segunda-feira, 31 de março de 2014

A BRUXA ESTÁ SOLTA

A BRUXA ESTÁ SOLTA

Em um ponto mais ou menos eqüidistante entre o equinócio de verão e o solstício de inverno no hemisfério norte, mais ou menos entre cinco e sete de novembro, o povo celta terminava a celebração de uma festa que era como se fosse o ano novo deles. Samhain significa fim do verão e era o nome que dava a essa festa. De acordo com o calendário celta eles começavam a celebrar essa festa na noite sagrada de 31 de outubro e a chamada “festa dos mortos” era uma das suas datas mais importantes.

O que mais tarde a religião rotulou como céu, já tinha esse mesmo conceito de lugar feliz onde não havia dor nem fome para onde os mortos iam. Presidida pelos sacerdotes druidas e atribuído a essa festa, consta também que os espíritos dos mortos voltavam nessa data para visitar seus lares e conduzir familiares ao mundo que se encontravam.

Com a invasão romana lá pelo ano 46 a.C., essa cultura foi perdendo cada vez mais espaço e se tornando menos difundida ao se mesclar com a cultura romano-latina. Isso se deve muito também às decisões papais. Desde o século VI a igreja Síria dedicava um dia a todos os mártires. Em 615, Bonifácio IV transformou um templo romano em cristão, o famoso Panteon em Roma e o dedicou a todos os santos, cuja celebração acontecia no dia 13 de maio. Em 741, Gregório III transferiu a data para primeiro de novembro pra coincidir com a celebração também na Basílica de São Pedro, em Roma. Em 840, Gregório IV ordenou que a festa de todos os santos fosse celebrada universalmente e como tal teria na véspera a sua noite de vigília, a vigília de todos os santos ou, em inglês, All Hallow Eve, origem da palavra Halloween datada de 1745.

A tradição do pedido de “doces ou travessuras” que se faz, tem uma origem curiosa. No período entre 1500 e 1700, os católicos eram totalmente perseguidos pelos protestantes. Eles não tinham nenhum direito legal e multas e até prisões eram aplicadas aos católicos. Um plano para explodir o parlamento e com ele o rei protestante Jorge I faria surgir uma inssureição católica. A chamada conspiração da pólvora (Gunpowder Plot) foi descoberta em 5 de novembro de 1605  e o seu mentor, católico supostamente convertido em protestante, Guy Fawkes enforcado por ter guardado pólvora em casa com essa finalidade. Pouco tempo depois, a data virou uma grande festa na Inglaterra com protestantes colocando máscaras e visitando a casa dos católicos exigindo  deles coisas como salgados e cervejas, perguntando-lhes “trick or treat”?

Com a colonização na América essa brincadeira foi incorporada a festa do Halloween praticada principalmente pelos irlandeses que cruzaram o atlântico buscando novidades. Atualmente a idéia original da festa, depois de tantas influências praticamente se perdeu. No entanto, nos países de língua inglesa tem um apelo bem maior que nos demais.

Aqui no Brasil temos o dia do folclore em 22 de agosto e pra tentar legitimar a cultura do dia das bruxas, em 31 de outubro é comemorado o dia do Saci. Ato falho, já que a bruxa dos contos de Monteiro Lobato é a Cuca. Nós também temos nossas lendas e mitos que em sua grande maioria não passa de crendices e histórias interioranas contadas e passadas de geração em geração. Quem nunca ouviu falar, além do Saci e da Cuca, no Boitatá, no Curupira, na Mula-sem-cabeça e até no Lobisomen. A lenda do Lobsomen já ficou mundialmente famosa e ganhou outra conotação entre os pré-adolescentes depois da saga Crepúsculo, onde outros seres assustadores, os vampiros também aparecem.

