segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

PONTOS

Se uma pessoa passa o carnaval na Bahia, a não ser que dê tudo errado, volta de lá dizendo que Salvador tem o melhor carnaval do Brasil. O mesmo pode acontecer com Recife, Olinda ou uma cidade que nem tenha um carnaval famoso. Eu acho que quem faz o carnaval é o folião. Pra mim as escolhas que fiz nesse carnaval foram as melhores, mesmo não atingindo o grau de folia que eu esperava, como no caso do Simpatia, no domingo, já que quando cheguei lá o bloco já tinha passado. A cada ano que passa digo e repito que o carnaval do Rio é o melhor, não só pelas escolas de samba, mas principalmente pelos blocos e bandas que saem pela cidade. Ponto pra festa.

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Mais uma vez a Beija-Flor levou o campeonato, o décimo no seu total e o quinto nos últimos dez anos além dos quatro vice campeonatos. Ou seja, nos últimos dez anos, com exceção do ano passado se ela não era a campeã, era a vice. O que tá ficando chato porque não dão oportunidade para as outras vencerem também. Não concordo com a queda da Estácio, que pelo samba apostava ser uma das cinco mais, e do Império Serrano. O Salgueiro, escola que cogitei a queda pelo samba que trouxe, mostrou na avenida que não era nada disso que pensei. A Viradouro continua com sua tradição quebrada apenas em 2005 de voltar pro desfile das campeãs não importando sua posição. E eu continuo não gostando da concepção de carnaval de Paulo Barros. Tijuca e Mangueira também estão na minha lista das cinco mais. Só errei duas e uma delas caiu. A Portela veio leve, brincando, alegre, mas ficou em oitavo lugar. Apesar de não ser cem por cento de acerto, ponto pra mim.

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O que foi a confusão criada pela Mangueira com Beth Carvalho? Como a escola fez isso com ela? Uma artista mangueirense de corpo, alma e coração, que promove o nome da agremiação em todo lugar que ela vai não merece o tratamento que ela teve. A escola deveria se retratar com ela sobre o que fez. Se ela tem problema de coluna e precisa desfilar em cima de um carro, ela que escolhesse o carro que iria. Não importa o que o presidente acha, se é que ele acha alguma coisa. Ela poderia subir no abre alas até nua se ela quisesse que não tinha que ter problema nenhum. A Mangueira depende mais dela do que ela da Mangueira. Menos dez pontos pra Mangueira.

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Pelo segundo ano consecutivo fui assistir o desfile do grupo de acesso B, na noite da terça gorda de carnaval. É de graça e não só por isso é bom. Lá a dimensão da escola é muito menor, cada agremiação leva quatro carros alegóricos pro desenvolvimento do seu enredo. Dois fatos inusitados ocorreram na nossa frente. Numa escola que não me lembro o nome, um componente foi tirado a força do desfile por um diretor de ala. Motivo: bebida. O cara tava completamente manguaçado. Parecia dançar valsa ao invés de sambar. Minutos depois foi retirado de maca pelos bombeiros. Até aí, tudo bem. Coisas que acontecem. Não deve ter sido a primeira vez e com certeza não será a última. Agora, o que a gente viu depois eu nunca tinha visto. Na hora em que a ‘Vizinha Faladeira’ entrou numa das alas havia um cachorro. Isso mesmo, um cachorro desfilou junto com a escola. E não era um cachorro fantasiado não. Era o cão penetra que por ter seu pelo branco se confundiu com as alas que estavam de branco. E o mais engraçado é que ele parava quando a ala parava. Tentaram até expulsar ele, mas pra onde fugir no meio da avenida? Essa foi a melhor da noite. E uma das melhores desse carnaval. Ponto pro cachorro.

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Pena que ano que vem carnaval é entre dois e cinco de fevereiro. Ponto final.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

NA PALMA DA MÃO 2007

Já ta dando pra sentir o calor dos tamborins. E como todo ano venho aqui dar o meu pitaco na safra de samba-enredo desse ano. Tentarei ser o mais sucinto possível. Esse ano vão descer duas escolas e subir uma fazendo com que das atuais treze escolas apenas doze desfilem no próximo ano. A Liga acha que esse é o número ideal. Seis escolas desfilando por dia. Eu acho que sete era um número bom. Pra quem já chegou a nove por dia tá bom. Me lembro que quando era criança o desfile era um atrás do outro, direto, sem parar.

