segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

NA PALMA DA MÃO 2008

Estou bastante desanimado com o carnaval em relação ao desfile das escolas de samba pra esse ano. Ultimamente com o escândalo da compra do campeonato por vocês sabem quem ficou público, notório, óbvio e ululante que o carnaval é comprado e leva o título quem paga mais caro, ou seja, já se sabe quem vai ganhar, mas só é revelado na quarta feira de cinzas. Esse ano doze escolas competem. Uma cai. Provavelmente a que subiu ano passado. A safra não está boa. Não há samba que se destaque. Tentarei ser sucinto nas minhas colocações.

Beija-Flor – Macapaba: Equinócio solar, viagens fantásticas ao meio do mundo. Não sei se só eu percebi, mas em termos de melodia e harmonia ta igual ao do ano passado. Mantiveram a fórmula. Só espero não manterem o título depois da deflagração do ano passado. Refrão: O meu valor me faz brilhar/ Iluminar o meu estado de amor/ Comunidade impõe respeito/ Bate no peito, eu sou Beija-Flor.

Grande Rio – Do verde de Coari vem meu gás, Sapucaí. Batendo na trave pela segunda vez consecutiva ta se tornando uma Tijuca. Refrão: Grande Rio vem cantar/ Minha escola é o gás na Sapucaí/ Se a lição é preservar/ Meu grito é verde, Amazonas, Coari.

Mangueira – 100 anos do frevo, é de perder o sapato, Recife mandou me chamar. Mais uma vez a escola invade o nordeste destacando o centenário desse ritmo. Perigo a vista. Samba bom. Um dos poucos desse ano. Refrão: Mandou me chamar eu vou/ Pra Recife festejar/ Alegria no olhar, eu vejo/ É frevo, é frevo, é frevo.

Tijuca – Vou juntando o que eu quiser, minha mania vale ouro, sou Tijuca, trago a arte colecionando meu tesouro. Samba que tem tudo pra crescer na avenida. Meio parecido com o do ano passado também, mas é melhor que o da Beija-Flor certamente. Refrão: dá um show Tijuca/ Outra nota dez pra colecionar/ E selar tua vitória/ A peça que falta pra te completar

Viradouro – É de arrepiar. Mais um tema abstrato de Paulo Barros (iugh). De arrepiar foram as mudanças da escola, mas vamos ver se o júri vai ficar arrepiado. Acho meio difícil apesar de ter gostado do samba. Refrão: Bate outra vez o meu coração/ Pois já vai terminando o verão/ As rosas não falam na Viradouro exalam/ O perfume de uma canção

Vila Isabel – Trabalhadores do Brasil. Tema interessante. Samba um pouco extenso com uma harmonia não tradicional. Faca de dois gumes. Não muito ruim. Deve surpreender na avenida. Veremos. Refrão: Hoje é dia do trabalhador/ Que conquistou o seu lugar/ E vai nossa Vila fazendo história/ Pra luta do povo eternizar

Salgueiro – O Rio de Janeiro continua sendo... Há tempos a escola não vinha com um samba tão simpático quanto esse. E agradável de escutar também. Bem distribuído tanto na letra, melodia e harmonia. Refrão: E deixa o sol bronzear/ No calor do meu Salgueiro/ Eu sou raiz desse chão/ E canto a minha emoção/ salve o Rio de Janeiro

Portela – Reconstruindo a natureza, recriando a vida: o sonho vira realidade. Tema recorrente. Todo ano alguma escola fala sobre a natureza ou algum elemento dela. Samba bom com cara de samba. Não é empolgante, mas tem tudo pra crescer na avenida. Tomara que a águia voe alto dessa vez. Merece. Refrão: Eu sou a água, sou a terra sou o ar/ Sou Portela/ Um sonho real, um grito de alerta/ A natureza que encanta a passarela.

Imperatriz Leopoldinense – João e Marias. Rosa, a poderosa, não tem agradado muito ultimamente e agora pegou como tema os duzentos anos da chegada da família real no Brasil. Será? É ver pra crer. Samba fraco, mas... Refrão: Vem brincar nesse trem, amor/ Que vai parar na estação do coração/ Faz brilhar no céu, Imperatriz/ As onze estrelas do teu pavilhão.

