terça-feira, 27 de abril de 2010

AVENTURAS EUROPÉIAS (37)

No fim, já quase chegando a Salamanca, perguntei se eu poderia colocar umas músicas no lap pra tocar, pra animar mais a galera. Como elas já tinham fechado a cabine e apagado a luz pra poder descansar, aquilo praticamente virou boate com um sambão da mangueira sobre a língua portuguesa com certeza tocando, a pedido da luso carioca. O mineirinho era o único que tinha o roteiro das estações na mão. E a minha estava chegando. Eu tive que guardar tudo rapidinho pra não perder a estação. Já pensou se eu deixasse passar a estação e ficase perdido mais precisamente na Espanha?

Momentos antes, minutos antes do trem parar pra eu e mais alguém descer eu vi uma igreja iluminada, linda, toda dourada que chegava a ser reluzente. Era a catedral da cidade Me despedi rapidinho deles, tirei a mala e a mochila do compartimento e corri pra porta do trem pra sair rapidinho. Desci com tudo. Salamanca tava escrito na placa. Estava certo, não me perdi.

Olho pra um lado, pro outro e cadê o Wlad? Andei até o lado de fora da estação e cadê o Wlad? Eu tinha avisado, combinado, telefonado, mandado mensagem e cadê o Wlad? Liguei pra ele dali e avisei que estava lá já, esperando por ele. Enquanto ele não chegava procurei um lugar pra comer. Os biscoitinhos da viagem já tinham surtindo efeito, ou seja, estava morrendo de fome. Mas não achei nada pra comer. Enquanto isso, cadê o Wlad? Voltei pra porta da estação pra esperar o Wlad. Cadê o Wlad? Ah! Chegou o Wlad no seu carrinho pequeno, branco e simpático.

Não via o Wlad há alguns anos e cheguei pra passar vários dias com ele e a Ana. Já cheguei falando que estava com fome e ele já chegou dizendo que tinha uma rosca pra eu comer. Claro que rolou aquela famosa piadinha de duplo sentido. Acabei comendo a rosca do Wlad.

Não sei quem é mais maluco, se ele ou eu. Foi só eu chegar em casa que ele me avisou que eu iria ficar sozinho no apartamento dele. Ele tinha combinado com uns amigos dele de acampar num lugar lá. Até aí tudo bem. Foi ele a Ana e a Lola, uma cachorra boxer marrom, de modos que com as coisas não havia espaço pra mim. Mas tudo bem. Eu tinha acabado de chegar em Salamanca e muita coisa pra conhecer. Não iria ser apenas dois dias solitários que tiraria minha vontade de explorar aquela cidade.

Como os pseudonativos não estariam, tinha que recorrer ao meu velho companheiro de caminhada e aventuras, o MP3, pra me acompanhar. O que eu não fiz muito, já que por um pequeno problema de conexão eu não pude utilizar o meu lap top e o Wlad carinhosamente me emprestou o dele. Como o dele tinha câmera embutida, pela primeira vez depois de nove meses através dela eu consegui rever, mesmo a distância minha família e, principalmente, meu sobrinho que havia largado no Brasil com sete meses de idade e já pelo vídeo consegui vê-lo grande, em pé, andando, mexendo em tudo e começando a balbuciar os primeiros fonemas.

Esse fim de semana sozinho passei praticamente na frente do computador falando e tentando ver quem eu podia. Pelo fato de estar quente também, evitava sair de casa enquanto o sol estivesse alto. A cultura da Espanha ainda mantém a ciesta. Entre duas e cinco da tarde nada funciona. Daí também a minha decisão de sair de casa sempre depois das cinco. Eu cheguei a dar uma volta pela cidade durante a ciesta, mas nada estava aberto, só um barzinho onde eu tomei uma coca cola de garrafa de vidro. Fora isso, nenhuma loja, nada. A não ser os grandes supermercados tipo Carrefour.

