domingo, 9 de agosto de 2009

AVENTURAS EUROPÉIAS (4)

Aqui também pode acontecer isso. Ficamos quarenta minutos parados no meio do nada. E sem nada o que fazer. Continuei escutando meu MP3. Enfim o trem andou e finalmente chegamos em Veneza.

Sempre que eu chego em algum lugar a primeira coisa que eu faço é ir pro albergue seguindo as indicações que os próprios albergues me deram. O de Veneza ficava próximo da ponte de Rialto e eu teria que pegar um ônibus aquático até a ponte e andar um pouco até encontrar o bendito albergue. O custo desse ônibus é alto. Seis e cinqüenta. Mas, como não sabia nada fui conforme as indicações.

Claro que teve uma hora em que me perdi e pedi ajuda pra um grupo de brasileiros que passavam por mim na hora. Estava quase no albergue já mas umas três curvinhas e uns cinquenta passos e havia chegado lá. Deixei minhas coisas e fui atrás de um mercado. Quando estava pra sair do albergue encontrei mais duas brasileiras que iriam embora dali a algumas horas, ou seja, elas ainda iam rodar mais um pouco antes de partir e pelo fato de estarem mais tempo lá perguntei onde havia um mercado. Elas não sabiam. Como Veneza a primeira vista me pareceu complicada de andar, foi a única cidade em que gastei dois euros pra comprar um mapa.

Fui andando em busca de um mercado e enquanto isso tirando algumas fotos. Teve uma hora em que não agüentei e comi um pedaço de pizza e um refrigerante por quatro e vinte, pois minha última refeição foi o café da manha de Milão. Parece até brincadeira, mas foi só acabar de comer e andar mais uns cinco minutos e não é que eu encontrei o tal mercado. Fiz minhas compras suficientes pra durar o tempo em que eu estivesse por lá, ou seja. O dia seguinte por inteiro e a manha do outro que é quando eu iria embarcar pra Roma.

E pra voltar pro albergue? Era só seguir as placas indicando Rialto que eu chegava lá. O mapa mesmo não serviu pra quase nada, mas mesmo assim dei umas quatro ou cinco olhadas durante os dias em que passei lá. Veneza é muito pequena, estreita e antiga. Mas é isso que dá o charme dela, aquelas gôndolas passando por baixo de você, o transporte de tudo quanto é tipo de mercadoria e gente de toda parte do mundo, os que eles chamam de ônibus, táxi e as outras lanchas fazendo de um grande canal uma grande avenida movimentada. Os ‘carros’ de polícia, ao perseguirem algum suspeito também o fazem por lá. Eu vi uma lancha policial em disparada e com sirene ligada.

Nada mais me restava fazer em Veneza a não ser andar debaixo de um sol e consequentemente um calor que carioca adora no verão. Eu fiz questão de naquele dia em que cheguei não ir ao ponto turístico mais procurado de lá. Aliás, deixei pra ser um dos últimos lugares pra eu pisar, se não perderia toda graça e magia do lugar. Cheguei a esbarrar quase entrando na praça de São Marcos, mas não queria já de cara conhecer e resolvi que só iria lá no dia seguinte depois do que eu considerava meu almoço.

Desde quando comecei essa vida de alberguista eu tomava o café da manha, comia alguma coisa, geralmente já estocada do mercado, por volta das duas e cinco e meia da tarde e um pouco antes de dormir. O café do albergue de Milão não era lá aquelas coisas. Pão manteiga, geléia, chocolate, chá, suco e me sustentava até a minha hora de almoço. De modo que o café do albergue de Veneza não passava de um copo de suco de laranja e um croissant (o mesmo que eu comprei no mercado) no boteco debaixo do albergue. Aliás, a localização também não era das boas já que a rua era movimentada e tinha barulho de gente passando e falando até altas horas, mas como era só por duas noites relevei. E outra coisa, depois que peguei a manha de andar pelas ruas de Veneza a qualquer hora eu podia voltar pro albergue pra fazer o que eu quisesse.
AVENTURAS EUROPÉIAS (3)

