domingo, 30 de novembro de 2014

UNHAS

UNHAS

Sempre ouvi minha mãe dizer: “Tira essa mão da boca” referindo-se ao meu péssimo hábito de roer unhas. Não sei se por ansiedade, timidez ou por ser gordo e ter sempre alguma coisa na boca que acabava por ser a unha. Quando tinha uns 13 anos quebrei meu braço esquerdo – sou canhoto, portanto o mesmo que segura essa caneta pra fazer o rascunho dessa postagem – e me lembro que essa foi a primeira vez que vi minhas unhas crescerem. Minha mãe até sentiu um certo orgulho em ter que cortá-las quando as viu grandes. Foram só os cinco dedos, mas era uma vitória pra ela. Com o braço engessado não conseguia levar a mão esquerda a boca. Talvez o polegar sim, mas por me dar mais trabalho, durante um mês, não consegui roer as unhas da mão. Nem conseguia conceber a imagem das unhas monstruosas do Zé do Caixão que chegavam a se enrolar formando um caracol. Sei que depois ele cortou e não as deixa chegar no tamanho que já tiveram, apesar de ainda e sempre ficarem bem acima da média de qualquer normal.

Unha grande quem geralmente tem é cobrador de ônibus. Nesse caso certamente a do dedo mindinho é a que fica maior que as outras. Não sei o motivo da preferência pela unha do dedo mindinho, já que os dedos indicadores e o polegar opositor são os mais utilizados. No entanto se vir um indivíduo com a unha do dedo mindinho maior que as outras ou é cobrador de ônibus ou então produz muita cera no pavilhão auricular e aquilo serve de pá pra tirar a secreção em excesso.

A unha agora tem suas variedades. Manicure que se preza, além de fazer o básico, deve estar bem informada do material que se utiliza pra produzir uma bela unha, daquelas que a Alcione adora usar. Não é só pintar de uma cor. A moda agora é diversificar e transformar a unha numa tela em branco própria pra se criar uma obra de arte. Além das tintas, cores, desenhos, decalques há também a técnica da resina que é utilizada para que haja um alongamento da unha. Olha a Marrom aí novamente.

Eu agora deixo a minha crescer normalmente. De um tempo pra cá não roo mais unhas. Cansei, desisti, foquei em outra coisa a ponto de não mais roê-las. Não nego que às vezes ainda me pego com a mão na boca, não pra fazer o que eu fazia, mas pra uma função um pouco mais escatológica que roer. A minha unha limpa faz vias de fio dental ou, ao contrário, se ela está grande eu limpo a unha com o dente também. Pelo fato dela crescer completamente descuidada, ela racha, quebra toda. Sobretudo nas pontas. Aí me utilizo do dente pra poder mais ou menos acertar o formato dela. Não considero que isso seja roer unha, mas um acerto de pontas.

Hoje em dia, ao contrário da minha infância/adolescência eu gosto de ver minha unha grande. Não quero chegar a ser um novo Zé do Caixão. Elas são devidamente cortadas uma vez por mês, mas sempre deixo uma linha branca, tipo francesinha, como as mulheres conhecem, até mesmo por que assim eu acho que elas crescem mais depressa. Dizem que tecidos cartilaginosos como orelhas, nariz e unhas não param de crescer. Acho que o cabelo também, quem os tem, entram nessa classificação. Meu nariz é grande – mal de família – minha orelha é proporcional a minha cabeça, meu cabelo é cortado de 3 em 3 meses, ou seja, 4 vezes por ano e minhas unhas são mensalmente aparadas, tanto as dos pés quanto as das mãos. Apesar de tudo eu ainda tenho que me aprimorar no corte das unhas do pés. Será que pedicure corta também?


