segunda-feira, 26 de março de 2007

SHOWROOM

Já há algum tempo tomou-se uma decisão aqui em casa de vendermos o apartamento para comprarmos outro maior. Por um lado é bom já que depois de trinta anos a possibilidade de não mais dividir o quarto com meu irmão é muito grande, ou seja, é mais espaço e conforto tanto pra ele quanto pra mim. Por outro não sei se essa é uma boa pedida já que o meu projeto de morar em outro canto continua firme. Claro que não tenho idéia ou previsão de quando isso vai se concretizar, mas que é um pensamento fixo e constante isso é. No entanto, enquanto não se realiza, a gente vai levando.

Vai ser meio difícil pra mim o dia que o caminhão de mudança encostar no portão do meu prédio e ser carregado com as mobílias daqui de casa. Afinal já são trinta anos morando no mesmo lugar. Tenho vínculos afetivos com esse cantinho, com as pessoas que também foram nascidas e criadas aqui onde aproveitei minha infância e a adolescência da melhor forma. Nem todos continuam morando aqui, mas a amizade que a gente criou é eterna e sempre que há motivos pra gente se encontrar vira uma festa. Ainda não dá pra descrever essa sensação até mesmo porque ainda não a senti. Mal comparando acho que o mesmo sentiram as pessoas que tiveram que deixar suas casas e suas coisas devido à interdição provocada pelo afundamento da obra do metrô no início do ano em São Paulo.

O que eu acho mais engraçado e mais irritante também essa decisão causa uma rápida e momentânea mudança interna (leia-se dentro do apartamento). Volta e meia vêm membros da corja de corretores mostrar o apartamento para pretensos compradores. Até aí tudo bem. Confesso que não gosto muito quando isso acontece na minha presença. Minha paciência não passa desse limite. Afinal são estranhos que invadem sua intimidade e privacidade com o intuito de passar uma mensagem subliminar de que vai tomar aquele lugar de você. Quando essas pessoas ligam ‘agendando’ a visita acontece uma pequena revolução. É essa mudança interna rápida e momentânea de que eu falo.

Sempre que está pra chegar alguém com a finalidade e ver o apartamento tem que dar um ‘jeito’ nele, uma arrumada. Eu sou contra isso. As pessoas vêm aqui pra ver o apartamento e não pra fazer uma inspeção. Até por que as únicas coisas que vão ficar são os armários embutidos da cozinha e dos quartos. Nesses momentos eu me vejo morando num cenário, ou melhor, num show room. Isso me irrita profundamente. Ter que dar um ‘jeito’ não é comigo. Se a pessoa ta com vontade de comprar o imóvel não é uma simples e pequena bagunça que toda e qualquer casa, por menor e mais restrita que seja a desarrumação, tem.

Eu naturalmente sou organizado e minhas coisas pessoais estão sempre no ‘jeito’. Por essas e outras que eu não gosto de ajeitar as coisas que não são minhas e de modo a escondê-las dos urubus que sobrevoam a nossa carniça. Por sorte, ou educação, de quem adentra ao meu lar não se atreveram a abrir as portas dos meus armários. Também, o dia que acontecer isso além de ser show room, o cenário se transformaria num ‘Big Brother’. Espero que continue com essa sorte ou que os invasores continuem demonstrando educação. Do mesmo modo que eu torço pra esse apartamento não ser vendido enquanto o outro não tiver pronto.

De modo que assim não teremos o trabalho de executarmos duas mudanças. Uma daqui não sei pra onde e outra desse lugar pro apartamento novo. Sem querer desmerecer os patrícios lusitanos isso sim seria o que a gente costuma chamar de serviço de português. Só me faltava essa. Podendo ter um trabalho só acabar tendo dois por capricho de deixar esse ‘stand’ vazio para outros poderem morar.

segunda-feira, 19 de março de 2007

ATÉ QUANDO ESPERAR

Em que ponto chegamos. Onde paramos. E o principal, a partir daqui para onde vamos e como vamos. Tragédias como a da criança João, arrastado por bandidos até a morte por estar preso ao cinto de segurança do carro roubado da mãe entre outras tantas que já aconteceram e que provavelmente irão nos chocar, são os picos que acontecem estarrecendo a sociedade. Infelizmente precisa-se de casos como esse para as autoridades de alto escalão começar a pensar em alguma coisa de modo que possa ao menos se retardar esse tipo de ação marginal.