Estava eu no metrô, voltando pro albergue depois de um dia andando por Milão quando dei falta da minha carteira. Eu sei que entrei com ela no vagão pois tinha colocado meu bilhete nela. E a única pessoa que podia ter passado a mão nela era um cara que aparentava ter meia idade, daqueles que tem cara de que não se suspeita nunca que poderia ter feito isso. Conferi todos os bolsos da bermuda e realmente ela não estava lá. Máquina, chave do albergue, telefone, mas a carteira não. Eu já tinha tirado o dinheiro grande, mas o cartão de credito e os do banco inglês estavam dentro dela, além de vinte euros e cinco libras.

Bateu o desespero. Começei a pedir em português pra me devolverem a carteira. Aí me dei conta de que eu tava na Itália e não sabia falar italiano. Comecei a fazer escândalo em inglês mesmo dizendo que eu fui assaltado e tinham levado minha carteira. Não sei se alguém entendeu alguma coisa. Aí virei pro homem que havia passado a mão nela e comecei a falar diretamente com ele. Ele ainda teve a cara de pau de dizer pra que eu saísse do trem e falasse com a polícia. Eu disse que não podia sair porque o meu bilhete tava dentro da carteira e implorei pra que ele me ajudasse. O metrô parou numa estação que não me lembro qual era, ele ia saindo eu fui atrás pedindo ajuda, aí ele voltava pro vagão e eu ia atrás e segurei nele que não desgrudava.

Eu sei que ele deve ter se assustado com a minha reação que jogou minha carteira no chão, apontou pra ela e só assim eu larguei dele. Ele saiu fora naquela estação e eu continuei minha viagem com a carteira salva, com tudo o que tinha. Depois uma brasileira que assistiu essa ‘briga’ veio falar comigo. E olha que as três brasileiras que eu encontrei no aeroporto me avisaram pra não confiar em ninguém. Tinha um outro velhinho que tentava ajudar as pessoas na maquininha da estação onde comprei o bilhete de Veneza, mas esse tava sendo vigiado sempre pelo guardinha de lá e nem dei bola pra ele e esse também nem tentou nada. Essa foi a minha primeira, logo no segundo dia da viagem.

O dia seguinte era o da partida pra Veneza. Acordei, tomei café, fiz o check-out e fui pra estação, tudo bem que o trem só saia ao meio dia e pouco e eu saí do albergue as dez da manha, mas fui direto pra estação a ponto de não haver nenhum contratempo e fiquei pouco mais de uma hora esperando o trem. Uns vinte minutos antes da partida fui pra plataforma e entrei no vagão indicado.

O número do meu assento era cento e poucos na segunda classe, mas o vagão que eu entrei tava muito chique pra segunda classe e eu pensei que não havia esse número no vagão. Saí do trem, mas só havia aquele vagão de número nove, portanto o meu assento tinha que estar lá dentro. Entrei pela outra porta do vagão e logo de cara o assento estava lá, esperando por mim, ao lado de uma velhinha super simpática que fazia o tempo todo sua palavra cruzada. Queria muito puxar um assunto com ela, mas eu não entendia o italiano e ela também não entendia o inglês e provavelmente o português muito menos. Meu número era corredor e só havia duas carreiras de três bancos que era justamente nas portas de entrada do vagão. É assim, você entra no vagão, passa pelo banheiro – também tem banheiro nas duas entradas do vagão - e entra na parte dos assentos propriamente dito; põe as malas no bagageiro que lembra muito os do ônibus e senta no seu banco.

E o mais engraçado é que eles ainda agem como vemos nos filmes, ou seja, tem uma hora em que o bilheteiro entra e vai conferindo e furando tíquete por tíquete de cada passageiro. Até por que o trem não vai direto, ponto a ponto, ele para em várias estações antes. Me lembro que entre elas estava Verona, terra de Romeu e Julieta, mas um pouco antes de Verona o trem parou no meio do caminho.
AVENTURAS EUROPÉIAS (2)

Meu lap é diferente do carregador do celular. Se fosse um adaptador universal seria melhor. O bilhete era na estação central e as outras duas coisas podia ser dali a três estações adiante. Como não dava mais tempo pra fazer os três, o preferencial foi pro bilhete. Fui eu encarar o metro mais uma vez, dessa vez com o mapinha que me deram no albergue. Aquele bilhete também não servia mais. Lá se foi mais um euro pra outro bilhete.

