terça-feira, 27 de janeiro de 2009

AVENTURAS LONDRINAS (4)

Dizem que Nova Iorque é a capital do mundo. Acho que dizem também que Londres é a capital da Europa, não sei se essa informação procede, mas que Londres abriga gente de todo canto da Europa e de alguns países do mundo isso é verdade. Um recorte dessa diversidade eu vejo no meu curso de inglês. Talvez por isso Londres também sedie uma variedade de museus e exposições que valem a pena serem vistos. Grande parte com entrada gratuita.

O primeiro que fui foi o British Museum, onde atualmente a exposição sobre a Babilônia está em cartaz. Pelas fotos que eu tirei e que estão expostas em um álbum do meu Orkut, justamente pra grande parte dos meus amigos e família terem acesso ao que eu estou vendo e fazendo por aqui, percebe-se que nesse museu também a aparência moderna e antiga convivem pacificamente. Egito e seus desdobramentos estão muito bem representados nessa exposição. Sarcófagos, múmias, enfim, acho que da Babilônia mesmo tem pouca coisa. Eu mesmo procurei os jardins suspensos e nem réplica lembro de ter visto. Mas pros bons conhecedores de história do mundo isso é um prato cheio.

O segundo que visitei foi justamente no último dia de aula do curso, quando eu e mais duas amigas, uma colombiana e uma brasileira resolvemos dar um passeio até lá. Esse museu, o National Gallery só expõe quadros, mas de todos os grandes pintores clássicos, acho que de alguns modernos também. Não ficamos vendo tudo, até por que chegamos lá bem tarde. Esse tipo de lugar tem que chegar perto da hora que abre e não da hora em que fecha. É tanta coisa pra ver que eu passei batido pelos quadros e só parei pra ler as legendas nos mais importantes como o Leonardo da Vinci. Todos eles magnificamente conservados a centenas de anos. Antigamente as tintas, os quadros eram mais resistentes. Não sei se hoje, com a revolução digital um quadro em exposição iria durar a mesma quantidade de anos, mas também, se não durar é só reproduzir novamente sem levar o mesmo tempo pra repintar tudo.

Tempo é uma coisa com o qual eu ainda não me adaptei aqui, tanto em se tratando de clima quanto sem se tratando de visitação de local público. Na galeria de arte moderna Tate Modern, no caminho da Tower Bridge aconteceu a mesma coisa. Cheguei lá vinte minutos antes de fechar. Ainda deu pra ver a grande aranha que fica próximo da entrada, algumas obras consideradas modernas e umas instalações conceituais. Na Tate Modern algumas exposições são pagas e outras não.

O mesmo não acontece com o Natural History Museum, o único desses que por enquanto foi programado pra eu passar o dia e foi justamente o que aconteceu. Cheguei lá por volta das onze da manhã da antevéspera de Natal e só saí às quatro e meia da tarde. Assim mesmo algumas alas não foram visitadas com calma por mim. A primeira eu levei um bom tempo, que foi a ala dos dinossauros. Depois vi outras, mas não com a mesma curiosidade da era jurássica. E quanto mais tarde ia ficando, mais rápida era a visitação das galerias. Até que no fim escolhi dois pontos que não podia sair de lá sem serem visitados por mim. Um era a exposição da grande sequóia, uma arvore gigantesca cortada transversalmente cujo diâmetro deve ter uns cinco metros e o outro é a simulação de um terremoto que também é bastante impressionante.
A última foto desse dia foi a de uma pedra ou pedaço da lua que fica exposto numa galeria cheia de pedras diferentes, não sei se preciosas, mas com alguma importância pra humanidade. Todas elas são alocadas dentro de pirâmides de vidro. Como botei na legenda dessa foto, se eu não posso ir até a lua, ela vem até mim.

