sábado, 24 de setembro de 2016

INUSITADO

INUSITADO

No início de novembro fui assistir a alguns amigos no espetáculo “O Beijo no Asfalto” com musicas compostas pelo Claudio Lins pra costurar o texto do Nelson Rodrigues. Mais um musical. O primeiro de um clássico da dramaturgia transformado em musical. Participei da produção da primeira temporada do “Capitaes da Areia – o musical”, clássico de Jorge Amado. Literatura nacional.

Pelo menos estão saindo dos musicais biográficos e cópias da Broadway. É um outro filão que está se abrindo dentro desse ramo de musicais. O que vi em São Paulo “O primeiro musical a gente nunca esquece” não se enquadra em nenhum desses três pontos citados acima. É um musical original, criado pra ser um musical assim como o “Barbaridade” que não foi muito bem das pernas. Aliás, quando fui ver “O Camareiro” tinha uma senhorinha conversando com outras duas dizendo que não gostou desse musical por que achou um pouco chulo no sentido de que debochavam bastante da dita terceira idade.

Voltando ao “Beijo”, quando eu cheguei no teatro a primeira coisa que fiz foi ir ao banheiro e eis que quem surge na porta do toalete também querendo entrar foi o Artur Xexéo. Grande colunista, atualmente no jornal ‘O Globo’ e no programa ‘Estudio I’da Globonews e que eu frequento desde os tempos em que ele escrevia pro JB. Eu me assustei a vê-lo que sem querer minha voz exclamou o seu nome e ele me cumprimentou como se já me conhecesse de outros esbarrões que já demos pelos teatros do Rio. No fundo eu queria puxar assunto com ele, mas a situação me constrangia um pouco. Afinal ali estávamos sendo vizinhos de mictório e por mais que a emoção me encorajava em conversar com ele, a razão me toliu e fiquei mudo, na minha. Quem sabe da porta pra fora a coragem voltava a me dominar e a cara de pau me fazia dirigir a palavra a ele.

Além de suas excelentes crônicas dominicais ele também se enveredou pra dramaturgia e eu vi alguns espetáculos cujo texto foi de sua autoria. O último foi justamente o “Ou tudo ou nada” cuja versão foi ele quem fez e coincidentemente foi o nosso último esbarrão antes desse, visto que eu ajudei na produção local do espetáculo quando esse fez sua prévia em Niterói. Me lembro inclusive que no dia em que ele foi assistir tinha um jornalista de São Paulo que o entrevistou. Outro esbarrão que demos foi quando eu e meu amigo Carlos Loffler fomos assistir a delícia da peça que foi o “Pra sempre teremos Paris”. Esses pra mim foram os mais marcantes esbarrões e ao menos o último, em Niterói, eu gostaria de ter comentado com ele, mas não acho de bom tom puxar papo enquanto se alivia.

Eu tinha recém chegado de uma semana cultural em São Paulo e uma das peças que eu tinha visto lá, “O Reizinho Mandão” em que um amigo meu atuou e ele me disse que aquela companhia ou alguém que estava atuando com ele iria participar de outro espetáculo com texto assinado pelo Xexéo sobre o Cartola.

Queria conversar com ele sobre esse e vários outros assuntos, não na latrina de um banheiro, mas na mesa de um bar, por exemplo. Ou na de um restaurante que é mais a cara dele. Tenho fé de que esse dia ainda vai chegar.

Gosto das peças que o Xexéo assina. Acho que o jornalista inevitavelmente se envereda pra literatura e/ou dramaturgia. Acho que o Xexéo esta se dando bem.


