segunda-feira, 27 de novembro de 2006

MAKING OF EM OFF(3)

Na quinta, sexta e sábado, foram feitas as primeiras filmagens em estúdio, no Pólo de Cine e Vídeo, na Barra. No domingo, além da votação pra segundo turno foi dia de folga. Os meus dias de folga são mais intensos que os do resto da equipe de modo que eles trabalham seis dias por semana e eu só quando tem figuração pra tomar conta. Como no caso da segunda-feira da segunda semana. Com um pedido de sete pessoas no total, três foram para o clube Marapendi gravar uma cena e quatro outras no estúdio. Eu tive que me dividir em dois. Mas até então as quantidades eram pequenas, o maior pedido tinha sido de vinte pessoas.

A cena iria ser megalômana. Iria ser, não. Foi. Já foi gravada inclusive. São Paulo, feriado de finados, Teatro Municipal seis horas da manhã. Hora marcada para a chegada do povo pra começar a se arrumar. O porque de ser tão cedo assim? Eram simplesmente duzentas e cinqüenta pessoas pra trocar de roupa, encabelar e maquiar no que diz respeito às mulheres. Claro que não estavam todas prontas na hora do primeiro ‘ação’, deveriam estar faltando umas quarenta pessoas ainda a fazer cabelo e maquiagem, mas no final deu tudo certo e todas estavam na platéia do teatro. Eu consegui fazer um feito incrível. Nunca entrei no Municipal do Rio e já conheço o de São Paulo. A gravação correu até as nove da noite. Foram quinze horas ininterruptas. Claro, teve um tempo pra almoço, mas que não foi de uma hora e os intervalos de gravação pra mudança de lente e posição de câmera e iluminação. E depois d todas as cenas no interior do teatro, ainda se gravou na escadaria, no foier se é que é assim que se escreve. Ou seja, era um sobe e desce interminável e incansável de pessoas que já no fim do dia ainda agüentaram fazer esse tipo de ‘exercício’. E o pior disso é que nessas horas a cena nunca sai de primeira, sempre tem que se fazer e refazer até chegar ao padrão de qualidade do diretor. Enfim, o ‘corta’ definitivo se deu pelas nove da noite, restando apenas uma cena a ser feita na fachada do teatro com mais cinco pessoas. Enquanto isso as outras já mudavam de roupa pra tomar o rumo de casa ou de qualquer birosca paulistana.

Eu cheguei em casa, ou melhor, onde estava hospedado, morto. Foi o tempo de tomar um banho e cair na cama pra recuperar pro dia seguinte. Cenas no cemitério da Consolação. Quando vou a São Paulo me hospedo no apartamento do meu primo que fica na própria rua da Consolação e próximo ao centro histórico da cidade. Eram poucas e em três horas tudo estava acabado. Até porque a equipe iria voltar para o Rio no início daquela noite. Não sei se foi intencional, mas achei a sacada de gravar cemitério no dia seguinte ao de finados sensacional, pelo menos foi menos trabalho pro pessoal da produção de arte já que o local estava todo limpo, florido e arrumado. Novo encontro na sexta 10. Dessa vez no estúdio no Pólo Cine, na Barra. Em relação à figuração eram só dias pessoas. Um pintor e um marceneiro pra fazer a cena da reforma do quarto na casa da Luiza, personagem de Débora Falabella. Arte dentro da arte.

Se cinema é a sétima arte, dentro dele, pelo menos pra quem faz, tem uma outra arte embutido nele. A arte da espera. Por ser mais minucioso que a tv, no cinema espera-se mais até por que o ajuste da luz, do enquadramento é mais fino, medido com trena. Por conta disso a preparação pra cada cena é mais longa e demorada que na tv. Chegamos, eu e meus pupilos que iriam figurar na cena por volta do meio dia, a gravação só rolou às oito e pouca da noite. Bem, até o dado momento esse é o making of em off de uma produção cinematográfica nacional. Pra encerrar, palavras do diretor assim que acabaram as gravações no Municipal de São Paulo. “Muito obrigado, senhores. O cinema nacional agradece.”

