terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

AVENTURAS LONDRINAS (7)

Existem coisas que de tanto se fazer já vira tradição. Às vezes é uma coisa passada de geração pra geração e que a gente faz questão de manter. Esse último ano quebrei uma tradição que cultivo e gosto desde o ano que eu nasci. Por motivo de força maior – estou em Londres, oras – eu não pude passar o Natal com a minha família. Aliás, ninguém que mora aqui na casa em que estou fez o mesmo. Então decidimos nós a preparar uma bela ceia de Natal.

A tradição inglesa não é igual à brasileira, onde há uma ceia a noite e o almoço do dia seguinte. Aqui o feriado é somente no dia de Natal mesmo. E tudo para. Inclusive o transporte público. Metrô e ônibus não circulam, as lojas ficam fechadas e pra sair de casa só a pé, de bicicleta ou de carro. Eles tiram o dia pra reunir a família e almoçar, como se fosse um almoço de domingo qualquer. Se bem que esses almoços de domingo também nem são tão tradicionais aqui. Enfim, Natal aqui é só dia vinte e cinco.

Nós aqui da casa procuramos fazer uma ceia de Natal similar às nossas raízes e tradições. Na verdade, foi uma ceia adaptada ao que a gente pode comprar e fazer aqui. Primeiro a gente se reuniu e cotizou um valor pra cada pessoa poder colaborar com a ceia. Quinze libras foi o que a gente gastou entre comidas e bebidas. Arroz e salada como acompanhamento e peru, salmão no lugar de bacalhau e uma espécie de picanha suína pra substituir o lombinho. Fora o bolo e os dois outros tipos de doce. Aqui infelizmente não existe, ou se existe não se vende, ou se vende não é em todo e qualquer mercado, chester. Isso tudo pra praticamente dois dias de confinamento, se bem que na véspera a ferveção em lojas e mercados é a mesma.

Também fizemos um amigo oculto com o valor máximo estipulado em dez libras. Eu só fui comprar o presente exatamente no dia em que as ruas ficam mais cheias e quando todos decidem fazer o mesmo. A Oxford Street estava que era um formigueiro humano, mais do que de hábito. Ainda me arrisquei a gravar um vídeozinho desejando Feliz Natal pra minha família e mandei por mail, mas não deu muito certo, não pelo fato de eu ter feito e enviado, mas por que não foi aberto na hora mais própria. Quando cheguei de volta em casa, as meninas já estavam nos preparativos da decoração do ambiente e com as comidas quase prontas ou terminando de serem feitas.

A animação estava apenas começando. Na hora da troca de presentes do amigo oculto, eu recebi um brinquedo do meu. Ele teve a sacação de me dar duas pistolas que atiram disquinhos de borracha mencionando a violência do Rio. Estão aqui guardadinhas pra quando eu tiver oportunidade sair brincando nos parques de Londres com quem se habilitar, e vou levar de presente pro meu sobrinho ou pra outra criança da minha família. E como eu tirei uma menina, e por conhecer ela há bem pouco tempo, já que eu havia me mudado pra casa uns dez dias antes do Natal, e sem ter tempo hábil pra desenvolver uma idéia mirabolante como a que fizeram com o meu presente, acabei comprando um cachecol preto, mas um pouco mais elaborado que os convencionais.

A festa ficou tão boa que toda a vizinhança resolveu dar uma passadinha por aqui a ponto de uma determinada hora ter em torno de mais de vinte pessoas. Já mais pro fim da festa, quando todos começaram a se recolher, peguei o telefone e liguei pra minha família e falei com todos ou quase todos que lá estavam. A farra continuou no dia seguinte, sem tanta gente, só nós mesmos, até pelo fato de não ter como e nem um motivo pra se sair de casa.