Mas o que seria mais importante, ter uma pedra extraída da lua ou uma pedra lapidada de diamante? A resposta pode ser variada. E se existe uma coisa que não falta na terra da rainha é justamente a variedade.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

AVENTURAS LONDRINAS (3)

Meu primeiro dia no curso de inglês não foi exatamente no meu primeiro dia de aula. Cheguei aqui numa quarta e na sexta foi a primeira vez em que me aventurei em sair sozinho pela cidade, já que na quinta fiquei preso em casa por ainda não saber a técnica de abrir o portão automático de acesso a rua.

Enfim, fui aprender o caminho da escola, quanto tempo levaria pra chegar até lá, quais as linhas do metrô que eu teria que pegar, enfim, essas coisas. Cheguei lá e me apresentei. Perguntaram se eu queria fazer logo a avaliação pra ver em que nível eu estaria e eu topei. Foi uma prova escrita que consistia em três partes e depois o bate papo com a diretora. Ela me disse que iria me botar no nível seis, ou seja, o intermediário, dos nove que existem. A minha preocupação era se logo na primeira semana eles poderiam encrencar comigo já que faltaria dois dias de aula por estar fazendo o bico na feira. Mas depois desencanei disso.

Ao terminar tudo, só não pude efetivar a minha matricula lá pelo fato de eu ter esquecido o passaporte em casa e deveria fazer isso na segunda antes de entrar em sala de aula. Nesse meio tempo, quando eu ainda estava na secretaria, chegou um brasileiro pra assistir a aula dele. Ainda faltava um tempo pra ele entrarem sala de aula e a gente começou a bater papo e nos tornamos amigos. Toda e qualquer amizade aqui é bem vinda, já que se tem de construir uma rede que pro futuro pode servir pra uma ajuda qualquer, tipo indicação pra um emprego, uma vaga de uma acomodação ou mesmo pra curtir um lugar tipo um parque ou um museu com uma companhia. No nosso papo descobri que aquele era o último dia de aula dele. Peguei umas dicas de como era o curso, onde se comprava o material e tal.

Na segunda eu estava de volta, agora munido de passaporte, pra efetivar a matrícula. Por ser intervalo pra troca de turno, as pessoas costumam invadir a secretaria pra pedir informações, perguntar coisas e eu demorei um pouco a ser atendido. Na verdade eu terminei de ser atendido, de ficar consciente do número da minha sala e de qual seria a minha turma eram dez pra uma e a própria pessoa da secretaria pediu pra que eu esperasse o intervalo que é entre uma e meia e dez pras duas pra que eu entrasse em sala. Foi justamente o que fiz. De cara já identifiquei uma brasileira só pelo sotaque do inglês dela, que é muito parecido com o meu.

O professor chega e pra minha surpresa puxa o assunto ‘prova’. Mal tinha pisado em sala e soube que dali a duas semanas já tinha um teste pra mudar de nível e uma festa pra comemorar o Natal. Em duas semanas sabia que não iria dar pra mudar de nível. Tanto que nem me apressei em comprar o material. Resolvi esperar o resultado dos exames pra ver como eu tinha me saído. Sem contar que nessas duas semanas que antecederam as provas eu faltei quatro dias por conta da feira. Mas aos poucos fui me enturmando com as pessoas da minha sala, mesmo que por pouco tempo.

No dia da festa de natal do curso saiu o resultado. De acordo com o Marc, o professor, eu tinha ido bem nas provas, mas apenas pelo fato de eu ter perdido tempo e não ter feito minha redação que eu não passei pro nível sete. Ele até me deu um conselho pra não esperar as outras provas, que se não me engano vão acontecer em março, e fazer o teste antes do tempo e disse pra eu não me preocupar com esse resultado. Mas na verdade isso não ta me preocupando, já que o curso é só um pretexto que eu arrumei pra trabalhar legalmente por aqui e tentar fazer um pé de meia pra mim aqui na Europa. Pode dar certo, como pode não dar. Em acontecendo essa última, ninguém vai me tirar essa experiência e essa vivência que não tem dinheiro que pague. Não me arrependo mesmo de ter vendido meu carro e partido pra cá. Mesmo que eu volte daqui a seis meses. Mas ainda tem seis meses. E até lá muita água vai rolar.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

AVENTURAS LONDRINAS (2)

Tenho que dar um destaque a parte pro Alê e pra Carol. Não é todo mundo que vem pra Londres e que tem esse apoio que eu tive. Eles me acolheram durante os primeiros vinte dias que estive aqui e ainda por cima me arrumaram um bico numa feira de roupas, o que me garantiu duzentos e cinqüenta libras de sobrevida aqui. Isso que é um bom apadrinhamento.