           Vampiros, bruxas, caveiras, e fantasmas convivem com outros personagens fictícios ou reais quando se trata das fantasias que as pessoas usam para brincar nas festas de Halloween, soltando a bruxa que há em cada pessoa, seja ela criança ou adulta

segunda-feira, 24 de março de 2014

COMPONDO MÚSICA

COMPONDO MÚSICA

De vez em quando, ouvindo ou vendo entrevistas de músicos compositores eles sempre falam do modo com que eles compõem. De todas as formas de expressão eu acho que a música é a mais sublime, a mais angelical mesmo que o ritmo seja o rock and roll. A música toca o coração. Não que outras manifestações não toquem, mas acho que a música é a mais direta. Ela nos remete a muitas coisas como encontros, lugares, situações e pessoas por exemplo. Quem é que não tem uma música que faça parte da vida ou de um período dela? Quem é que não embala uma paixão com uma melodia?

A música desde pequeno faz parte da minha vida – já disse isso aqui uma vez -  não só pela minha família ser bastante musical como pelo hábito de comprar e ganhar bastante discos de vinil. Assim como ocorreu com a transição do VHS pro DVD, a chegada do CD não me encheu muito os olhos. Continuei comprando, mas em menor número e sendo mais seletivo nas minhas escolhas. Depois que eu aprendi abaixar música pela internet a aquisição de discos está sendo cada vez mais raro. Quando compro um disco ouço o mesmo durante três meses. Depois ele vai pra caixa se juntar aos outros e só torno a escutar quando me dá vontade ou quando quero relembrar uma determinada música.

Eu sou bem musical mesmo daqueles que tem várias músicas que me reporta a vários momentos, que bola todo ano um repertório pro aniversário do sobrinho e que é capaz de discotecar numa festa, dentro do meu gosto que apesar de ser bastante eclético não é tão abrangente. Tem ritmos que não me agradam muito e portanto não consumo.

Eu não vejo barreiras para me expressar em outras artes. Acho que sou capaz por exemplo de pintar, dançar, cantar e escrever. Escolhi esse último como carro-chefe da minha vida, mas se eu me dedicasse aos outros como me dedico a escrita, faria tão bem quanto acho que escrevo. Agora, fazer música, compor, eu acho que tem que ter não só a dedicação, mas o dom principalmente. Música tá ligada a matemática, matéria que eu sempre abominei. Apesar da parte lírica que também segue uma métrica, uma rima, o ritmo é pura matemática. Música é matemática ao quadrado, por isso tanta dificuldade em compor.

A música nos já deu tantos gênios: Noel, Tom, Gonzagas, Vinícius, Chico, Caetano, Gil, Dolores, Milton, Nando, Marisa, Roberto, Erasmo, Rita... e tem tanta gente boa na ativa e que solta tanta música boa na rádio que isso também me faz ficar acanhado em me revelar compositor, se é que eu tenho talento pra isso. Aliás eu brinco de compor. Versões de música a minha família faz várias que entram imediatamente no repertório.

Em 2011, minha prima Elaina fundou o bloco de carnaval da família. Em uma semana já tinha logomarca, estandarte, samba pronto feito por ela mesma, data e local do desfile e fantasias compradas no SAARA. Como o bloco a princípio desfilava em Saquarema e meus carnavais eu não passo fora do Rio, nenhum dos dois primeiros anos eu acompanhei o desfile. No segundo ano, mesmo não indo, emplaquei o samba. Letra e música de minha autoria. No ano seguinte, que foi o passado, eu compus dois sambas. Não aconteceu o desfile de Saquarema e o evento fo no aniversário na casa do meu tio Rodolfo que fez uma espécie de sarau com as poesias dele. Eu fiz questão de ser o último orador e declamar um dos sambas, justamente o que fiz caso o bloco não saísse em Saquarema. Como não teve bloco o samba foi declamado.


