domingo, 31 de dezembro de 2006

O ANO TERMINA E NASCE OUTRA VEZ

É impressionante a velocidade em que a terra tem girado. Mal você acostuma com o ano e já estamos em setembro, ou seja, chegar até dezembro não é nada. E o ano já acabou. O balanço que eu faço é positivo. Apesar do fiasco da seleção brasileira na copa do mundo e de não ter mudado praticamente nada em termos de eleições, que foram os assuntos que dominaram os noticiários, o ano pra mim foi positivo. Não sei se por eu ser genuinamente otimista e bem humorado, embora certamente houvesse fatos que me cortavam momentaneamente essas características, como em todos os anos, esse ano, numa escala entre um e dez tem grau oito e meio. E tá de bom tamanho.

Não sou jurado de escola de samba que fica tirando um ou dois décimos. Minha graduação é de meio em meio ponto. E de oito e meio pra nove e meio é apenas um ponto. Nota dez dificilmente eu dou, a não ser que seja um ano excepcional, daqueles em que pinta namoro firme, viagens ao exterior – de preferência bancado – e um trabalho que eu goste de fazer e que o retorno financeiro vá além das minhas expectativas. Espero que esse seja o ano que vem, ou que pelo menos chegue bem próximo a esse desejo.

O ano que termina já me deu um certo gosto no que diz respeito ao trabalho que eu goste de fazer e viagens, que não foram pro exterior, mas pra São Paulo e a trabalho. A experiência profissional que adquiri nesse ano foi muito grande. Quanto a isso eu não posso reclamar, pelo contrário, só tenho a agradecer as oportunidades que surgiram e que agarrei com unhas e dentes. Teve um contraponto que eu nem gosto de comentar, mas, olhando pelo lado ‘Poliana’ da vida, pra mim valeu e muito.

Foram duas incursões pelo cinema nacional. Dois filmes que serão lançados nesse ano que chega, e que, mesmo que meu nome não apareça nos créditos, tive certa participação neles e com isso aprendi como se faz, ou não se faz, certas coisas. Principalmente no que foi rodado mais pro fim do ano onde eu me vi praticamente como o co-produtor na parte de figuração do filme. Área cujos meandros estou conhecendo e me tornando um craque. Não. È muita pretensão minha. Mas estou indo por esse caminho. Posso não ser um craque agora, mas não estou longe de me tornar um. Que me apareçam mais oportunidades.

Não exatamente na área em que atuo, mas se pintarem oportunidades com ofícios que me agradam de uma maneira geral dou um jeito de me dividir. Claro que, como eu peguei o gosto e o jeito em relação à produção, irei continuar nesse filão, de modo que continuarei fazendo contatos que me podem ser importantes futuramente, ou não, como diria Caetano.

Estou aqui na contagem regressiva pro ano novo, pronto pra encarar tudo o que ele me proporcionar em todas as áreas. Não tenho medo de novidades. Aprendo que elas não são tão más assim, que a gente sempre tem como tirar uma lição boa mesmo dos maiores tombos que a vida dá. E olha que também to ficando craque em tombo e espero que não os sofra ou sejam bem menores no próximo ano. Não sou de fazer planos, tudo o que eu vivi até agora desde que entrei nesse ramo há quase dois anos foi a lá Zeca Pagodinho, deixando a vida me levar.

Continuo insistindo na tríade da letra ‘S’ como desejo fundamental pra todos no ano que está se iniciando. Saúde, sorte e sucesso. O resto vem como conseqüência. Não digo isso apenas no sentido profissional, mas de um modo bem mais amplo que engloba toda uma filosofia de vida, seja ela qual for. Saúde como base pra tudo, pois sem ela ninguém funciona direito. Sorte no que vier a ser apresentado pra você encarar. Sucesso na condução do que você teve a sorte de ser apresentado. Nunca é demais lembrar que a rosa tem espinhos, ou seja, faz parte. Desejo um excelente 2007 pra todos. Com amor.

domingo, 24 de dezembro de 2006

ENTÃO É NATAL

O ano terminando e a gente cansado de tudo, época de renovar votos e esperanças, ainda tem que enfrentar fila pra comprar o presente. Entra ano e sai ano e continua tudo igual. É a única coisa da qual eu reclamo nessa época do ano. As pessoas partindo pro ataque atrás dos presentes relacionados nas listas. Listas essas que pelo andar da carruagem diminuem a cada ano que passa.

