segunda-feira, 25 de junho de 2007

DERRUBANDO TUDO

Dizem que você come mal, que é mal tratado, que o sentimento é o mesmo da mosca do coco do cavalo do bandido e que é a pior categoria que pisa no Projac. Tanto que as pessoas que fazem novela na Record falam que o tratamento, a comida e agora mais frequentemente o cachê é melhor. Mais trabalhar como figurante tem vantagens muito boas.

No fim do mês passado me chamaram pra fazer parte da gravação de algumas cenas da novela Paraíso Tropical no Casa Shopping que é mais um daqueles grandes complexos de loja lá da Barra da Tijuca. Apesar de estar cansado de passar na porta, nunca havia entrado lá, primeiro por ser muito longe de casa e segundo que é um local que não me atrai, não só pelos altos preços das mercadorias lá vendidas como pelo mote do complexo que são basicamente móveis e utensílios para o lar. Eu já não vou muito a shopping normalmente e quando vou pra passear é geralmente pra ir ao cinema e praça de alimentação. Loja só quando tenho algo em mente pra comprar, portanto não rodo em shopping.

Fomos marcados pra chegar lá às sete e meia. Sete e oito eu estava passando pela guarita e entrando lá. Após receber as indicações parei o carro em frente à porta da locação. Fui um dos primeiros a chegar. Não aproveitei o tempo que me restava pra conhecer o resto do shopping pelo fato de eu poder me perder lá por dentro e das lojas também estarem fechadas. Às nove e meia da manhã a gente já tava gravando. A situação era o encontro de alguns personagens se divertindo também nas pistas de boliche.

Isso mesmo. A gravação era no boliche. Um jogo que eu gosto, não jogava há tempos e que nunca joguei tanto quanto nesse dia. Foi mais ou menos das dez da manhã às quatro da tarde, com pausa pra almoço, de jogatina. Consequentemente nunca fiz tanto strike na minha vida. Não estou me vangloriando, não sou um exímio jogador de boliche, mas eu jogo bem. Tanto que não me expulsaram da pista, ou seja, mudavam os atores e a situação da cena na história da novela e tava eu lá na pista jogando minhas bolas. Na maior parte do tempo com o Matheus, uma criança de uns 10 anos que se esbaldava também e dava as cagadas dele de vez em quando. Deve ter sido a segunda vez na vida que ele joga boliche. O único problema é que ele não sabia segurar na bola direito e ao invés de jogar, arremessava e no fim de tudo acertava os pinos. Só começou a ficar chateado quando a fase dele passou a ser negativa, ou seja, deixou de acertar as garrafinhas pra bola só correr pelas canaletas. Eu nem prestava atenção na cena, não queria saber se estava aparecendo ou não, aliás, não é de hoje que me preocupo com isso, mas dessa vez era menos ainda.

A pausa para o almoço também foi compensadora. Geralmente quando há cenas externas ou se contrata um serviço de comida ou se vai a um restaurante. Nesse dia o almoço, que sempre é por conta da produção da novela, foi numa das mais badaladas e caras churrascarias da cidade e que fica bem perto do Casa Shopping, o Pampa Grill. Os que mais me deixa louco numa churrascaria não são nem os diversos tipos de carne servidos e sim a variedade disposta na mesa de frios, como saladas maravilhosas, comida japonesa e frios tipo champion e tomate seco que eu sou vidrado. As carnes em si nem as como do mesmo modo que antigamente.

Confesso que essa novela teve uns probleminhas de orçamento que ultrapassou a casa do milhão e como sempre a corda arrebenta do lado mais fraco o que passou de valor é retirado da figuração de tal maneira que os cachês caíram. Mas se continuarem a me chamar pra gravar nesses tipos de locação, não me importo com o valor do cachê e sim com a satisfação que me é garantida nessas gravações.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

PROBLEMA OU DILEMA

Ficar ou não ficar. Eis a questão. Estou envolvido em mais um dilema que a vida, com um grande empurrão da minha mãe, está me metendo. Não é de hoje que ela fala pra eu ir pra Europa e tentar a vida lá. Sempre relutei por isso até pelo fato de ter erguido minha bandeira e fincado minhas raízes aqui. Falo de famílias e amigos.