Mais uma vez está em pauta a questão da segurança pública. Essa que a gente não usufrui. Se eu corro o risco de ao sair de casa pra ir à padaria, por exemplo, e ser assaltado ou mesmo achado por uma bala perdida é sinal de que não há segurança. E o fato de vivermos uma situação assim é o resultado de uma série de incompetentes que detêm o poder na mão por algum tempo e nada fazem. Procuram resolver o problema em curto prazo, se focam a isso, mas em longo prazo esquecem de elaborar e estruturar um método para que, se não acabar, ao menos diminuir drasticamente essa eterna onda de violência. É mais que evidente que o que se passa é uma conjunção de fatores, inclusive a incompetência das autoridades, que trouxeram a situação ao ponto que se encontra hoje.

A primeira atitude que tem que ser tomada é a revisão do Código Penal. É inconcebível que a lei vigente em relação a crimes seja de sessenta anos atrás. Na época em que o código entrou em vigor o bandido era tido como arruaceiro, que portava uma navalha. Hoje eles são mais paramentados que a própria polícia, que é um outro caso a ser tratado. Qual era o pior crime cometido na década de 50? Nesse tempo os crimes hoje vistos como banais que são dados em pequenas notas nos jornais ocupavam toda coluna policial dos periódicos da época.

Esse é outro caso a ser pensado. A banalização do crime e a glamurização do criminoso são valores que tem que ser invertidos e convertidos em repúdio e ojeriza a todo e qualquer fato que venha a ser um crime assim como seu meliante. Já o caso da polícia a pouco citado tem que se transformar em um caso de polícia. A simples troca da preposição diz tudo.

Policial, professor e médico talvez sejam as profissões cujos trabalhadores precisam e mereçam ganhar um salário digno e não as merrecas que aparecem estampadas nos contracheques desses profissionais. Policiais além de ganhar bem têm que se bem preparados, bem treinados não só a parte física e armamentista do tira, como também e talvez com mais afinco na parte intelectual e psicológica. É uma profissão que lida com todo tipo de gente e todo tipo de caso. Se o policial não tiver uma índole e uma conduta de bem na vida pessoal dele isso certamente se reflete na profissão. Nesse ponto não é só o policial, e sim todos os profissionais em todas as áreas, mas em específico quem trabalha pela segurança do cidadão, da comunidade tem que ter uma maior atenção.

Não adianta apenas o surgimento de projetos de lei para mudar uma coisa ou outra. Tem que haver uma prevenção geral ampla e irrestrita englobando todos os setores da sociedade e principalmente com o estado dando condições básicas e acesso a todos a uma educação de qualidade. Começando assim, em longo prazo a violência se não acaba, diminui drasticamente. Às vezes fico pensando se o ser humano é essencialmente malévolo. Diante dessa e de outras tantas barbaridades que aconteceram, penso se eu não sou um ser anormal, como se eu fosse a maçã boa num cesto de frutas podres. A diferença é que a maçã não tem instinto e nem raciocínio. Mas será que alguns bandidos têm? Por que pelo visto são somente maçãs podres.

domingo, 11 de março de 2007

LÁ VEM ELA

Black-out. Caiu o pano. O hiato entre o cerramento da cortina e os aplausos foi demorado. Creio que todos sabiam que o espetáculo tinha acabado, mas ninguém queria arriscar a ser o puxador da salva de palmas. Diga-se de passagem, muito bem merecidas. A cortina é aberta agora para os agradecimentos finais. O mesmo hiato volta nesse momento para o aplauso de pé. Eu não podia e nem queria me precipitar. Não nesse espetáculo. Não fui o primeiro e nem o último a tomar essas duas atitudes, mas fiz com entusiasmo e euforia. Afinal era o nosso quarto contato visual em quase nove anos e a partir daquele instante não havia nenhuma barreira entre nós.

