segunda-feira, 23 de abril de 2012

AVENTURAS LONDRINAS 2 (8)

Então ele resolveu adiantar umas coisas que ele tinha pra fazer e aproveitou pra descansar na própria cama. Fez ele muito bem. A nossa cama é a melhor mesmo. Eu já estava acostumado com a minha e a que ele dormiu me limitava, já que eu sou bem maior que ele e a tal cama era como se fosse um sofá, ou seja, tinha uma espécie de encosto e braços, o que limitava o espaço.

Enfim, nos encontramos pra almoçar e fomos a um restaurante italiano bem perto do hotel com a tia Rita, tia dele, mãe da Ana, prima dele que estava chegando de viagem. Tinha ido à Grécia com o namorado francês e tinham passado aquele fim de semana passeando. Na verdade ela tinha chegado de madrugada, mas ainda estava se recuperando, botando o sono em dia. Eu fiz o mesmo quando cheguei.

Depois do almoço fomos novamente dar uma volta de bicicleta na cidade. Eu sempre seguindo o Airton que sempre seguia o seu I Phone com o mapinha dos lugares de deposito das bicicletas, caso se aproximasse a meia hora limite e o GPS pra que ele não se perdesse. Fomos parar perto de uma estação de metrô, não me lembro exatamente se Goodge ou Warren Street. Se olhar no mapa fica uma do lado da outra e na mesma linha, a Northen Line. Mas aquele lugar me lembrou uma das nossas primeiras aventuras. Assim que a gente se conheceu a gente tinha mania de pegar um ônibus qualquer só pra ver aonde ele ia. Quando a gente enjoava, pegava ou o mesmo no caminho de volta ou outro qualquer. E aquele lugar ali foi um dos primeiros, se não o primeiro, pelo qual a gente passou dentro de um ônibus perdido daqueles. Por esse motivo está bem gravado na minha memória. Não lembro se na hora comentei isso com o Airton, mas enfim, esse foi o fato.

Esse dia foi o que ele ficou mais irritado. Pela manhã, uma das coisas que ele fez foi cortar o cabelo. E por mais que ele tenha dito que não queria o cabelo curto, e por menos curto que o cara lá tinha cortado, não agradou a ele que além de irritado ficou um pouco deprimido. Um pouco não, bastante. Eu também sou assim. A única pessoa que eu sabia que ia fazer um bom trabalho era o Paulo que não estava lá em Londres. De resto, preciso de uns dez dias pra que me aceite e me conforme com o corte, seja ele qual for e seja qualquer um que tenha cortado. Ele ficou esbravejando sobre isso o dia inteiro. Soltando fogo pelas ventas.

Não podíamos nos estender muito porque ele ainda tinha que trabalhar naquela noite. Estava dando plantão também nas noites de domingo até a Ana voltar de viagem. Apesar de ela já ter voltado, ainda não estava em condições físicas de encarar uma noite de trabalho. Queríamos tomar um café lá na área que estávamos, mas pelo avançado da hora e pela queda de luz, pois lá à noite você é obrigado a equipar a bicicleta com luzes ou, se for pego pela fiscalização, toma um multa e acho que ele não tinha levado o pequeno farol que volta e meia acoplava no guidão. Acabou que ele resolveu tomar esse café perto do hotel mesmo. Ou melhor, ligou para a Mariana e o Danny e combinou de fazer um lanche no quarto que ele tem reservado pra ele descansar durante a noite, inclusive pra ver se ele se animava um pouco. Não deu muito certo, mas a reunião tava feita. Geralmente é o quarto de número seis, cuja porta fica do lado da recepção, mas não sei se por precaução a gente teve que subir pro quarto de número nove. Eu também tinha feito umas compras pra mim. Aquelas coisas básicas como água, suco, leite e alguma coisa pra biliscar ou doce, como um cheesecake, ou salgada como um biscoito, uma batata, um pão ou um chocolate kit kat fingers agora com a novidade da versão dark, ou seja, com chocolate meio amargo. Mas em termos de chocolate eu ainda estava atrás de outro. E esse caso vem um pouco mais pra frente.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