E tô tentando um espaço pra mim naquilo que eu gosto e quero fazer, mas quanto a isso eu prefiro ainda deixar em sigilo. Só que agora é como se eu tivesse um prazo pra conseguir me encaixar nesse espaço que talvez nem se abra tanto pra mim, apesar de ter chances. Pra muitos isso pode até parecer um defeito, mas não sou uma pessoa ambiciosa. O que faço, por achar mais prático é estabelecer metas e ir atrás delas. Não tenho um plano de vida elaborado tipo daqueles que se empregam, trabalham determinados anos e se aposentam. Não penso em fazer um concurso público, salvo se a área me interessar. Sou daquelas pessoas que querem sentir prazer no que fazem profissionalmente e não trabalhar apenas por um bom salário e garantia de benefícios no fim do mês. Acho que aí sim a vida é jogada fora. Passar anos confinado num ambiente inóspito só pela certeza de um bom holerite.

Uma das minhas metas é sim ir pra Europa e ficar lá por um mês fazendo mochilão. Na verdade é a segunda meta da minha vida atualmente. A primeira é quitar a dívida que fiz da compra do carro que aos poucos estou pagando. Vinte por cento pelo menos já foram. Os outros oitenta espero que cheguem como esses vintes, ou seja, amparados pela justiça. Uns processinhos que estão rolando por aí por terem sujado meu nome na praça. Toda a grana que eu ganhar está voltada para quitar essa dívida e ter finalmente um bem só meu. Um bem que custa pra ser mantido, tal qual um animal de estimação ou uma criança. Ou optei, por enquanto, pelo carro. Depois do carro, a Europa.

Só pra frisar, as metas somente serão postergadas, mas nunca anuladas, ou seja, se a justiça não me ajudar como eu acho que ela pode a quitação da dívida do carro só vai atrasar um pouquinho. Talvez só alguns aninhos a mais e com isso talvez o resto também. Tudo com certeza na base do talvez até por que isso pode mudar de uma hora pra outra, dependendo pra onde a vida vai me jogar. Bem, supondo que dê tudo certo com o carro, me resta a Europa, um laptop e novamente sair de casa. Essas são as minhas metas estabelecidas. Acontece que pode ser que as três se transformem um uma só. Ir pra Europa e ficar por lá é o mesmo que sair de casa. O laptop é uma meta flexível e provavelmente deve ser mais fácil se adquirido lá também.

Enfim, esse é o meu dilema. Tudo bem que só ano que vem que isso tudo pode se concretizar, mas o fato é que minha mãe está incutindo para que eu vá e fique. Provavelmente eu vá fazer isso caso o outro lado, aquele que eu ainda prefiro não revelar, não seja correspondido aqui. Também não sei se eu quero ficar. Vou me sentir um cristão na arena do Coliseu jogado aos leões sem ninguém por perto pra me amparar, a não ser as três pessoas que eu conheço que estão por lá que podem pelo menos me ajudar nos meus primeiros dias de luta. Mas e depois?

O que me conforta é que ainda tem pouco mais de um ano pra que tudo isso aconteça, ou não. Se as coisas acontecerem como eu estou pensando que aconteçam vai ser bom. Por outro lado, se elas não acontecerem do jeito que eu acho que é melhor pra mim, aí sim o cinto vai apertar e provavelmente o avião vai decolar. Ir eu estou querendo de qualquer modo. O grilo maior é ficar por lá. Quer dizer, ficar também é o de menos. O problema maior é como me sustentar por lá sem lenço e só com o passaporte como documento. E enquanto esse dia não vem a gente vai matutando de um lado e se esforçando do outro para que nada disso, ou tudo isso, aconteça.

domingo, 10 de junho de 2007

INVOLUÇÃO EVOLUIDA (OU VICE-VERSA)

As atividades extras curriculares oferecidas pras crianças hoje em dia evoluíram. Claro que o tradicional esporte pros meninos e balé pras meninas continuam, mas atualmente existe uma flexibilidade e uma gama de oferta que no meu tempo não dava nem pra se imaginar.