Eu já senti isso. Não só pela idade, mas pela situação financeira também. Quando eu era pequeno, Natal era sinônimo de presentes. Creio que pra todas as crianças apesar dos pais explicarem o verdadeiro motivo. Padrinhos, pais, tios, avós, principalmente com família grande boa parte lembrava de mim e me dava nem que fosse um chaveirinho. Conforme a idade foi passando os presentinhos foram diminuindo e a grana dos padrinhos, pais, tios e avós também.

Com o tino comercial do Natal os shoppings fazem maratona. Aqui em Niterói o Plaza, principal shopping da cidade, por exemplo, abre às nove da manhã do dia vinte e três de dezembro e fecha às seis da tarde do dia vinte e quatro justamente para que os desesperados façam suas compras. Eu, se participasse e compartilhasse dessa idéia, sairia de casa às duas da manhã só pra ver como deve ser a freqüência das lojas no meio da madrugada.

Esse ano fui mais esperto. Não sei se posso admitir isso como esperteza. Mas que foi uma sacada genial da minha mãe, isso foi. Me prontifiquei a comprar os presentes dos amigos ocultos da família. Tirando o meu irmão que sempre esconde quem tirou e compra ele mesmo ou então pede pra outro comprar, lá fui eu enfrentar as ruas da cidade e o calor de dezembro. Ruas mesmo. Prestigiei o comércio das ruas do bairro de Icaraí ao invés de enfrentar as escadas rolantes de um shopping center. Como o valor dos presentes foi previamente estipulado e os pedidos estavam na listagem não tinha muito o que procurar, bastava conferir se a loja tinha a mercadoria. Se tivesse seria só comprar, se não tinha sempre outra loja por perto que certamente resolveria o problema.

Duas ruas, uma transversal a outra, foi o bastante pra comprar três presentes. O cruzamento da Gavião Peixoto com a Presidente Backer foi indispensável dois dias antes do Natal. Três lojas perto uma da outra em duas ruas que a pé, da minha casa, leva uns quinze a vinte minutos pra chegar na esquina. De ônibus, além da passagem que por enquanto está em um real e setenta e cinco centavos, o tempo cai em cinco a dez minutos com transito normal. Claro que economizei nas passagens, até por que o calor não estava tão forte assim comparado aos últimos dias. Em uma hora e meia, com as caminhadas e ainda passando numa farmácia de manipulação pra pedir pra fazer uns remédios pra minha mãe em outra rua, a Moreira César, segunda rua paralela à Presidente Backer, resolvi o problema dos presentes de amigo oculto.

Recomendo isso pra todo mundo. Quando chegar a época do Natal evite os shoppings centers e dêem preferência às lojas do bairro. Mesmo aquelas que ficam em galerias certamente são mais vazias que as dos grandes shoppings. Nem menciono os grandes centros de comércio popular como o Saara ou a vinte e cinco de março em São Paulo, esses então ficam impossíveis de transitar. Nada mais aprazível e cômodo que as lojas do bairro repletas de mercadorias que também são encontradas nos shoppings pelos mesmos preços praticamente. Natal sem estresse, sem paranóia e com tudo a mão é muito mais feliz que um que tenha como prévia o desentendimento ou aborrecimento que pode provocar uma multidão desesperada e praticamente ensandecida lotando, inclusive madrugada adentro, os shoppings. Tenham um Natal maravilhoso.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

DANDO CONTA

Só agora que estou dando conta realmente do tempo em que fiquei efetivamente afastado desse lugar. Somente resgatando e postando textos entregues aos professores do curso da pós-graduação. De material que eu considero inédito, além do texto em que falei da ausência da voz do Jamelão no disco das escolas de samba do carnaval 2007, tiveram os primeiros dias de filmagem do ‘Primo Basílio’ descritos.