Na Espanha tinha Carrefour, na França mesmo eu não sei, nem reparei se tinha, pelo menos na área de Paris que eu fiquei. Mas tanto em Potugal quanto na Espanha tinha o tal do El Corte Ingles. O de Salamanca ficava ao lado da casa do Wlad e iria ser inaugurado no fim de semana que eu já não estaria mais lá.

terça-feira, 20 de abril de 2010

AVENTURAS EUROPÉIAS (36)

O povo muito acolhedor, muito hospitaleiro e também parecido com o brasileiro. Portugal e Itália foram os dois países que achei mais parecido com o Brasil em termos de calor humano.

Tenho que dar destaque a um fato que praticamente mudou minha viagem. Durante esse período de mochileiro, principalmente quando cheguei na Holanda que tive mais tempo pra isso, conversava com minha mãe sobre a possibilidade dela se encontrar comigo pra me dar um suporte na minha reentrada em Londres. A única coisa que me dá medo nesse mundo é a imigração inglesa e por isso guardava todas as passagens de avião e trem de todos os trechos que percorri dentro da Europa pra dizer que não iria imigrar ao entrar novamente na terra da rainha.

Pois bem, àquela altura já estava tudo combinado com minha mãe e ela iria se encontrar comigo dali a algumas semanas em Madri. Numa das noites, nesse albergue em Lisboa eu encontrei uma menina que estava praticamente fazendo o mesmo que eu. Sabrina também tinha trabalhado e estudado em Londres, por coincidência na mesma escola que eu só que em horários diferentes, e estava rodando pela Europa e me deu uma dica imprenscindível sobre a questão da imigração. Por ela ter voltado pra Londres só pra ver o show do U2 e depois continuar a rodar a dica que ela me deu e que mudou um pouco os meus planos foi pra que se eu quisesse entrar lá sem passar por imigração nenhuma era só entrar por Dublin, na Irlanda.

Foi quando nos meus planos foram cortados alguns dias da Espanha e acrescentados pra essa cidade. Tentando ser mais claro. Nós iríamos ficar oito dias entre Madri e Barcelona que foi reduzido pra seis e adiamos a ida pra Londres em mais um dia do nosso previsto, ou seja, nós iríamos chegar em Madri dia quatro de setembro e de Barcelona pra Londres no dia doze,que acabou sendo transferido pro primeiro vôo do dia treze por Dublin.

Voltando pra Portugal, peguei o trem pra Salamanca. Na minha cabine entrou um garoto lá que depois descobri ser brasileiro, de Minas, que estava lá há cinco anos estudando e ia visitar uns parentes na Espanha. Ele ia ficar a duas cidades depois de Salamanca. E mais quatro meninas portuguesas que estavam indo pra Paris, onde eu estava antes de ir pra Lisboa. Na verdade, entraram três mninas e a quarta entrou na primeira estação que o trem parou que era justamente onde ficava o pavilhão de exposição, o shopping Vasco da Gama e toda aquela área que eu tinha visitado uns dias atrás. O quarto elemento do grupo ou o sexto elemento da cabine entrou e seguimos viagem parando em várias cidadezinhas. Como eu só iria chegar dali a cinco, seis horas – tinha uma diferença de fuso entre Portugal e Espanha - dividi meu tempo entre as músicas do meu MP3 e um papo com o pessoal da cabine.

Além do mineirinho, uma das portuguesas também havia morado no Brasil e estudado na PUC do Rio e falava um carioquês bastante engraçado. Elas estavam se aventurando pra França e iriam ficar quase um dia inteiro no trem. Tinha uma cidade que elas tinham que fazer baldeação pra pegar outro trem rumo a Paris. Pelo visto e pelos papos, devia ser a segunda vez que elas estavam indo pra lá.

