segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A RAINHA E O SACERDOTE

A idéia vinha sendo elaborada há um bom tempo, mas a concretização dela deu-se somente no primeiro domingo de junho. Minha incumbência era pra ser motorista por um dia de uma rainha. Mesmo no período em que eu vivi em Londres, onde o ar de realeza circula com mais facilidade, creio que nunca tinha estado lado a lado com uma rainha. Considerando que a expressão lado a lado seja diferente de frente a frente o ineditismo do fato é válido. Frente a frente eu já havia ficado com uma outra rainha, mas dessa vez era diferente, havia um pouco mais de convivência e de tempo pra apreciar tal nobreza.

Arranjamento já pronto, o combinado era que eu passasse para primeiro pegar a princesa, o príncipe consorte e a filha que iriam me indicar o caminho do castelo da rainha. Guiando o coche, separei um repertório condizente e que possívelmente faria gosto da família real. Talvez a única que torceria o nariz para a trilha sonora da viagem poderia ser a jovem princesa, mas acostumada com suas antecessoras também embarcou na viagem musical. Fomos em direção ao castelo da rainha. Não era um lugar inacessível, mas por ficar no alto a dificuldade era um pouco maior.

Princesas morando em Niterói e rainha no alto do Corte do Cantagalo, entre Lagoa e Copacabana, pelo caminho que me foi indicado rapidamente chegamos lá. A partir daquele momento tudo girava mais ainda em torno da rainha. Elegantemente vestida, ela entra no coche e pegamos a via de volta para Niterói, pois tínhamos que passar por aqui para seguir viagem até Saquarema. Sim, Saquarema. A rainha iria entrar no Templo pela primeira vez depois de pouco mais de cinco anos. Apesar de se falarem sempre, esse tipo de encontro é muito raro de acontecer e eu tive a sorte de ser um pouco responsável e de participar disso tudo.

Chegando ao Templo, o sacerdote nos recebeu na porta e, como ele faz com todos os fiéis que o procura, abriu a porta do seu sacrosanto e profano lar pra nos receber. Antes mesmo de a rainha sair do coche, o sacerdote já entregou uma flor colhida ali na hora do seu jardim. Reverências de boas vidas a rainha a parte, entramos. Fiuk, Joelma e Elis, guardiões caninos do Templo, também ficaram em polvorosa com tanta gente que tinha chegado num só momento. O sacerdote começou mostrando a parte externa do Templo, seu jardim e seu quintal, a piscina com fonte improvizada e suas plantas e árvores. Até que a porta principal foi aberta e finalmente a rainha entrou no templo.

Tanto ela como a corte que a acompanhava ficou admirando todo o acervo preservado e exposto nas paredes do templo pelo sacerdote. Apesar da rainha ser de um gênero e o sacerdote e o Templo guardarem outro tipo de acervo, é mesmo admirável o que se faz e se tem lá. Realmente é de deixar qualquer um de queixo caído. Após toda mostragem tanto do acervo quanto da disposição dos cômodos do Templo, o banquete foi pedido e enquanto isso o mezanino superior foi tomado para exibição de imagens de idolatria tanto da rainha quanto do sacerdote. Nesse ínterim o banquete chegou e eu fiquei na cozinha preparando e arrumando a comida para a família real e para o sacerdote, fazendo vias de criadagem. O banquete estava farto e consistia em quatro pizzas e um vasilhame de empadas de camarão além de quatro garrafas de coca-cola. A rainha se fastiou apenas com dois pedaços de pizza e duas empadinhas e, das quatro pizzas encomendadas, ainda sobraram duas inteiras. Pouco mais de três horas foram suficientes para que sacerdote e família real se deleitassem entre histórias, casos, lembranças e confissões.