Filmagem que me consumiu, daí a ausência de postagens digamos mais contemporâneas, ou mais cotidianas, como queiram. Mas agora acabou. O ciclo se fechou e mais uma etapa foi concluída. Claro que teve seus altos e baixos. Sempre tem. Mas foi bom. Mais uma experiência, mais conhecimento de como se faz ou como não se faz algumas coisas e mais bagagem pra mim. Mais uma vez eu saí ganhando. Esse comentário é do meu lado ‘Poliana’ – aquela personagem que vê e entende o mundo pelo ponto de vista positivo até das coisas negativas.

Confesso que as filmagens terminaram no último dia de novembro e que de lá pra cá poderia já postar textos normalmente e não pegar dos meus arquivos. Outra confissão: acabaram. Não tenho mais material inédito pra substituir como fiz ultimamente. Agora tenho que ter tempo para sentar e criar. Mais uma confissão: estava sentindo falta de fazer isso. Sei que é difícil de retomar qualquer atividade quando se fica muito tempo parado. Apesar de que não estava parado, apenas me dedicando a outra coisa e mesmo sem tempo de parar, sentar e escrever, postava material do meu arquivo. Mas o ato de parar, sentar, criar e escrever que obviamente requer tempo, coisa que eu não tive no último mês, e que estou retomando agora, era o que eu estava sentindo falta.

Deveria de existir uma fisioterapia pra escrita. Olha eu delirando. A fisioterapia da escrita não é nada mais nada menos que a sua própria prática. Então, podemos considerar essa postagem como um exercício de fisioterapia, já que por conta das filmagens não consegui parar, sentar, criar e escrever. Coisas que faço nesse exato momento.

Só agora estou dando conta que o ano está acabando, que semana que vem já é Natal e dentro de quinze dias já estaremos em um outro ano. Já havia dado conta de que o ano passou rápido, mas daí a ser Natal é muita velocidade para um ano só. E o pior é que a tendência é acelerar cada vez mais. Acho que já disse isso em alguma postagem, mas imagina se a gente tivesse morando em mercúrio, cujo ano só tem oito meses e nessa velocidade em que estamos vivendo. Acho que devemos nos mudar pra Marte. Ao menos lá teríamos dois meses a mais pra curtir o ano e que no fundo é o que a gente perdeu com a velocidade dos últimos tempos.

Bem, então estou de volta. Mais inédito do que nunca e sem frente, ou seja, sem estoque nenhum, sem nada mais além da minha imaginação, criatividade e disposição de tempo para transpô-las ao papel, ou melhor, à tela do computador. Só espero que o furor das festas de fim de ano não faça com que eu interrompa essa minha retomada. Não sou o cinema nacional, apesar de trabalhar nele de vez em quando, mas também tenho os meus momentos de retomada.

De volta e dando cota também de que há um limite nesse espaço que está acabando. Essa minha fisioterapia literária está fazendo com que além de eu retomar o fôlego pra parar, sentar, criar e escrever, está me mostrando os limites do meu recurso. Agora, por exemplo, tenho poucas linhas e quase nada mais pra falar. A única coisa que me vem à cabeça é a letra de uma música cantada pelo Roberto Carlos, também conhecido por rei. ‘Eu voltei/ agora é pra ficar/ por que aqui/ aqui é o meu lugar.’ Na verdade eu não voltei. Eu nunca saí. Como se volta pra um lugar do qual nunca saiu?

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

MAIS UMA PRA TAPAR BURACO (TRABALHO DA PÓS)

Foram tantas teorias expostas no decorrer do curso e em tão pouco tempo que eu não sei por onde começar. Sem contar o número de teóricos que passaram defendendo suas teses dentro da ‘moldura interativa’ limitada pelo espaço-tempo programado para tal exposição.

