segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

A TELEVISÃO ME DEIXOU BURRO DEMAIS

A frase que intitula esse texto foi extraída de uma antiga música do grupo Titãs e a utilizo pra dizer que de certa forma eles já previam o futuro da programação televisiva. A música foi lançada antes de chegar ao Brasil os canais pagos de TV a cabo. A impressão que se tem é a de que quanto mais canais a cabo surgem focando ou segmentando a atenção dos assinantes mais a TV aberta peca na qualidade da programação oferecida e consequentemente quem tem que sofrer com isso é a população que se vê obrigada a assistir ou suportar certos tipos de programa.

Existe um filme, acho que da década de setenta, de nome ‘Deu no New York Times’ que com suas metáforas bastante apropriadas pra época, no fundo trata do mesmo assunto. O filme é a história de um pequeno país, uma ilha no pacífico se não me engano, na qual seu presidente só crê no que sai publicado no famoso tablóide americano. Por mais que haja uma variedade de canais abertos há sempre um ou outro cuja preferência é maior. E nem sempre o canal preferido é o que apresenta a melhor qualidade e o melhor conteúdo de programação.

A proporcionalidade direta pode ser percebida entre a superficialidade, a baixa qualidade da programação e as classes menos favorecidas no quesito informação. Essa frase pode ser dita de outra forma bem mais simples e direta. Tem até um quê proposital de preconceito. O que eu to querendo dizer é que pobre assiste a programas do tipo BBB. Quem não tem a oportunidade de acesso à informação e qualidade prefere ficar vendo um zoológico humano. Porque esse Big Bosta não passa de um monte de animais plasticamente atraentes dentro de uma jaula se exibindo pros fofoqueiros de plantão aqui fora. O programa pode até ter qualidade, ser bem feito, bem editado o que dá margem à manipulação para voltar sua atenção a um ou outro animal, mas não há conteúdo nenhum.

A emissora não cai no conceito da grande maioria da população pelo fato do Brasil ser um país de fofoqueiros. Ou quem é que já não bisbilhotou a vida do vizinho? Isso ta me reportando às pequenas cidades aonde os nativos vão até a janela pra dar uma espiadinha em quem passa pela rua e o que eles fazem. E quanto mais se cria ou copia e se exibe esse tipo de programa, mais emburrecida fica a população. Ainda tomando como exemplo o BBB, do mesmo modo que ele chega na grade da programação, ele vai. O programa está ladeado por dois outros de qualidade e com muito mais conteúdo, principalmente o que vem depois.

A minissérie ‘Amazônia’, além de ser uma excelente produção, nos faz conhecer um pouco mais da história do Brasil. Por mais que misture a ficção, ponto fundamental da teledramaturgia, a história se faz presente mesmo contada de modo mais glamuroso que de fato foi. Essa, assim como as minisséries que passaram como as que virão na mesma situação, seria uma ótima oportunidade de se destacar o conteúdo para a população desprovida da informação.

Mas por conta dos fofoqueiros de plantão que elevam a audiência do Big Bosta, pasmem, na sua sétima edição, o horário de exibição do casamento entre conteúdo e qualidade passa cada vez mais pra perto das doze badaladas, horário em que muita gente já está dormindo e deixando de exercitar a memória e a inteligência em conhecer uma história realmente brasileira.

Pois que sejam os pobres de espírito, fofoqueiros que emburreçam com a TV apesar de sim haver um jeito de fazer com que ela instrua e nos torne mais atentos, espertos e por que não arriscar e dizer inteligentes também. É só saber selecionar. E pra isso juntamente com a comodidade já inventaram o controle remoto Nem tudo que a antena captar o coração deve capturar.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

MUDANDO O IMUTÁVEL


O mês de janeiro, que por sinal termina daqui a alguns dias, tem um significado especial pelo menos para as crianças que estão em idade escolar. Além de representar a estação mais esperada do ano, o indicativo da palavra férias fica mais em evidência devido ao aumento do número de crianças brincando pelas ruas. Obviamente isso varia de bairro para bairro.

Por incrível que pareça existem crianças que nem fazem idéia do que seja uma cafifa (pipa, papagaio, pandorga...) uma bolinha de gude, um peão ou um iô-iô. Eu não sei se daqui a vinte anos essas crianças vão dizer o mesmo que eu quando afirmo que minha geração foi a última a ter uma infância digna onde a criatividade falava mais alto. O mais engraçado é que a geração anterior a minha, ou seja, meus pais e tios afirmam a mesma coisa. Não tiro a credibilidade deles, mas dou mais valor a minha infância de modo que não era nascido pra viver a deles.

No meu tempo de criança brincava-se muito. Não existia computador que dificultasse os relacionamentos interpessoais e nem sites do tipo ‘orkut’ que nos aproximava virtualmente. O primeiro contato que eu tive com um computador foi quando um primo meu adquiriu o ‘TK-85’ e alguns anos mais tarde um ‘MSX’ que surgiu aqui em casa ano antes do primeiro computador estilo ‘PC’. Éramos, por natureza, próximos e amigos uns dos outros e conservamos isso até hoje. Claro que com a evolução natural da vida a quantidade de pessoas não é a mesma, mas sempre mantemos, ou pelo menos tentamos manter contato.

