sexta-feira, 27 de junho de 2008

AS PESSOAS DA SALA DE JANTAR

- Faz um favor pra mim.
- Diga.
- Me passa o sal.
- Por quê? Minha salada não tá temperada?
- Tá deliciosa. Esse molho de aspargos amanteigados com shoyo e azeite de ervas finas está dos deuses.
- Então por que o sal?
- Pra botar no feijão.
- O feijão ta sem sal?
- Pro meu gosto está.
- Me diz uma coisa você agora. Por acaso você sabe cozinhar um feijão?
- Claro. É só botar na panela de pressão e esperar apitar por um tempo pra depois apagar o fogo.
- Pensa que é fácil assim?
- E não é?
- Obvio que não. Pra fazer feijão...
- Pera aí. Não começa agora a querer me ensinar receitas de feijão caseiro da dona Maroca enquanto o que está no meu prato esfria.
- Ué? Você não acabou de dizer que sabia preparar, cozinhar, fazer um caudaloso e suculento feijão e que pra isso era só botar tudo na panela de pressão? Então, eu só estou te corrigindo.
- Agora não é hora de corrigir a minha receita de feijão e sim de corrigir o feijão já existente. Você pode me passar o sal por gentileza?
- Toma, mas da próxima vez você é quem vai preparar o feijão.
- Com o maior prazer.
- E desde quando você tem prazer em cozinhar feijão?
- Desde que eu possa colocar sal nele depois que ele já esteja pronto e sai da panela pro meu prato.
- Você ta insinuando que eu não tenho prazer em fazer a comida que você come toda santa noite que você chega do trabalho?
- Em fazer você pode até ter, agora, em comer, pelo visto, não está tendo. Eu tive um dia cansativo lá no escritório e gostaria de comer a minha comida enquanto ainda houver energia, fonte de calor nesse prato, mas com você falando desse jeito não terei sossego pra completar a minha refeição.
- Você está sendo cruel, ingrato e injusto comigo. Me dá essa sal aqui.
- Não estou não. Muito pelo contrario. Sabe que essa hora é sagrada pra mim. Crueldade é eu ter que ficar discutindo contigo essa hora. A única coisa que eu quero fazer agora é comer.
- Desprezando meu feijão.
- Deixa de drama. Não estou desprezando comida nenhuma. Tô até comendo seu feijão. Só que eu to achando sem sal. Dá licença pra eu ter uma opinião sobre especificamente esse feijão.
- Pois não deveria depois do que fez.
- Mas, querida, o que foi que eu fiz? Olha, vamos acabar com isso. Por hoje não como mais o seu feijão, ta? Só vou ficar no arroz, no bife e nessa salada com esse molho supimpa. A começar por esse arroz soltinho e branquinho.
-Ta bom...
- Hum. Querida, por gentileza, me passa o sal novamente.



PROVA DE FOGO

Acabei de fazer uma prova. Concurso público. Nunca liguei pra isso. E por enquanto ainda não ligo. Sou daqueles que levanta a bandeira da felicidade. Prefiro ganhar pouco, mas gostar do que estou fazendo do que trabalhar num ofício que eu não goste só por conta de um salário bom e benefícios. Creio que os benefícios devem ser mais pra saúde, pro bem estar que pro bolso. Mas hoje foi diferente. Caso eu seja aprovado nesse concurso os benefícios são para ambas as partes. Bolso e bem estar. Esse é o segundo que eu faço desde quando me formei. O outro foi pra prefeitura do Rio, pra Multirio que é uma produtora de multimídia onde se produz conteúdo basicamente para alunos e professores da prefeitura. Ou seja, trabalharia, de certa forma, em produção de programas voltados para a educação. O que eu fiz hoje foi pra prefeitura de Niterói, pra fundação de Arte de Niterói, Secretaria de Cultura, cargo de assistente administrativo que não é lá minha praia, mas estando lá dentro nado até ela e não morro. Caso eu passe nesse concurso trabalharei na parte de produção de eventos da cidade.

Confesso que não estudei com afinco e veemência, mas dei uma olhada, uma lida na matéria e até armei um grupo de estudo. Nada de ficar pisico, voltado somente pra essa prova e esquecer do resto. Muito pelo contrário. Essa prova não é a minha prioridade. Estou focado na implantação do programa no canal a cabo e correndo atrás disso. Mas, dando a sorte, que é com quem mais conto, de ser aprovado dará pra conciliar os dois. Por ser produção eu já tenho um know how. O que ainda vai pegar são os eventos, coisa que nunca produzi, mas, como digo, vivendo e aprendendo. Também não vou contar com o ovo dentro da galinha. Vamos esperar sair o resultado no fim do mês pra ver se a galinha botou os ovos de ouro.