A visita, no meu caso, inédita de uns e o reaparecimento de outros que já me deram o ar da graça em outras ocasiões fez ficar mais vertiginosa a minha queda para a comunicação. Estudiosos como Lasswel, Lasarsfeld, Kurt Lung, Mc Combs, Kurt Lewin, Wright, Merton, Saussure, Deleuze e Bem Singer, pra citar uma das várias dezenas de nomes que povoaram nossos encontros, surgiram e serviram para, ao menos tentar, elucidar sobretudo a comunicação no transcorrer da sua existência.

Confesso que não tinha idéia sobre quem pinçar para dissertar sobre quando surgiu a proposta do trabalho e até a última aula essa dúvida pairava sobre minha mente. No entanto a luz começou a dar claros sinais de que sua energia estava começando a ser gerada no momento em que o giz (no caso o pilot) cuspiu na lousa o tema: “A mídia contemporânea: grotesco e espetáculo”. A partir daí as pontes foram se formando e as peças do quebra-cabeças se encaixando e se transformando em uma figura uniforme.

Decidi, – vai ficar redundante, mas vamos lá – por minha própria conta e risco, arriscar e priorizar a criatividade e originalidade do trabalho. Quer dizer, isso é o que eu acho. Falarei sim da mídia contemporânea, do espetáculo e do grotesco, porém de um outro ângulo. Esse ponto de vista me favorece no sentido de que meu trabalho profissional é executado dentro do que chamam ‘fábrica de sonhos’ ou, se quiser, de uma ‘indústria cultural’ que é o meio televisivo.

Foi citado um livro do Muniz Sodré em parceria com a Raquel Paiva de nome ‘O Império do Grotesco’ subdividindo as espécies do grotesco na tv. Pois é justamente daí que pegarei o gancho. A televisão do mesmo jeito que fabrica produtos sublimes – o jargão usado é esse mesmo: produto. Pois já que se trata de uma indústria, o que sai dela é um produto – não deixa de exibir o grotesco como contra partida. De acordo com essas divisões pré-determinadas pelo ‘Império do Grotesco’ o que pretendo mostrar aqui nessa manobra arriscada é apontar o grotesco e/ou suas nuances e insinuações dentro do texto de uma novela.

Trata-se de uma obra sublime para os padrões televisivos devido não só a integração do conjunto de profissionais que levantam e sustentam no ar por meses uma história bem arquitetada e orquestrada pelo autor, mas também, e principalmente, pelos elevados índices de audiência, sinônimo de produto bem vendido. Atualmente no ar pela Rede Globo de Televisão no horário nobre a novela – ou produto – Belíssima de autoria de Sílvio de Abreu tem todos os componentes característicos de um tradicional folhetim. Drama, suspense, comédia e ação dão a liga para o bom espetáculo exibido todas as noites. Dentre todos os ingredientes que servem para uma trama, o grotesco também tem o seu lugar.

Em minhas mãos (e agora nas suas, espero que temporariamente) está o quinto capítulo da novela e é ele que será analisado com o intuito de garimpar o grotesco ou o que se aproxima dessa classificação em todos os seus níveis, ou seja, escatológico, teratológico, chocante ou crítico. Não vou aqui fazer um tratado psico-sociológico das personagens da novela e nem contextualizar os diálogos exemplificados dentro da trama de modo que não há necessidade disso para a aparição do grotesco, ou de suas nuances e insinuações.

