa listrada de vermelho e branco, calça azul, um gorro e um óculos tipo fundo de garrafa – e que se perdia em vários cenários históricos e contemporâneos. A jogada do livro era achar a personagem camuflada nos desenhos.

Isso me reportou para um tempo pouco mais remoto. Me lembro dos desenhos animados da ‘She-ra’ onde sempre no final aparecia uma criatura parecida com um esquilo de rabo colorido e de nome Geninho que no final de cada episódio, além de dizer a moral da história se revelava escondido em algum trecho do desenho. Era praticamente a mesma essência e proposta do Wally.

Voltando à moda, a segunda foi uma série de desenhos também encadernados em um livro em que se existia uma técnica para descobrir o que estava aparecendo por detrás daquela imagem. Esses diziam ser em terceira dimensão. Uns desenhos bonitos, que poderiam até ser confundidos com obras de arte e com estética diferente. A técnica para se descobrir o que surgia daqueles desenhos era encostar o nariz no centro do papel e ir afastando gradativamente o papel para que surgisse, por exemplo, um leão mostrando sua garra, uma corrida de cavalos, um peixe ou um elefante. Confesso que nunca vi além do que estava desenhado no papel. Talvez a minha capacidade de abstração seja menor do que a das pessoas que viam. Aquilo era uma viagem cujo embarque sempre perdia.

Pra você ver. Algumas pessoas viam o que eu não via. Mesmo o desenho sendo um só e o mesmo modo de enxergá-lo era diferente, o modo de olhar era diferente. Eu olhava como todos, mas alguns viam além da minha capacidade. Ver e olhar, apesar de partirem da mesma fonte, o olho, são duas coisas completamente distintas. Até na língua inglesa existe essa diferença representada pelos verbos to see e to look. O ver é um olhar mais aguçado unido ao fator percepção. Quem apenas olha pode não ver, mas quem vê olha, enxerga.

E tem gente que enxerga longe, que tem uma percepção bastante apurada. Geralmente esses são os artistas. Ninguém, nem o mais perfeito falsificador vai pintar a Gioconda como o Da Vinci nem o teto da Capela Cistina, por mais que eu queira fazer o mesmo desenho no teto da minha casa, será de forma igual. Por mais que se queira reproduzir e que se olhe as mesmas gravuras, mesmo olhando as originais, o modo no qual a sua percepção age diante das obras é completamente diferente da do autor da obra. De qualquer obra.

No entanto, numa obra publicitária a percepção é o principal mote, é o principal mote, é o que se vê. Vide Roland Barthes e a famosa foto dos produtos Panzani. Não são só os produtos que ficam em voga, mas tudo que os cerca sugerido pela imagem. A percepção está ligada à bagagem cultural que a gente carrega. E por falar em bagagem cultural, em percepção, em artistas, vamos dar ênfase às diversas formas do olhar em outros aspectos da percepção que não a visual. No caso o link será com o sentido da audição. Percepção visual transformada em melodia.

E foi justamente isso que eu acabei de dizer que fez com que esse trabalho fosse recusado. Percepção visual não pode ser através da música, e sim de uma imagem qualquer. Agora tenho que pensar em outra coisa para o trabalho. Espero que dê tempo.

domingo, 1 de outubro de 2006

BOLO, GUARANÁ

Já estamos no mês de outubro. O ano está quase no fim. Não. Não vou me precipitar e fazer o balanço do ano até por que ele não acabou ainda e em três meses muita coisa pode acontecer. Isso eu deixo para a última postagem em dezembro. Mas outubro é um mês especial pra mim, ou melhor, pra nós. Há exatos quatro anos eu comecei uma coisa que sempre tive vontade de fazer e tenho prazer, apesar de algumas vezes não ter paciência e/ou inspiração para tal. Esse nosso encontro semanal nos moldes que está aniversaria em outubro.

Na verdade, o blog por si só existe há mais tempo. Se fosse levar ao pé da letra comemoraria o ‘blogversário’ no mês de maio que foi quando eu abri e consegui fazer a primeira postagem graças a minha amiga Joana que na época também tinha um e me deu todas as coordenadas e ajuda pra fazer esse aqui. O dela durou pouco. Cerca de um ano e mesmo assim não tinha uma freqüência regular.

Me lembro dessa primeira postagem como se fosse hoje. Não posso precisar exatamente as palavras, mas escrevi que iria viajar e na volta teria novidades pra contar. Já em embrião com esse espaço viajava pra depois relatar. Várias vezes fiz, e continuarei fazendo sempre que oportuno, uma espécie de diário de bordo. Na época eu fui pra Califórnia visitar minha prima Jana. Nem sei se relatei a viagem. Talvez não com os detalhes das viagens posteriores. Tem que ver no arquivo, se é que tem arquivo dessa época e se é que eles guardam também porque eu não guardei.

Entre maio e setembro, postava não com tanta regularidade e nem com tanto tamanho. Estava aprendendo a mexer com essa nova ferramenta e não imaginava que eu pudesse fazer o que faço até hoje. Achava que tinha que escrever enquanto conectado e na época não tinha banda larga, tinha medo de a conexão cair e ter que recomeçar tudo novamente. Até que fiz um teste que deu certo e desde então consolidei o formato das postagens do blog.

A primeira postagem nesse formato aconteceu em outubro de 2002, semanas antes da eleição presidencial. Aliás, eleição que aconteceu hoje novamente com um quadro completamente diferente da última. No texto – me lembro bem até por que foi a partir daí que comecei a guardar meus alfarrábios – falava mal de um personagem do qual se fala até hoje e com toda razão. Abri meus trabalhos criticando George W. Bush e juntei Rolling Stones com uma novela antiga da Globo chamada Vamp. O primeiro título da configuração mais séria desse blog foi ‘Demônio do Mundo’. Ainda bem que a seriedade só parou na configuração. Não sou especialista em nenhum assunto, estou aqui dando meu pitaco em tudo que tenho vontade. Às vezes acerto a mão, às vezes não.

Nesses quatro anos muita coisa mudou, muita coisa aconteceu e grande parte delas eu tentei compartilhar com vocês. Engraçado que eu escrevo pensando que muita gente acessa o blog, me sentindo como se estivesse escrevendo em um jornal de grande circulação. Quase um Veríssimo. Quando na verdade sei que dá pra contar nos dedos de uma só mão quantas pessoas lêem e mesmo assim creio que não no ritmo da postagem que é semanal. Perdi algumas coisas. Não dá pra confiar nem em memória de computador, apesar de ter a grande maioria em disquete até pelo fato de ainda não preencher o espaço total de um CD. Mas, mesmo com essas perdas já são contabilizadas mais de cento e oitenta páginas de texto escrito. É praticamente um livro pronto.

Meus parabéns. Pra mim, lógico, que ainda insisto em escrever aqui e pra quem perde uma parte do tempo lendo as besteiras que escrevo. Quatro anos passaram muito rápido e a idéia é continuar por mais quatro, oito ou até encher o saco ou não ter mais tempo. Mas aí é só remodelar a configuração das postagens e começar tudo novamente por mais quatro, oito... Agradeço de coração pela força. Obrigado.