O balé tem suas variações entre jazz, sapateado, dança de salão e outras modalidades e o esporte não só se divide basicamente em futebol, natação e lutas (lê-se judô e caratê) como em vários outros que no eu tempo eram marginalizados ou até mesmo sitiados como a capoeira. E, fora as atividades físicas, tinha (e ainda tem) o tradicional curso de inglês que, apesar de continuar liderando, perdeu forças frente ao espanhol e às ofertas de outras línguas como o francês e o alemão.

Um esporte marginalizado que vem ganhando espaço é o skate. Tudo bem, o skate não é um esporte. È apenas uma tábua com rodinhas que é bastante diferente de outra tábua com rodinhas chamado de carrinho de rolimã. O esporte mesmo consiste em como guiar essa tábua com rodinhas e seus tipos de manobras. Tamanha é a procura por esse esporte considerado marginal antigamente e que hoje não passa de radical, que até um dos mais tradicionais colégios particulares de Niterói contratou uma equipe pra dar aula aos alunos interessados.

A turma não é grande. Chega a umas dez pessoas, mas também começaram há dois meses. E a idade é variada. Tem gente de cinco a doze, treze anos. E por mais que seja considerado um esporte predominantemente masculino tem meninas freqüentando a aula também, esforçada e que até comprou um skate que essa equipe montou especialmente pra ela. Um dos fundadores dessa equipe que de certo modo fez um acordo quebrando um ‘tradicionalismo educativo’ e implementando o esporte radical é meu primo Pedro. Um dia combinei com outro fundador e amigo dele, o Domingos, até então meu conhecido virtual, de assistir uma aula deles lá na escola. Toda terça e quinta, entre seis e sete da noite eles estão lá passando os conhecimentos deles para as crianças. No entanto, fiquei surpreso com outra coisa. Vi uma cena no mínimo estarrecedora. Outras atividades esportivas aconteciam paralelamente a aula de skate. Até aí tudo bem, mas quando a gente foi guardar o material da aula, as rampas, os cones e os skates sobressalentes, na frente desse almoxarifado improvisado havia uma sala de aula com umas quinze crianças dentro. Agora vem a involução.

Supondo a idade daquelas crianças e pela hora que ainda permaneciam na escola deduz-se que não há ninguém pra cuidar delas em seus respectivos lares. Que eu saiba a escola complementa a educação que os pais e responsáveis dão em casa, mas aquelas crianças confinadas naquela sala de aula e àquela hora pareciam não ter responsáveis dispostos a isso, ou por falta de tempo mesmo ou por falta de paciência para com as crianças.

O que estava sendo ensinado a elas nada mais era do que bons modos. Parecia um tipo de educação moral e cívica de modo que isso se tornou aparentemente uma matéria solta, extra classe, complementar de um currículo escolar sendo ensinada pela escola e não mais incutido nas crianças pelos pais, como foi com a minha geração e as anteriores e que deveria ser o certo. O que a professora lá falava nos dois minutos que eu fiquei na porta tratava-se de respeito ao amigo ou colega de turma, falava de discriminação e chegou a contar um caso de uma aluna que por ser gordinha não agüentou a encarnação dos companheiros e saiu da escola. Pode ser também que aquela turminha formada seja uma espécie de castigados por terem cometido algum tipo de desordem durante o decorrer do dia letivo ou de alguma temporada. Pelo tom da professora eu acredito que não. Infelizmente são os pesos e medidas do mundo atual.

