domingo, 28 de junho de 2009

AVENTURAS LONDRINAS (25)

Creio que durante esse tempo em que eu estou em Londres duas notícias surpreenderam os cidadãos insulares. Uma foi a nevasca que caiu aqui no início de fevereiro, há dezoito anos não nevou como naquelas quase vinte e quatro horas deixando a cidade totalmente branca e parada, já que não são preparados e não têm estrutura pra agüentar e suportar a quantidade de neve que caiu. A outra é a que eu vou dar mais ênfase agora.

No exato momento em que estou escrevendo esse texto, ta passando na televisão a final de um programa chamado “Britain’s got talent”, uma espécie de ‘Ídolos’ britânico, de modo que aqui na ilha não é restrito apenas a música, mas performances também são válidas. A minha torcida está voltada pro fenômeno que, de certa forma, também parou a Inglaterra. Ela apareceu na triagem de Glasgow, na Escócia. Com quarenta e sete anos e completamente fora dos padrões de beleza impostas pela sociedade, ela chegou bem devagar e sendo totalmente crucificada por quem estava lá assistindo, mas quando abriu a voz cantando a música ‘I dreamed a dream’ do musical ‘Os miseráveis’, além de calar a boca do auditório deixou todo mundo de boca aberta. Tanto que o vídeo da participação dela no programa foi o mais visto no You Tube. Eu mesmo não me canso de ver e me emocionar. Tentei até botar no meu Orkut como um dos meus vídeos preferidos, mas por conta de direito autoral não pude fazer isso.

Susan Boyle ta sendo considerada o ‘patinho feio’ da Grã Bretanha. O desempenho dela mudou de vez sua vida. Convidada pra dar entrevistas em programas famosos como Larry King e Oprah nos Estados Unidos, sem contar as fotos, notícias e os paparazzi que ficam o tempo todo na porta da casa dela, ela nem sabe o que fazer. O sonho dela é de ser cantora profissional e após algumas frustradas tentativas esse programa está sendo um divisor de águas na vida de uma senhora solteira escocesa que tem por companheiro um gatinho.

O vencedor do programa vai embolsar uma boa quantidade de dinheiro. E os concorrentes são fortes, mas a minha candidata é ela por toda história de vida que ela passou tentando até chegar ao ápice do seu sonho e se transformar na queridinha da Inglaterra. Desde o meu primeiro acesso ao vídeo dela me tornei seu fã. A segunda aparição dela na TV, na semifinal, já famosa, ela se apresentou cantando ‘Memories’ de um outro musical “Cats” e não foi nem preciso dizer que também se saiu bem, tanto que está na final agora.

Sua preferência por musicais é bem visível. Não é a toa que ela canta desde os doze anos de idade sempre se apresentando pra um pequeno grupo de amigos e pessoas do pequeno vilarejo onde reside. Trinta e cinco anos cantando amadoristicamente e com sonho de ser profissional e tendo como exemplo Eliane Page, uma famosa cantora de musical, já dá pra desenvolver algum talento.

Claro que pessoas que cantam o gênero cantado por ela nunca vão parar o maracanã, como fazem os grandes astros do mundo, como Madonna e Rolling Stones, por exemplo. A voz dela ta mais pra Canecão e Vivo Rio que pra grandes locais como a Apoteose. Não sabemos como vai ser o futuro dela e o resultado só sai daqui a uma hora. Eu também nem preciso esperar pra dizer aqui qual foi. Como escrevo os textos com antecedência, na hora em que esse for publicado essa história já teve um desfecho e uma continuidade que nesse exato momento eu não posso precisar.