AVENTURAS LONDRINAS 2 (7) Comida japonesa é uma coisa que me apetece bem. E ao Airton também. Então fomos ao restaurante japonês e pedimos uns combinados para comer. Logo de cara eles sevem um copo de chá verde enquanto se espera a comida. Nada contra chá. Gosto. Tomo bastante, principalmente depois da minha primeira temporada em Londres. Só me incomoda um pouco o fato deles tomarem o chá sem açúcar. Não vejo graça. Pelo menos uma colherzinha de açúcar pra adoçar, mas como é a cultura deles, tanto dos ingleses como pelo visto também dos japoneses, a gente respeita. O Danny já tinha se desvencilhado da gente e estávamos decidindo o que fazer nas próximas horas, mas antes de qualquer coisa tínhamos que comer. O Airton estava querendo ir num club freak, um lugar onde, segundo ele tinha visto numa reportagem, as mesas custavam cinco mil libras e só ia celebridade, de modo que se ficasse na porta esperando e o sujeitinho que fica lá na porta fosse com a sua cara, depois de chegado o público pagante, ele até poderia fazer com que você entrasse. Essa cena acontece também num filme que eu já vi chamado “Studio 54” que conta mais ou menos a história de uma boate famosa em Nova Yorque também com essas características. Enfim, como eu também procurava por novidades nessa minha incursão, concordei em ir com ele pra tentar entrar na tal boate da moda. Ainda segundo o Airton, as apresentações de lá são bem bizarras com umas performances altamente estranhas e chocantes. Talvez por isso seja tão cara, tão atraente e tão na moda, por enquanto. Não custava nada ficar lá por meia hora tentando parecer simpático pro carinha da porta falar “Vocês ai, podem entrar.” Meia hora, pensei eu, passa rápido. Essa meia hora se transformou em duas. Eu sinceramente não sei o que eu estava fazendo ali por tanto tempo. Em meia hora o sujeito já sabia que estávamos ali e que não tínhamos convites. Tudo bem, pelo entra e sai do sujeito na casa pra verificar as mesas vagas, saber se tem lugar ou não, meia hora não seria tempo suficiente, mas uma hora já era um tempo razoável. Agora, ficar ali, em pé, parado por duas horas não é pra qualquer um não. Tem que ter muita paciência. Eu no final já estava praticamente dormindo em pé encostado lá no muro. E o pior não foi isso. O sujeitinho lá da porta disse uma certa hora lá que não nos deixaria entrar, mas mesmo assim o Airton resolveu insistir e ficar por mais um tempo até que pela segunda vez o cara disse não. Conclusão: poderíamos ter feito outra coisa, curtir outros lugares ao invés de perdermos parte da noite tentando entrar num dos lugareas mais caros e badalados da cidade onde não é qualquer um que entra. E ali nós éramos qualquer um, ou melhor, nos sentimos como se fossemos qualquer um. Nem vi celebridade nenhuma entrando, nenhum ator de Hollywood, ou mesmo os locais mais conhecidos. Ainda rodamos um pouco pelo bairro boêmio em que estávamos, mas pelo avançado da hora e pelo cansaço, pelo menos o meu, não estava em condições de me animar pra entrar em nenhum outro lugar. Não sei se por pena de mim, comodidade ou rapidez, o Airton resolveu chamar outro taxi pra voltar pra casa. O taxi, a ópera e a espera na fila foram tudo novidade pra mim. Essa última não tão agradável. Nunca tinha estado numa fila por duas horas com uma finalidade que não tinha sido cumprida. Isso não atrapalhou em nada, ou tirou a graciosidade que foi ter passado aquele dia. Como disse Fernando Pessoa “Tudo vale a pena se a alma não é pequena.” Voltamos pro hotel. Airton resolveu dormir lá no quarto comigo ao invés da gente ir pra casa dele. O cansaço tinha batido nele também. No domingo quando eu acordei não vi o Airton do meu lado. Ele já tinha saído. Segundo ele a cama em que dormiu o incomodou e não o fez relexar e descansar.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

