sábado, 28 de janeiro de 2017

DEMÔNIO DO MUNDO (publicado em 3 out 2002)

DEMÔNIO DO MUNDO (publicado em 3 out 2002)

Acerca de 17 anos - foi em 1985 e nunca fui bom em matemática – ganhei um presente de aniversário da minha madrinha. Um disco de vinil. Até então, tudo bem. Sempre gostei de música. Mas esse disco tinha uma causa especial por detrás da gravação. Diversos artistas americanos, se não me engano liderados por Michael Jackson, se uniram para gravar uma canção de solidariedade aos paises africanos que enfrentavam o problema da fome. E a maioria continua enfrentando. O nome desse disco e o da faixa título é ‘We are the world’ que em português significa ‘Nós somos o mundo’.

Mais recentemente há mais ou menos 10 anos, foi exibida uma novela sobre vampiros cujo papel principal – noveleiros de plantão, me corrijam se minha memória estiver falhando – era da atriz Cláudia Ohana, onde ela interpretava uma cantora, estrela da música pop nacional e por acaso vampira, de nome Natasha. Por conseqüência do sucesso do folhetim, ela, Natasha, estourou com duas músicas na parada de sucessos – pelo menos dos que eu gosto de ouvir. Uma foi ‘Quero que vá tudo pro inferno’ de Roberto e Erasmo Carlos, e a outra se tratava de um sucesso dos Rolling Stones ‘Sympathy for the devil’, cuja tradução seria mais ou menos uma afeição a um demônio ou gênio do mau.

Fiquei sabendo alguns dias atrás – roqueiros de plantão, me corrijam se estou faltando com a verdade – da história da composição dessa música. Numa das suas primeiras visitas ao Brasil, fins de 60 ou início dos 70, eles visitaram um terreiro de macumba e surgiu a inspiração pra essa música.

Mas vamos falar de outra história, a que nós estamos vivenciando agora, ao final de 2002. A pergunta que eu faço é: o que tem a ver ‘We are the world’ com ‘Sympathy for the devil’? Deixa que eu mesmo respondo. Aliais dá pra convergir a resposta em um ponto ou um nome em se tratando dos dias atuais. George W. Bush. Por que? Pela afeição que ele tem em um terrível gênio do mau, Saddam Hussein. Isso porque ele e o Tony Blair acham que ele é um demônio. Tudo bem, concordo que ele não é uma flor que se cheire, mas daí a rotulá-lo como o inimigo mundial número um já é demais.

O ditador iraquiano já abriu as portas de algumas das supostas fábricas de armamentos químicos destruidores de massa em potencial, concordou com a volta dos inspetores das nações unidas ao país para fazerem uma checagem e nada do Bush recuar. A Organização das Nações Unidas, com exceção da Inglaterra, está contrária a invasão americana. Várias manifestações estão sendo feitas por toda parte para que esse perigo iminente não deixe de ser apenas iminente. Porém ele próprio em declaração bombástica – pra quem quer uma guerra essa palavra pode ser um estouro – disse que quer atacar o Iraque por razões pessoais. Provavelmente tem o dedo do papai Bush e reminiscências da Guerra do Golfo.

Pela frustração de não ter achado Osama Bin Laden, Bush tratou de arrumar um inimigo e apontar todas as armas pra ele. Sobrou para Saddam. E ainda diz que quem não está a favor dele, está contra. A ONU faz de tudo para que o estopim não seja estourado por livre e espontânea vontade de Bush.

Acho que agora é hora da entrada em cena da Organização Mundial da Saúde pra que seja colocada uma camisa de força no Bush. Enquanto ele é amarrado, grita aos quatro ventos: “O inimigo do mundo é ele. Estão internando o homem errado. A América só quer fazer o bem pro mundo. O mundo tem que derrotar o inimigo. Nós somos o mundo. Nós somos o mundo.”


Vamos ver quem será o louco que poderá impedir a loucura do presidente da maior potência mundial. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

AÇÃO

AÇÃO

Quando eu era criança eu assistia novelas. A década de oitenta foi a que teve melhor safra. Era assunto com a minha turma do meu prédio no dia seguinte e às vezes a gente brincava de fazer novela . Na época eu falava que queria escrever. Acho que já era o meu desejo latente de querer me expressar através da escrita contando histórias.