Mas, independente do resultado eu continuo torcendo pela carreira de Susan Boyle isso é fato. Enquanto ela lançar o disco dela quero ser um consumidor de sua voz. E espero que a música com que ela surpreendeu uma nação seja uma das faixas do disco. Susan Boyle, esse é o nome.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

AVENTURAS LONDRINAS (24)

Quando se vem pra Londres tentar fazer um pé de meia a capacidade de transformação é imensa. Coisas que você não se propõe a fazer no Brasil, aqui, até por uma questão de sobrevivência, e quando se consegue um trabalho, você se vê obrigado a fazer. O serviço mais comum, principalmente pra quem ainda não tem um certo domínio da língua é o de cleaner, traduzindo: faxineiro. Pra quem desenrola um pouco mais, o que é o meu caso, serviços que lidam com o público é mais aconselhável. Um deles é o de garçom.

A gente no Brasil que faz de tudo um pouco também em algum momento de nossas vidas fomos garçons, seja numa festinha de um parente ou mesmo quando recebemos convidados na nossa casa e os servimos. A grande maioria das agências de emprego aqui pergunta se você já tem experiência como garçom. Essas experiências, na minha concepção já são válidas, afinal carregar uma bandeja não tem segredo nenhum.

No entanto existe um tipo de serviço nessa área de catering que tem todo um ritual. Aqui é chamado de silver service que nada mais é que uma forma diferente de servir a pessoa à mesa. Esse tipo de serviço, como todos os outros, a gente pega com o tempo de prática, mas existe uma espécie de curso, de aula pra ser esse tipo de garçom. E eu fiz. Pelo menos já posso voltar pro Brasil com um emprego quase certo. A primeira parte do curso ensinou como se arruma a mesa. Essa parte eu tirei de letra pelo fato de já ter praticado isso num dos meus treinamentos em restaurante. A distribuição dos pratos, taças, talheres e assessórios como sal, pimenta e manteiga. Depois foi mostrado como se limpa e empilha os pratos na mão e no braço. Nessa hora uma boa aula de malabarismo na escola de circo é válida pra não deixar desequilibrar e cair a pilha de pratos.

E tem duas técnicas de servir. Quando se trás o prato pronto da cozinha pode se carregar até três de uma vez e ao pequeno sinal do comandante do Buffet todos são servidos ao mesmo tempo e assim ninguém corre o risco de comer a comida fria. Geralmente duas pessoas, quando na mesa tem seis convidados, por exemplo, dão cabo de servi-las. Ou tem a travessa de comida que tem toda uma pompa e circunstancia pra segurar e servir também. Inclusive um lado certo, sentido anti-horário, enfim, todo um ritual específico. Foi um curso rápido e gratuito de duas horas que me mostrou coisas que eu já sabia e reforçou as que eu tinha idéia. Lembrei muito da Norminha, nossa cozinheira de festas e eventos da família, nessa hora.

É estranho pelo fato da gente mudar de posição, mudar de papel, de servir ao invés de ser servido como estamos acostumados em festas. Outra coisa que se nota aqui é que nos pubs não há quem te sirva. Por exemplo, se você quer beber alguma coisa, você pede, pega, paga e toma. Não existe aquela coisa de chamar o garçom e pedir pra trazer depressa uma boa média que não seja requentada. Cada um se vira. Eu acho esse esquema mais justo. Não tem a preocupação com cartelas, de perder e pagar uma quantia absurda depois e tal. Em alguns lugares até quem te sirva, mas quem faz o pedido é você direto no balcão.

Restaurante é a mesma coisa aqui, no Brasil ou em qualquer parte do mundo e a cultura aqui não é pagar os tais dez por cento. A gorjeta aqui é sagrada e mal educado é quem não dá. Como não sou daqui e nem freqüento lugares que tem garçom, não é do meu hábito, feitio ou costume dar gorjeta. Já vi em alguns lugares o que eu chamo de vigia de lavabo, ou seja, um funcionário que fica no banheiro dando sabonete e papel toalha e esperando que se jogue algumas modinhas no pires sobre a pia. Essa é a desvantagem em ser garçom de festas e eventos. Não se ganha as boas e generosas gorjeta que o povo costuma dar.

terça-feira, 16 de junho de 2009

AVENTURAS LONDRINAS (23)

Sabe aquela média que se toma em qualquer boteco no Brasil? Em Londres é diferente. Eles têm a cultura de parar, sentar e tomar um café numa loja especializada, tipo a Starbucks. E existe toda uma técnica de se preparar o café. Coador de pano nem existe. Acho que eles nem se lembram mais de filtro de papel também.