A prova consistiu em questões de português, matemática e conhecimentos. Não vou nem dizer que em matemática eu fui muito bem. Sempre fui péssimo nessa matéria e pra essa prova tive que revisitar coisas de segundo grau, as quais não vejo desde o vestibular. Foram três horas de prova, cinqüenta questões e a mufa queimando nas questões de matemática que eu levei mais tempo pra resolver. Agora não adianta mais nada. A prova foi entregue e seja o que Deus quiser e o que a banca resolver o que está certo e o que não está.

Não me imagino ficar anos fazendo a mesma coisa. Acho que sou uma metamorfose ambulante e acho também que tudo tem um ciclo. Fechei um ainda há pouco e ao mesmo tempo abri outro que deve ser fechado nem que fique apenas na primeira temporada. Claro que nossa idéia não é ficar na primeira temporada. Queremos fazer quantas agüentarmos, mas isso ainda depende de uma série de fatores. Não sei também se agüentaria ficar, caso empossado, anos fazendo a mesma coisa na prefeitura por mais que seja a área que eu goste. Como disse tudo tem um ciclo e tenho notado que os meus não passam de quatro anos.

São cinqüenta por cento de chances. Minha vida mudaria um pouco mais caso eu passe no concurso. Aí teria que levar dois trabalhos nas costas de modo que não pretendo interromper o que eu havia começado a fazer antes mesmo de sair o edital desse concurso e que tenho me dedicado com mais afinco desde o início desse mês, além de levar em paralelo o trabalho a cargo da prefeitura.

Há um período, por ser ano de reeleição, para que o resultado final do concurso seja homologado e esse prazo termina exatamente no fim do mês. Uma vez homologado no prazo correto as chamadas podem começar a ocorrer em qualquer dia. Sinal de que um suspense leva ao outro, ou seja, o primeiro é em qual percentagem eu caí, se passei ou não. Em caso afirmativo o segundo será quando irão me chamar pra tomar posse.



RECEPTIVO

É impressionante que qualquer acontecimento que surge na minha família é motivo de festa, de comemoração e consequentemente, dependendo da proporção que se dá, vira um evento. Vide o nascimento de Quiquinho cujo quarto do hospital se transformou num típico ambiente de mercado popular onde um entra e sai de pessoas se fez valer só pra ver uma mãe se recuperando de um parto cesariano e uma criança com poucas horas de vida. Aliás, até hoje eu digo que se todos nós que babamos, e eu faço questão de me incluir nesse rol, literalmente babássemos essa criança já deveria ter um escafandro para protegê-lo de tanto líquido.

A última festa, já que não tomou proporção de evento, foi a recepção da tia Roseléa no aeroporto. Se fosse uma família normal, apenas uma ou no máximo duas pessoas fariam isso, mas como de normal temos pouca coisa, fomos em cinco, contando com uma criança de dois anos, e dois carros. Os carros eram até recomendáveis já que o compartimento de bagagem de um não iria caber as duas malas, uma mochila e a caixa de compras do free shop. Essa caixa e a mala menor mais a cadeira de praia foi o que nos restou pra trazer. A cadeira veio pra nós pra ceder mais espaço à mala grande, pois se tudo fosse em um único carro só caberiam realmente as malas e não sobraria espaço para as pessoas.

A chegada do vôo estava prevista para as quinze pras quatro da tarde que foi mais ou menos a hora em que chegamos ao novo terminal do aeroporto internacional Tom Jobim. No painel estava escrito a previsão de chegada, a hora em que realmente ia chegar e o status do vôo onde se lia ‘chegando’. Já prontos e com uma base de idéia de tempo entre a chegada do avião e a saída pelo portão da alfândega agora teríamos que distrair uma criança de dois anos.

E o que se faz pra, digamos, enrolar uma criança de dois anos no aeroporto? Levar pra ver os aviões pousando e decolando. Se bem que no ponto em que ficamos a decolagem não era visível, mas o taxiamento e o pouso de algumas aeronaves creio que anularam, na pequena cabeçinha dele, a expectativa da decolagem. Por sorte avistamos o avião em que minha tia viajava no fim da longa jornada de horas de vôo dele, ou seja, pousando.