Nunca me utilizei desses recursos pra cuidar delas. O máximo que eu fazia era passar um esmalte que me ajudava a deixar crescer a unha. Bem, não era bem um esmalte, mas uma solução que deixa um gosto ruim na unha e quando eu a levava a boca aquele gosto me fazia sentir uma repulsa e mudava durante um curto período de tempo o meu paladar. Ótima ajuda que eu tive pra deixar minhas unhas crescerem. 

domingo, 23 de novembro de 2014

ARTE

ARTE

De vez em quando entra na pauta de discussões com meus amigos a arte e voltam aquelas questões como o que é arte hoje em dia e pra que serve. Na minha opinião singela e humilde a arte é aquilo que de um jeito te toca, te comove, te faz pensar. Isso é arte. Tem gente que vê a arte como mercadoria. Fica muito mais interessado no valor de um quadro do Portinari, por exemplo, do que no quanto de reflexão ele pode ter a capacidade de incutir no espectador daquela obra. O mesmo acontece com as outras formas de expressão como a música e o teatro.

Conheço cantores e compositores que são bons, que tem dom e talento, mas vivem nos porões, bares, nas garagens, no submundo ou em alguma churrascaria se apresentando, mostrando seu trabalho pra uma qualidade de pessoas que as vezes não tem nada a ver com ela, mas que só tem aquele espaço pra se exibir, além do espaço virtual na internet onde divulga suas músicas compartilhando, criando uma rede de amigos mesmo sem ter a canção difundida por uma emissora de rádio.

Por um lado pode até se ter a facilidade de uma música ser bastante distribuída virtualmente, mas a dificuldade de execução numa rádio ainda é grande e o famoso jabá ainda rola, e não é barato o preço. Me lembro, por exemplo, do caso da Zélia Duncan que começou assim até uma música emplacar na novela e aí sim ela se tornar produto de consumo. Antigamente música em novela significava alavancamento de carreira. E a música nem era dela, mas a partir dali ela pode mostrar o seu trabalho de forma abrangente.

Não só pra música, mas novela, por incrível e incongruente que pareça, atrai para o teatro também. Ainda bem que existem autores e produtores de novelas que fazem o caminho inverso, assistem espetáculos teatrais e escrevem praquele novato. Novato na carreira televisiva, pois por trás daquele rostinho novo na TV vem uma bagagem teatral muito grande. Claro que há exceções, sem dúvida, e isso deveria acontecer com muito mais freqüência pelo fato de ter muita gente boa por aí mostrando sua arte e por estar a margem da mídia não aparecem pro grande público.

A gente sabe que novela é produto e volta aquela discussão lá de cima com meus amigos, quando a gente pergunta se é arte ou apenas entretenimento. Se te toca, te comove, te faz pensar, sim, é arte. Mas existe muita gente como eu que não acompanha, não vê novela ou que liga a televisão sem mesmo saber ou ver o que está passando, mas por pura companhia, por agradar em ter algum barulho dentro de casa.

Atualmente o teatro tem sido visto como um produto, o que eu acho uma lástima. Tem tanta gente boa, querendo mostrar trabalhos de qualidade, mas que não se encaixam no perfil que os produtores e gestores ou donos de teatro buscam, ou seja, o lucro, a rentabilidade. Se é cara desconhecida, que nunca trabalhou em novela então, essa dificuldade fica ainda maior. Creio que se deixassem esses ilustres desconhecidos se apresentarem sem ficar refém de patrocínio, de lei de incentivo, de editais, muita coisa boa poderia ser mostrada, vista e compartilhada, poisa melhor propaganda ainda é o boca-a-boca.  Digo isso de carteirinha pelo fato de fazer parte de uma companhia também. E por participarmos de vários festivais de esquetes vemos que não só nós, mas muita gente boa está por aí nos porões, nas garagens, no submundo ou fazendo figuração em alguma novela e almejando ser o próximo galã da novela das oito.