Porto da Pedra – 100 anos de imigração japonesa. Tem pagode no Maru. Sabe aquela piada que diz que tudo igual é caminhão cheio de japonês. Agora imagina a Sapucaí toda de olho puxado. Até que eu acho que a colônia japonesa merece a homenagem. O samba não é grandes coisas, mas acho que se mantém a altura da posição em que se encontra. Refrão: A verdade que embala o meu coração/ É a porto da pedra a minha paixão/ Aplausos que o show vai terminar/ Me perdoe se eu chorar

Mocidade – O quinto império: e Portugal ao Brasil, uma utopia na história. A escola quase cai ano passado. Já pensou que fiasco? Pareceu até a Portela alguns anos atrás. O samba é ruim. Ela tem capacidade de fazer grandes e memoráveis sambas. Não foi dessa vez. Espero que consiga uma colocação mais elevada que o décimo primeiro lugar. Refrão: Minha mocidade guerreira/ Traz a igualdade justiça e paz/ Hoje o quinto império é brasileiro amor/ Canta mocidade canta

São Clemente – O clemente João VI no Rio: A redescoberta do Brasil. O mesmo tema abordado pela Imperatriz sob outro aspecto. Um lado mais cênico, teatral e cômico que não deixa de ser uma característica da escola. Samba razoável. Escola iô-iô. Refrão: Cerimônia na corte...”fechou geral” / Maria, a louca”arraso” no visual/ A São Clemente com requinte e fidalguia/ Prepara a festa pra família real.

Minhas apostas: Mangueira, Tijuca, Viradouro, Salgueiro e Portela. Se a Vila entrar também me dou por satisfeito. Provavelmente a São Clemente voltará pro acesso. To liderando a campanha ‘jejum da Beija-Flor’ onde ela só passará a ganhar campeonatos novamente após o ano de 2020. Quem adere?

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

AS CURVAS DA ESTRADA

No mês passado o Papa esteve no Brasil. Justamente durante esse fato que calhou com a data em que houve uma junta familiar tive um batismo de fogo indiretamente abençoado pelo santo padre. Antes de se perguntar o que é uma junta familiar, aqui vai uma explicação. Assim como uma junta médica é a reunião de vários médicos em torno de um paciente, uma situação pra chegar a um acordo de qual o melhor a ser feito diante daquele quadro clínico, junta familiar é a comemoração de vários eventos que se aglutinam em um único dia. Gostaria de ressaltar que essa patente, se ainda não existe, é minha, de modo que apenas famílias do estilo da minha são capazes de bolar uma junta familiar.

No caso, o patriarca do núcleo paulista teve seus sessenta anos completos dois dias antes do meu aniversário, a matriarca também fez aniversário na segunda-feira posterior ao fim de semana da junta, o filho mais velho deles se tornou pai no dia primeiro de março e veio de Itabuna na Bahia para, digamos, apresentar oficialmente ao vivo o filho dele à família e pra encerrar o filho mais novo trabalhou durante dois meses na Alemanha e voltou na semana anterior ao da junta. Ou seja, quatro motivos de comemoração reunidos num dia só, que se transformou em dois por não ser realizada aqui no Rio e sim na terra do primeiro santo genuinamente brasileiro. Santo Antônio de Santana Galvão e justamente no mesmo dia em que o Papa deu uma volta na cidade já que ele estava na cidade vizinha de Aparecida e se preparando pra rezar a grande missa popular no santuário nacional na manhã de domingo.

Por essa junta requerer um deslocamento maior haveria uma logística pré estabelecida tudo em virtude da presença do Papa. E daí o meu batismo. Pela primeira vez na vida dirigi um carro numa estrada. E olha que não foi qualquer estrada não. A primeira estrada que peguei foi a Dutra, palco de acidentes fatídicos que tiraram a vida de, entre outros, o ex-presidente Juscelino. Não vamos entrar no mérito da conspiração. Acontece que estrada em geral já requer uma atenção redobrada. Na Dutra então essa atenção é retriplicada. Apesar da visita do Papa achei a estrada vazia. Não sei se por conta da estratégia de viagem que a gente tomou. Saímos de casa pouco antes das nove da manhã de sábado e chegamos lá ao meio dia com direito a uma parada de meia hora em Resende. Uma média boa de três horas de estrada. Na volta a mesma coisa. Saímos ao meio dia de lá e chegamos às três e meia da tarde também com parada de meia hora em Resende.

Não saímos de lá ao meio dia à toa. O Papa a essa hora estava rezando a missa em Aparecida e já que as atenções estavam todas voltadas para ele, aproveitamos para pegar a estrada de modo que o transito nela não tivesse intensificado com o término da missa. Tanto na ida quanto na volta fluxo sem problemas, retenções ou engarrafamentos. Até as barreiras da Polícia Rodoviária Federal estavam vazias, mas prontas para atuarem no aumento do trânsito.