Apesar de sempre morar em apartamento nos reuníamos na área de lazer do edifício e deixava nos levar pelas nossas ricas imaginações e criatividades. Adaptados ao pouco espaço e limitações impostas pela convenção do edifício era apenas com esses recursos que podíamos brincar. Vídeo game da época era o ‘Atari’ que rivalizava com o ‘Odissey, considerado o game dos mais afortunados, mesmo assim me faltava um pouco de paciência pra ficar horas na frente da TV dominando um jogo eletrônico. A vida útil desse ‘Atari’ não foi muito longa.

Dentre as inúmeras brincadeiras o nosso carro-chefe era sem dúvida nenhuma o esconde-esconde ou, como a gente chamava, ‘pique - esconde’. Houve uma fase em que tínhamos um horário previamente estabelecido e todo santo dia brincávamos. Não me lembro exatamente se esse período foi o de férias, mas outro dia me peguei pensando justamente nisso, ao passar na entrada do meu prédio e me surpreender com algumas crianças brincando. Não sei se as regras que eles adotam são as mesmas que as nossas ou sofreram alguma adaptação.

Mesmo assim, agora, depois de anos e anos, no meu íntimo, levanto uma questão pra pensar que na época nem me passava pela cabeça. Acho que a regra que usávamos pecava num ponto. Após decidir na ‘folhinha de abacate’ quem iria ficar com o ‘pique’, era multiplicado por dez o número da quantidade de participantes. Exemplo: se eram treze pessoas o sujeito contava até cento e trinta. Depois de um alto e sonoro ‘lá vou eu’ se saía em busca dos outros. Três era o número máximo de vezes que o pique tinha como guardião um único dono. Nos dois primeiros, quem tinha sido batido pelo guardião esperava o ‘salve todos’ para a redenção total. A não ser que ele tivesse o azar de não ‘bater’ ninguém, aí se estendia. E é justamente nesse ponto que eu acho que nossa regra estava errada. Se na terceira vez você ‘batesse’ alguém, o primeiro a ser batido estava com o ‘pique’. Apesar de levarmos isso a sério eu acho que seria mais emocionante se o último daquela rodada a ser ‘batido’ fosse o sujeito guardião do ‘pique’. A disputa e a apreensão do primeiro sujeito ‘batido’ faria subir mais ainda a adrenalina causada pela brincadeira.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

UM PRA LÁ, OUTRO PRA CÁ


Um sonho de qualquer criança é ganhar uma bicicleta. Quando se concretiza significa o fim da primeira das três etapas em que consiste esse evento. Ao ganhar o presente, passado o impacto do deslumbramento, o segundo passo é aprender a andar de bicicleta. Afixar as rodinhas e sempre ter uma pessoa do lado para instruir e salvaguardar o pequeno aprendiz. Já a terceira e última fase é justamente tirar as rodinhas que dá certa estabilidade e, mesmo com uma pessoa do lado causando a sensação de segurança, enfrentar a seqüência interminável de tombos e consequentemente agüentar as dores e os hematomas até sentir firmeza e pilotar a bicicleta sem maiores problemas.

Ao sentir segurança e demonstrar confiança em si próprio, não é mais necessária a companhia de uma pessoa para instruir, salvaguardar ou causar a sensação de segurança. Já existe a capacidade própria para suprir essa necessidade. Há, de certa forma, uma separação. Assim como no fim do período de aulas para uma classe de alfabetização com o cumprimento do trabalho de ensino das crianças, elas não terão mais a companhia da professorinha que lhes ensinou o bê-á-bá. Desse ponto em diante cada um lê e interpreta à sua moda.

A vida é cheia de separações e os exemplos acima não são de separações traumáticas, muito pelo contrário, há grandes lições, um amadurecimento e uma aprendizagem que se carrega pelo resto da vida. Não tendo raiva, mágoa, rancor ou ódio separações são bem-vindas, sinais de transformação, virada e novidade. Novidade consciente de modo que já se tem uma bagagem adquirida.

Um exemplo concreto de separação que deu certo foi entre os amigos de fé, irmãos e camaradas Roberto e Erasmo Carlos. Depois de anos de estrada juntos, compondo pérolas singulares e antológicas da música popular brasileira, cada qual tomou seu rumo, continuaram a fazer letras e melodias bacanas certos de que a amizade de fé, irmandade e camaradagem não deixaram de existir entre eles.

As parcerias podem se desfazer mesmo que perdurem as amizades. Ao longo da vida nós acompanhamos vários desmoronamentos de parcerias que não queríamos ou imaginávamos que iria acabar. Seja numa troca de escola, no vizinho que se muda ou quando se tem a oportunidade de encarar um desafio maior em outra empresa. A minha perspectiva pessoal para esse ano é a de formação de novas parcerias profissionais e grandes amizades duradouras. Recomeçar partindo de algum número que não o zero devido ao acúmulo das experiências anteriores e galgando cada vez mais espaço naquilo que me acostumei a fazer e faço com gosto e prazer.