Aglutinando e adaptando o texto da novela nas sub-divisões acima descritas, como referência o escatológico poderíamos destacar o início do diálogo entre as personagens Mônica e Valdete na cena 10:

VALDETE – Seu irmão não é só bonito não. O André na cama é um fogaréu! Tem que ser muito mulher, viu?
MÔNICA – Quer parar com esse assunto, Valdete?
VALDETE – Olha a santinha! Se ouvir sacanagem vai ter que se confessar antes da missa de domingo, vai? Deixa de ser tonta, sexo faz bem pra pele, boba.
MÔNICA – Você está falando do André. Fico sem graça. É meu irmão, não quero saber das intimidades entre vocês.
VALDETE – Irmão só por parte de pai. Se eu fosse você arriscava umas. Ce não sabe o que tá perdendo.

Quanto ao setor teratológico, há uma personagem que se encaixa perfeitamente nessa característica facilmente dedutível até pelo fato do autor ter utilizado a mesma em novela anterior. Vamos a um trecho da cena 4:

JAMANTA – Jamanta não sabe.
PASCOAL – Não sabe, né? Maior bundão ce também. Tô apostando que deixou a porta da borracharia aberta antes de dormir.
JAMANTA – Jamanta não deixou aberta. Jamanta fechou tudo.
PASCOAL – Maior zica. Droga! Amanhã eu mifú!
MARIA JOÃO – Algum problema, Pascoal?
PASCOAL – Ce ta mesmo muito interessada nos meus pobrema.
MARIA JOÃO – Tô, sim, juro que tô.
JAMANTA – Jamanta vai pra dentro.

No nível do chocante, creio que não há um elemento que o defina em texto de novela. O choque fica mais no âmbito dos personagens podendo em alguns casos causar comoção também no espectador, sobretudo em se tratando da revelação de um mistério ou assassinato. O que mais se aproxima do chocante são os climas deixados pelos ganchos nos términos dos blocos ou do próprio capítulo. É o lado ‘Sherazade’ que aflora nos autores de modo que o intervalo comercial seja exibido ou que o dia passe e a vontade do espectador de querer acompanhar a trama seja aguçada. A cena 45, última do capítulo, demonstra isso:

JÚLIA – Você é sempre assim?
ANDRÉ – Assim como?
JÙLIA – Animado.
ANDRÉ – Não sei
ORNELA – Desculpe, estou meio perdida. A entrada pra São Paulo? Júlia?

E, pra finalizar, a parte crítica. Logo na primeira cena:

ORNELA – Quem é que Júlia está levando pros bastidores?
BIA – Não tenho a menor idéia. Depois você e o Gigi ficam falando que eu implico com ela. Viu o vestido jeca que escolheu justo hoje? Parece que faz de propósito para me irritar.
ORNELA – Jeca, não, Bia. Simplezinho.

Na cena 7:

BIA – Ninguém que seja realmente importante vem sozinho a um jantar como este. Está vendo, Ornela? Depois você não quer que eu me irrite com ela!
JÚLIA – Não sou mais criança, vó!
BIA – Então se comporte como adulta, assuma sua posição de presidente da empresa e pare de me chamar de vó!

Já na cena 9:

ALBERTO – Vou muito bem. Ce vai ou não vai me responder? Quem deixou você entrar aqui?
ANDRÈ – Eu não estou aqui como operário da Belíssima, seu Alberto.
ALBERTO – Ah não. E está aqui como o quê? De sapato engraxado, smocking alugado. Tá fazendo um bico de garçom?

E na cena 36:

JÚLIA – Eu não desconsiderei ninguém! Tratei todos muitíssimo bem, com a maior simpatia e atenção!
BIA – Que bonitinha. Imagine se sua mãe ia fazer uma desfeita dessas!
JÚLIA – Eu não sou a minha mãe!
BIA – Não precisa me lembrar. Essa verdade eu amargo todos os dias.

Bem, espero que eu tenha acertado na mosca ao escolher esses trechos de cenas como exemplos do grotesco exibidos em uma novela de televisão e que a escolha do foco dessa pequena exposição não tenha sido tão, digamos, grotesca. No mais, o que me resta é continuar me dedicando à coisa mais sublime e edificante para o ser humano: o trabalho.

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Carmen Miranda dá a nota.