Me lembrei de um outro esbarrão. Não entre o Xexéo e eu. Esse também aconteceu na porta do banheiro e no caso um saía enquanto o outro entrava. Eu estava no Terezão – desculpa, mas eu ainda chamo o Net Rio de Terezão – pra assistir ao lançamento do disco do Tony Platão – desculpa, mas ainda chamo cd de disco – quando o Frejat esbarrou com o Serguei na porta do banheiro. Isso dá uma coluna do Xexéo.     

sábado, 17 de setembro de 2016

REDE DE OBRAS

REDE DE OBRAS

Na minha infância quando ia pra nossa casa la em Saquarema uma das nossas diversões era balançar na rede. A gente dava impulso com os pés e se balançava. Tinham dois lugares na varanda onde tinham os ganchos pra pendurar as redes. Cansei de cair de bunda no chão também. Teve uma vez, não me lembro se foi exatamente lá em Saquarema, que cheguei a pernoitar na rede. Um verdadeiro programa de índio.

Mas acho que rede combina mais com casa do que com apartamento. Esses, quando tem varandas espaçosas até pode ser que se coloque uma rede, mas dentro do apartamento eu já não acho legal. Principalmente pra quem mora no ap debaixo.

Ano passado os vizinhos que moram em cima de mim tiveram essa ideia de colocar ganchos no quarto pra pendurar e ficar balançando na rede. Acho extremamente irritante o barulho que se faz do atrito entre o elo chumbado na parede e o gancho que faz o movimento. E um barulho ao meu ver chato, incomodo, mesmo sabendo que isso ocorre em todas as redes que sao penduradas em ganchos como esse. O som é fino, agudo, constante. Parece um passarinho piando a cada segundo do mesmo modo. É irritante como qualquer barulho quer tenha um ritmo, uma constância. Quantas vezes eu rolei na minha cama querendo dormir e aquele granido agudo sobre a minha cabeça apitando sem parar.

Até o momento em que rascunho esse texto os vizinhos de cima não tiveram mais ideia do que fazer no apartamento deles. Desde quando nos mudamos pra ca, acerca de cinco anos volta e meia tem som de martelada sobre as nossas cabeças. Cansei de ser acordado no som de quebra quebra principalmente no que parecia ser piso.

E pensar que quando mais novo passei muito por isso. Minha mãe adorava uma obra. Até hoje ela gosta de modificar as coisas. Lá no antigo apartamento o banheiro e a cozinha foram alvos de reformas radicais. Nesse novo ainda não teve disso e tomara que continue sem ter. O  máximo que ela fez foi semanas antes da gente se mudar pra cá rebaixar parte do teto da sala com gesso e botar lâmpadas de led. Fora isso uma tintazinha numa ou noutra parede. Falando nisso até projeto de cores pra pintar o apartamento ela fez, mas por enquanto ficou so no projeto por que por mais que não se considere obra de quebrar ou modificar algum ambiente, pintura também dá trabalho pra cobrir ou tirar os moveis do lugar. Aliás o meu quarto é o mais cru possível diante dos outros ambientes. Faço questão de que seja assim. Tomei trauma de coisas penduradas na parede.

Não sai da minha cabeça o dia em que lá no apartamento velho eu estava almoçando no quarto dos meus pais pelo fato de a Norminha estar ocupando a mesa da sala fazendo comida pra congelar e vendo a tv que estava pendurada naquele girovisão – lemba dele? – quando aquilo tudo veio abaixo. Por sorte, tinha uma cadeira bem embaixo que além de amortecer a queda  evitou o desastre maior que seria do aparelho se espatifar, estilhaçar e até explodir, já que estava ligada.

Por isso que depois que mudei pra cá faco questão de não bater um prego nas paredes do meu quarto. Até porque se por algum motivo você faz uma modificação no lay out aqueles pregos e parafusos ou os buracos deixados por eles vão ficar expostos, a mostra e acho isso muito feio esteticamente falando. Então prefiro que fique sem nada, nu, do que com esses resquícios de que ali naquele determinado local já teve alguma coisa pendurada.


