segunda-feira, 22 de abril de 2013

‘XÔ PERERECA’


‘XÔ PERERECA’

Alguns meses atrás meu sobrinho estava no meu quarto brincando com a bolinha perereca dele e que caiu por trás do meu armário, que é grande, pesado, ocupa uma parede praticamente toda e impossível de arredá-lo por conta de uma bolinha perereca. Depois de pouco mais de um ano esse foi o primeiro objeto a cair nesse buraco negro que é o vão entre os fundos do meu armário e a parede do quarto. Acho que ele aprendeu a lição pela carinha que ele fez quando descobriu que a bola tinha caído lá. Mas ele jogou a bolinha no chão com tanta força, que ela bateu no teto antes de bater no tampo do armário e rolar pra trás dele.

Meu sobrinho tem quase cinco anos e ta bem naquela faze da inconsequência inconsciente. Por mais que a gente fale, ele ainda tenta, insiste em fazer coisas sem pensar nas conseqüências. Simplesmente faz. Eu vi que ele estava jogando a bolinha dele, mas não  com a força e nem na direção que ele jogou e acabou acontecendo o previsível imprevisto. Quando a gente é criança, principalmente nessa fase que ele se encontra, é mais do que normal de se fazer coisas sem pensar nas conseqüências, de certa forma bem inocente bem na base do aprendizado mesmo. Mesmo que nós, os mais velhos e experientes passamos pra eles o que é bom e o que é ruim, o que pode e o que não pode fazer, a curiosidade genuína da criança a leva a fazer essas travessuras e estripulias sem pensar no que aquilo pode causar.

Logo logo ele vai passar por outra fase que todos nós passamos também que é a adolescência. Essa fase é da inconsequência consciente.  Gente já sabe o que é certo, o que é errado e mesmo assim nos sentimos os super heróis e tentamos superar os nossos próprios limites. Até mesmo por uma questão de auto afirmação, pra se mostrar pra turma de amigos. Quem é que sempre diz que nunca mais vai beber desde que sentiu a primeira ressaca e dias depois está de novo junto com os amigos bebendo novamente? Isso sem contar os mais ousados, que saem dessa normalidade.

Daí vem a maturidade, que é a fase que eu me encaixo perfeitamente. Na metade da minha quarta década de vida (pelas contas a primeira é entre zero e dez anos, de modo que metade da primeira década seria cinco anos; da segunda, quinze e assim por diante) sou um conseqüente consciente. Ou seja, todos os atos e atitudes que tomo e que certamente tem uma conseqüência, são na sua quase totalidade calculadas. Claro que uma ou outra fogem do controle, mas nada que não seja contornável. É nessa fase que você, pelo menos isso tem acontecido comigo, está mais seletivo, pensa duas vezes, vê se realmente vale a pena executar algumas idéias. Já parte pra análise de custo benefício, de investimento, de tempo perdido. Tudo é levado em consideração. O espírito aventureiro da adolescência está cansado de entrar em furadas, de tomar decisões repentinas e erradas.

A bolinha perereca do meu sobrinho me fez pensar em quantas ele ainda vai perder sem querer, quantas vai perder sem pensar em perder e quantas ele vai cuidar de verdade pra que não perca. Isso é natural do ser humano, pelo menos no que diz respeito a nossa criação latina e passional. Eu não tenho ideia de como é a criação de um americano ou europeu nesse sentido, mas pode ser que se aproxime bastante. Mesmo o filho da minha prima sendo americano, ele é criado por ela. Algumas histórias do marido dela, ou das que vemos em filme me fazem ter essa dúvida.

Ainda tô pensando se vou arredar meu armário e dar um ‘xô perereca’ pra bolinha dele a fim de devolvê-la. Além de estar cada vez mais me aproximando da fase da consciência inconsequente que é justamente a fase que aparecem as dores de tanto a gente mal utilizar nosso organismo durante a vida, pode ser que um outro dia ela volte pra lá. Ou não.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

“ROUND AND ROUND”


“ROUND AND ROUND”