Por mais que pareça um conto de fadas, essa história é verídica. Nomeando personagens: o sacerdote é o Serguei e a rainha é a do chorinho, Ademilde Fonseca.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

VIVER É RECORDAR

Há pouco mais de um ano atrás, estreava um canal dentre o conglomerado deles que ficam a cargo da Globosat, chamado ‘Viva’. Esse canal tem como objetivo ser um eterno vale a pena ver de novo. Novelas e programas antigos, e alguns atuais com um delei pequeno entre a exibição original e a reprise nesse canal, preenchem a grade de programação.

Alguns realmente valem a pena serem revistos, principalmente os programas de humor que, até então ocupam as faixas de horário dos sábados a tarde e a noite. Programas como Tv Pirata, um marco do humor na TV brasileira, ser exibido vinte anos depois, onde não havia tanta patrulha ideológica, tanto politicamente correto como tem hoje e com um distanciamento não deixa de ser uma aula de história, já que se trata do recorte de uma época. Isso pode ser visto não só nos programas de TV, mas na moda e nos modismos que estavam incutidas e expostas nas próprias novelas reprisadas.

Foi público e notório o sucesso estrondoso, atingindo altos índices de ibope, da novela “Vale Tudo” sucesso de Gilberto Braga. Novamente Odete Roitman mostrou ao mundo a que veio e novamente tanta maldade foi rompida com seu assassinato. Se percebe uma nítida diferença entre as novelas de ontem e de hoje. Além da tecnologia que evolui constantemente, a novela de antigamente era melhor trabalhada no sentido de se fazer uma cena. Atualmente a linguagem do vídeo clipe, rápida, ágil, frenética invadiu e tomou conta dos folhetins. E o mais legal disso tudo é que a gente percebe quando o que a gente vê hoje não passava de vários experimentos, além de certa ousadia que dominou por um tempo as tramas, as investidas certas em alguns temas e assuntos.

Além de “Vale Tudo”, já passaram pelo canal “Por Amor”, “Quatro por Quatro”, “O Rei do Gado”, “Anos Douados”, “Anos Rebeldes” entre outras, mas uma que eu procurava acompanhar, talvez a minha preferida, era “Vamp”. Engraçado que por eu ter arquivado 98% dos textos que eu postei nesse blog, me lembro nitidamente que no primeiro, no texto inaugural dessa forma que faço há anos, cheguei a mencionar essa novela por conta de uma música que tocava muito nela. Não posso precisar o que vou falar, mas acho que “Vamp” foi a primeira novela cuja trilha sonora criou um disco a mais, o que hoje é normal apesar de não ser comum. Dentro da trama, foi criada uma tal rádio comunitária chamada de Corsário e esse terceiro disco nada mais era que as músicas que tocavam na rádio. Que eu me lembre agora, “Vamp” e “Tieta” foram as novelas que eu tinha a trilha sonora completa, e olha que eu era mestre em comprar disco de trilha sonora de novela, mania que com o surgimento do CD na minha vida raramente o faço.

Além de uma trama leve, principalmente para os padrões atuais, e de uma história que apesar de tratar sobre seres malévolos, sombrios e sanguinários, mostrava uma outra faceta, explorando mais o lado cômico e lúdico, a etena luta do bem contra o mal eram nitidamente personalizados no protagonista e antagonista da história. Assisti essa novela na época em que foi originalmente exibida. Essas e algumas outras que marcaram minha infância e adolescência e que agora pode ser que eu tenha a oportunidade de rever ao menos alguns trechos.

Me lembro com muita saudade de “Vamp”. Era uma novela que eu gostava de ver. Não só eu como boa parte dos meus amigos na época. Agora, com esse canal, a Tv Globo pode tirar toda a poeira do seu material de arquivo e fazer do “Canal Viva” seu verdadeiro museu áudio-visual deixando em exposição um grande e belo acervo de novelas, minisséries, especiais, temporadas de série, programas de um modo geral que agora se tornaram atemporal e não mais factual, com uma exibição e provavelmente apenas uma reprise e fica por isso só. Liberdade pra viver e recordar.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

MELÔ DO EXÉRCITO GAÚCHO

Algum tempo atrás, circulou uma notícia de que um grupo de soldados de um quartel do Rio Grande do Sul, todos em serviço e uniformizados debocharam do hino nacional brasileiro quando perfilados e escutavam a música até que o ritmo mudasse e se tornasse um funk e todos começassem a dançar descontroladamente. Noticiado por vários veículos de comunicação que mostraram o vídeo que caiu na rede e se tornou por instantes bastante polêmico dividindo a opinião pública entre culpados e inocentes os soldados que fizeram isso.