A primeira estrada a gente nunca esquece. Eu até que me saí bem. Minha tia e minha prima que o digam. Creio que a benção do Papa caiu sobre mim enquanto estradeiro de primeira viagem. Passei ileso por esse batizado de fogo e estou com aquele gostinho de quero mais. Claro que pesam no orçamento de uma viagem os gastos com gasolina e pedágio. Mas com certeza na próxima vez que eu for pra lá em agosto no casamento do meu primo, o intermediário dos dois citados acima, já não serão pra mim tão virgens as curvas dessa estrada. Ainda tive uma vantagem da minha mãe não ter ido pra lá, por que eu correria o risco de não desvirginar e/ou desbravar a estrada e nem ela ficar no meu ouvido fazendo com que minha preocupação se dividisse entre a estrada e ela. Só espero que ela não fique tão tensa de carona da próxima vez quanto eu de piloto.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

JOGO CONTRA

Não me lembro bem se foi no início do ano passado ou no fim do retrasado quando a Ediouro lançou o ‘Almanaque Anos 80’. Estava no auge da festa ploc, que em São Paulo tem o nome de trash. A festa ainda rola em vários lugares, não com a mesma intensidade da época, mas certamente pelo fato de ter cativado a geração anos 90. Eu li esse almanaque de cabo a rabo e fiquei feliz por terem conseguido condensar a minha infância num único volume de um livro. O sucesso foi tão grande que chegaram a lançar dois discos com catorze musicas cada, um nacional e outro internacional de músicas que foram sucessos na década referida.

Esse ano, eu estava em São Paulo quando passando na livraria de um shopping me deparei com o ‘Almanaque Anos 70’ da mesma editora. Confesso que esse eu ainda não li e não sei se terei o mesmo entusiasmo ao lê-lo de modo que conta a fase de outra geração apesar de eu viver os resquícios dela. Na última quarta-feira, a autora desse, a jornalista Ana Maria Bahiana, falou em entrevista ao programa ‘Sem Censura’ da TVE que a década de setenta teve um marco divisório nítido e que seriam duas décadas em uma. Eu deduzo que ela chegou a essa conclusão porque aos meus olhos essa talvez tenha sido a década mais acelerada do século vinte. Acelerada nos termos principalmente da tecnologia, ou seja, uma rápida evolução de tudo o que se consumia. Quem viveu esse tempo é mais tarimbado pra dizer o real motivo desse divisor de águas.

Que bom que se tem essa maravilhosa idéia de registrar em livros, melhor dizendo, em almanaques a moda, o costume, os hábitos dessas décadas. E, pelo que se consta, não vão parar por aí. O registro da década de sessenta está por vir. Eu fico imaginando como se fazer um livro desse, onde uma imensa pesquisa é feita, se só se utilizasse os centros de documentação e arquivo existentes na cidade. Provavelmente iria sim ser lançado, mas não com um intervalo de tempo tão curto quanto esse. A elaboração, apesar de moldes pré-estabelecidos inclusive no conceito de diagramação e edição dos livros, custaria a sair, creio eu, caso nós não tivéssemos, por exemplo, uma internet pra trocar figurinhas.

O tempo joga a favor, nesses casos, mas contra no dia-a-dia. O dia tinha vinte e quatro horas nas décadas de setenta e oitenta como tem hoje, mas não parece. A cada dia que se acelera na evolução a fim de se economizar tempo, principalmente, a impressão que se tem é de que o tempo também acelera. A minha geração teve, não sei dizer se o privilégio, de crescer acompanhando essas mudanças. Quando minha avó me deu uma vitrolinha no meu aniversário de quatro anos de idade – que, aliás, mantenho pela afetividade, apesar de não funcionar perfeitamente tanto pela idade quanto pelo tipo de mídia que não existe mais - mal sabia ela que o vinil dez anos depois estava condenado a sumir das lojas. Se fosse hoje, eu ganharia um som com cd player, que nada mais é que um toca disco moderno, ou seja, a vitrola da nova geração. E já profetizam o fim do cd. Agora MP3 e I-POD’s são a coqueluche do mercado no patamar de aparelhos de som portáteis. (Ah! A minha vitrolinha também é portátil. Mas além dela tinha que carregar penca de vinis.)