Nas feiras que eu faço, no dia da montagem, tem vezes que eu faço café e chá pra galera toda. Numa forma completamente diferente que eu chamo de esmagar o pó. Tem um jarro com um êmbolo em que se põe o pó e depois se joga a água quente por cima. E se você pensa que se esquenta a água na chaleira, no fogão? Que nada. Existe outro tipo de jarro cuja base fica ligada na eletricidade e que se enche de água e se aperta o botão pra ligar que em poucos minutos a água já fica fervendo. Toda casa aqui, até pelo fato disso servir pra se fazer chá também, tem esse eletrodoméstico especialmente pra ferver água. Lá na feira, é como se fosse um contêiner, tipo um enorme que cabem litros e litros d’água.

Fervo a água, ponho nesse jarro, automaticamente o pó sobe, daí o êmbolo que se usa pra esmagar o pó lá em baixo, no fundo e pronto. O café fica pronto e serve meia dúzia de xícaras. Claro que lá cada um adoça a gosto e põe a quantidade de leite pra misturar. Pra fazer o chá, é só botar seis saquinhos no bule e botar a água quente dentro também. Eu não sou muito chegado a café, a não ser nas variações do tal irish coffee (café com uísque), no meu caso café com licor, com conhaque ou com vinho do porto.

Mas nessas buscas incessantes por algum tipo de trabalho, dois dias depois do meu aniversário, surgiu a oportunidade de fazer um treinamento pra aprender como se faz café pra servir para o público em eventos. Existem vários tipos de café e conseqüentemente várias formas de fazer. Expresso, mocca, latte, cappuccino e chocolate quente são os mais comuns e mais pedidos. Também foram os que eu aprendi a fazer. Também tem o americano que nada mais é que um pequeno balde de café, já que lá a quantidade é sempre exagerada.

A máquina com que se faz todos esses tipos de café é enorme e cheia de botões, podendo servir até seis pessoas ao mesmo tempo. Tem que prestar atenção em quais botões apertar e a ordem em que se faz isso. O básico é botar o pó de café numa espécie de cesta, acoplar essa cesta numa das saídas de água, apertar o botão e esperar a água com o café cair no copo. As variações com o leite se fazem fervendo uma quantidade pequena de leite em um outro apêndice de ferro que sai um vapor muito quente e deixa o leite mais cremoso. E o mais engraçado é que o cappuccino daqui é diferente. Eu aprendi que cappuccino sempre foi a mistura de quatro pós que são café, leite, açúcar e chocolate de modo que acrescentando água quente e misturando fica pronto pra uso. Aqui é basicamente café com leite. O açúcar se põe a gosto e o chocolate vem como uma pitada por cima pra dar aquele toque afrescalhado na bebida.

Esse dia foi bem bacana. O fato de eu ter aprendido uma coisa nova me deu um animo e um gás que naquele dia eu cheguei a fazer uma espécie de pic-nic no parque depois. Digo, comprei uma comida e uma bebida no mercado e almocei no parque. Pena que eu não pude praticar, pois até então só fiz o treinamento mesmo porque chamar pra trabalhar que seria bom, mesmo depois de insistentes e-mails, nada. Bem, mas pelo menos aprendi na teoria como se faz café profissionalmente. Claro que, apesar de ser café não deve ter o mesmo gosto de um feito com filtro de papel ou coador de pano. É tudo muito mais industrial e rápido.