Todo Natal é igual, eu gosto de manter essa tradição, gosto que seja assim, mas uma vez, um ano pelo menos a gente deve experimentar “natais” diferentes. Esse foi o meu e o único, por enquanto, que foi diferente dos outros trinta natais passados. Enquanto a tradição e os costumes natalinos permanecem, o réveillon...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

AVENTURAS LONDRINAS (6)

Na busca por algum trabalho, meu primo entrou em contato com uma amiga da esposa dele que tem uma irmã que mora e trabalha aqui em Londres. Trocamos mail e telefone e nos falamos. Ela é gerente de um dos restaurantes do Gourmet Burguer Kitchen, uma espécie de Mc Donald's mais sofisticado, onde os sanduíches são servidos em pratos e a maioria vem com um palito atravessando pra que o mesmo não seja desmontado por livre e espontânea vontade. E o restaurante que ela gere fica numa das mais tradicionais e freqüentadas ruas de Londres, a Portobelo Road.

Enfim, ao explanar minha situação, ela e prontificou a me ajudar dentro das possibilidades dela, claro. E foi o que ela fez. Ligou pra outra loja da mesma cadeia, perguntou se estavam precisando de alguém lá e me mandou um torpedo pedindo pra ir lá até um determinado horário falar com a responsável. Segui a risca a cartilha passada por ela. Cheguei lá, falei com a responsável e ela marcou um shift-trainee – hora de treinamento – pra eu fazer numa quarta-feira. Fiquei todo feliz, afinal era uma oportunidade pra mim de aprender uma função nova – nova é modo de dizer, mas pra eles é nova – e uma esperança de arrumar um trabalho que é tudo o que vim pensando em fazer em Londres.

No dia marcado fui pra minha aula à tarde como de costume. São raras as vezes que isso acontece, mas naquele dia eu havia desligado o celular durante a aula e esquecido de ligar ao sair da sala de aula. Somente em casa que eu percebi isso e liguei o celular. Uma ligação que havia deixado mensagem na secretária eletrônica. Acionei esse recurso e vi que se tratava de uma desconhecida que se apresentou como a gerente do lugar o qual eu iria me apresentar pra trabalhar dali a algumas horas. Escutei aquela mensagem umas cinco vezes. Já havia entendido na segunda vez que ouvi, mas queria ter certeza do que tava acontecendo. Fui avisado nesse telefonema que o meu shift tinha sido transferido pra sexta-feira e pra que eu retornasse a ligação pra combinar tudo direitinho. Outro motivo das repetidas vezes que eu escutei as mensagens foi pra ouvir o número do telefone pro qual eu teria que ligar sem que me restasse dúvidas. Liguei, mas chamou e ninguém atendeu. Como o restaurante fica a duas estações de metro daqui resolvi ir lá. Negócio fechado.

Na sexta-feira, meu último dia de aula do ano no curso, às sete da noite eu estaria lá. O combinado era que esse treinamento teria duração de três horas. Botei uma roupa bacana, preta, social, com sapato e tudo. Cheguei lá, tive que tirar a camisa pra botar a da loja e uma espécie de avental que tampava minhas calças até a canela. Tive a primeira explicação de como as coisas funcionam, onde se põem os pratos sujos, quando que o sanduíche ficava pronto... a única complicação era a distribuição das mesas que eu sempre checava no mapa e mesmo assim às vezes ia perguntar onde que era. Não fiz nade errado, não derramei nada em ninguém, não quebrei uma louça sequer, inclusive fui o garçom preferido de um cara que levou duas crianças pra comer lá.

Exatamente uma hora depois o responsável, que não era nem a mulher do primeiro dia que fui lá e nem a do dia do telefonema, e sim um homem que depois vim a descobrir através daquele meu primeiro contato, gerente da loja da Portobelo, que esse indivíduo chega a ser uma pessoa meio intragável, disse que eu já poderia me trocar e ir embora e que qualquer coisa ligaria pra mim. O pior de tudo é que além dessa hora trabalhada não me ter sido paga, eles foram incapazes de me ligar dizendo se precisariam ou não e quando dos meus serviços. Por insistência do meu contato que deu uma espécie de prensa neles somente no dia da véspera de Natal que me ligaram ainda com aquele papo que talvez em algumas semanas pudessem me chamar. Essa foi a minha primeira experiência de trabalho real em Londres, a parte a feira.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