Mas, como dizia o poetinha, “fazer samba não é fazer piada”, Substituo a palavra samba pela música de um modo geral. Se não vier a inspiração com letra e música, custa a sair, mas no fim sai e tudo acaba em música. Não sei se boa, mas pelo menos diverte o meu público-alvo que é a minha família e não sairá dessa esfera. 

segunda-feira, 17 de março de 2014

COMÉDIA (?) EM PÉ

COMÉDIA (?) EM PÉ

No início de outubro do ano passado, no dia seguinte a audição do musical sobre o Cazuza, comentado aqui semana passada, uma amiga minha me convidou pra assistir a um espetáculo na época em cartaz no teatro dos Grandes Atores, no shopping Barra Square, chamado ‘Comédia em Pé’. Apesar de não ser o tipo de humor que eu gosto, eu fui. Confesso que já ri muito em outros espetáculos e até fora do ambiente do teatro, numa situação que eu presenciei ou passei. Minha família tem muito disso, de produzir situações engraçadas.

O espetáculo conta com quatro comediantes e mais um convidado especial e a primeira coisa que eles falam é sobre a dinâmica do espetáculo. As diretrizes que eles ditam pra dar um corpo ao que vai acontecer ali.

A primeira parte no caso é uma interação com a platéia. Não sei se fazem isso todos os dias, mas no dia que eu fui eles perguntaram se tinha alguém da platéia que era de fora do Rio. A amiga que me convidou é de São Paulo, mas ela não quis se acusar. Umas três ou quatro pessoas se acusaram e tiveram sua fama por quinze minutos. A tarefa delas era fazer uma pergunta qualquer para que os comediantes respondessem. Um deles perguntou qual era o nome da mãe de Leonardo da Vinci. Claro que eles não sabiam e quem revelou que é Caterina foi o outro turista que também participava da brincadeira. Depois de responderem, ou não, as perguntas feitas e brincarem com os forasteiros veio a segunda parte do espetáculo. Foi quando eu me fiz presente.

Eles pediram pra quem estivesse na platéia dissesse algumas palavras até que preenchessem uma pequena lousa e no desenrolar do espetáculo conforme as palavras fossem entrando nas ‘piadas’ elas iriam sendo riscadas. Eu gritei uma palavra que só a minha amiga tinha entendido porque eu tinha escolhido aquela palavra. Foi só eu gritar que ela já caiu na gargalhada. Tinha sido uma piada interna entre a gente poucos momentos antes de chegarmos lá. A palavra que eu escolhi pra entrar no rol deles foi Tonga. Nessa parte os cinco foram se revezando pra contar suas histórias ‘engraçadas’ e nada da minha palavra ser riscada. Quando o último comediante entrou pra fazer o seu número ele resolveu criar uma história, uns comentários com todas as palavras que estavam no quadro, inclusive as riscadas. Tonga ficou invicta sendo a última palavra a ser mencionada. Tanto que de modo educativo ele falou que era uma monarquia constitucional da Oceania sob o domínio da Nova Zelândia e era uma das 172 ilhas  amigáveis da Polinésia. Além disso, em homenagem a pessoa que escolheu essa palavra, ou seja, a mim, ele declamou parte dos versos de Vinícius que dizem “Você que fuma e não traga / E que não paga pra ver / Vou lhe rogar uma praga / Eu vou é mandar você / Pra Tonga da mironga do kabuletê”.

Na terceira parte do espetáculo é sugerida uma simulação de apresentação de um produto imaginário, fictício, escolhido pela platéia, para uma equipe de publicitário. Eles simularam uma pessoa, no caso um deles, vendendo um produto pro departamento de marketing, os demais companheiros de cena, de modo que algumas frases escritas pela platéia entrassem no desenvolvimento dessa apresentação. O produto escolhido e dessa vez eu não tive nada a ver com isso, foi um vibrador em forma de banana. E pra encerrar eles fizeram uma musiquinha com tudo o que rolou durante o espetáculo, inclusive a minha Tonga.
Não sei se foi pelo fato de eu ter crescido vendo outros tipos de humoristas atuando, mas acho muito mais graça num Costinha, num Walter D’Ávila do que nesses que estavam fazendo essa comédia que se coloca como a primeira stand up comedy brasileira. Onde ficam Chico Anísio, Jô Soares, Ari Toledo, José Vasconcelos, Juca Chaves entre tantos outros engraçados? Esses realmente faziam rir de qualquer jeito. 