Uma hora elas resolveram fazer um lanche e uma delas, que abriu a lata de sardinha, deixou cair aquele óleo no chão. Corre pro banheiro pra pegar água e limpar o chão com papel úmido. Esse trem era tipo latão, ou seja, a única coisa que refrescava era a abertura da janela. Não tinha ar condicionado. Aliás, esse e os trechos que fiz na Bélgica foram os únicos comboios que viajei nesse estado. Lembro que o trem teve que ficar parado alguns minutos já perto da fronteira com a Espanha pra mudar de locomotiva, não sei se por causa da potência ou do próprio país.

terça-feira, 13 de abril de 2010

AVENTURAS EUROPÉIAS (35)

Conversando sobre o pastel de Belém, havia dito que queria diferenciar o sabor daquele que estava comprando ali por que eu já tinha comido no centro da cidade, no local chamado Rossio que eu ingenuamente chamei de Róssio. Ela se escangalhou de rir e me consertou dizendo a pronúncia certa. Passada a confusão, perguntei a ela se ali também não se vendia os pastéis de Santa Clara.

Achei isso uma afronta com os turistas que vão a Portugal. Um país que entre outras coisas é conhecido pela sua famosa e tradicional cozinha não pode deixar faltar nos seus balcões um dos doces mais pedidos. Até hoje não sei o que é um pastel de santa clara, não conheço o sabor dele. Tudo bem que eu tambéms não fiz nenhum tour gastronômico. O meu esquema era outro e não sentei pra comer uma bacalhoada, por exemplo. Os bolinhos até que quando eu lembrava corria atrás, mas esses nunca estavam frescos e adormecim nas estufas, o que eu não arriscava pra comer.

Creio que aquele monumento aos descobridores nunca foi tão fotografado por uma máquina só, a minha. Passei um bom tempo, logo que cheguei vendo, angulando e fotografando aquelas estátuas todas. Na frente, no chão, existe um mapa-mundi com uma bandeira cravada em Portugal e todas as conquistas que eles fizeram nosáureos tempos emque Portugal praticamente dominou o mundo, ou pelo menos certos aspectos dele. E o Brasil tá lá, marcado em Porto Seguro em mil e quinhentos.

Na volta dei outra passeada no centro da cidade e descobri um outro terraço. Esse com vista panorâmica pra cidade mesmo. A gente até via o Tejo também, mas esse mirava mais o Castelo de São Jorge. Engraçado, quando eu era pequeno, achava que os castelos eram todos do feitio dos que a gente via nos desenhos animados da Disney, como se todos tivessem aquela torre alta. fina e comprida. Que nada, os castelos, pelo menos nas cidades que eu visitei, e que tinham castelos, eram todos feitos o que a gente aqui conhece como fortaleza. O de São Jorge, por exemplo, tinha até canhão. Baixos, rústucos e robustos esses castelos realmente são os de verdade. Os dos contos de fadas até existem também, mas a inspiração deles vem de um outro lugar onde existem poucos como aqueles.

O único lugar que eu paguei pra visitar em Lisboa foi esse castelo. Não era tão caro, só cinco euros, mas pro que sobrou dele tá muito bem conservado. Se o Brasil, descoberto pelos portugueses, tá completando quinhentos e dez anos, imagina a idade desse castelo, sem contar as guerras que poderiam destruí-lo mais ainda, além do próprio desgaste do tempo. No meu último dia por lá fiz isso. Peguei a parte que eu considerava manhã, entre o café no albergue e a primeira pausa pro lanche, e fui lá pro castelo. Já tinha passado por lá pra descobrir o caminho e o preço, mas não passei da porta. E a fila estava grande.

Como esse era meu último dia e eu já conhecia aquele centro de Lisboa com a palma da minha mão, não tinha muito o que fazer. Já tinha comprado no primeiro ou segundo dia na estação de Santa Apolonia a passagem de trem pra Salamanca, marcada pro dia seguinte as quatro da tarde. Aquele dia também dei uma volta na cidade a noite e foi quando bati minhas últiams fotos de Lisboa. A arrumação da mala eu deixei pro dia seguinte, depois do café.