Vila Isabel – “Metamorfoses: do reino natural à corte popular do carnaval – as transformações da vida”. Só esse título é praticamente uma letra de samba. O sambinha é bom, tem uma cadência bacana, bem montado, bem feito, tranqüilo, gostoso e tem tudo pra crescer ainda mais. Só não afirmo que apenas com o samba, sem vê a escola passar, pode conquistar o bi. O refrão é: ‘Samba não tem preconceito/ Branco, negros, iguais/ Um beijo da Vila Isabel... princesa/ Metamorfose assim se faz’

Grande Rio – “Caxias, o caminho do progresso, o retrato do Brasil” É um samba extenso que tenta contar toda a história do município, o que é uma boa proposta, mas eu acho que veio em hora errada. Deveriam aproveitar o sucesso de uma recente novela das oito cuja personagem principal cresceu junto com o município. Voltando ao samba, peca pelo exagero da letra, muita informação. A melodia é legal, mas não é lá grandes coisas. Outra que tem que ver na avenida. O refrão é: ‘Bom de bola, bom de samba, paixão/ Com Perácio aprendi a sambar com pé no chão/ E com Zeca Pagodinho deixo a vida me levar/ Eu me chamo Grande Rio e qualquer dia chego lá.’ Ano passado quase chegou mesmo.

Viradouro – “A Viradouro vira o jogo”. O tema não é inédito. O ineditismo será a forma de abordar o tema. O samba é bom, gostoso e empolgante, mas também acho que tenha pecado pelo excesso de informação na letra. Por exemplo: a frase ‘respiro fundo no pinball quero brincar’ poderia perfeitamente não existir. Só pelo fato de estar na sinopse do carnavalesco tem que estar na letra do samba também? Apesar disso acho que é o samba que mais chega perto do Orfeu, dado que os compositores são praticamente os mesmos. O refrão é: ‘Sou Viradouro e vou cantar/ Com muito orgulho, com muito amor/ Esse jogo vai virar/ Eu quero ser o vencedor’.

Mangueira – “Minha pátria é minha língua, Mangueira meu grande amor. Meu samba vai ao lácio colher a última flor” Esse talvez seja o melhor samba desse ano. Tá bem feito, bem estruturado, tem cara de samba, harmonia perfeita. Faz uma justa homenagem à língua portuguesa, tem uma letra sensacional. Dá até pra cantar em ritmo de fado. Se for só pra ficar com o samba, sem vê o carnaval, daria o título pra Mangueira. O refrão é: ‘Vem no vira da Mangueira, vem sambar/ Meu idioma tem o dom de transformar/ Faz do palácio do samba uma casa portuguesa/ É uma casa portuguesa com certeza’.

Beija-Flor – “Áfricas: do berço real à corte brasileira” O samba está se mantendo. Se pegarmos os últimos cinco anos a batida, a harmonia é sempre a mesma. A melodia que varia. Alguma coisa tem que variar. Mas eu não gostei do samba desse ano, não achei empolgante, pelo contrário, tá desanimado, monótono, apesar de achar que a escola deu um bom passo no que diz respeito à letra. Finalmente encurtaram um pouco tanto a letra quanto o título do samba. O refrão é: ‘Sou quilombola Beija-Flor/ Sangue de rei, comunidade/ Obatalá anunciou/ Já raiou o sol da liberdade’.

Tijuca – “De lambida em lambida a Tijuca dá um click na avenida”. A Tijuca pretende fazer uma fotografia da Sapucaí e faz ela bem. O tema é interessante e remete a várias possibilidades de interpretação. Tudo é uma questão do olhar, como diria meu amigo Miro Ribeiro. Nesse caso do olhar do carnavalesco. O samba é muito gostoso, empolgante, com boa harmonia e melodia, tem uma cadência legal, enxuto, na medida certa, e a paradinha do click é tudo. Tem tudo pra crescer também e é outro que só pelo samba também levaria o campeonato. Muito bom. Tomara que dessa vez não fique no vice. O refrão é: ‘Em preto e branco ganhei a vida/ O amarelo em mistério – ilusão/ O azul no tom divinal/ Nas fotos do carnaval/ Sou a Tijuca nesta tela digital’.

Portela – “Os deuses do olimpo na terra do carnaval – uma festa dos esportes da saúde e da beleza”. Dentre esses sambas que eu tô dizendo que só pelo samba poderia ganhar o campeonato esse seria o azarão, a zebra. A escola tem acertado a mão nos últimos anos em termos de composição inclusive naquele que teve a confusão na avenida. Outro samba legal, bem dividido, bem cadenciado, empolgante, que pode crescer na avenida e que junta samba e esporte de uma forma divertida e simples pra falar do pan. O refrão é: ‘Eu sou a raiz do samba/ Saúde e beleza na passarela/ O ninho da águia, celeiro de bambas/ Sou Rio sou esporte e sou Portela’.