As portas de saída já estavam abertas, tanto a principal quanto a lateral, que por estar mais perto da saída dela foi a escolhida por mim. Porta da esperança. Saí e aguardei. Algumas pessoas fizeram o mesmo. Em torno de dez a quinze. Uma delas, e a primeira a receber atenção, foi outra atriz de alto calão. Pelo visto tinham muita coisa a conversar, foi um papo que rendeu.

Fiquei preocupado. Não com a situação que já estava a meu favor, mas com o encontro que já havia marcado com meus amigos da faculdade. Liguei para um deles até mesmo para saber qual seria o meio mais rápido de encontrá-los. Para surpresa minha ele estava por perto. Pedi para ele me encontrar para irmos juntos ao ponto marcado. Eu não sairia de onde estava por nada nesse mundo enquanto não concretizasse o meu desejo e finalizasse a minha intenção. Parte dela já estava concluída. O espetáculo já estava visto. Outra parte estava pra acontecer. Antes disso meu amigo chegou. Pacientemente ele esperou mais um pouco e assistiu a tudo meio que de longe.

Ela, mesmo conversando com a outra atriz começou a se locomover na minha direção. Era a última pessoa no caminho dela entre a porta do camarim e a porta da rua. A porta da saída lateral do teatro ficava entre essas duas. Outras pessoas amigas e/ou conhecidas dos outros atores foram apresentadas a ela. Falava com eles, um por um, sempre atenciosa e sorridente. Por coincidência o último a ser apresentado a ela também se chamava Rafa. Eu estava logo atrás e ela veio, com a curiosidade que lhe é peculiar, e me perguntou “E você é...?” Respondi prontamente “Eu sou o outro Rafa.” Entreguei o presente que havia levado pra ela e um livro com a compilação de algumas entrevistas em comemoração aos dez anos de exibição do seu programa num canal a cabo pra ela fazer uma dedicatória.

Nesse ínterim vieram os comentários. Comecei dizendo que aquele era o terceiro, visto que o primeiro foi a foto e o segundo foi o CD, ela já me jogou outra pergunta reticente: “Você não é aquele de...?” ela lembrou. “Niterói”, completei. Minha alegria ficou maior ainda. Principalmente depois dos elogios que recebi. Ela fez questão de frisar pras outras dez ou quinze pessoas que eu fui assisti-la no primeiro espetáculo em que ela atuou no ano 2000. Complementei dizendo que fui ao segundo e agora ao terceiro, e já me comprometeu com o próximo espetáculo que vier a fazer.

No entanto o que mais massageou o meu ego, e de vez em quando é bom ter o ego massageado, foi o elogio que ela fez a minha beleza. Me senti um Deus grego. Ela viu que eu emagreci e por isso disse que estou mais bonito do que era e, como meu amigo ficou de testemunha ocular, ela ficou tão entusiasmada e eufórica com a minha presença que me abraçou de um jeito tenro, meigo e carinhoso que até meu amigo ficou boquiaberto. Aqueles dez minutos, no máximo, que ficamos juntos me valeram pelo mês inteiro. E, por enquanto, pelo ano todo.