Diego, a criança de dois anos e casualmente neto dela, ficou repetindo que viu a vovó chegar no avião durante o resto do dia. Aliás, Diego foi um caso a parte. Ainda ficamos uns minutos a mais naquela área, voltamos para a porta de saída da alfândega, mas não durou muito para que ele pedisse pra ver mais aviões. O levei pra um outro patamar pra ver mais aviões e algumas pessoas saindo dele. Diego perguntando pela vovó. Mais um artifício pra diminuir a ansiedade dele. O sorvete. Voltamos pra porta de saída da alfândega e lá pegamos o sorvete pra ele. No entanto o sorvete acabou e nada da minha tia sair.

Ele havia feito um cartaz pra ficar segurando, como aquelas pessoas que esperam passageiros, dizendo te amo vovó e com o desenho das mãozinhas dele. Essa espera foi impaciente até pra que é rata de aeroporto, como minha mãe. Pouco mais de uma hora entre o pouso e a aparição dela. Mas quando ela apareceu empurrando o carrinho de malas, com um chapéu cinza e cara de turista, peguei logo o Diego no colo, o fiz empunhar o cartaz e fiquei esperando minha tia pegá-lo de mim. Ela, no calor da emoção, largou o carrinho das bagagens pra trás e veio atrás do neto que não via há vários dias. Após o resgate do carrinho quem não quis desgrudar da avó foi Diego, era pior que chiclete. Não deixava nem ela contar como tinha sido a viagem. Ele queria toda a atenção dela pra ele. Pedia a ela pra brincar com ele, puxava pra um canto e tentava a todo custo, de todo modo fazer a festa particular com a avó dele. Esse Dieguito....



QUE DIA É HOJE?

Assim não pode. Assim não dá. Já olhou pra folhinha hoje? Já estamos praticamente na metade do ano. Metade do ano. Gente, me lembro como se fosse ontem eu lá em Copacabana assistindo aos fogos da passagem de ano e agora já sinto o cheiro, se bobear já até comi um curau, uma canjica ou outra comida típica de festa junina que rolam por aí se é que ainda rola festa junina típica já que as tradições foram completamente modificadas. Mas não vamos discutir isso aqui.

O que me aflige é essa velocidade. Pra um balzaquiano como eu que ainda pegou resquícios da idade média tecnológica, mas está bem adaptado aos tempos modernos, é, no mínimo, curioso pensar que cerca de vinte anos atrás a velocidade das coisas era bem mais lenta. Por mais que tenhamos tudo para encurtar o tempo, principalmente no que tange a comunicação, parece que inclusive o tempo decidiu acompanhar a comunicação e encurtar junto. De modo que vinte e quatro horas continuam sendo vinte e quatro horas de vinte anos atrás.

O que eu quero saber é onde está a diferença. É o que encurta as vinte e quatro horas de hoje em dia. Tem que ter uma explicação lógica e/ou até científica pra essa pressa temporal toda. Por que é que com tanta tecnologia pra nos ajudar a ganhar tempo não se tem tempo pra mais nada. Tem certas coisas que não sei dizer, já cantava Lulu Santos. Todas as tarefas que se faziam anos atrás também se fazem hoje. Mercado e médico, por exemplo, são lugares que as pessoas ainda vão. Aonde elas iam vinte anos atrás que hoje não vão mais e até que ponto o avanço da tecnologia como mails e celulares podem atrapalhar no sentido de reduzir esse tempo que é um artigo tão escasso atualmente, de modo que foram invenções feitas pra nos ajudar a ganhar tempo. Será que essa simplificação chega a ser tão complicada a ponto de se perder o precioso tempo? Tempo, tempo, tempo, tempo. No balanço das horas tudo pode mudar.

Bem, se facilita ou atrapalha é uma discussão que requer estudos e provas, mas que essa tecnologia tem um que de viciante, se não for bem trabalhada, isso tem. Eu, por exemplo, que me considero um sujeito, nesse ponto, bem equilibrado fico pra morrer quando por um motivo qualquer não consigo acessar meus mails. Aliás, no tempo em que não havia banda larga e a internet era discada, criei um hábito, como a grande maioria dos meus amigos, de somente acessar a internet após as doze badaladas noturnas e mesmo depois da implementação da banda larga esse hábito continuou.

Mas, voltando ao tempo, e não no tempo, estamos na metade do ano e agora falta pouco pro ano acabar. Já até prevejo eu em dezembro já fazendo o balanço do ano. Dezembro ta logo ali. Só espero ter andado com meus planos até lá. O que por enquanto está acontecendo. Talvez não na velocidade desejada. Olha eu aí reclamando do tempo, ou melhor, da falta de tempo, e querendo que tudo aconteça bem rápido com os meus singelos planos. Isso tudo pelo fato da gente ainda estar na metade do ano.