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

MAKING OF EM OFF(2)

Não ponho a filmografia e os trabalhos deles aqui pra não encher o saco. Qualquer coisa é só dar uma olhada no verbete dele no site da Wikipédia. No entanto destaco um. Como ator, o clássico Os Cafajestes o consagrou ao lado de Jece Valadão e Norma Benguel na primeira aparição de nu frontal numa seqüência longa. Atualmente está produzindo o longa ‘O Primo Basílio’ baseado no romance de Eça de Queiroz e adaptado para os anos cinqüenta e por eu estar diretamente participando da produção compondo o casting de figuração farei aqui uma espécie de making of por escrito dos dias de filmagem nos quais minha presença se fez nos sets de filmagens.

Antes de começar, só pra relatar que minha experiência com cinema nessa parte de produção começou há alguns meses, mais precisamente durante a Copa do Mundo, quando tive a mesma função no filme ‘Caixa 2’ do Bruno Barreto. Também uma adaptação, dessa vez teatral, para o cinema, o que, aliás, ultimamente, tem sido bastante feito. Haja visto o próprio filme do Daniel Filho ‘A Partilha’ além de ‘Trair e Coçar’, ‘Irma Vap’ e em pós produção ‘Polaroides Urbanas’ de Miguel Falabella na adaptação de sua própria peça ‘Como Encher um Biquini Selvagem’.

Anteriormente minha experiência no ramo do audiovisual era somente em televisão, em novelas precisamente falando. O cinema tem outro rítimo, é mais artesanal, é mais detalhista, não tem a preocupação de uma resposta mais imediatista como uma novela de tv, considerada uma obra aberta. Talvez essa seja a maior diferença entre cinema e tv. No cinema o que se exibe é o resultado final. Já a novela depende da opinião pública para tomar um rumo, mesmo que na sinopse esteja previamente escrita o caminho a ser tomado pelas personagens, além da velocidade industrial que se dá a uma produção de tv.

Pois bem, voltemos ao making of por escrito da nova produção comandada por Daniel Filho. O primeiro dia de gravação foi no dia 23 de outubro, uma segunda feira numa rua pacata do bairro do Grajaú, Rio e Janeiro. Em alguma coisa essa casa teria que se assemelhar a alguma outra da década de cinqüenta em São Paulo, já que a história do filme se passa lá. E na pacata rua do bairro do Grajaú, ao se instalar a equipe de filmagem já deixou de ser tão pacata assim. Não é toda rua que tem o privilégio de ser fechada para servir de locação para um filme e por conta da movimentação alheia à rotina da rua, muitos transeuntes ficaram curiosos com o que estaria acontecendo e grande parte deles pararam pra observar aquilo tudo. A molecada de escola então, que não está acostumada a ver os globais circulando por aquela área cataram máquinas – que nessas horas surgem do nada – papéis e canetas a fim de que se surgisse alguma brecha, atacariam os atores.

Antes do início da filmagem, elenco e equipe se uniram numa espécie de corrente pra frente, uma forma de pedir licensa aos deuses das artes para que tudo ocorresse bem durnate as filmagens não só daquele, mas de todos os dias de filmagem. Parece que eles escutaram bem porque até o presente momento nada deu errado. Claro que tem uma apreensãozinha daqui, uma cobrança a mais de lá, mas o resultado final está sendo elogiadíssimo. Continuemos assim. Ainda nessa evocação, o diretor fez um gesto e carinho distribuindo rosas brancas para todas as mulheres que estavam lá naquele dia. Durante três dias o Grajaú viveu momentos intensos e frenéticos, mais precisamente a rua Itabaiana. Essa já conquistou seus quinze minutos de fama. Os populares enlouqueciam ao verem os atores.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

MAKING OF EM OFF (1)

Na última segunda-feira 6, a rede de cinemas Cinemark participou do VII Projeta Brasil Cinemark. Esse projeto tem como finalidade dar acessibilidade à população em assistir algumas das produções nacionais do ano por um preço simbólico e reverter toda a renda ao próprio cinema nacional. Os filmes em cartaz durante esse dia em um dos Cinemark espalhados pelo Rio foram Casseta e Planeta, Didi, Zuzu Angel, Irma Vap, Se eu fosse você, Trair e coçar, O maior amor do mundo e Muito gelo e dois dedos d’água. Na minha lista particular os três últimos citados eram os que eu queria assistir, mas o Muito gelo e dois dedos d’água estava esgotado para todas as sessões já as três da tarde.