Como eu iria viajar, entre o horário de saída do quarto e a hora que o trem partia tinha uma lacuna de tempo que preenchi ficando no próprio albergue selecionando as fotos pro Orkut e vendo um pouco de televisão também. Nesses intervalos em que eu ficava no albergue, dona Odete, uma das propietarias do albergue, me servia suco ou vitamina. Ela foi tão boa que só faltou me dar café na cama. Fui muito bem tratado em Lisboa. Realmente me senti em casa.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

AVENTURAS EUROPÉIAS (34)

Descansei um pouco e quatro horas depois estava de pé pra dar uma volta na cidade a noite. Desci a avenida da liberdade até o rio Tejo e lá fiquei rodando pelas ruas, desvendando, conhecendo e fotografando o centro de Lisboa. Não podia demorar muito, pois não tinha descansado o suficiente pra varar a noite e por volta da meia noite estava de volta.

No dia seguinte, café da manhãe partida rumo a um lado no mapa. Pra quem tá na praça do comércio olhando pro Tejo, a esquerda fica a parte nova construída em noventa e oito, onde tem o pavilhão de exposição e o oceanário. Até a bandeira do Brasil tava lá entre as bandeiras de quase todos os lugares do mundo. O shopping Vasco da Gama bem moderno e os prédios construídos naquela área se destacam bem da arquitetura da parte central de Lisboa. Eu até cogitei de ir a pé praquele lado, mas no meio do caminho, por achar que estava quente e que iria demorar um bom tempo pra chegar lá, resolvi pegar o ônibus e ir.

O ônibus lá na sua maioria são amarelinhos e com ar condicionado (pelo menos os que eu peguei eram assim). Estranhei um pouco o caminho que ele estava fazendo, pois sabia que o local ficava na beira do rio e cada vez que ele desviava da margem, ou eu perdia o rio de vista eu ficava tenso. Mas, pelo mapa que vi na parada de ônibus, o que peguei parava por lá. O terminal ficava numa das pontas do shopping. A outra ponta saia exatamaente onde eu estava querendo ir. Bem devagar, como eu estava mais ou menos no meio, fui pra uma ponta e depois andei pra outra.

Claro que nesse ínterim eu parei pra comer e tal, mas foi uma tarde toda passeando por ali. Voltei a tempo de sentar pra lanchar por volta das seis da tarde e ainda dei uma volta no bairro alto. Subi a pé. Tinha um elevador lá, tipo o que tem na Bahia, mas pelo visto menor tanto em tamanho quanto em altura – não conheço o da Bahia, minha referencia são fotos e vídeos – e que provavelmente pagava-se pra andar nele. Lá fui andando peãs ruas, descobrindo praças e pontos turísticos como a estátua de Camões e a de Fernando Pessoa em frente ao restaurante A Brasileira, com direito a foto e tudo.

De lá ainda circulei um pouco, encontrei um terraço panorâmico lindo, com um jardim maravilhoso e bem na hora do por do sol. Voltei pro albergue. Hora do banho, internet, baixar fotos, comer e ver televisão. No albergue de Lisboa pegava a Record Internacional, mas algumas novelas da Globo também passavam lá. Pela primeira vez eu vi o sucesso de audiência do Brasil no horário nobre. A novela “Caminho das Índias”, no ar entre janeiro e setembro do ano passado, passava no canal SIC quase a meia noite e com um atraso de alguns capítulos. Como eu não acompanhava a novela mesmo, ver aquele capítulo solto só me fez lembrar de três anos e vários amigos da minha vida, amigos que estavam trabalhando naquele produto. Depois descobri que outras duas novelas também passavam no horário vespertino. Mulheres Apaixonadas e Três Irmãs passavam no mesmo horário do nosso vale a pena ver de novo. Mas eu não fui pra Portugal pra ficar vendo novela, principalmente brasileira. Só durante as zapeadas que descobria essas coisas.

Bem, no dia seguinte desci novamente até o Tejo e dessa vez fui pra direita em direção a Belém, a Torre do Tombo, onde a chamada certidão de nascimento do Brasil que é a carta de Pero Vaz de Caminha sobre o descobrimento. Mais um lugar que se paga pra entrar e que eu não entrei. Mas também andei aquela área toda ali. Mosteiro dos Jerônimos – só entrei na igreja – Centro Cultural de Belém e a tradicionalíssima pastelaria de Belém onde a moça do caixa riu da minha cara. E olha que eu não contei nenhuma piada pra ela.