Ás vezes me acho nostálgico. Aí, li no mini Aurélio que tenho de trocentos anos atrás que o nostálgico se refere a saudades da pátria. Se eu pegar por um viés, sim, sou nostálgico. E a pátria em questão é a Grã-Bretanha. Mais especificamente a cidade de Londres, já que essa foi a minha escolha.
Ás vezes me pego saudosista. Com saudades de um tempo único onde aconteceram coisas únicas  que por mais que parecessem efêmeras, estarão eternamente guardadas na minha memória. Não sei se só eu tive essa sensação, mas em Londres, estando do jeito que estive, ficando como eu fiquei, tudo é muito intenso, muito vivido, muito rápido. Tudo é muito.
Caetano Veloso, na sua genialidade, mostrou em uma canção um aspecto da Londres do início da década de setenta que eu, desde a primeira vez que pus os pés lá senti também. Londres também é o que se ouve na música “London London” – que eu escutava muito nas minhas andanças por aqueles parques - , mas também é muito mais do que aquilo. Talvez ele não tenha visto ou vivenciado ou querido ter feito pela situação que se encontrava, exilado. Ele foi por pressão, eu fui por que quis.
A minha Londres tem um ar bucólico de cidade grande, com pessoas indo e vindo o tempo todo, ávidos de uma pressa britânica. Todos os momentos foram legais, tudo foi bacana, mas não vai se repetir. Vão-se as pessoas e ficam as histórias. E quando a oportunidade nos faz reencontrar com as pessoas as histórias voltam a tona. Recordar é viver e reviver o que passamos em Londres é divertido e prazeroso. Não há nada mais presente do que o passado.
Dizem que quando há uma catástrofe, as pessoas se tornam mais solidárias. Nós estávamos numa catástrofe, sendo abalados por furacões e terremotos que provocamos nas nossas vidas. Nos tornávamos cúmplices uns dos outros. Estávamos todos no mesmo barco, unidos por ideais, vontades e focos diferentes. Todas as experiências que passamos, as eventuais dificuldades, as alegrias divididas, as tristezas isoladas, porém percebidas agora fazem parte não do nosso imaginário, mas de uma composição única e coletiva. É como se fosse um recorte, uma fotografia, um quadro, uma pintura, uma exposição que volta e meia se visita no próprio interior. É uma novela de sucesso que termina e que volta e meia se reprisam algumas cenas, ou um livro que se lê e depois vai pra estante pra de vez em quando ser folheado. Depois que se passa por uma experiência dessa, de se viver fora e nisso inclui não só fora do país, mas fora de casa em outra cidade, em outro estado, mesmo que o estado seja apenas o civil, tudo é visto com outro prisma, agrega-se mais e diferentes valores ao que já se tinha. Definitivamente somos os outros sem deixarmos de sermos os mesmos na nossa essência.
Assim como a vida nos dá de presente esses encontros, a rotina nos tira a convivência de modo a permanecer os flashes, as pinceladas de alegria e felicidade que permearam nossas vidas enquanto habitantes de um gueto. Do nosso gueto. A Osbourne 38 em Willesden Green, ao noroeste de Londres, era o nosso gueto, o nosso quartel general, era pra onde a gente sempre corria. Mesmo que voltemos todos pra lá hoje, agora, nesse exato momento, tudo vai ser diferente. Nossa percepção é outra, nossa maturidade é outra, nossa evolução é altamente detectável. Não iria ser a mesma coisa, não iria ter o mesmo frescor, a mesma característica as mesmas atitudes. E assim não vale.
De qualquer modo quero voltar sempre. Ficar indo e voltando pra Londres, viver outras experiências com outras pessoas, trocar mais, aprender mais, conhecer mais, adquirir mais, do mesmo jeito que fiz quando estive por lá em outubro de 2011. E que chegue logo a próxima, ou as próximas vezes. London forever.  

quinta-feira, 11 de abril de 2013

MÃE GENTIL QUE NOS PARIU


MÃE GENTIL QUE NOS PARIU

O Brasil  é a bola da vez. Disso ninguém tem dúvida. Com uma economia mais sólida e confiável, o terreno pra investimentos ficou fértil e com o mercado em expansão os olhos do mundo estão voltados para o Brasil. Não é a toa que os eventos estão vindo pra cá. Copa das Confederações e o Encontro Mundial da Juventude Católica nesse ano, a Copa do Mundo no ano que vem e os Jogos Olímpicos no Rio, em 2016.

Sem contar que a economia está em sexto lugar ultrapassando países como a Grã Bretanha. Ou seja, o setor empresarial vê muito mais possibilidades de se instalar e evoluir aqui do que na Inglaterra. Isso pelo fato do poder aquisitivo do brasileiro estar crescendo e consequentemente o crédito também, o que faz com que a economia se aqueça. Isso é bom e fundamental para a evolução de um povo. No entanto, a moeda tem dois lados.

A desigualdade social continua discrepante. A pobreza e a miséria, por mais que tenhamos a sensação de ter diminuído, ainda continua alta. O salário mínimo continua extremamente baixo. Qualquer sub-emprego que se tenha lá fora, dá pra viver, mesmo que de um modo simples. Paga-se o aluguel, o transporte e a comida e, se não esbanjar muito, até dá pra se divertir bem. Aqui no Brasil, com um salário de miséria que se tem não dá pra fazer isso tudo, muito pelo contrário, se for fazer isso tudo tem é que ficar pedindo dinheiro emprestado pra dar conta até o fim do mês.

Por mais que estamos na frente dos ingleses em termos de economia, talvez pela Europa estar passando por uma crise já há algum tempo isso foi um dos fatore que contribuíram pra essa ultrapassagem. No entanto, eles estão na nossa frente em muitos outros aspectos. Posso falar da Inglaterra, de Londres, mais especificamente por já ter morado lá durante um bom tempo. Não temos nenhuma infra estrutura principalmente de transporte. Enquanto lá o transporte de massa comporta toda a mobilidade social sem que haja um volume enorme de carros na rua causando engarrafamentos monstruosos. Lá, pra se andar com o carro no centro da cidade, paga-se uma taxa, um tipo de pedágio.