Muitos anos depois me vi dentro daquela fábrica de ilusão, acompanhando boa parte do processo de como se faz uma novela ou coisas do gênero. De início fiquei encantado. Pessoas me diziam pra fazer teatro, que eu tinha jeito e tal. Fui a uns dois ensaios de uma peça, mas o processo do fazer teatral me incomodou um pouco. Era cria de TV e o teatro é mais lento e artesanal mediante a velocidade e o ritmo industrial da TV. São duas linguagens completamente diferentes.

Tempos depois comecei a me acostumar e passar a gostar do processo, mas sempre fui de bastidor, de ajudar na produção, de fazer de um tudo pra que se pudesse abrir as cortinas sem problema algum ou com o mínimo deles e sem que o público perceba. No entanto, ano passado durante a temporada do espetáculo “Sete contra um” aconteceu um imprevisto que mais cedo ou mais tarde o público ia perceber.

Como disse anteriormente, meu negócio é bastidor, é ficar por traz, mas nesse dia especificamente eu fui pra frente sem ser ator. Sim. Tive que entrar no lugar de um ator que teve um imprevisto e não conseguiu chegar a tempo. O figurino coube em parte, o texto foi decorado em vinte minutos assim como as marcações. Claro que o texto não foi todo, todas as falas e inserções, mas o essencial das três maiores cenas que a personagem participa.

O resto o elenco teve que segurar a peteca e nesse caso foi o que aconteceu. Elenco concentradíssimo pra eu não ficar mais exposto do que eu tava e mesmo desconfortável em cena senti que eles fizeram uma rede de proteção pra mim. Aprendi no teatro que se a coxia é boa, se há harmonia entre o elenco nos bastidores, em cena a coisa flui com muito mais facilidade. Eu que sempre gostei de assistir teatro desde pequeno , me estranhei com o processo no início e depois comecei a fazer de tudo um pouco pra se levantar um espetáculo, pela primeira vez me colocaram em cena.

Mas eu também penso muito quando aceito entrar num projeto que eu tenho que ajudar a fazer o projeto andar seja de que jeito for, mesmo que eu discorde de algumas partes pra se levantar um. Não é a minha vontade, a minha opinião que prevalece, e sim o que é melhor pro coletivo. Se um ator teve um imprevisto e me confiaram pra poder substituí-lo, vamos ver no que vai dar.

Fiz o melhor que pude mesmo sabendo que não chego aos pés do ator escalado pra fazer aquele papel. E ninguém viu uma carreira tão meteórica na vida de pouco mais de uma hora. Se bem que lá no fundo me ficou a vontade de fazer mais, mas sem falas.

Se me vierem com uma proposta pra atuar , que continue sendo sem texto, sem falas é capaz de eu aceitar o convite. Gosto de uma coisa chapliniana, do tipo de humor do Mister Bean, de algo meio Oscarito. Nessa linha eu até penso duas vezes antes de recusar o convite.

Até que o diretor gostou do que eu fiz e o elenco também me elogiou. Pra quem não é ator até que eu fui muito bem segundo eles e alguns espectadores, principalmente a Nadir e a D. Beth que eu conheço melhor e vieram falar comigo no final da apresentação.


Também eram as duas únicas que eu conhecia e que viram a supersônica ascensão e vertiginosa queda de uma carreira de ator, carreira essa que falta muito pra que eu obtenha a envergadura de um Paulo Autran, de um Paulo Goulart, de um Procópio Ferreira, por exemplo.    

MAIS UM MOTIVO

MAIS UM MOTIVO

Outro fato importante pra que essa seja a minha última temporada nesse espaço foi a perda em junho do ano passado da pessoa que talvez mais tenha incentivado a me enveredar por esse caminho das letras. Meu tio Rodolfo sempre foi meu fã ardoroso e um dos poucos que lia e comentava minhas postagens. Nesses meses sem ele a inspiração que era pouca passou a ser nenhuma, mas conforme disse na primeira postagem do ano vou cumprir o prometido e me manter aqui até o fim desse ano. Como eu antecipo os meus escritos e tudo o que já está há um bom tempo registrado, ainda estou na fase de luto, nos dez primeiros dias após a perda dele.

