terça-feira, 21 de abril de 2009

AVENTURAS LONDRINAS (15)

Além da nevasca, fevereiro também começou bem pra mim já que a feira foi feita logo na primeira quinzena do mês. Como eu disse logo que cheguei por aqui o chefão lá gostou do meu trabalho logo na primeira feira. Sinal de que ele estava inclinado a me chamar pra segunda e conseqüentemente pras outras também. Pois foi o que aconteceu.

Na primeira, em dezembro, logo assim que eu cheguei, trabalhei cinco dias. Pra segunda, ou seja, essa, fui agendado pra trabalhar seis dias. Dois dias na semana feminina e os quatro restantes na semana masculina. Teoricamente seria apenas um dia a mais até que a Sue que também é chefe junto com o Roger me mandou um torpedo perguntando se eu também poderia ir na quarta feira. Respondi que sim, mas perguntei a ela de qual das duas semanas. A resposta foi que seria pras duas. De modo que minha escala de seis aumentou pra oito dias divididos em três pra feminina (quarta, sexta e sábado) e os cinco pra masculina.

No andar de baixo são dois estúdios grandes, fora o guarda volume e a parte da cozinha e no andar de cima são dois estúdios um pouco menores que os de baixo mais um pequeno display, que é onde fica o acesso, ou seja, a única maneira de subir e descer. São só dois andares, mas grandes.

As quartas-feiras são os dias em que nós montamos a feira, recebemos as roupas, montamos as araras e as colocamos nos seus devidos lugares. Como a quantidade é enorme, principalmente no que diz respeito à ala feminina, ficamos o dia todo a mercê das entregas. Entre nove e meia da manhã e seis e meia da tarde chega toda a mercadoria, inclusive a comida pra abastecer o staff durante o evento.

Na quinta feira é o primeiro dia em que se abre ao público. E mais especificamente pra convidados. Nós chegamos lá no local às dez e quinze da manhã pra dar os últimos retoques e abrir para o público às onze da manhã. Esse é um dos piores dias pelo fato que ficamos abertos das onze da manhã às nove da noite sendo que na semana masculina esse dia é o pior em termos de movimentação. Ficamos praticamente as moscas e inventamos joguinhos e brincadeiras pra passar o tempo.

O auge dessa feira é sempre nos dias de sexta, quando fica aberta das dez as oito – sempre lembrando que a gente do staff chega meia hora antes de abrir pra das os retoques finais – e sábado, principalmente na semana feminina. Sábado então é o dia em que nós mal podemos almoçar tamanha a movimentação e o alvoroço da mulherada. Sem dizer que nós também fazemos um pouco de segurança. Aqui também existem as pessoas más intencionadas e quando o alerta é passado pra gente de que uma determinada pessoa é suspeita de poder cometer um furto, não tiramos os olhos dela até que ela saia do ambiente. Isso acontece com muito mais ênfase na semana feminina e elas utilizam de artifícios que espantam até a gente que somos considerados de terceiro mundo. Como lá só se vende roupa de grife, um dos artifícios das mulheres pra poderem surrupiar um vestido é entrar com bebês em cestinhos tipo Moisés pra malocar as roupas por baixo. Tem também a tática do vestido que são as mulheres entrarem lá usando um vestido ou uma saia pra amarrarem a roupa por baixo da saia e saírem como se nada tivesse acontecendo. Na masculina a nossa ‘segurança’ é mais aliviada.

No domingo abre-se às onze da manhã e fecha às cinco da tarde. A partir das quatro a gente pega todas as caixas que estão desmontadas desde a quarta e as montamos novamente pra botarmos as mercadorias de volta nelas e devolver. Entre cinco da tarde e sete da noite devolvemos a mercadoria pras suas origens. E é assim que essa feira funciona. Eu espero que continue também trabalhando nela, afinal, além de já estar adaptado com o pessoal lá é uma grana extra que entra.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

AVENTURAS LONDRINAS (14)

Andamos até o ponto final do ônibus. Estávamos esperando por ele. Ao apontar no horizonte fizemos sinal. Tudo bem que era o ponto final, mas provavelmente por estar caindo uma boa quantidade de neve ele podia não parar e seguir seu itinerário. Ele passou pela gente, mas estava tão devagar que corremos pro ponto seguinte a fim de que ele nos alcançasse novamente e assim finalmente pudéssemos pegar o coletivo. Uma corrida na neve que não valeu de nada, pois o ônibus tornou a não parar.

