sábado, 26 de março de 2016

TUDO PELA ARTE

TUDO PELA ARTE

Quem trabalha com produção tem que se submeter a certas coisas. Quem trabalha com produção que tem pouca ou quase nenhuma verba então se submete mais ainda. Tudo em nome da arte. Em prol do espetáculo eu faço coisas que normalmente não faria. Uma delas é correr atrás de apoio.
Eu não gosto de pedir pra mim, mas se for pra ajudar a erguer uma peça de teatro eu corro atrás. Recebo vários nãos na cara, esses quando respondem pois geralmente nem assinalam mesmo que negativamente. Essa crise que estamos enfrentando afeta primeiramente a cultura. Os grandes apoiadores e/ou patrocinadores são os primeiros a retirar o pouco que é reservado para a cultura. Todas as peças que eu fiz parte da produção ano passado foram levantadas como ação entre amigos. Empresas que puderam contribuir com seus serviços como gráficas, lavanderia ou cessão dos locais de ensaios viram suas logomarcas divulgadas no material das peças. Quem não tem dinheiro conta com a boa vontade dos amigos.

Dizer que eu gosto de bater nas portas dos outros  pra pedir apoio para o teatro não é verdade. Mas se tem necessidade a gente faz. Outro exemplo de coisa que eu só faço se houver necessidade é filipetar. Em Londres tem gente que defende um trocado sendo “leaf left”, ou seja, “deixador de folha”. Eu não ganho pra isso, sempre combino que está no pacote de produtor, ou melhor, do assistente de produção que geralmente é o papel que eu exerço e gasto muita sola de tênis por causa disso. Morro de vergonha apesar de ter cara de pau pra fazer isso. Eu mesmo passo direto por alguém que esteja entregando panfleto na rua. Não procuro ser simpático e muito menos pegar o panfleto que me oferecem. Disse que não procuro ser simpático, mas nunca sou mal educado. Digo não, obrigado.

Principalmente se essa filipetagem é em bar. Sou eu entregando os panfletos e o sujeitinho do amendoim querendo vender os conezinhos dele. Isso sem contar com as broncas que os garçons me dão por estar entre as mesas distribuindo os papéis. Também pra não ficar muito visado pelos garçons quanto pelos clientes minha tática é rápida. Entrego um pequeno bolo de folhas pra uma pessoa que está na mesa pra que ela distribua para seus convivas. Com isso o meu bolo de filipetas acaba numa velocidade interessante.

Eu particularmente acho que filipeta é perda de tempo e dinheiro. O lance agora são as mídias digitais. Coisas como facebook, instagram e propaganda em outdoors e pontos de ônibus. Nunca achei que alguém vai ao teatro por causa de uma filipeta, salvo se tem algum tipo de vantagem. Pode até acontecer de uma ou outra pessoa receber e se interessar em assistir ao espetáculo, mas se de trinta mil impressos trinta pessoas forem ao teatro é muito. Mas como geralmente eu sou convidado a integrar as produções, tenho que marchar conforme a banda toca. Não sou o maestro dessas bandas, talvez o spala do principal instrumento – sinceramente estou me atrevendo a entrar num assunto que eu não domino e nem tenho ideia de como isso funciona.


De qualquer modo se entro num projeto é porque eu acredito nele, visto a camisa até o fim da temporada programada e/ou combinada. Gosto disso, gosto de sentir prazer no que faço apesar dos percalços que podem acontecer durante o processo mesmo que pra isso eu vista o meu personagem de panfletista ou de pedinte de apoio pra tentar ajudar ao máximo e da melhor forma possível as produções as quais me convidam pra fazer parte. O bom é que trabalho não tem faltado, convite sempre tem pintado e eu não tenho me arrependido dos trabalhos que eu tenho feito, apesar de uns me deixarem mais pilhados que outros, dependendo da situação, mas aprendo com isso e procuro buscar também novos desafios dentro dessa profissão que escolhi ou que me escolheu.

sábado, 19 de março de 2016

LIVRE ANÁLISE LÍRICA

LIVRE ANÁLISE LÍRICA

A música de abertura do disco “Estratosférica” da Gal Costa diz: “Não sou mais tola / Não mais me queixo / Não tenho medo nem esperança.” Acho que é justamente o contrário da minha personalidade.