AVENTURAS LONDRINAS 2 (6) Pontualidade britânica é bem famosa. E mesmo com tudo o que pode acontecer em termos de transportes numa grande cidade eles conseguiram se adaptar a esse trâmite todo. Acho que eles quando saem de casa contam com tudo o que pode acontecer no caminho. A gente ainda não chegou a esse ponto de modo que o atraso faz parte dos nossos compromissos. Mesmo cinco minutos depois do espetáculo começado é considerado um atraso. O que mais me deixou aliviado é que teve gente que se atrasou ainda mais e chegou depois de mim sentando na fileira atrás de mim que provavelmente deveria estar reservado pros atrasadinhos. Me lembro que a gente sentou na mesma fila, só que no lado oposto ao reservado e fomos pegando o gancho da ópera. Chamada “O Passageiro” conta a história de um casal de prisioneiros do campo de concentração nazista que se separa por conta disso e cada um canta sua parte da história de amor até que por uma coincidência do destino os dois se reencontram no porão de um navio na preparação de uma festa para o comandante da embarcação e todos os conflitos que esse reencontro poderia provocar com a intervenção dos oficiais nazistas e tudo. Um história realmente interessante e melhor entendida na segunda parte. Foi uma hora de exibição até chegar o momento do intervalo. Nos levantamos e fomos pro outro lado da fila, onde nossos assentos estavam marcados e pra encontrar com o Danny. Foi nessa situação que eu me encontrei com o outro melhor amigo do Airton. Fomos ao banheiro e depois tomamos um sorvete antes de voltarmos pros nossos lugares e assistir a segunda parte da ópera. Ao abrir o pano eu e o Airton nos demos conta de que em cima da cortina havia um painel onde as falas que eles cantavam apareciam escritas, ou seja, davapra compreender melhor o que els estavam cantando, Tudo em inglês, mas cantado em forma de ópera de vez em quando eu pelo menos não conseguia entender alguma coisa do que eles estavam cantando. Com a legenda já me facilitou bem. Engraçado que quando o Airton me disse que íamos a uma ópera eu pensei imediatamente que seria uma clássica, tipo Carmem, Ainda ou O Barbeiro de Sevilha, mas não uma contemporânea e de língua nativa. Eu adorei a ópera e todo o glamour que paira no entorno de uma. O teatro então é uma coisa magnífica. E eu tenho quase certeza de que pouco antes de ir pra Londres vi em um canal a cabo um vídeo do Cirque de Soleil se apresentando naquele mesmo teatro. Reconheci pelo fosso em que a orquestra estava alocada e tocando divinamente bem. Enfim, se não foi aquele foi um muito parecido. No fim da ópera uma curiosidade. Ninguém se levantava pra aplaudir o agradecimento que também era coreografado. Cultura deles. Claro que teve uma meia dúzia que levantou, pelo menos no setor que eu estava, lá em cima. Eu fiquei sem saber o que fazer, mas no fim me levantei também. Tô acostumado a fazer isso. Mas eles mesmos não fazem. São contidos até nos aplausos. Enquanto saíamos do teatro conversávamos nós três. O Danny é um amor de pessoa. Diferente do espivetado Pawel, a doçura do Danny é nítidamente notada desde o primeiro contato, ao contrário do Pawel que chega tímido, mas depois acredita e confia na amizade. Uma coisa meio que mineira. O Danny por ser inglês é mais metódico, mas não menos doce. Assistimos a segunda parte da ópera juntos e de lá saímos conversando sobre. Queria tirar algumas dúvidas sobre o espetáculo e por ele ser ator profissional me esclareceu tudo. Fomos andando e conversando. Ele estava meio cansado e não quis nos acompanhar na aventura que estava por vir. O acompanhamos até a entrada do metrô e nos despedimos. De qualquer modo, antes de mais nada tínhamos que comer. Rodando ali pela área da Leicester Square, decidimos jantar num restaurante japonês.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

AVENTURAS LONDRINAS 2 (5)

De lá fomos até o posto mais perto onde as bicicletas públicas ficam paradas. O mesmo esquema foi feto. O Airton com a dele, o Pawel eu com a pública. No meu caso o Airton com o acesso dele tirou uma pra eu usar. E fomos andando, singrando os caminhos londrinos, cortando ruas e avenidas. Fomos até o parque que é uma espécie de mirante da cidade de Londres, e um dos meus preferidos, o Primrose Hill.