Achamos estranho já que o motorista nos viu pela segunda vez. No entanto, nesse ponto havia uma brasileira que perguntou se aquilo já havia acontecido com a gente antes. Que ela teve que descer do ônibus, pois eles estavam parando de circular por causa do tempo. Ótimo. Àquela hora o metrô já tinha fechado, os ônibus pararam de circular, a neve não dava trégua e não podíamos sequer voltar pra casa. Ficamos nós três sem saber o que fazer naquela madrugada gelada.
Começamos a perambular. De Holborn pra Tottenham, de lá pra Piccadilly, Trafalgar Square até pararmos numa loja de indiano perto de Picadilly e passar a noite toda lá de papo.
Devido à quantidade de neve que caiu parou de circular ônibus, taxi e os poucos carros que se arriscavam a andar faziam isso o mais devagar possível, já que – isso eu vi com meus próprios olhos – ao freiar os carros patinavam e isso poderia causar acidentes graves.

Os assuntos foram os mais variados possíveis. Também, pra passar a noite toda conversando sobre o mesmo assunto, haja conhecimento. Foi bom por que mais uma amizade foi feita. Não nos desgrudamos durante cinco horas. De uma da manhã até pouco depois das seis ficamos juntos. Das duas uma, ou voltávamos pra casa a pé, debaixo de neve, ou fazíamos o que fizemos. Esperar o metrô abrir.

Mais da metade das linhas do metrô não iriam funcionar aquele dia, principalmente as linhas que tem a maioria dos seus trilhos ao relento. A linha que abastece minha casa, por exemplo, foi uma. Fomos juntos de metrô até a estação de Green Park e lá nos despedimos, pois ela ia pegar uma linha diferente da nossa. Sai ela e entra uma bêbada.

No exato momento que nós três checávamos o mapa e decidíamos como fazer uma inglesa bêbada parou do nosso lado perguntando como poderia voltar pra Willesden Green. Dissemos que faríamos o mesmo, apesar da nossa linha não estar funcionando. Deveríamos pegar um até a estação de Baker Street e de lá pegar outra linha de metrô que nos deixasse mais próximo de casa. A idéia da bêbada era da gente rachar um taxi até em casa, mas mesmo às sete da manhã os taxis ainda não circulavam. A gente não agüentava mais aquele frio e tava doido pra chegar em casa, já que passamos a noite presos fora de casa e na neve. Como não passava taxi a gente resolveu voltar andando. A bêbada não aceitou essa idéia e se desvencilhou da gente, ou melhor, a gente apertou o passo e ela ficou pra trás.

Mas como a gente ia chegar em casa se não sabia o caminho? Estavamos próximo, mais que em Piccadilly e não tínhamos idéia de como fazer. O jeito foi perguntar pras pessoas como se fazia pra ir pra Willesden. Pra sorte nossa um senhor que também estava tentando voltar pra casa ia pras mesmas bandas que a gente e se ofereceu pra nos trazer até em casa. Veio contando sobre a vida dele. Tinha em torno de 60 anos, é irlandês, tem vários irmãos e sobrinhos, mas ele mesmo não constituiu família por opção. Finalmente na segunda por volta de oito e meia da manhã chegamos em casa pra dormir. Acordei por volta das seis da tarde. A galera da casa estava vendo o noticiário do dia que dizia que a cidade parou, ou seja, nada funcionou devido às condições climáticas e que Londres não via uma nevasca como essa há dezoito anos.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