Não quero aqui condenar o inocentar ninguém, só vou expressar a minha opinião. Achei altamente desnecessário aquela atitude. Se eles estão arregimentados em um quartel do exército, prestando serviço, existe uma norma de conduta a ser seguida como acontece em qualquer empresa e inclusive na sociedade de um modo geral. Se aquilo fosse feito num churrasco entre os amigos ou numa reunião de família, no mesmo tom de brincadeira que fizeram no quartel, talvez a repercussão fosse mínima ou nenhuma a ponto de ganhar um destaque na imprensa nacional. Ao ser executado em algum tipo de competição, uma tia minha, onde quer que ela esteja, fica de pé põe a mão no coração e canta junto com os atletas, que nem sempre sabem a letra completa do hino. Não acho que seja falta de respeito transformar a harmonia do hino nacional.

Me lembro da Fafá de Belem cantando na época dos comícios das Diretas Já, mas creio que a norma, a conduta diz que pra eventos oficiais, solenidades, deve ser executado o hino na sua forma original. Já escutei uma gravação do hino também na voz de Vicente Celestino, gravação da década de quarenta.

Se tem um ritmo que eu não gosto é o funk, ao contrário do meu irmão que adora. Quer dizer, o ritmo em si e o funk como um movimento que propõe um olhar diferente para a periferia e/ou favelas coforme no início, na década de 70 e liderados por artistas como James Brown nos Estados Unidos, e tendo como um de seus representantes no Brasil o também legendário Tim Maia eu apóio e tiro o meu chapéu. Acontece que do modo como as coisas andam, pro caminho que ele, o funk, foi levado, me fez cada vez mais detestar e odiar esse tipo de música. Ainda as periferias e/ou favelas se fazem ouvir através desse ritmo, mas a base musical do funk, pelo menos aqui no Rio é a mesma, ou seja, a batida é aquela coisa sempre chata e enjoada e as letras são as de piores gosto possíveis, na sua maioria estimulando o sexo ou fazendo menção a algum tipo de violência – os tais proibidões.

Por causa disso, que já é motivo suficiente, não é uma música que me agrade e que eu consuma e, por conta das letras que só visam os lados mais primórdios do ser humano, faço questão de levantar bandeira contra. Confesso que no início do tal Funk Brasil, no início da década de 90 eu até gostava de alguns e tenho três na minha lista de músicas baixadas em MP3. Melô do Bebado, Melô da Mulher Feia e Melô de Acari, além de uma que a Dercy Gonçalves canta em resposta ao Rock das Aranhas do Raul Seixas. Essas eram letras mais bem estruturadas e bastante engraçadas, mas depois foi tomando outra forma mais abominável e repudiosa possível.

Mas esse vídeo me fez pensar em uma coisa. Se é através do funk que a “cultura” chega nas regiões da periferia, por que não transformar outras músicas em funk. Acho que assim a visão de mundo pra quem não tem acesso a ela vai ser aos poucos transformada, outros artistas serão redescobertos e revisitados e, melhorando a cultura, um efeito dominó pode ser desencadeado e outros setores, como a educação, podem até melhorar junto. Que esse polêmico hino nacional se mantenha nesse ritmo, no entanto que seja cantado e não somente instrumental; seja e executado nas rádios mais populares para que todos ouçam e aprendam a realmente cantar o hino nacional.
ONTEM, HOJE E SEMPRE

Rio de Janeiro, domingo dia vinte e dois de maio de dois mil e onze. Nesse dia aconteceu o último dia do viradão carioca. Esse tipo de evento começou há uns seis anos em São Paulo, onde vários shows e atrações culturais se espalharam pela cidade e levaram, principalmente para a população que não tem acesso a esse tipo de evento, a possibilidade de participarem de um evento cultural.