Parece que foi ontem que meu sobrinho nasceu e pra se ter uma idéia em dois dias ele faz dois meses. Ainda falta um mês pra que eu pegue ele no colo. Até lá só pela ‘nave espacial’ que é o travesseiro onde ele fica deitado de vez em quando. É que eu não pego por livre e espontânea vontade crianças com menos de três meses de idade. Alguém a colocando e retirando do meu colo tudo bem, mas eu não tomo essa iniciativa. Sei lá. Já não tenho jeito com bebês e até os três meses acho que eles não têm firmeza e eu fico com medo de pegar no colo.

Daqui a pouco tempo, pelo visto, meu sobrinho estará se esbaldando na festinha de um ano e eu vou pegá-lo e ficar brincando com ele. Não vai demorar muito não. Se seis meses passarão num piscar de olhos, dez voarão. E quando a gente menos perceber vem o tempo com sua força implacável.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

ALMANAQUE DA VIDA

Creio que tudo começou bem despretensiosamente, com um grupo de amigos reunindo-se para animar uma festinha com grandes sucessos da infância e adolescência. Um bom tempo atrás, quando eu ainda freqüentava a noite de Niterói, havia uma boate chamada Acrópole, onde hoje está situada a Devassa, que o DJ sempre resgatava essas pérolas por volta das três da manhã.

Com o passar do tempo as pérolas resgatadas se transformaram em festas temáticas e com o nome de um chiclete bem famoso nos anos 80, Ploc. Abrindo um parêntese pro chiclete, ainda havia o Ping-Pong e o Babalu, esse último sempre inovando e com um diferencial nos sabores, frutas diversas, no formato, redondo e abaloado e no recheio líquido que inundava o paladar logo na primeira mascada.

No início desse ano essa festa comemorou quatro anos de sucesso. Não só as músicas, mas os artistas daquela época como Paquitas, Rosana, alguns integrantes do Trem da Alegria entre outros se apresentam nesse tipo de festa quando essa se dá em espaço para tal. Não sei se tem esse tempo todo quando a Ediouro lançou um livro que virou uma febre. Almanaque Anos 80. Nesse livro se concentra todos os momentos da minha infância e pré-adolescencia. Tudo que passei e vivi em termos de consumo de várias instancias. Cinema, TV, comportamento... Os anos 80 podem não ter tido o mesmo glamour dos anos 50, mas foram os meus anos dourados. E me sinto extremamente abençoado e gratificado com a minha infância, pois nenhuma outra década posterior àquela ofereceu tanta coisa de boa qualidade para crianças.

É engraçado, mas todos dizem a mesma coisa, que infância boa foi a que eles viveram. Do mesmo jeito que provavelmente essa geração de criança daqui a vinte anos deve repetir esse mesmo discurso. Tudo começou com o Almanaque dos anos 80. Lançaram até dois discos com catorze sucessos da época, um nacional e um internacional. Depois isso foi se proliferando com o Almanaque dos anos 70, o Almanaque do Fusca e agora lançam o Almanaque dos anos 90 e, por incrível que pareça, por menos famosa que seja, já existe uma festa temática também dos anos 90. É divertido rever décadas passadas.

Certas passagens me remetem a um local ou a um cheiro específico e enquanto lia o almanaque isso se dava constantemente. Se eu bem me lembro essa leitura se deu há três anos. Levava para ler no trajeto, dentro do ônibus, enquanto ia e voltava para o projac bem lá no primórdio. Não quero me passar por nostálgico, mas os anos 80 foram muito bons. Aproveitei muito bem e não tenho do que reclamar. Passou e não volta mais. Aliás, faz pouco tempo, apenas alguns anos, que aprendi a conviver com o passado e não a viver dele. Uma coisa é voltar no tempo, outra é parar no tempo. É importante sim de vez em quando recordar, pois como diz o próprio ditado recordar é viver.

Atualmente não tratam as crianças com dignidade, respeitando a criatividade e a inteligência delas as querendo transformar em meros consumidores incutindo nelas o capitalismo selvagem. Quando eu era criança também consumia produtos. Todas as crianças consomem, mas na minha época eram produtos destinados especificamente para crianças. Os pais podiam comprar de olhos fechados sem duvidar da qualidade do produto. Talvez esse seja um dos fatores para que festas tipo Ploc Anos 80 estejam dando tão certo há algum tempo.

No caso das festas temáticas os produtos, as músicas, são de boa qualidade dada as proporções pra época e apenas estavam todas guardadas, empoeiradas. Creio que tudo começou bem despretensiosamente com um grupo de amigos desencavando e mostrando novamente isso tudo.