domingo, 3 de junho de 2007

AS CURVAS DA ESTRADA

No mês passado o Papa esteve no Brasil. Justamente durante esse fato que calhou com a data em que houve uma junta familiar tive um batismo de fogo indiretamente abençoado pelo santo padre. Antes de se perguntar o que é uma junta familiar, aqui vai uma explicação. Assim como uma junta médica é a reunião de vários médicos em torno de um paciente, uma situação pra chegar a um acordo de qual o melhor a ser feito diante daquele quadro clínico, junta familiar é a comemoração de vários eventos que se aglutinam em um único dia. Gostaria de ressaltar que essa patente, se ainda não existe, é minha, de modo que apenas famílias do estilo da minha são capazes de bolar uma junta familiar.

No caso, o patriarca do núcleo paulista teve seus sessenta anos completos dois dias antes do meu aniversário, a matriarca também fez aniversário na segunda-feira posterior ao fim de semana da junta, o filho mais velho deles se tornou pai no dia primeiro de março e veio de Itabuna na Bahia para, digamos, apresentar oficialmente ao vivo o filho dele à família e pra encerrar o filho mais novo trabalhou durante dois meses na Alemanha e voltou na semana anterior ao da junta. Ou seja, quatro motivos de comemoração reunidos num dia só, que se transformou em dois por não ser realizada aqui no Rio e sim na terra do primeiro santo genuinamente brasileiro. Santo Antônio de Santana Galvão e justamente no mesmo dia em que o Papa deu uma volta na cidade já que ele estava na cidade vizinha de Aparecida e se preparando pra rezar a grande missa popular no santuário nacional na manhã de domingo.

Por essa junta requerer um deslocamento maior haveria uma logística pré estabelecida tudo em virtude da presença do Papa. E daí o meu batismo. Pela primeira vez na vida dirigi um carro numa estrada. E olha que não foi qualquer estrada não. A primeira estrada que peguei foi a Dutra, palco de acidentes fatídicos que tiraram a vida de, entre outros, o ex-presidente Juscelino. Não vamos entrar no mérito da conspiração. Acontece que estrada em geral já requer uma atenção redobrada. Na Dutra então essa atenção é retriplicada. Apesar da visita do Papa achei a estrada vazia. Não sei se por conta da estratégia de viagem que a gente tomou. Saímos de casa pouco antes das nove da manhã de sábado e chegamos lá ao meio dia com direito a uma parada de meia hora em Resende. Uma média boa de três horas de estrada. Na volta a mesma coisa. Saímos ao meio dia de lá e chegamos às três e meia da tarde também com parada de meia hora em Resende.

Não saímos de lá ao meio dia à toa. O Papa a essa hora estava rezando a missa em Aparecida e já que as atenções estavam todas voltadas para ele, aproveitamos para pegar a estrada de modo que o transito nela não tivesse intensificado com o término da missa. Tanto na ida quanto na volta fluxo sem problemas, retenções ou engarrafamentos. Até as barreiras da Polícia Rodoviária Federal estavam vazias, mas prontas para atuarem no aumento do trânsito.

A primeira estrada a gente nunca esquece. Eu até que me saí bem. Minha tia e minha prima que o digam. Creio que a benção do Papa caiu sobre mim enquanto estradeiro de primeira viagem. Passei ileso por esse batizado de fogo e estou com aquele gostinho de quero mais. Claro que pesam no orçamento de uma viagem os gastos com gasolina e pedágio. Mas com certeza na próxima vez que eu for pra lá em agosto no casamento do meu primo, o intermediário dos dois citados acima, já não serão pra mim tão virgens as curvas dessa estrada. Ainda tive uma vantagem da minha mãe não ter ido pra lá, por que eu correria o risco de não desvirginar e/ou desbravar a estrada e nem ela ficar no meu ouvido fazendo com que minha preocupação se dividisse entre a estrada e ela. Só espero que ela não fique tão tensa de carona da próxima vez quanto eu de piloto.