Eu me considero tolo. Já fui muito mais, mas com o passar do tempo a gente vai ganhando aprendizado e experiência pra ficar menos tolo um pouco. Creio que vessa tolice faz parte da minha essência. Não consigo ser de outra forma. Meu jeito é esse. Pode ser que seja bom ou ruim ser assim dependendo do contexto da situação. De qualquer modo o que fica é o que eu vou levar pra vida, é o legado que essas situações me deixam. Isso sempre é bom.

Não mais me queixo. Nunca fui de me queixar. Situações podem me deixar chateado, posso não concordar com o que se apresenta pra mim, posso até comentar com meus amigos quando isso ocorre, mas é mais um ato de desabafo que de queixa propriamente dita. Não tenho do que reclamar de um modo geral. As vezes uma coisa ou outra não sai conforme o nosso planejamento ou nossa expectativa, mas isso faz parte da vida e a gente tem que se acostumar concordando ou não e não ficar se queixando, se lamentando, se lamuriando o tempo todo. Isso só faz perder tempo de vida e não vai resolver nenhum tipo de problema. Queixas são cada vez mais comuns para serviços prestados à população como telefonia, plano de saúde, cartões de créditos entre outros. Não deveriam existir, mas quanto a essas eu até abro uma exceção, mas isso é um outro papo.

Não tenho medo. É verdade. Descobri isso quando fui me aventurar vem Londres. Larguei tudo aqui e fui com a cara e a coragem pra uma terra que eu não conhecia ninguém. Meu receio quanto a minha falta de medo é que isso atinja um terceiro. Se for pra me arriscar sozinho eu vou, mas tendo alguém mais envolvido, aí tenho receio. Não é medo. Já arrisquei coisas na minha vida que não deu muito certo e não foi por isso que eu parei de arriscar em outras. Nunca vamos saber e como diz o ditado popular “quem não arrisca, não petisca.” Eu vou continuar a arriscar nos meus sonhos, nos meus projetos sem medo de ser feliz e principalmente sem medo de fracassar e assim levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima.

Nem esperança. Isso eu tenho. Apesar de tudo ir contra eu tenho esperança sobretudo no ser humano. Alguém pode dizer que é tolice minha, mas o que posso fazer, sou tolo mesmo. Sabemos que tem muita gente ruim, mas também tem muita gente boa e são desses que eu procuro me cercar. De gente que eu gosto, que me faz bem, que são ótimas companhias, agradáveis, gente do bem e creio que a humanidade tem muito mais gente do bem do que do mal. O problema é que só as coisas erradas viram notícias. Se, por exemplo, o estado islâmico ao invés de destruir as obras de arte milenares as conservassem, as tratassem com o direito que deveriam ser tratadas não seria tão noticiado. Não sou contra revelarem e mostrarem a falcatrua, os cambalachos que as pessoas fazem pra se dar bem e tirar proveito, mas acho que deve haver o mesmo peso pras boas ações justamente pra no mínimo a balança ficar bem equilibrada. Quem sabe com mais boas ações sento expostas a vontade de fazê-las brote mais.