Acho que isso seria uma solução paliativa pra diminuir o número de carros nas ruas, obviamente com a massiva expansão das linhas de metrô que, assim como em qualquer grande cidade do mundo como Paris ou Nova Iorque, existe aos montes e te deixa em qualquer parte da cidade. Também sou a favor do que está sendo feito aqui na cidade do Rio, a exemplo de Londres e Paris, de colocarem bicicletas a disposição da população. Só acho que deveriam mudar um pouco as regras de utilização. Primeiro, não restringir o horário das seis da manhã ás dez da noite. Segundo, só quem pode utilizar é quem tem um smartphone ou android, outra restrição. Em Londres, paga-se uma taxa anual e a única regra é parar de meia em meia hora, recolocar ela no bicicletário (não precisa ser no mesmo da retirada) e esperar por cinco minutos pra poder utilizar novamente ou pegar uma outra. Para isso se utiliza uma chave, que mais parece um pen drive pra poder liberar a bicicleta do bicicletário.

Ainda no ramo dos transportes, o trem deveria voltar com tudo, principalmente para um país com dimensões continentais como o Brasil. É muito mais fácil, econômico e lógico e seria mais uma concorrência pra ônibus e aviões. Mas não. Aqui o interesse público nunca foi interessante se não estiver inserida na lei de Gérson. Não existe interesse se não levar vantagem, se não tiver a famosa pergunta ‘ e o que eu ganho com isso?’

Tem uma propaganda que rodou um tempo atrás da Johnnie Walker que era o Pão de Açúcar acordando e se levantando como se fosse o gigante. E o slogan dizia: “O gigante não está mais adormecido.” Mas percebe-se que está bastante sonolento ainda.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

CONVERSA COM MEU OUTRO AVÔ


CONVERSA COM MEU OUTRO AVÔ

Meu outro avô ficou com ciúmes e pediu pra conversar comigo também. Perguntou se ele devia agendar uma reunião. Desde quando vô tem que marcar pra conversar com neto? Minha convivência com meu avô paterno foi bem mais longa e acho que, em parte, devo a ele o meu interesse pela música de um modo geral. Lembro que ele passava o dia cantando e isso só enriquecia o meu repertório e aumentava mais ainda a minha vontade de conhecer sobre as músicas e os cantores os quais ele se referia.
- Que caixinha preta é essa aqui?
- Isso é meu porta CD’s. Aqueles que eu me desfiz das capas eu coloco nessa caixinha preta.
- Porta o que?
- Porta CD’s. Também é chamado de case.
- E o que é um CD?
- É um artigo cada vez mais raro hoje em dia. Já está praticamente virando peça de museu. O CD dizimou o disco de vinil das lojas. Se bem que ainda tem muita gente que tem, coleciona e compra vinil. E tem artistas que fazem uma edição especial dos seus trabalhos em vinil também. Mas é um número ínfimo perto dos CD’s . Ou seja, um CD é um disco. Eu, pelo menos, ainda chamo o CD de disco, Afinal, não deixa de ser.
- E onde estão os cantores desse país? Já que você acabou de dizer que essa coisinha prateada que substituiu o disco de vinil também está no fim.
- Nos fundos de quintal. Hoje qualquer um pode gravar um disco. Basta ter um computador com um tipo de programa e uma voz razoável. Se bem que mesmo as vozes que não são nem um pouco razoáveis, se tornam razoáveis com esses programas de computador.
- E os estúdios, e as gravadoras, e as rádios? Pelo visto as coisas pioraram nesses últimos anos.
- Vamos por partes. Os estúdios se proliferaram. Cada um tem o seu agora. As gravadoras só contratam e gerenciam os artistas que vendem milhões de cópias. Os que já não vendem tanto assim continuam gravando nos seus estúdios e fazem parceria com os estúdios para comercializar o disco. Em parte, isso é bom pra dar mais oportunidade a quem não tinha acesso ao mercado e agora tem a possibilidade de mostrar um pouco do trabalho. E as rádios, na sua grande maioria ainda exerce a prática do jabá, principalmente pra quem tá começando, mas não são todas. Concordo quando você diz que pioraram. Tem muita coisa ruim sim, mas também tem coisas boas. E o maior meio de divulgação atualmente é a internet.
 - Como assim? Internet é o que? Uma nova estação de rádio ou de TV?
- Nem um e nem outro. Vou tentar fazer uma analogia aqui. Digamos que a internet hoje em dia pros músicos é um grande show de calouros de modo que a divulgação do trabalho já está incluída e quem julga, quem dá uma de Chacrinha, quem diz se vai para o trono ou não, é você. A partir de então você acompanha passo a passo o rumo que aquele artista está tomando.
- Mas isso não é de todo ruim.
- Por ser uma área livre, a internet é como uma faca de dois gumes. Como diz um amigo meu a mão que aplaude é a mesma que apedreja. Mas nesse aspecto é bom mesmo. E nem vou entrar aqui na área da pirataria.
De presente pra ele, eu gravaria um CD com todos os discos de Silvio Caldas e Francisco Alves em MP3. Ele ia se espantar com a quantidade de música que um CD pode comportar e reproduzir, mas ia ficar feliz e ia sair cantando por aí.