Império – “Ser diferente é normal – o Império Serrano faz a diferença no carnaval” O samba em si não é ruim. È até bem feito com o tema bem explorado que fala das diferenças, inclusive das diferenças que a escola fez inovando nos desfiles. Eu só acho que, já que o tema é a inclusão do que tem algum tipo de necessidade especial, eles deveriam trazer num carro ou numa ala um grupo de surdos-mudos interpretando o samba na linguagem de sinais. Aí iria arrepiar todos que assistem. Espero sinceramente que o Império continue entre as dez mais. Teremos que ver na avenida. O refrão é: ‘Eu quero ver.../ O amor florescer/ Ser diferente é normal/ E o Império taí/ Pra levantar seu astral/ Se liga no meu carnaval’.

Imperatriz – “Teresinha, uhuhuuu!!! Vocês querem bacalhau?” Um samba regular, mas que pode fazer com que a escola suba de posição. Uma tri campeã que tira um nono lugar é por que houve alguma coisa. Espero que eles tenham se acertado pra esse ano. Mesmo com a vitória da Vila ano passado, continuo na torcida contra a vitória da Mangueira, Beija Flor e Imperatriz. Da Mangueira até que nem tanto mais. Mas também não merece ficar lá pra baixo. Afinal a Rosa é a poderosa. E explorando o bacalhau ela pode fazer uma salada maravilhosa na avenida até pela previsão que o samba dá fazendo a mistura com o Chacrinha. O refrão é: ‘E o bacalhau do Batata na bandeja pra massa/ até o dia clarear’

Mocidade – “O futuro no pretérito, uma história feita a mão”. O tema é abstrato, mas é legal de ser explorado O homem que cria a máquina que domina o mundo faz o homem refletir que as melhores coisas da vida são as coisas mais simples, feitas a mão. O samba também é regular, mas é bem dividido, bem distribuído. Não é longo, extenso e exagerado. O samba é simples, mas a escola já fez músicas muito melhores. A Mocidade também não é escola pra ficar lá embaixo. Outra que deve ter revisto seu carnaval pra não acontecer mais isso. Outra que só pelo samba não dá pra garantir o campeonato. O refrão é: ‘Um Brasil feito à mão/ Um só coração – liberdade/ Da emoção eu faço a arte/ Em verde e branco com a mocidade’.

Salgueiro – “Candaces”. Bem, pelo que eu entendi o tema é uma homenagem às mulheres africanas ou afro-descendentes. Achei o samba regular e se não se garantir na avenida periga em cair. Esse é um dos piores sambas desse ano. Uma escola que ganhou com o Ita, tentar ganhar com esse samba não vai conseguir. A não ser que surpreenda muito na avenida. Não sinto empolgação na melodia do samba. É esperar pra ver. O refrão é: ‘Odoyá, Iemanjá, Saluba, Nanã/ Eparrei, Oyá/ Orayê yêo, Oxum/ Oba xi, Obá’.

Porto da Pedra – “Preto-e-branco a cores”. Outro samba regular que depende muito do que for mostrado na avenida. Só pelo samba, apesar de ser bem dividido, não se garante o campeonato. O tema também tem a ver com a África assim como Salgueiro e Beija-Flor. A escola se salvou por pouco da queda no ano passado e periga acontecer o mesmo com esse samba. Acho que um samba pra ser bom tem que começar com um refrão que cole, que pegue, tem que ser bem dividido e explicar o tema sem exagerar na letra. Letra de samba não é testamento. Espero que a escola se supere na hora e meia de desfile. O refrão é: ‘Liberdade pelo amor de Deus/ Liberdade nesse céu azul/ É minha terra, orgulho meu/ Porto da pedra canta a África do Sul’.

Estácio – “O ti-ti-ti do sapoti”. Há quinze anos a escola conquistava seu último título, e agora, voltando pro grupo especial, reedita o sucesso de pouco mais de vinte anos. O samba é muito bom e bastante conhecido. Já é um ponto positivo pra escola. No entanto a expectativa é a leitura que o carnavalesco faz do samba, amparado pela evolução tecnológica atual que não existia na época da primeira vez. Só pelo samba, por mim estaria na galeria das campeãs. Espero sinceramente que os julgadores não interpretem a Estácio como uma escola iô-iô. Afinal, ela já ganhou o carnaval, passou por maus bocados, mas está de volta querendo seu espaço. O refrão é: ‘Que ti-ti-ti é esse/ Que vem da Sapucaí/ Tá que tá danado/ Tá cheirando a sapoti’.