Espero que meus vizinhos de cima, que não faço ideia de quem sejam não façam mais reformas e muito menos utilizem a rede que calhou de ser instalada justamente no quarto em cima do meu pelo menos durante as minhas horas de sono que não são tão convencionais quanto as deles.

sábado, 10 de setembro de 2016

PAULICÉIA DESVAIRADA

PAULICÉIA DESVAIRADA

Eu adoro São Paulo. Sempre que consigo juntar um pouco de dinheiro e tempo disponível vou pra lá. Mesmo que só a “trabalho”, ou seja, acompanhando o Serguei quando chamado pra algum evento e eu podendo ir junto, o que chamo de bate-volta, vou com muito prazer. Se me surgisse oportunidade de trabalhar por lá e ficar morando em São Paulo não pensaria duas vezes. Pra quem já morou em Londres, São Paulo pelo menos tem a vantagem de ser mais perto de casa.

Ano passado eu fui quatro vezes pra lá. A primeira em março basicamente pra ver uma peça de teatro. Apesar de ter passado so um fim de semana, quando vou por conta própria esse e o meu programa favorito. Assistir peças de teatro. Em junho voltei para um bate-volta com o Serguei na Virada Cultural e outro também no inicio de novembro por ocasião do aniversario dele de 82 anos. Geralmente nesses bate-volta eu fico a mercê dele, ate por que não da tempo de fazer mais nada.

Seis dias foi o tempo que consegui ficar por conta própria no fim de outubro entrando novembro do ano passado. Aí sim eu tive tempo pra rever alguns amigos e ir muito ao teatro. Meu tempo era dividido entre esses dois polos com direito a uma boa leitura no meio. Cheguei lá na quarta, deixei a mala na casa de um amigo onde fiquei hospedado e a noite fui visitar outros dois amigos.

Na quinta pela manhã fomos a uma exposição pela manha no CCBB e a noite encarei a primeira peca “O primeiro musical a gente nunca esquece” no teatro NET SP no shopping Vila Olimpia. Um musical que mistura músicas de consagradas de musicais como Noviça Rebelde e Mágico de Oz com jingles de propagandas de tv como cremogema e varig, por exemplo.

Na sexta pela manha fui no parque do Ipiranga. Apesar do museu estar fechado pra obras, a área ali da frente ainda era frequentada. Tinha ate um ensaio fotográfico de um casal de noivos no parque. Uma coisa que me chamou atenção foi a fonte que mesmo sem água me lembrou muito a que fica em frente a torre Eiffel em Paris. Pode ser que realmente tenha havido uma cópia ou, se essa palavra for muito forte, uma “livre inspiração” com a da capital francesa. A tarde fui pro hotel onde havia reservado mais três noites pra mim, além das duas que fiquei na casa do meu amigo. A noite fui assistir “Caros Ouvintes”, uma peça que retrata os bastidores do último capítulo de uma rádio novela e toda a questão da transição pra televisão e um pouco do golpe militar também. 

Sábado fiz uma dobradinha. Um amigo meu em cartaz com um infantil me convidou pra assistir uma peça baseada num livro de Ruth Rocha que eu devo ter lido aos oito anos de idade chamado “O Reizinho Mandão”. O que eu achei mais interessante é que quem faz o reizinho e o papagaio do rei e um casal casados na vida real e portadores de síndrome de down. Além de outra menina no elenco também portadora da síndrome. Mas o jeito com que eles contam essa historia parecendo um cordel, uma trupe mambembe é bastante interessante. Depois eu voltei pro hotel que fica bem perto desse teatro, tomei banho, me arrumei pra assistir a um espetáculo que a Marilia Pera fez a um tempo atrás e que nessa temporada a personagem foi interpretada pela Christiane Torloni. Maria Callas em Master Class. A peça conta como eram as audições que as pessoas que queriam interpretar uma ópera tinham com a diva Maria Callas além dos delírios que ela tinha contando as histórias pessoais. Depois fui encontrar com outro amigo.