           Como eu disse no início, as palavras cantadas na voz da Gal não chega a ser o contrário da minha personalidade, mas algumas coisas sim e outras não, como eu expliquei acima. Não vou destrinchar aqui o restante da letra dessa música. Quem quiser que a ouça por inteiro. Tem outras partes interessantes. Gal canta, mas quem compôs foram Arthur Nogueira e Antonio Cícero. Esse último, poeta e letrista que junto com sua irmã, a cantora Marina Lima, não teve medo de fazer hits musicais nem esperança de que vessas músicas fossem fazer tanto sucesso.

sábado, 12 de março de 2016

CONECTANDO A DESCONEXÃO

CONECTANDO A DESCONEXÃO

Adoro tecnologia. Adoro colocar 500 músicas num aparelhinho do tamanho de um isqueiro e ficar escutando até enjoar e trocar as músicas. Adoro a portabilidade, a mobilidade das coisas. A liberdade que se tem de andar pra lá e pra cá carregando o mundo num aparelho de celular do tipo smartfone. A última vez que fui pra Londres, por exemplo, não comprei o chip do telefone. Peguei o código de acesso da internet do meu amigo Airton e com esse código poderia me comunicar com ele e com qualquer pessoa de qualquer parte da cidade. Achei isso genial.

Adoro tablets, notebooks e quanto menores, mais me fecham os olhos. Quer me fazer feliz, me deixe solto em lojas de eletroeletrônicos. Vou querer saber de todas as novidades, apesar de não comprar nada. Não sou consumista em nenhum nível de gravidade, mesmo em se tratando de coisas que eu gosto. Incluo nisso lojas de livros e discos. Ainda quero um ou outro aparelho eletrônico, mas não tenho pressa quanto a isso. Se bobear, no hiato entre o rascunho desse texto e a postagem dele talvez eu tenha conseguido o que eu estava atrás. Adoro estar inteirado das novidades tecnológicas, saber, por exemplo, que posso ficar o mais perto de alguém que está longe utilizando essa tecnologia. Acho que o papel dela é o de encurtar distâncias mesmo. É o de nos ajudar a ficar mais interativos em aparelhos cada vez mais eficazes e, pro meu gosto pessoal, menores.

Por outro lado eu estou querendo ficar cada vez menos tempo conectado. Usar o computador por menos tempo e ficar menos dependente dele. Não nego que já faz parte da minha vida e que eu não consigo passar mais de dois dias sem checar minha caixa de mail, mas estou tentando reduzir ao máximo o tempo em que me sento diante do computador. Atualmente me utilizo de uma estratégia. Coloco um disco pra tocar enquanto checo mails e rede social. Sempre sobra tempo pra fazer outra coisa, outras pesquisas enquanto a música rola. Quando acaba o disco eu desligo o computador. Claro que essa regra não é seguida sempre, mas o tempo de execução das músicas do disco é o limite do meu tempo na frente do computador. Como numa lan house onde roda o taxímetro pra que você utilize a máquina.

Não estou tendo mais tempo pra ficar horas e horas conectado, nem muita paciência também. Havendo necessidade eu fico, mas ficar por ficar eu não quero mais. Prefiro fazer outras coisas, focar no meu trabalho, ler mais, ver mais programas de tv e evitar ao máximo a minha aproximação com o computador. Caso alguém queira falar comigo, o meu aparelho de telefone comporta aplicativos que complementam os programas do computador e pelo telefone mesmo eu posso responder. Não sei se pode se considerar isso como uma contradição.

O fato de gostar de tecnologia e ao mesmo tempo evitar utilizar é um pouco controverso. Acho que utilizo bem os aparelhos, lido bem com eles, não sou contra ou avesso a tecnologia, aprecio e admiro aqueles que sabem mais sobre elas do que eu. Eu me utilizo do básico e do essencial pra mim. Sei que o pra mim não é o mesmo que o pra você e por isso o interesse múltiplo por questões tão diversas e não menos envolventes ou interessantes.

          Sei também que um dia vai ser inevitável e todos vão ter alguma coisa relativa à tecnologia. Muitos desses aparelhinhos, se já não estão, vão se popularizar do mesmo jeito que décadas atrás aconteceu com os aparelhos de televisão, o videocassete, o cd, o dvd e por aí vai. Mas acho que são eles que tem que depender de mim e não eu que tenho que ficar dependente da tecnologia. Existe um limite, uma cota de tempo disponível e regularizada por cada um pra que a acessibilidade da tecnologia seja benéfica e não o contrário. Desligar-se do mundo de vez em quando faz bem.

sábado, 5 de março de 2016

O FUTURO NUNCA CHEGOU

O FUTURO NUNCA CHEGOU

O Brasil é o país do futuro. Há quase quarenta anos, minha idade, que escuto sempre essa frase. E já estou chegando a conclusão que vai continuar sendo eternamente o país do futuro e esse futuro nunca vai chegar mesmo. Na verdade o Brasil é um país estagnado ou até mesmo um país do passado.