Agora vamos lá, dar uma de profeta e escolher as cinco melhores e as duas piores. Não que elas cairão. Posso colocar uma entre as cinco que pode cair ou das duas que na minha opinião estão ruins uma ser campeã e a outra vice. Já pensou se inverter? Bem, as cinco que pra mim tem os melhores sambas são: Viradouro, Mangueira, Tijuca, Portela e Estácio. E as duas que têm os piores sambas na minha humilde e modesta opinião são Salgueiro e Porto da Pedra. Vamos ver o que os jurados acham.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

VIRADOURO VIRANDO O JOGO

Sou Viradouro com muito orgulho e com muito amor. A história essa escola de samba se mistura um pouco com a história da minha família. Há uns quarenta anos, se não mais, era apenas um bloco de carnaval que desfilava pela Rua Mário Viana, na qual minha família morava e eu ainda moro nela, em Niterói.

Viradouro era o lugar no fim dessa rua onde os bondes faziam a volta, ou seja, viravam para pegar o sentido de volta do itinerário. Além disso, a primeira quadra da escola de samba ficava naquela área. Anos depois a sede da agremiação foi para o bairro do Barreto, fronteira entre Niterói e São Gonçalo. Por isso que algumas pessoas confundem, mas eu defendo com unhas e dentes que a Viradouro é de Niterói.

Os anos forma passando e a escola crescendo. Era uma das cinco mais da cidade (na época que só existiam as cinco) até que passou a concorrer no Rio. Conquistando campeonatos nos grupos E, D, C, B e A, em 1990 ganhou o direito de desfilar no grupo especial. Abriu o desfile de 1991 homenageando Dercy Gonçalves e contrariando o efeito iô-iô de escolas que sobem num ano e caem no ano seguinte, se manteve no grupo de elite. No segundo ano a Viradouro mostrou que não era uma escola qualquer e veio linda e perfeita cantando a saga dos ciganos. Infelizmente houve um incêndio numa alegoria que mesmo atrasando o final do desfile e consequentemente perdendo muitos pontos fez com que a escola ficasse em nono lugar. Se não fosse o fogo certamente estaríamos entre as campeãs. Nesse mesmo ano a Estácio conquistou seu último campeonato com Dominguinhos do Estácio cantando a ‘Paulicéia Desvairada’.

Cinco anos depois a voz inconfundível do Dominguinhos se casou com a Viradouro e a escola leva seu primeiro campeonato com ‘Trevas! Luz! A explosão do universo’. Samba composto por Mocotó, Flavinho Machado, Heraldo Faria e pelo próprio Dominguinhos. De lá pra cá em apenas um ano, 2005, a Viradouro não voltou para desfilar entre as campeãs.

Esse ano a escola quer inovar. O tema de carnaval da vermelho e branco é o jogo e a Viradouro está apostando alto para ganhar o carnaval 2007. Coincidência ou não esse é o segundo samba da escola assinado pelo pé quente do Dominguinhos. A cartada maior foi a contratação do carnavalesco do momento, Paulo Barros, vice em 2004 e 2005 e sexto lugar em 2006 pela Unidos da Tijuca. Eu, particularmente, não vou muito com o carnaval dele.

No primeiro ano em que ele apareceu não se comentava mais nada além do famoso carro do DNA. Realmente foi criativo. Mas daí a fazer o mesmo na grande maioria das alas e carros alegóricos eu já não concordo muito. Acho que quem quer desfilar não gosta muito de ficar atrelado a uma coreografia, presos a passos marcados, atentos para não errar a hora em que se levantam os braços ou se estica uma perna. Penso que um bom folião gosta de defender a sua escola brincando, curtindo, se deleitando enquanto passa pela avenida. O diferencial que Paulo Barros faz perante as outras escolas é justamente transformar essa brincadeira em coreografia. Se eu quiser ver passo marcado prefiro assistir a um espetáculo de companhia de dança.

Mesmo assim continuo sendo Viradouro com muito orgulho e com muito amor. Não é pelo fato de eu não simpatizar com o modo pelo qual o carnavalesco faz suas criações que eu vou deixar de torcer pela escola. Não é pelo fato de eu não concordar com a contratação de um técnico ou de um jogador que eu não gosto, que eu vou deixar de torcer pelo meu time. Quero o bem da escola e sempre desejo que ela ganhe o campeonato, mas, claro, se não conseguir o primeiro, que pelo menos mantenha a tradição de voltar para o desfile das campeãs não importando a colocação. ‘Sou Viradouro e vou cantar com muito orgulho com muito amor’.