AVENTURAS LONDRINAS (13)

Há muito mistério entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia. Principalmente quando desse mesmo céu cai uma neve digna de boneco. Já descrevi aqui a primeira vez que vi neve na minha vida. Dessa vez foi a primeira vez em que vi uma nevasca de parar o trânsito literalmente. Um domingo à tarde, mais especificamente dia primeiro de fevereiro, eu, o Airton – meu companheiro de quarto - e a Danila – prima dele que nesse dia havia dois de moradora da casa - fomos encontrar com uma amiga de escola do Airton que passara um ano estudando em Dublin, na Irlanda, e veio passear dois dias em Londres. Ela chegou pela manhã no aeroporto, foi pro centro da cidade e ficou esperando pela gente. Enquanto a gente não chegava, ela ficou rodando e conhecendo alguma coisa pela redondeza.

Nós pegamos o ônibus pra nos encontrarmos com ela. Primeiro foi o de número noventa e oito. Por estar demorando um pouco além da conta resolvemos descer e pegar outro na Oxford em direção ao parlamento inglês já que ela nos esperava na estação de Westminister. Assim que a gente desceu do ônibus a primeira rajada de neve resolveu cair também. Dessa vez os flocos estavam mais densos e não tão finos como os da primeira neve que vi. No segundo ônibus que pegamos ficamos parados num engarrafamento durante mais ou menos uma hora. O motivo, que a gente não sabia, era que estava sendo comemorado o ano novo chinês e várias ruas do centro da cidade estavam fechadas por conta disso.

Depois de um bom tempo finalmente encontramos com ela na estação de Westminister e começamos a andar. Primeira parada, Trafalgar Square. Lá estava tendo uma festa que fazia parte da comemoração do ano novo chinês. Vimos um pouco da festa, entramos na National Gallery pra fazer xixi e depois voltamos a circular. A neve tornou a cair e dessa vez com uma continuidade maior. Mesmo assim continuamos a rodar com ela. Danila tinha outro compromisso marcado e não pode continuar a jornada conosco. A deixamos no ponto do ônibus e assim que ela pegou a condução nós três saímos meio que sem rumo, de modo que a única certeza que tínhamos era o de comer alguma coisa, pois saímos de casa sem comer absolutamente nada.

Depois de comer algo entramos em contato com a amiga dela a qual a hospedou nessa passagem relâmpago. Ela mora pro lado de Canada Water (é a mesma linha de metro que abastece a minha área só que pro lado sul da cidade) e mais uma vez pegamos o ônibus. Como eu falei antes a neve estava constante e grossa de modo que as ruas e calçadas já estavam brancas, mas a grossura dos flocos foi o que mais me impressionou. Tanto que ao descermos do ônibus começamos a brincar com a neve, fazer guerrinha outras coisas que turista faz quando vê neve pela primeira vez. Foi quando fiz meu videozinho e tirei as fotos da neve na noite de Londres. Ligamos novamente pra pegar as coordenadas exatas de como chegar na casa. Tomamos mais um ônibus e enfim, chegamos na casa da amiga dela. A neve não deu trégua e mesmo assim, depois de comermos uma pasta – leia-se macarrão – oferecida por ela, ainda tivemos a idéia de sairmos pra algum lugar e acabamos por ir a um pub – leia-se boteco (grã fino, mas boteco).

Pela hora que chegamos o pub estava quase fechando mesmo assim ainda deu pra tomar um chocolate quente que acabou se tornando um cappuccino, mas com o frio que tava fazendo, deixamos o mal entendido de lado e tomamos. Neva lá fora e dentro não está tão frio por conta dos aquecedores. Por volta da meia noite, pub fechando nos despedimos e resolvemos voltar pra casa. Esperamos as meninas pegarem o ônibus delas e corremos pro ponto do nosso que era na rua transversal, ou seja, perto. E é exatamente nesse ponto que começa a saga da nevasca de Londres.