No Rio, essa mesma idéia já vem sendo executada há três anos. Diferença entre as duas é que a de São Paulo faz mais juz ao nome, virando a noite litralmente e acontece durante vinte e quatro horas. Já o modo como é feito no Rio consiste em três dias de shows e apresentações entre cinco da tarde e meia noite, sem que a madrugada seja propriamente atingida. Dessa vez, no Rio, as atrações foram em três lugares: Realengo, Quinta da Boa Vista, e pela primeira vez resgataram a lona no ponto de partida do Circo Voador, no Arpoador.

Trinta anos atrás, antes de pousar definitivamente na Lapa, o Circo estava armado ali no finalzinho de Ipanema e dava a oportunidade de bandas e artistas novos, que na época só buscavam seu espaço ao sol e hoje são nomes que representam uma geração. Paralamas do Sucesso, Kid Abelha e Blitz foram algumas dessas bandas que entre idas e vindas, até hoje seguem sua estrada iniciada lá naquele cantinho da praia. Para celebrar os trinta anos do Circo Voador, esse ano a lona foi remontada ali e alguns dos artistasquese apresentavam na época, como bons filhos, retornaram à casa. Uma dessas bandas foi a Blitz.

Saí de casa exclusivamente para assistir ao show deles, que embalam minha vida com os sucessos do início da década de oitenta e volta e meia pincelam músicas novas mantendo a sátira e o bom humor característicos da banda. Claro que não é a formação original. Fernanda Abreu, umas das backing vocals original, está a anos em carreira solo e se sustenta com o seu próprio trabalho. O show em si, apesar de ser curto por ter vários artistas se apresentando, foi muito bom. E várias gerações estavam lá assistindo a banda se apresentar. Filhos, pais e até avôs curtiam o som que há trinta anos atrás era novidade. Mas, como o próprio Evandro Mesquita, líder e vocalista da Blitz, falou em alto e bom som, música boa não tem idade, ou seja, é atemporal. Do mesmo modo que as pessoas há trinta anos atrás, naquele mesmo lugar, cantavam músicas como “Geme-Geme” com um frescor e uma energia , nós também estávamos lá com esse mesmo frescor e energia cantando a mesma música.

Ainda de acordo com o líder da banda, a disposição do palco estava diferente. Mas tudo era diferente, inclusive o sistema de áudio, que, comparado com o de hoje em dia, é jurássico, mas não menos importante pra evoluir e chegar ao patamar onde estamos hoje, em se tratando de tecnologia. É fato que o novo sempre vem, que o mundo evolui, mas é sempre bom relembrar, afinal, sábio é o dito popular quando fala que “recordar é viver.”

Rio de Janeiro, domingo dia vinte e dois de maio de dois mil e onze. Nesse dia aconteceu o primeiro dia da apresentação de Sir Paul McCartney no estádio do Engenhão. Depois de passar por São Paulo e Porto Alegre no ano passado, esse ano o Rio teve exclusividade para com o show do ex-Beatle que, somados os anos com o grupo, são quase cinqüenta anos de composições maravilhosas que também passam de geração para geração. Ao contrário da Blitz, que eu vi surgir, Paul McCartney já havia consolidado uma carreira solo quando eu nasci e, mesmo assim, quando eu comecei a me abrir para sons novos que não os voltados para criança, na minha descoberta do rock e dos jeitos que são feitos e tocados esse ritmo que nunca sai de moda, os Beatles são imprencindíveis e indispensáveis para qualquer discoteca, assim como Blitz e outros.