Pode-se levantar a discussão sobre o porquê desses filmes serem escolhidos para exibição. O cinema nacional vem crescendo em larga escala e inúmeros filmes são produzidos no país, talvez não com tanta penetração quanto esses escolhidos para serem exibidos nos Cinemark da vida ou não com a forte rede de distribuição e divulgação dos citados acima. Por outro lado, como esse projeto se fundamenta no apelo popular, é bem provável que um filme que não tenha uma cara conhecida em seu elenco não ganhe espaço nesse tipo de projeto. Um filme com caras desconhecidas pode ser muito melhor técnicamente, através da sua luz, fotografia e até interpretação dos atores do que um com caras conhecidas.

A proposta desse projeto é excelente, mas sua execução ainda não chegou ao ideal. Ceder um dia à população pra conhecer parte da produção nacional a preços módicos é o primeiro passo para que outros eventos como esse apareçam. A que se deve o estrondoso sucesso de ‘Muito Gelo e Dois Dedos D’água’ a ponto de todas as sessões ficarem esgotadas? Ao elenco global, ao recente lançamento do filme, à estrutura do roteiro e seus diálogos assinados por Fernanda Young e Alexandre Machado, autores de programas de tv como Os Aspones, Os Normais e Minha nada mole vida ou a mais um com o toque genial do diretor Daniel Filho? Bem, eu tentei, mas não consegui assisti-lo, pelo menos por enquanto, mas acho que todos os fatores descritos acima contribuíram de certa forma.

Daniel Filho é um nome consagrado no cinema nacional. Com a ajuda do Wikipédia a ficha dele tá aqui: “João Carlos Daniel, mais conhecido como Daniel Filho, (Rio de Janeiro, 30 de setembro de 1937) é ator, diretor e produtor de televisão e cineasta brasileiro.De família circense, filho de Juan Daniel e Mary Daniel, começou profissionalmente com os pais, em 1952. Depois de atuar no teatro de revista e em filmes como "Boca de Ouro" (1962), foi convidado para trabalhar na TV Tupi do Rio de Janeiro. Interpretou o papel principal em "Maria Caxuxa", de Juracy Camargo, passando a colaborar simultaneamente também para a TV Rio. Participando de diversas produções, logo passou a freqüentar a ponte aérea, contratado também pela TV Paulista. Com a experiência adquirida na convivência com nomes como Zé Trindade, Eva Todor, Tônia Carreiro e Agildo Ribeiro, transferiu-se para a TV Excelsior e iniciou-se como diretor, assinando programas como "Time Square e Chico Anysio Show". Já na TV Globo, dirigiu 24 novelas ("Irmãos Coragem", "Roque Santeiro", "Dancin´Days"), dez seriados ("Malu Mulher", "A Vida como Ela É...") e quatro minisséries, além de especiais e musicais. Na TV Cultura, dirigiu a série "Confissões de Adolescente". Entre os prêmios obtidos, conquistou como diretor o "Roquete Pinto", o "APCA", o "Emmy International" e o Festival de Cinema de Miami. Assinou a direção de filmes como "A Partilha", "A Dona da História" e "Se Eu Fosse Você". Foi produtor de "O Auto da Compadecida" e "Cazuza - o Tempo Não Pára", além de produtor associado de "Cidade de Deus", "Caramuru - A Invenção do Brasil", "Carandiru", "2 Filhos de Francisco", entre outros. Atualmente possui sua própria produtora, Lereby Produções, e ainda excerce a função de supervisor artístico da Globo Filmes.”