Além dessa tecnologia toda, a gente fazia pesquisa em livros, enciclopédias – a boa e velha Barsa – que hoje são todos os volumes condensados em um único cd-rom. O computador é indispensável e quem não sabe utilizá-lo em grande parte de suas ferramentas é praticamente um analfabeto. Hoje em dia é tudo no sistema. Os caixas de banco, pra desespero dos velhinhos aposentados que faziam a fila do banco seu ponto de encontro e esperavam ansiosamente para serem atendidos pelos funcionários, se transformaram em máquinas de auto-atendimento. Imagino Graham Bell e um celular.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

SEJA BEM VINDO

Olá, irmão. Seja bem vindo. Não lhe vou perguntar como estás, pois eu sei que aqui estás bem, aliás, aqui todos estão bem. Deves estar me reconhecendo de algum lugar e estás correto em tua imaginação. Talvez minhas barbas estejam mais longas e esbranquiçadas do que de costume. É o tempo que interage comigo deste modo, mas, provavelmente, as chaves que carrego dependuradas na minha cintura confirmam tua suspeita. Sou eu sim. Pedro.

Como és recente aqui, deves estar um pouco desnorteado, mas os querubins que me auxiliam com os novatos te escolheram para trazer à minha presença pela grandeza de pessoa que foste lá na terra e por conta disso eu, pessoalmente, lhe mostrarei o mecanismo de funcionamento dessa área celestial, que, como se percebe, não é pequena. Não te anseie em ver tua família. Ela está pronta aqui em uma pequena área preparando uma grande recepção para ti.

Pela tua expressão, notaste muita coisa diferente. È como um dito que alguns humanos costumam falar querendo passar a idéia de que há diferenças entre o céu e a terra do que supõe a vã filosofia das pessoas de corpo carnal. Não irei aqui entrar no mérito do juízo final. Essa parte não cabe a mim, no entanto, pelo visto, já que estás aqui comigo, passaste por ele com louvor.

Veja. Olhe em volta de nós. Aqui só há pessoas bonitas, alegres e iluminadas de modo que é essa luminosidade que as deixa com esse aspecto belo. Já se olhou no espelho? Não precisa. Aqui nem espelho tem. Eu estava acompanhando tua caminhada dali até aqui e eu reparei que a sua luz é um pouco mais ofuscante que o normal das pessoas que cá chegam. Isso é um bom sinal. Sinal de que tu foste cercado de pessoas de bem, do bem e bonitas. Aqui todas as almas, e eu sei que a tua também, pois já praticava isso antes de vir pra cá, estão dispostas a ajudar aos outros.

Deves estar preocupado com sua família e o legado que deixaste no plano material. Não te preocupes, pois assim como é difícil para eles se acostumarem com a tua falta, tu também sentirás a ausência deles agora no início, porém o tempo é o melhor remédio para que se acostume com não presença deles. Mas fique tranqüilo, todos vocês se encontrarão aqui, nesse mesmo local, em algum dia. Poderia ter ficado mais tempo entre eles, no entanto ninguém pode ir de encontro ao designo de Deus.

Seu merecimento é grande aqui na área celestial. Serás de grande utilidade aqui no céu tal qual foste lá na Terra. Por ter chegado há poucas horas – não se assuste, o que chamamos de dias lá na Terra aqui podemos considerar horas de modo que nosso espaço-tempo é uma eternidade – começará seu desempenho como aprendiz de anjo da guarda. Conheces esse papel tão bem, porém de outra forma e guardando apenas três pessoas que foram sua esposa e filhos. Pois bem, agora, aqui de cima, dessa posição em que se encontra, além deles terá que guardar seus irmãos, cunhados, sobrinhos, enfim toda sua família além dos amigos que você quiser, e, pra ser sincero, pelo que eu vi não seriam poucos o que gostariam de ter esse privilégio.

Não te apresses quanto ao início dessa tua tarefa. Terás um período para conhecer todas as instalações aqui e levarás um bom tempo para falar e conhecer pessoalmente todos os anjos, arcanjos, santos e papas. Mas agora, nesse exato momento, esses mesmos dois querubins que o acompanharam até este portão irão te levar ao local onde teus pais e todas as pessoas que conviveram contigo no plano terreno esperam pela tua chegada para a recepção a qual me referi anteriormente. Vá lá e tenha uma boa estada aqui conosco.

Esse texto é uma criação pessoal e se trata da minha singela homenagem o meu amado tio Tarcísio que nos deixou na semana passada. v31/10/1955 + 08/09/2005