Foi um longo e bom caminho de bicicleta, ladeando os canais e com um clima agradável, sol e até calor devido ao exercício de pedalar. Esse dia foi um ineditismo total. Nunca tinha andado de bicicleta nas ruas de Londres. Paramos num ponto para não ultrapassar o tempo estipulado de meia hora. Aproveitei pra comprar uma água no mercado em frente. Voltamos a pegar as bicicletas e retomamos nosso rumo. Paramos próximo ao parque e ficamos por lá durante um bom tempo. Airton, eu e Pawel nos divertimos muito aquele dia.

Durante o dia, o Airton estava em negociações com o Danny, outro grande amigo dele que eu estava prestes a conhecer, para fazer algo durante a noite. Sei que o Airton ficou um pouco sem chão quando deixei Londres pela primeira vez, afinal a gente se apoiava muito um no outro e não é de se esperar outra coisa, mas dois meses depois ele conheceu o Danny que foi quem meio que me substituiu. O Danny confirmou uma Ópera e marcou um horário pra nos encontrar. Mais um ineditismo na minha vida, mas vamos voltar ao passeio de bicicleta. O dia ainda estava correndo, e nós correndo, na medida do possível, contra o tempo, já que tínhamos algo pra fazer a noite.

O Pawel também tinha compromisso com a família e em uma determinada hora ele teve que se desvencilhar da gente e tomar o rumo dele. Foi quando a gente teve que voltar a pé até o ponto de onde a bicicleta do Airton estava amarrada e de lá pegar o caminho de volta pra casa. Pra variar, pegamos o onibus errado, o que nos fez atrasar mais ainda, pois ainda tínhamos que nos arrumar pra ir a ópera.

Finalmente chegamos ao ponto e de lá pegamos a bicicleta pra voltar. Parte da minha roupa estava na casa do Airton e parte no hotel. Como ópera requisitava uma roupa mais condizente, ele foi se arrumar em casa e eu no hotel. Só pelo fato da roupa estar no hotel que nos desvencilhamos, mas ficamos em contato por telefone o tempo todo. Ele me deixou na porta do hotel e foi pra casa. Óbvio que ele se atrasou. Hora, cronometro ou tudo que marque o tempo não encaixa na personalidade dele. O Airton tem um tempo diferente do nosso. Ele sempre foi assim desde quando eu o conheci. A ópera estava marcada para as sete e meia da noite e ele tinha combinado com o Danny de chegar uns quinze minutos antes. Pelo fato de estarmos muito atrasados ele me ligou pedindo pra que eu fosse andando pra uma esquina perto do hotel que ele ia passar de taxi lá pra me pegar.

Taxi. E em Londres. Por mais que aqueles tradicionais carrinhos pretos passassem constantemente por mim nas ruas, nunca tinha entrado em um. Esse realmente foi o dia do ineditismo pra mim. Além de ter passado o dia todo andando de bicicleta, peguei um taxi e fui assistir a uma ópera. E tudo isso em Londres, no primeiro sábado que passei lá depois de dois anos longe. Puto da vida, mesmo sabendo que isso iria acontecer, o Danny mandou um torpedo pro Airton dizendo que os nossos convites estavam na portaria e que ele já iria se encaminhar pro assento dele, pois o espetáculo já estava a ponto de começar e a gente ainda não tinha chegado.

Transito é transito em qualquer cidade grande, e por mais que o taxi seria o meio de transporte mais rápido pra gente, impossível chegar no horário. Todo o esforço ficou atrasado cinco minutos do início da apresentação, de modo que pelo espetáculo já ter começado tivemos que sentar em outro lugar até a hora do intervalo.