Mesmo não gostando muito de café provei um que fiz com leite, o que eles chamam de mocca e até que eu me saí bem, inclusive com elogios do instrutor. Mas infelizmente elogio não enche barriga e muito menos bolso.

terça-feira, 9 de junho de 2009

AVENTURAS LONDRINAS (22)

Mais uma data comemorativa chegou pra mim aqui em Londres. Mais um dia em que o nó da garganta aperta forte quase sufocando. Pra falar a verdade não foi a primeira vez que eu passei um aniversário fora de casa. Quando fiz quinze anos passei o dia na Universal Studios brincando com ET, King Kong, Tubarão e viajando de volta pro futuro, de modo que naquela ocasião minha mãe e meu irmão estavam comigo.

Dessa vez foi diferente, estava literalmente ilhado, isolado da minha família e dos meus amigos e exatamente por conta disso não queria deixar passar em branco, justamente para que a saudade não ocupasse todo o espaço do meu dia. Combinei com o pessoal da casa de irmos pra uma boate na segunda à noite. Até pelo fato de não pagarmos pra entrar. Eu, particularmente não gosto do tipo de musica que se toca lá nas noites de segunda, aquela coisa eletrônica, aquela batida tipo bate-estaca, mas pelo fato de eu estar comemorando meu aniversário nem liguei muito pra isso.

Claro que a meia noite, quando a galera fez a ‘surpresa’de cantar parabéns pra mim a emoção falou mais alto e a saudade me pegou desprevenido, mas passou e eu continuei a curtir até umas duas e pouco da manhã, até por que no dia seguinte uma coisa que eu não me lembro muito ter acontecido na minha vida, aconteceu. Meu aniversário sempre foi feriado, mas em Londres não existe o feriado de Tiradentes e foi um dia normal, comum, como qualquer outro, inclusive tive que ir a aula, meu segundo dia de aula no nível novo.

Na segunda, ante de sair, comprei tudo pra fazer uma boa comemoração. E na terça, depois que voltei da aula comprei aquelas coisinhas que a gente esquece e que só lembra quando precisa e comecei a preparar as coisas. Pra comer tinha cachorro quente, pão de alho e batata e pra beber refrigerantes. As meninas enrolaram beijinho e brigadeiro e eu comprei um bolo gostoso. Na verdade foram dois por que eu achei que ia faltar. Confesso que exagerei um pouco, mal de família, mas no fim deu tudo certo. Nem todas as pessoas que eu chamei vieram. Elas também têm seus afazeres. No entanto, quem veio se divertiu um pouco e comeu bem.

Os telefonemas que eu recebi também me foram surpreendentes. Minha grande amiga Joana, minha tia Tania e meus pais e irmão abalaram a minha estrutura emocional enquanto nos falávamos. Sem contar os quase setenta recados deixados no Orkut de pessoas queridas que pela distância só tinham mesmo esse caminho pra falar comigo. Sei que tiveram pessoas que lembraram também, mas não tiveram tempo de me mandar nada, entendo todo mundo. Sei que fui bem lembrado e mesmo distante acho que fui bem contactado também. É difícil e eu já percebi que isso também não e pra mim, ou seja, passar carnaval e aniversário fora de casa não é a minha praia. Por mais que no Brasil eu não faça o churrascão pro bairro todo, como meu irmão faz, e comemore mais discretamente saindo à noite com meus amigos, foi muito diferente.

Meus amigos aqui com certeza fizeram o melhor pra mim também e eu agradeço a eles por tudo que fizeram. Espero, mesmo que seja difícil, contar com eles pra outros aniversários meus e juntar todos numa grande festa, numa grande comemoração, afinal estão todos num só coração, o meu. Sei que todo esse carinho dos meus amigos e da minha família me será demonstrado quando eu pisar de volta em terras tupiniquins. Conseqüentemente eu vou sentir falta dos meus amigos daqui por mais que seja uma temporada que eu esteja passando. Enfim, agora estou mais velho e literalmente mais experiente e posso dizer que passar aniversário longe de casa, da família e dos amigos não é pra se fazer sempre. Trinta e dois anos com um balanço positivo. Claro que nem tudo são flores na vida de ninguém, mas é o cheiro delas que prevalecem por toda minha vida. Sou feliz por ser rodeado de flores e tesouros, por todos que me amam.