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

SUBSTITUIR O INSUBSTITUÍVEL

Já era de se esperar, apesar de ainda não ser – e não sei até que ponto isso é bom ou ruim – do jeito que eu, pelo menos, imaginava. Desde pequeno, ou melhor desde que eu passei a curtir carnaval e samba-enredo, enfim, desde pequeno – devia ter uns sete pra oito anos – vozes de intérpretes de samba sempre foram marcantes pra mim.

Da média entre doze e dezesseis escolas que disputavam o campeonato do grupo especial (no próximo ano serão treze até voltar ao número de doze novamente sendo que pra mim o ideal são catorze como até então) quatro cantores são de grande valia para o mundo do samba. Na verdade todos são, mas esses quatro tem mais identidade e empatia com o carnaval. Infelizmente um, por motivos de saúde e pela escola não está mais entre as grandes já há uns seis anos, já não é tão lembrado assim. Aroldo Melodia sempre foi o representante oficial da União da Ilha e tem gravações memoráveis como ‘É hoje’, ‘O Amanhã’, ‘De bar em bar’ e ‘Domingo’ por exemplo.

Dominguinhos do Estácio que além da escola que leva no nome já passou também pela Imperatriz Leopoldinense e criou um vínculo forte com a Viradouro há dez anos é outro ser emblemático do carnaval. A Beija-Flor tem o seu Neguinho e um não vive sem o outro. Não dá pra imaginar um sem o outro. Do mesmo jeito que não se concebe a Mangueira sem o mestre Jamelão.

No entanto, uma notícia que eu escutei semana passada me deixou bastante apreensivo. Mestre Jamelão sofreu uma isquemia e está impedido pelo médico de gravar o samba da escola por esse ano. Bem, descartando a hipótese de que ele vai contrariar a palavra do médico e soltar a voz no alto dos seus mais de noventa anos pra defender a Mangueira, a pergunta que não quer calar é quem vai substituir o insubstituível?

Que eu me lembre, somente no ano em que a Mangueira sim teve Braguinha e foi consagrada campeã do carnaval daquele ano que, se não me engano foi no ano de 84, que a gravação do samba não foi feita por ele. Não lembro do resultado na avenida, mas tenho a gravação oficial com um tal de Jurandir, que mais tarde fiquei sabendo que é compositor da escola e integrante da velha guarda da verde e rosa. Outra história, essa eu ouvi falar mas não me lembro, foi num ano, creio que já na era sambódromo, em que Jamelão não chegou a tempo de entrar na avenida junto com a escola e quando o avião estava descendo para pousar no aeroporto passou por cima da passarela do samba e ele chegou a ver a Mangueira por cima. Não sei se essa história é verídica ou lenda urbana, mas ela também ficou no meu imaginário de infante sambista.

O fato é que Jamelão adoeceu e a princípio não poderá estampar sua voz no disco das escolas de samba e provavelmente sua cara na Marquês de Sapucaí, ao menos enquanto intérprete do samba. Que outra pessoa poderia conseguir chegar a mesma patente que José Bispo Clementino dos Santos e segurar a escola na avenida durante a hora e meia de desfile e, ao mesmo tempo, ter a cara da Mangueira? Por enquanto não consegui ver outra pessoa no lugar dele.

Confabulando com meus botões de rosa pensei nas caras mais tradicionais da Mangueira, como Alcione, Beth Carvalho e Ivo Meireles, mas nenhum deles tem a antipatia cativante do mestre Jamelão. Claro que pela idade avançada ultimamente ele ficava acompanhado por uma equipe de cantores. Todos eles ficam, mas com o Jamelão havia uma preocupação maior. Tudo bem que Alcione, Beth Carvalho e Ivo Meireles são mangueirenses convictos como Jamelão, mas será diferente. Eles ou qualquer outro que substituir o insubstituível não vai dar o tom certo para a agremiação, por mais que se acerte tudo. Por outro lado imagino também a frustração do mestre Jamelão ao ver a sua escola desfilando na avenida e ele assistindo de casa sem poder fazer nada, sem sua presença para apoiá-la.