Um famoso escritor baiano, na década de 30, já escreveu um livro falando sobre a vida e as mazelas dos meninos de rua da Bahia, mas que se colocarmos na realidade de hoje nada mudou. O que Jorge Amado retratou nos Capitães da Areia até hoje é vivido. Ou seja, quase cem anos depois ainda continua a mesma coisa em se falando de meninos de rua. Um outro exemplo que eu vou dar é uma frase de uma música composta talvez um pouco antes que a publicação do livro do Jorge Amado. Música composta por Noel Rosa onde diz: “E o povo já pergunta com vontade/ Onde está a honestidade?” Na verdade eu não sei se a palavra certa é vontade ou saudade, mas a pergunta continua pertinente.

Apesar de ter gente honesta nesse país, quem deve dar o exemplo de lisura e idoneidade pouco se lixa pra isso e honestidade é uma palavra que não se encontra no vocabulário deles, apesar de falarem um tanto nisso. Tudo balela. O dia em que a classe política der o exemplo aí sim chegaremos no futuro. Espero que os filhos do meu sobrinho acompanhem ao menos o início dessa transição, dessa transformação, da chegada desse futuro. Eu sou um otimista, só acho que a minha geração não vai acompanhar a chegada do futuro no Brasil.

Tenho até uma teoria ou uma tese, dependendo do ponto de vista. Sei que muita gente não vai concordar, mas acho que pra classe política realmente trabalhar em benefício do povo eles tem que ter dom e vocação pra isso. Acho que a política pra ser boa tem que estar necessariamente desvinculada a pagamento, a salário ou a comissão. Não acho que deputados federais e senadores deveriam ganhar o salário que eles ganham e sim o salário que eles estipulam que o povo receba. Imagine se isso passa e o salário deles é reduzido a esse ponto? Não haveria um que vai querer continuar em Brasília, pelo menos dos que lá estão. Acredito que até mesmo os que se dizem socialistas e/ou comunistas vão querer ficar com essas funções.

Pra não dizer que estou sendo perverso com essa proposta, até aceito que se mantenha os benefícios que eles tem, tipo auxílio terno, auxílio moradia, auxílio gasolina, verba de gabinete e tal, mas a cifra a receber em termos de salário seria o que eles próprios dizem ser o mínimo. Ou então o contrário eu também fico de acordo. Que eles continuem ganhando o salário que eles ganham e se mantenham com ele como qualquer trabalhador brasileiro e cortem todo e qualquer tipo de auxílio.

Quero ver é quem tem coragem de se manter na política, ou de entrar nela sem todas essas vantagens que os políticos tem atualmente. Acho que dessa forma a política enquanto carreira começaria a ser pensada de outra forma. Eles não podem ficar de lá de cima, de Brasília, olhando cá pra baixo e decidindo por cosas que muitos deles não conhecem ou ficar olhando pro seu próprio umbigo, votando interesses a favor de sua bancada ou mesmo que legisla em seu favor.


O Serguei que diz que o Brasil como país é lindo, mas como nação é um desastre porque não conseguiu desenvolver. Tudo bem que ele sempre vai comparar o Brasil aos Estados Unidos, país onde ele morou durante um bom tempo e que a imagem que ele tem de lá é da época glamorosa dos anos 60 e 70. Mesmo assim eu dou certa razão a ele. Também com um comando desses aqui no Brasil como iria conseguir tamanho desenvolvimento? E olha que o Serguei já passou dos oitenta, ou seja, o Brasil é o país do futuro a muito mais tempo do que a gente imagina.