Desci na estação e fui pra maquininha comprar o bilhete do trem. O valor que eu tinha visto era de vinte e três e meio e na maquininha tava a vinte e nove. Resolvi ir pra fila comprar no balcão pra ver se era mais barato, mas tanto na Itália quanto no Brasil repartição pública tem aquela quantidade toda de guichê pra somente três atendentes. Não esperei e voltei pra maquininha e puxei meu bilhete. Paguei os vinte e nove mesmo e em dinheiro. Depois fui dar uma volta e tirar fotos dos arredores da estação. Peguei o metro novamente (não lembro se tive que pagar novamente, mas acho que sim) e desci em Duomo.

Lá tem uma igreja maravilhosa e é como se fosse a Sé de Milão. Ao lado tem a tão badalada Galeria Vitório Emanuelle e do outro lado da galeria tem o famoso Teatro Scala de Milão. Eu tinha que comer, pois não havia comido nada desde o aeroporto de Londres e tava morrendo de fome. Foi ali mesmo, na galeria que eu paguei seis euros por um pedaço de pizza, uma fatia de torta de morango e um copo de refrigerante. Caro, mas era questão de necessidade. Ainda dei uma voltinha pela praça e voltei pro albergue. Mais um passe de metrô. Ainda paguei dois euros por uma hora de internet antes de tomar um banho e dormir.

No dia seguinte acordei, tomei o café da manha e fui resolver a segunda parte das coisas. Dessa vez comprei o tíquete do metrô pro dia todo. Na estação indicada havia um centro comercial, onde eu vi o preço de uma mala descente, com rodinhas e achei um adaptador universal com o qual eu posso enfiar qualquer plug em qualquer tomada do um mundo. Quinze e meio pelo adaptador e vinte euros pela mala. Em Milão eu gastei foi é dinheiro. Voltei pro albergue, refiz a mala jogando a sacola fora e fui ao mercado começar a parte econômica da viagem. Comprei uma garrafa de água, pra azar meu, gasosa ou frizante. Mas tomei assim mesmo. Tava muito quente lá, como em todo percurso que fiz na Itália e uma garrafa só não era o suficiente. Sei que aquele mercado recebeu minha visita umas três vezes naquele dia. Até pelo fato do dia seguinte eu estar com viagem marcada pra Veneza.

Lá em Milão, nas estações do metrô tem o mapa da cidade e eu me guiava por eles pra saber onde descer e o que visitar. E é claro que o mapinha do metrô sempre ia na minha mão. Visitei algumas praças e parques. Não tinha muito o que ver e só aquele dia daria pra conhecer o principal de Milão. Fui num castelo bem bacana chamado Sforcesco (vide fotos no meu Orkut; quem não o tem pode tratando de me adicionar) onde há um mapa de Milão medieval ainda cercada pelos grandes muros, depois num parque bem legal, chamado parque Veneza onde dormi por uma meia hora num banco de praça e acabei por voltar em Duomo (também não me recordo a ordem dos fatores, sei que o produto não foi alterado e as fotos provam isso).