Agora já sei andar de bicicleta sozinho, sem ninguém mais pra me instruir. Agradeço imensamente a quem me fez isso, mas já é chegada a hora da separação. Hora de eu seguir o meu caminho pedalando nas veredas da vida e ir me anexando a grupos de ciclistas que se disponham a me dar a oportunidade para que eu mostre que já tenho discernimento e maturidade suficientes para continuar dando as minhas pedaladas sem aqueles primeiros empurrões.

Não é pelo fato de saber andar sem acompanhante que não terei meus deslizes e eventuais quedas. Isso é passível até do melhor ciclista. Mas é com as quedas, sua e dos outros, que se aprimora mais o jeito e estilo de desenvolver boas pedaladas e estratégias de como esquivar dos obstáculos que podem provocar as tais quedas e deslizes. Também não faço o gênero de passar por cima de um companheiro de pedaladas que tenha caído por algum motivo. Tento ajuda-lo da melhor maneira possível. Assim como ele, eu também posso cair um dia. Mas, a princípio, por enquanto, estou bem acomodado no meu selim, seguro forte o guidão e sigo firme sobre minha bicicleta.

domingo, 7 de janeiro de 2007

VIRADA DO ANO

A grande maioria das pessoas sempre cumpre pelo menos uma das inúmeras simpatias para que, na passagem de ano, o que chega venha com boas energias. Caroços de romã e uvas, pular sete ondas na praia, comer lentilha e carne de porco, usar roupas, ou alguma peça de roupa com cores específicas para cada seguimento da vida – eu só não descobri ainda qual a cor representa o atrativo do trabalho – enfim, superstições que talvez, com um pouco de crença, pode até ser que dê certo. Eu me incluo nessa grande maioria. Não no quesito simpatia de ano novo, mas pro ano começar bem tem que ter alguma novidade ou nas minhas vestimentas ou nas minhas atitudes. E 2007 começou com uma atitude nova.

O maior atrativo do reveillon da cidade do Rio de Janeiro é, sem dúvida, a queima de fogos da praia de Copacabana. Por mais que tenham fogos em outros pontos da cidade, Copacabana, além de princesinha do mar, é a menina dos olhos de quem vem de fora na expectativa de um espetáculo inesquecível. E realmente é. No entanto, outros locais também não deixam de ter seu charme. Como eu não estava de roupa nova (a camisa era de tom alaranjado e a bermuda cor de mingau que, apesar de até então não ter freqüentado o meu corpo, nunca havia usado de modo que foi uma herança recebida do meu pai no fim do ano quando ele fez a limpa no guarda-roupa) a atitude que eu e meus amigos tomamos, enjoados de assistir aos fogos de Copacabana, foi de ver o foguetório da Lagoa Rodrigo de Freitas. Tendo como atração principal a tradicional e iluminadíssima árvore da lagoa, os fogos que iluminaram o céu daquele aprazível bairro não ficaram atrás em termos de beleza e impacto. Não teve o mesmo tempo de duração ao dos fogos do bairro vizinho que, por sinal, da lagoa dava pra ver boa parte deles, que estouravam atrás das curvas sinuosas do morro do Cantagalo. A expectativa gira em torno do apagar das luzes da árvore flutuante. Isso é sinal de que tanto o foguetório quanto o ano vão começar.

Reveillon é sinônimo de festa, e festa sem música não combina. Sempre em comemorações desse porte, logo depois do espetáculo da queima de fogos, há alguma atração musical se apresentando nos palcos armados. Esse ano, como outra atitude, a atração musical que vimos foi internacional. Eu, meus amigos, e cerca de um milhão de pessoas também. Estávamos na Lagoa e lá vimos os fogos, mas estávamos visando ir para Ipanema e começar o ano assistindo ao show da banda ‘Black Eyed Peas’.

A praia da famosa garota estava dividida. No posto oito estava armado o palco para o show e no posto nove eram DJ’s nacionais e internacionais que se dividiam nos comandos das carrapetas e animavam os amantes de musica eletrônica numa festa tipo ‘rave’. Do ponto onde ficamos na lagoa até chegarmos mais próximos ao palco andamos contra o fluxo, visto que estávamos na esquina da Rua Garcia D’Ávila entre os postos dez e nove. Uma onda, ou melhor, uma verdadeira ‘tsunami’ de seres humanos saíram de Copacabana também para assistir à apresentação da banda internacional em Ipanema e/ou curtir a ‘rave’. Não tinha como chegar bem perto do palco com aquela multidão vindo em nossa direção, mesmo assim, no ponto em que paramos, dava pra escutar as músicas perfeitamente. Já o fato de vermos o show foi descartado devido à multidão que se aglomerava ali, se bem que eu ainda consegui ver alguma coisa através da exibição do telão.

Considero o tempo também uma questão de atitude. Não que eu nunca tenha tido uma virada de ano debaixo de chuva, mas na lagoa foi a primeira vez. A constante garoa que caiu durante a noite serviu para levar os resquícios de 2006 e deixar limpo para que 2007 entrasse com tudo. Pois como eu clamava no instante da virada, que o ano venha que eu estou pronto. Ah! E sempre pulando ou apoiado no pé direito.