AVENTURAS LONDRINAS (5)

Quando vim pra Londres, a idéia que permeia a minha vida aqui é trabalhar pra juntar alguma grana pra poder viajar por aqui mesmo pela Europa pra depois voltar pra casa. Ou não, dependendo da situação em que eu me encontrar em junho. De modo que por já estar agendado praquela feira de moda, só pude começar a pensar nisso, ou seja, em procurar algum tipo de trabalho depois do domingo, dia catorze de dezembro que foi o dia em que deixei a casa do Alê e da Carol e fui parar em Willesden Green. (última estação da zona dois pela jubilee line – linha cinza – ainda no norte da cidade, mas pro lado esquerdo de quem olha o mapa do metrô) Coincidentemente a semana de véspera do Natal e das provas de mudança de nível do curso.

Eu e meu companheiro de quarto, o qual só conheci pessoalmente aqui, estávamos em busca de um lugar pra gente, de modo que ele precisava sair de Chelsea e eu já estava abusando da paciência do Alê e da Carol, tanto que ele veio pra cá numa quinta e eu só vim no domingo já que trabalhei na feira até o sábado. O dia em que nos encontramos no Starbucks da Oxford Street já foi pra tratar desse assunto. Levei algumas revistas pra gente já começar a ver lugar pra morar e acabamos por optar por uma casa boa, grande e com bastante gente nela. A vantagem que a gente viu foi que o quarto que estava vago tem um banheiro dentro. Claro que a gente paga um pouco a mais por isso que os outros habitantes da casa, mas não é uma coisa absurda, até por que era mais ou menos o valor que eu calculava em pagar por semana (aqui grande parte das contas são pagas por semana) antes de vir pra cá. Além disso, é como se fosse a cobertura, o sótão da casa.

São três andares. No de baixo temos as áreas em comum, ou seja, sala e cozinha, além de um quarto quádruplo e um banheiro. Atualmente dormem lá dois brasileiros e um francês. Como esse tipo de habitação é de alta rotatividade, não se sabe nunca até quando as pessoas ficam na casa. E volta e meia, quando a gente esbarra com uma cara estranha, a primeira pergunta que se faz é se mora na casa. No segundo andar tem um banheiro e três quartos, o primeiro dividido entre uma brasileira e uma húngara, o segundo entre uma brasileira e uma francesa e tem uma terceira cama que está vaga por enquanto, visto que a menina da República Tcheca nos deixou há pouco e o terceiro quarto é dividido entre três gaúchas e uma paulista, todas mulheres. E no terceiro andar eu e um mineiro de BH que divide comigo o que a gente chama de suíte presidencial.

Os moradores dessa pequena residência no bairro de não menor característica de Willesden Green, mais precisamente da rua Osbourne, número trinta e oito são bastante animados e sempre em busca de harmonizar o conjunto. Pra mim que sou acostumado com uma família grande onde qualquer tipo de reunião é uma festa e uma gama enorme de amigos também festivos em sua grande parte, fazer mais esses é como uma tentativa de manter esse espírito de união, de cooperação, justamente pra amenizar a saudade que eu sinto de todos deixados no meu país.

Voltando pro meu companheiro de quarto, pra esclarecer a história, eu já havia falado com ele por telefone no Brasil uns quinze dias antes de eu viajar. Ele estava fazendo uma reportagem sobre o ‘Verão da Lata’ e entrevistou o Serguei que pediu pra que ele ligasse pra mim em busca de uma foto que ilustrasse a matéria. Depois da obrigação, a diversão. Tudo resolvido, ele me perguntou se eu ia pra Londres. Respondi que sim. Perguntou quando e eu disse no fim do mês. Isso era início de novembro. Aí ele me disse que estaria indo na semana seguinte àquela. Então combinamos de nos encontrar por aqui. E foi o que fizemos. Tanto que estamos dividindo o mesmo quarto agora. Aliás, até então, todos os meus amigos fiz e conheci aqui com exceção apenas de uma pessoa que havia encontrado na Lapa uma vez.