Mas a coisa mais inusitada aconteceu comigo enquanto eu voltava pro albergue. Sofri uma tentativa de assalto. Pode uma pessoa acostumada com a violência no Rio sofrer um assalto em pleno metrô de Milão? Agora que tudo passou é pra se morrer de rir, mas quando bateu o desespero eu quase chorei. Só não fiz isso por que não iria resolver o problema. Mas essa situação cai como uma luva na máxima ‘seria trágico se não fosse cômico`. Minutos depois eu mesmo estava morrendo de rir.
AVENTURAS EUROPÉIAS (1)

Dividi esse meu tour pela Europa em duas etapas e com direito a três paradas estratégicas. Subtende-se por parada estratégica o fato de não ter que desembolsar uma quantia de dinheiro para pouso na Holanda, Bélgica e Espanha, claro, dependendo da disposição de quem me abriga. Pra começar a turnê o país escolhido foi a Itália, depois passaria pela Alemanha até terminar a primeira parte na Holanda e lá montar a segunda parte que começaria pelo segundo ponto, ou seja, Bélgica, França, Portugal e culminaria no terceiro ponto que seria a Espanha antes de voltar pra Londres, onde encerro em definitivo essas minhas ‘férias de família’ que no total será quase um ano longe de casa.

Comecemos então pela Itália. Três cidades foram escolhidas pra serem visitadas em dez dias. Milão, Veneza e Roma. Exatamente nessa ordem. Saí de Londres no dia em que expirou o meu visto de estudante e peguei o vôo da Easy Jet pra Milão. Assim como a Ryanair, a Easy Jet é uma companhia aérea de custo baixo, no entanto, como já faz parte da aviação doméstica americana, aqui na Europa eles também cobram por tudo. O valor em si não é tão caro, o que encarece são as taxas que vêm por cima. Por exemplo: se a passagem é comprada no cartão é cobrada uma taxa de nove euros e cinqüenta centavos; se há uma mala além da bagagem de mão há outra taxa de onze euros por cada mala de porão despachada e no avião, durante o vôo, nada é servido a não ser que se pague pela comida ou bebida.

Enfim, depois de duas horas de vôo, cheguei em Milão. Na verdade por conta do fuso horário eu perdi uma hora já que na Itália é uma hora a mais que em Londres. Hora da tão temida fila da imigração. São duas filas. Uma pra quem é cidadão ou tem passaporte europeu e outra pra população do resto do mundo, que é o meu caso. Entreguei meu passaporte e logo começaram as perguntas. Se eu tava viajando sozinho, quantos dias eu ia ficar e se eu tinha parentes ou amigos lá. Pediu pra ver as passagens e as reservas dos albergues. Mostrei tudo. Ele carimbou e me devolveu o passaporte. Entrei. Agora era descobrir como fazer pra chegar no albergue.

Pra sorte minha, ao sair pelo portão do desembarque ouvi meu idioma. Havia três brasileiras esperando por alguém. Logo perguntei a elas a minha dúvida e uma delas se prontificou a me colocar dentro do ônibus que me deixava numa estação de metrô que eu teria que pegar pra descer próximo ao albergue. Pra começo de conversa quando eu desci do ônibus, mesmo com toda explicação, fui andando pro lado contrário. Vendo que não chegava nenhum buraco, perguntei em inglês onde era o metrô, que em italiano é metropolitana. Claro que depois da pergunta falei o nome em italiano e o cara me eu a indicação certa. O passe do transporte em Milão custa um euro a viagem simples e pode ser usado até setenta e cinco minutos após a validação. Como eu já tinha o do ônibus, usei o mesmo na catraca do metrô.

Pois bem, a linha que eu peguei foi a linha vermelha de modo que depois da estação Pagano ela bifurcava pra dois destinos diferentes: Bisceglie e RHO, que era o sentido que eu tinha que pegar. Conclusão: peguei pro sentido errado. A mala que eu carregava era uma sacola aproveitada de um amigo que ia jogá-la fora. Sábio foi ele de fazer isso porque a medida em que o tempo passava ela ia se desfazendo, arrebentando. Meu ombro já não agüentava mais carregar aqueles quase dezessete quilos numa alça improvisada além da mochila. Providencia urgente a ser tomada era comprar uma mala descente. Depois de desfeito o erro, desci na estação certa, novamente peguei o sentido errado da rua, mas quem tem boca vai a Milão. Cheguei no albergue, dei entrada, e fiz três perguntas básicas pro recepcionista. Onde que eu comprava o bilhete do trem pra Veneza, uma mala e o adaptador da tomada.