“Todos nós temos na vida um caso, uma loira. Você tem também.”. A ‘minha’ eu reencontro esporadicamente, mas é sempre com entusiasmo e euforia e de ambas as partes.

segunda-feira, 5 de março de 2007

JÁ DE SAÍDA MINHA ESTRADA ENTORTOU

Ano passado, durante a copa do mundo, permaneci em São Paulo trabalhando no filme ‘Caixa 2’ de Bruno Barreto, fato esse que me deu uma carga de experiência profissional brutal. Do mesmo jeito que o outro lado da moeda em permanecer naquela metrópole me fez rever alguns conceitos de segurança. Provavelmente na época devo ter postado aqui o que aconteceu comigo lá. Pra rememorar os esquecidos fui roubado lá por um batedor de carteira tão profissional, daqueles que têm a mão tão leve, que nem senti e só fui dar conta mais tarde.

As vésperas da minha volta pro Rio, numa volta pelo centro da cidade passei no setor de achados e perdidos no metrô da Praça da Sé e consegui resgatar quase tudo o que estava na minha carteira afanada. Além do próprio porta documentos a identidade, o CPF, a carteira de habilitação e o cartão do banco, devidamente cancelado no dia, não estavam a minha espera. Claro que no dia do ocorrido dei parte na polícia, fiz o registro, tudo certinho pra que eu me isentasse de qualquer prática futura de festa com o meu nome. Nessas horas tem que se prevenir de tudo quanto é jeito, de todas as formas, com todos os aparatos jurídicos necessários para tal. Exatamente pra se ter um respaldo caso aconteça o que está acontecendo comigo nesse momento.

Quando fui ao banco atualizar meus dados descobri que fizeram dívidas em meu nome. Utilizaram meu CPF para pegar empréstimos em financeiras e bancos e ainda fizeram um crediário numa loja tipo ‘Casas Bahia’. Ou seja, estou com o nome sujo na praça (SPC e SERASA) em conseqüências de coisas que eu não fiz. De acordo com a consulta a esses órgãos, tudo feito na cidade de São Paulo e adjacências. È muito estranho quando uma pessoa se passa por você e ao mesmo tempo é engraçado porque nunca ninguém se passa por você pra fazer uma boa ação, só pra estragar sua reputação, sujar seu nome e pintar e bordar com a sua cara. Claro que eu não sou maluco o suficiente a ponto de ir a São Paulo atrás dessas instituições, bater na porta de uma por uma e provar que quem está devendo a eles não sou eu e sim alguém que se passou por mim.

O que eu fiz, até por sugestão da gerente do banco, foi acionar a justiça. Falei com a advogada da família, entreguei todos os papeis a ela para dar entrada no juizado de pequenas causas alegando danos morais. É a primeira vez em que tomo a decisão de acionar a justiça para alguma coisa. Não que eu seja descrente da justiça. Sempre acho, no meu romantismo particular, que o bom ou o bem vence o mal, mas é sabido da lentidão e da morosidade dos andamentos dos processos e dos recursos que a parte acusada pode ter recorrendo da decisão tomada pelo juiz nas suas várias instâncias. Agora eu vou sentir tudo isso na pele. Com essa confusão toda meu crédito no banco foi cortado, não posso pegar empréstimo ou abrir um crediário – como se eu fizesse isso tudo.

Creio que esse ano corrente é o ano da limpeza. Tudo de estranho que aconteceu comigo no ano passado e que teve meu nome envolvido em algum grau e que porventura me prejudicou, estou tendo que desfazer. Nada que seja impossível, já que quem realmente me conhece sabe como eu sou e ao expor esses problemas pras pessoas que conheço distingo meus amigos que estão sempre dispostos a me ajudar da maneira que elas podem. Quanto a esse caso de São Paulo, como eu tenho como comprovar que o eu caloteiro não sou eu de verdade e sim alguém dizendo que era eu, espero que a justiça seja simplesmente justa e como tal me dê ganho de causa mesmo que demore um pouco. Não nutro nenhum tipo de sentimento negativo pelo sujeito que fez isso. Ele só está me dando um trabalho a mais que eu vejo como uma aprendizagem. Todo lado ruim da vida tem o seu valor. Vivendo e aprendendo. com todos os aparatos jurvinir de tudo quanto uer pr carteira afanada tr