Que nenhuma autoridade londrina esteja lendo e principalmente compreendendo o que está escrito, mas quando a gente chega aqui em Londres, temos que fazer um registro na polícia onde eles nos dão uma espécie de comprovante de residência aqui e qualquer mudança deve ser informado pras autoridades. Não é um documento que você seja obrigado a andar na rua com ele a não ser que por algum motivo qualquer, por mais banal que seja, eles peçam pra que você se apresente num posto policial munido com esse documento.

O meu endereço oficial é o do Alê e da Carol, em Islington. Já saí de lá e não sei quantas vezes ainda vou mudar de casa, mas não vou fazer esses registros, até pelo fato de que eles devem estranhar e começar a desconfiar de um tipo de pessoa que fica pulando de casa em casa. Não sei se isso vai ao certo acontecer comigo, mas prefiro não ficar dizendo que mudei toda vez que eu fizer isso. Enfim, toda e qualquer coisa que por ventura quiserem me mandar do Brasil que enviem pro endereço do Alê e da Carol.

Antes mesmo de eu sair do Brasil, quando confirmei com ele a data da minha chegada e pedindo um ponto de apoio e partida pra essa vida européia, ele me avisara que havia pedindo pra me agendar pra trabalhar numa feira de roupa. E o pedido foi atendido. Sete dias depois que eu havia chegado aqui já estava fazendo esse bico. Essa feira acontece de quatro a cinco vezes ao ano e consiste em vender a preços mais baratos as roupas das grandes e famosas marcas cuja coleção tenha sido encalhada nas lojas. Não digo preços populares porque um vestido de novecentas libras não é tão popular pra qualquer um comprar, apesar de nas lojas da Versace, Dolce e Gabana entre outras custar quase que o dobro desse valor.

Essa feira durou duas semanas. Na primeira semana, que coincidiu exatamente com a minha primeira semana de aula no curso, foi a vez da moda feminina – mulheres primeiro. Nessa semana trabalhei três dias. Quinta de 10:15 às 9 da noite, sexta de 9:30 as 8 e sábado de 9:30 às 6 da tarde. A minha função era a de segurar as roupas das mulheres que subiam pro segundo andar, a fim de não misturar as roupas do andar de baixo com o andar de cima, uma espécie de guarda-volumes. Foram três dias de bastante agito comparado com a feira masculina ocorrida na semana subseqüente, onde trabalhei apenas na quinta e na sexta nos mesmos horários. No entanto, na feira masculina eu fiquei no changing room, ou seja, era o responsável pela cabine de troca de roupa do primeiro estúdio do segundo andar. Havia uma grande pros dois estúdios do primeiro andar e duas pequenas pros dois estúdios do segundo andar. Nessa segunda semana, na quinta feira que era justo o dia da abertura da feira masculina, o salão ficou praticamente às moscas e o tempo parecia não passar. Talvez tenha sido o dia que eu tenha me cansado mais. Cansado de não fazer nada. Fazer nada também cansa. E como.

Soube, depois que a feira acabou, através do Alê e da Carol, que o Roger, o chefe e organizador dessa feira, gostou de mim e provavelmente me contacte pra trabalhar na próxima que está agendada pro início de fevereiro. Espero que ele se lembre de mim sim e me chame pra trabalhar durante os dez dias de feira pra dar um upgrade na verba que ta apertadíssima, mas até lá eu ainda hei de arrumar um trabalho bonitinho. Ando correndo agências de emprego por aqui e a tendência mesmo, a princípio, é que eu seja garçom e saia servindo as pessoas. Aliás, eu já tenho uma pra contar nesse sentido.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

AVENTURAS LONDRINAS (1)

A partir de agora e até não sei exatamente quando, vou dedicar esse espaço pra delatar toda, ou pelo menos grande parte da vida européia a qual vivo desde quando o avião desceu em Heathrow, aqui em Londres, no fim de novembro.