segunda-feira, 10 de março de 2014

OS AMORES DE CAZUZA

OS AMORES DE CAZUZA

Existe parâmetros para amar alguém? Outro dia me peguntaram isso. Eu acho que não. Não se pode comparar nada nem ninguém quando se trata de amor. Sei que esse é um tema bastante complexo e eu somente expresso a minha opinião aqui. O amor é algo que vem de dentro, que te faz sentir borboletas na barriga, como diz um amigo meu, que te deixa de um modo estranho, patético na maioria das vezes. Mas o amor tem seus graus de intensidade.
No início de outubro passado estreou o musical sobre a vida do Cazuza. Sem sombra de dúvida o cara foi um gênio e permeou todos os tipos de amores na sua vida louca e breve. No entanto, como um passarinho, apelido pelo qual chamava a mãe dele, e selvagem, era muito difícil prender o seu coração. Foi público e notório o relacionamento dele com o Ney Matogrosso, tanto que está retratado no filme e agora no musical, e de acordo com o que foi explícito foram três meses de amor intenso, até que se transformou em uma amizade incondicional. Eu creio nisso, que o amor pode circular pelos vários graus de intensidade e um grande amor do passado virar uma amizade do presente e vice-versa. Do mesmo jeito que eu acredito no amor a primeira vista.
Posso aqui estar tendo uma visão bastante romântica, mas eu sou romântico e como tal acredito muito no amor e na força e capacidade que ele tem de transformação. Acredito que o que deu um pouco mais de sobrevida ao Cazuza foi o amor incondicional dos seus pais o ofertaram ao descobrirem que ele era portador do vírus do HIV e fizeram de tudo para que a doença não se desenvolvesse com tamanha rapidez. Na época a doença não tinha tantos recursos de tratamento. A violência da destruição dela estava sendo descoberta assim como os métodos de como retardar esse impacto todo. O amor pelos amigos, e nisso eu consigo me identificar um pouco com ele, foi outro fator que me chamou atenção no espetáculo. Claro que não sou como ele. E quem é? Dava rompantes, brigava, as vezes ficava sem falar, mas isso nunca foi impedimento pra deixar de amar. Acho que o Cazuza foi uma pessoa que veio pra viver dez anos a mil.
Existem pessoas que são assim, como cometas. Passam rápido, deixam uma luz, uma marca e um rastro quando vão embora. Pessoas que não se arrependem de nada do que fazem, mesmo se as conseqüências não forem boas pra ela e pra quem as envolve. Tive pessoas assim no meu convívio pessoal também. É sempre um choque quando você se dá conta de que já se foram, mas depois vê o legado que elas deixaram e percebe o quanto elas foram queridas e são lembradas e cultuadas até hoje. Cazuza é um dos exemplos desse tipo de pessoa. Três meses depois da passagem do seu filho, Lucinha Araújo, que chegou a cogitar a hipótese de não liberar nenhuma música do filho caso o inevitável ocorresse, três meses depois estava abrindo a Sociedade Viva Cazuza onde reverte todos os direitos das músicas de Cazuza para cuidar de crianças vitimas do mesmo vírus que a tirou o filho.

Assistindo ao espetáculo percebi que Cazuza amou a tudo e a todos que o cercavam em todos os graus e níveis que o amor tem. Uns mais profundamente, outros mais superficialmente, alguns por gestos e atitudes incontestáveis. No entanto, seu amor maior foram as suas letras, a sua poesia, as suas músicas, tão intensas, profundas, contestadoras e delicadas quanto a vida que viveu. É através delas que seus amores, independente do nível que estivessem, foram retratados. Como ele disse em uma das suas músicas ‘o tempo não para’. Só resta a nós, pobres mortais, otimizar esse tempo para administrar nossos amores, seus graus e as consequências que eles podem nos trazer devido a gestos e atitudes tomadas perante a eles e a nossas vidas.