            Porque hoje é diferente? Por que hoje é fragmentado e não tem o mesmo espetáculo a semana toda? Por que não se abre espaço pra espetáculos desconhecidos ou com elencos desconhecidos do grande público? Por que um espetáculo não pode se sustentar apenas pela bilheteria? Enfim, perguntas que entram na pauta de discussões com meus amigos. Isso é arte? 

terça-feira, 18 de novembro de 2014

TEMPO PERDIDO

TEMPO PERDIDO

É sabido que quando vamos viajar temos que checar principalmente o passaporte, nosso documento oficial pra qualquer canto do mundo que vamos, sendo exceção os países fronteiriços os quais podemos levar a identidade, pelo menos nos países do chamado MERCOSUL (ainda existe o MERCOSUL?). Consta também que ao embarcar esse documento tem que estar válido pelo menos por seis meses a partir da data do embarque.

Por conta desse fato, quando eu estava morando em Londres e decidido a fazer o tour pela Europa tive que renovar meu passaporte. Ele estava pra vencer em novembro e o meu tour começou em julho, ou melhor, dia 30 de junho, último dia válido do meu visto de estudante, peguei o avião em Londres e fui pra Milão. Meu passaporte ficou pronto em 8 de junho de 2009 com validade até o mesmo período desse ano. Poderia até manter o passaporte antigo, pois voltei pro Brasil início de outubro e o vencimento como disse era em novembro. Por via das dúvidas e precaução fiz esse novo que pra minha alegria está todo carimbado. Talvez seja o passaporte que mais carimbo recebeu até pelo fato de ao fazer um cruzeiro, em cada porto que se para é um carimbo de entrada. Bem, deveria ser.

Minha mãe fez seu último passaporte nessa mesma época e portanto também teria que renovar no meio desse ano, mas como ela viaja muito, por conta dessa validade, desse prazo de carência vamos assim dizer, ela teria que renovar o dela antes que eu, já que minha previsão, minha programação de viagem utilizando o passaporte daria tempo de sobra de renovar dentro do prazo, mas a pressa da minha mãe em fazer o dela correndo, insistiu pra que eu fizesse o meu também. Isso foi no final de janeiro e o passaporte vencia em junho, ou seja, além dos cinco meses perdidos na renovação do passaporte feito em Londres, menos 6 meses na renovação do mais recente passaporte que, somado ao anterior, agora são cinco passaportes guardados. Bastam os últimos 3, mas ainda faço questão de tê-los todos em meu poder até quando me der na telha.

Como foi minha mãe que resolveu tudo, inclusive o agendamento e sabendo que eu não funciono bem na parte da manhã, foi marcado pras 9 da manhã. O dela foi 45 minutos depois. Você passa mais tempo esperando ser chamado que lá dentro mostrando a documentação. Mas o pior momento é quando você faz a sua assinatura digital num painel onde há uma linha e a caneta não sai tinta e só vê a letra na tela do computador do agente federal. Sempre vai sair ruim. Pelo menos no DETRAN eles põem um papelzinho por baixo  e lê o que escreve. A documentação é a mais básica possível. No meu caso identidade, CPF (que já vem na identidade) título de eleitor e certificado de reservista. Talvez seja o penúltimo passaporte que tenho que apresentar esse certificado. Só até os 45 anos de idade. Também tem que levar o comprovante de votação da última eleição. Se forem 2 turnos tem que ser os dois, ou a folha que se imprime direto do site do TRE dizendo que você está quite com o cartório eleitoral. Quando eu mudei o meu título para o biométrico joguei os comprovantes fora e tive que imprimir o tal papel. Mas por ser título novo, não tinha a necessidade de levar. Melhor o excesso de documento que a falta de algum deles e o transtorno de agendar online, voltar pra lá e fazer tudo novamente.


Foi justamente o que aconteceu com a minha mãe. Ela esqueceu de levar a certidão de casamento. Tentou resolver voltando lá no mesmo dia, na parte da tarde, mas aí já não tinha mais jeito. Isso é Brasil e o sistema cai frequentemente. Sem previsão de voltar e com agendamento pra todos os dias ela penou um pouco pra que seu passaporte novo ficasse pronto. Me recordo daquela fábula da lebre e da tartaruga. Enquanto a lebre corre e se estrepa, a tartaruga se dá bem com a velocidade lenta.