A interferência das notícias de jornal em duas músicas gravadas por Carmen Miranda.

Um dos primeiros fenômenos de indústria cultural do século XIX foi a conexão jornal-romance cujas potencialidades criativas eram demonstradas por escritores como Manuel Antônio de Almeida e sua ficção era publicada em parcelas na imprensa periódica do Brasil. Essa conexão cria uma sinapse para com outros veículos culturais, tais como o cinema, o teatro, por exemplo, e o jornal. A proposta desse trabalho é a análise da mídia impressa através do prisma cultural da música tendo como principal exemplo canções registradas originalmente por Maria do Carmo Miranda da Cunha em duas fases da sua carreira.

Da atualidade, inspirada por uma crônica de jornal escrita por Arnaldo Jabor, a cantora Rita Lee em parceria com seu marido Roberto de Carvalho adaptou tal crônica e formulou o sucesso ‘Amor e Sexo’. Chico Buarque ao lado de Maria Bethânia em show de 1975 cantaram ‘Notícia de Jornal’ de Luis Reis e Haroldo Barbosa. Caetano Veloso e Gilberto Gil, no encontro em comemoração aos vinte e cinco anos de tropicalismo confeccionaram um álbum cujo uma das músicas se refere à violência marcante no ano de 1992/3 onde fatos como a chacina de Vigário Geral e do presídio do Carandiru onde morreram 111 presos serviram de alicerce para a canção ‘Haiti’. Esses são alguns poucos exemplos de músicas compostas ‘baseadas em fatos reais’ prensados pelas rotatórias.

Que ligação é essa que põe o periódico como influência para composições de música e se dá até hoje?

Voltemos à ‘pequena notável’. A composição de Assis Valente ‘E o mundo não se acabou’ gravada pela cantora no ano de 1938 e a de Vicente Paiva e Luis Peixoto ‘Disseram que eu voltei americanizada’ em 1940 demonstram que as notas de jornais serviam de base para a inspiração musical dos autores. A primeira se trata de uma nota referente a passagem de um cometa pelo espaço. A segunda é baseada na crítica sofrida por ela devido à recepção que o público teve com a sua primeira apresentação após uma longa temporada nos Estados Unidos.

Inspiração e criação são um constante denominador comum para atividades tanto de um compositor quanto de um jornalista e, dada as devidas proporções, o compositor tem uma liberdade maior, no entanto, ainda sente a necessidade de sorver do noticiário fontes para que o seu objeto final, a exceção de quando fala sobre as coisas do coração, tenha um molde de modo que seu protesto, indignação, paródia ou ironia seja evidenciado.

A relação do jornal com um veículo cultural precisa de uma maior atenção e, sendo a música um desses veículos a coloquei na berlinda, assim como também em destaque se encontra Carmen Miranda pelos cinqüenta anos de sua morte. Eternizando os sucessos acima mencionados, tanto a música de Carmen quanto referências de outros veículos culturais indicam um fato e/ou suas conseqüências retratados e servem também como fontes para pesquisa dos acontecimentos de uma época.

A conexão entre música e jornal é discutível no que diz respeito à pesquisa norte americana. Segundo a teoria empírica em campo ou teoria dos efeitos limitados estudada por Paul Lasarsfeld na década de 40, cuja conclusão final é de que cada indivíduo da sociedade é influenciado pelos meios de comunicação de massa; a teoria do agendamento perguntando sobre o que se pensar a partir daquela notícia e a teoria do gatekeeper que é a notícia como fato lapidado, tanto Assis Valente quanto Vicente Paiva e Luis Peixoto, compositores, se deixaram influenciar pelas notícias para fazerem suas músicas.

As notícias surgiram, os compositores sofrendo influência de um meio de comunicação de massa as transformaram conforme vontade própria e, no final, quem botou a boca no trombone e deu conta do recado foi a voz da pequena notável Maria do Carmo Miranda da Cunha, alcunhada e consagrada como Carmem Miranda.