No domingo fui ver “O Camareiro” com Tarcisio Meira fazendo um ator que foge do hospital no meio da segunda guerra pra interpretar o Rei Lear, mas que já não esta em plenas condições das faculdades mentais e seu fiel escudeiro e camareiro Norman esta lá cuidando dele das coisas dele. E depois fui visitar mais dois amigos.

sábado, 3 de setembro de 2016

A ETERNA CANTORA DO BRASIL

A ETERNA CANTORA DO BRASIL

No final de outubro do ano passado foi lançada a biografia da Angela Maria. O evento se deu primeiramente em São Paulo e quatro dias depois aqui no Rio. Tive a oportunidade de ir e ver a biografada respondendo algumas perguntas do seu biógrafo antes de começar a fila de assinatura do livro propriamente dito. As histórias que ela contou estão todas no livro, mas o que mais me comoveu foi o depoimento, a declaração que ela deu a respeito do atual marido.

Segundo ela teve um momento da vida em que ela pensou em largar tudo, abandonar a carreira entre outros motivos pelo excesso de falcatruas que faziam com ela e ate em cometer o suicídio. Até que ela conheceu o marido que disse que ia ajudar a ela a dar a volta por cima, um homem que a valorizou não como artista, já que ele a conheceu como tal – e quem não? – mas como mulher que era o que ela mais sentia falta , como um se humano e não como um produto que se usa e joga fora.

Ele tem a idade pra ser filho dela. No entanto quando se tem amor e respeito essa diferença e suprimida. Por mais que ele tivesse 18 e ela 50 no inicio da do relacionamento , isso não significou nada perante o mutuo sentimento dos dois e se não fosse por ele talvez essa biografia fosse póstuma. Ainda bem que não foi e ela conseguiu ter retratada toda sua vida num livro escrito pelo Rodrigo Faour, pela editora Record, entitulado Angela Maria a eterna cantora do Brasil.

Gosto do trabalho do Faour de pegar esses ícones como Angela, Cauby, Dolores, Claudete Soares e entregar a vida deles nas nossas mãos. Não vou aqui retomar a discussão sobre as biografias ate pelo fato desse assunto já ter sido resolvido no STF e estar liberada a composição delas sejam ou não autorizadas.

Nesse evento, grandes damas da época do radio compareceram em peso. Elen de Lima, famosa pela cancao das misses, Eliana Pitman, uma das irmãs Meireles – essa nem eu conhecia – e o Cauby mandou uma de suas irmãs representa-lo. Parece que o Ney Matogrosso chegou a aparecer por la, mas por conta de um compromisso não pode ficar pra falar com a Angela. Leny Andrade também apareceu no final do evento, um pouco antes da angela deixar o local. Durante o bate papo ela chegou a cantar três musicas acompanhada pelo publico presente. Claro que não tem mais aquela voz.

Também uma mulher cujo instrumento de trabalho e a voz e a utiliza a 65 anos não tem como manter a mesma voz do inicio de carreira ou de trinta anos atrás. Fazendo as contas ela tem mais tempo de carreira do que a minha mae tem de idade. E e a eterna cantora do Brasil por que foi referencia pra gente do calibre de Elis Regina que tem uma declaração em um dos dvd’s da própria angela maria dizendo que queria ser ela, queria cantar como ela.

Nem só de palavras vive o livro sobre Angela Maria. Há uma galeria de fotos de acontecimentos da vida dela, as capas da revista do radio, materiais de jornal, todas as capas de disco e cd’s lançados por ela além da listagem dos filmes que ela participou e a ficha técnica dos discos que ela lancou também. E um livro completo e pra quem gosta de boa musica e boas historias dos bastidores e um prato cheio. Espero que a geração que esta ai e a que esta chegando hoje , onde tudo e feito mais rápido e portanto se torna mais descartável, aprenda alguma coisa com a historia de vida da mulher considerada a maior cantora do brasil de todos os tempos.


De tanto eu escutar falar sobre, me embrenhei em descorir mais sobre o trabalho dela e tenho algumas músicas na voz da eterna cantora do Brasil. Eu não vivi Angela Maria, apesar de sua atemporalidade, mas certamente as vozes femininas que ouço como Rita Lee, Marisa Monte, Vanessa da Mata de alguma forma beberam nessa fonte inesgotável de exemplo e inspiração.