A comitiva e ao mesmo tempo a torcida que me levou ao aeroporto do Rio pra embarcar pra cá foi grande. Além da minha mãe, minha madrinha (tia Dora), tia Tania, tia Branca e Liddy, que me ajudou muito nos meus primeiros contatos aqui na terra da rainha, me acompanharam até eu entrar pra sala de embarque. Coincidência ou não, um amigo de infância da minha mãe e minhas tias, cuja filha é amiga da minha prima e mora aqui na Inglaterra, mas não na capital, esbarrou com a gente no aeroporto e veio no mesmo vôo que eu. Como o vôo da TAM veio vazio, sentei no banco atrás dele e viemos conversando a viagem quase toda.

A primeira agonia, talvez os cinco minutos mais desesperadores pra mim foi tentar explicar pro cara da imigração o porquê da minha vinda pra cá. Claro que essa conversa foi em inglês. Ele me perguntou o que eu ia fazer lá. Disse que iria estudar inglês. Aí ele disse que eu poderia estudar a língua no meu país. Me fiz meio que de desentendido e disse que não estava conseguindo entender direito. Ele ainda me perguntou quem é que estava bancando essa viagem, respondi que era minha mãe. Mostrei a passagem de volta e a carta da escola. Por eu ter dito que não o entendia direito ele disse que iria chamar a interprete, mas ela demorou e ele acabou me liberando.

O Gustavo, amigo da minha família, até estranhou a minha demora quando cheguei na esteira pra pegar as malas, que, por sinal, ainda não havia sinal delas. O combinado era pra eu ligar pro Alê, ex genro da Liddy ainda no aeroporto pra que ele ficasse de prontidão na estação do metrô da Caledonian Road me esperando. Mas o Renato, um amigo do Gustavo, estava lá e como iríamos pegar a mesma linha do metrô – na verdade a única que é a linha Piccadilly – deixei pra fazer isso quando chegasse lá na estação. O Renato e o Gustavo desceram algumas estações antes da minha. O preço de um bilhete do metrô pra esse caminho foi quatro pounds (a libra aqui é chamada de pound e os centavos de pence ou pi).

Saí da estação perdidinho precisando de um telefone, crente que iria avistar aquela famosa cabine vermelha. A cabine era preta e ficava do outro lado da rua. Detalhe: eram em torno de quatro horas da tarde e já começava a escurecer. Foi a primeira coisa estranha que percebi com esse tempo, além do frio. Entrei na primeira, botei uma moeda de dois pounds. O telefone tava quebrando e não devolveu minha moeda. Mas eu tinha que ligar de qualquer jeito pro Alê. Fui na outra cabine do lado, mais uma moeda de dois pounds. Dessa vez consegui falar com ele, mesmo assim a ligação custou quarenta pi, ou seja, eu ainda tinha crédito de um e sessenta e o telefone continuou a se recusar a me dar o troco.

Perdi quatro pounds pra falar um minuto com o Alê, além dos outros quatro que foram gastos no bilhete do metrô. Como ele mora a nem dez minutos da estação, rapidinho chegou lá e me ajudou com as malas. Depois de ter realmente chegado lá no apartamento dei uma descansada e o Alê me levou pra conhecer um dos bairros mais boêmios da cidade. Candem Town por enquanto é o bairro mais underground que eu já vi até agora. Aliás, ao contrário da América, o que lá se chama de subway, o nosso metrô, aqui é underground. Subway até existe também, mas é aquela passagem subterrânea de pedestre. Lá em Candem a Carol, esposa do Alê, encontrou com a gente num pub e de lá fomos ao Nando’s, uma cadeia onde a especialidade é o frango, a carne mais consumida aqui, além do carneiro. E esse foi só o dia da minha chegada aqui.