Foi ele quem organizou meu blog, deixando todas as postagen com acesso pra quem quiser ver, rever ou investigar algum texto que eu tenha postado. Foi ele quem fez propaganda dos livros que eu lancei na época que eu almejava ser um Paulo Coelho da vida não no sentido dos conteúdos dos livros, mas de querer ganhar dinheiro escrevendo livros. Foi ele quem foi o primeiro a ler e consequentemente opinar, aconselhar, criticar e corrigir os erros não só de português quanto de conexão e organização das minhas idéias durante as histórias que eu criava. Infelizmente a excentricidade dele não o deixava ver as peças que eu ajudei a produzir. Sempre achei que ele queria gostar de uma ou de outra,  mas ele já não queria sair mais de casa. Aliás, não saía a alguns anos, mesmo quando tia Maria Helena ainda era viva e ela que o representava nas reuniões de família. Sempre tive forte afinidade com meu tio Rodolfo.

Minha mãe fala que o meu jeito é uma mistura do jeito dele com o da tia Dôra, a mais velha de todas. E creio eu que ele se inspirou nesse blog aqui pra fazer o blog dele chamado de “Sete Ramos de Oliveira” onde ele expunha suas poesias, seus contos, seus livros que chegou a publicar também. De modo que com isso ele entrou no mundo virtual, na chamada blogsfera, onde ele se comunicava com todos que participavam com ele dos debates e encontros virtuais e até reais com esse pessoal que participava do blog dele.

Falando nisso, uns três meses antes de nos deixar, a última postagem que ele colocou no blog dele contava a respeito de um episódio que eu fui o protagonista quando eu fui visitá-lo no hospital. Vou reproduzir aqui na íntegra como uma homenagem a ele a citação que ele fez a mim na última postagem do blog dele que tem um alcance muito maioir que o meu. Meu muito obrigado especial a você, meu tio.

A calça
Quando o Rafa foi me visitar no Hospital Central da Aeronáutica, foi impedido de entrar.
- Não pode entrar de bermuda - o soldado da guarda explicou.
Não vou criticar aqui costumes culturais, por mais estranhos que pareçam. Os militares britânicos usam, nas regiões tropicais, um uniforme leve, que inclui uma bermuda. Nós, brasileiros, mais realistas do que o rei, implicamos com um traje confortável, aceito até no palácio de Buckingham, só porque nossos avós não gostavam de expor as canelas.
E agora? O Rafa não vinha para uma simples visita, mas para render por algumas horas a minha filha - a Bia - em seu posto de acompanhante. Lembrou-se de ter passado por uma loja de roupas femininas nas proximidades e foi até lá, para comprar um traje mais adequado.

O Rafa é um homem grande e desinibido, e foi com dificuldade que se apertou na maior calça que encontrou na loja. E foi assim, com brilhos nos fundilhos e enfeites na cintura, que ele conseguiu entrar no ultraconservador hospital...”

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

COMEÇANDO O TÉRMINO

COMEÇANDO O TÉRMINO

No ar em sua última temporada pela rede globo mais um Programa do Jô. Era mais ou menos assim que o Jô Soares abria todas as noites o seu programa de entrevistas. Há mais tempo no ar do que esse blog chega uma hora que a gente tem que parar, respirar, reciclar e tomar folego pra encarar outras coisas. Acrescente a isso o fato de que segundo numerólogos e estudiosos de plantão o ano passado foi um ano de ciclos encerrados e outros abertos. Fechava-se completamente um determinado setor da vida e abria-se outros. Eu abri alguns e fechei outros. Esse aqui, por exemplo, está sendo fechado. Assim como o Jô eu também estou na minha última temporada por vários fatores que não convém aqui ressaltar. Ou convém? Não sei.

Eu tô querendo encarar outras vertentes que ultrapassam os limites do papel. Já comecei ano passado. Aliás eu escrevo de algum lugar do ano passado por isso que quero que essa seja a minha última temporada nesse blog. A idéia é que depois do ponto final no final desse ano eu mantenha esse blog no ar durante alguns meses para o deleite de quem o lê e pra quem não lê ainda ter tempo de me descobrir antes do meu suicídio vitual.

Eu que já quis ser um Paulo Coelho, um Jorge Amado não tenho mais a tal inspiração pra escrever sobre qualquer coisa. Encarar um romance então, isso tá longe de acordar dentro de mim novamente. Pelo menos no momento esse vulcão está adormecido e sem previsão de entrar em erupção.

Outra coisa que me disperta em ficar hibernado desse espaço é a proximidade do fim dessa agenda que agora mais parece um caderno que eu uso pra escrever os rascunhos desse blog. Eu não vou guardar isso. Conforme eu for salvando esses textos no arquivo do computador, depois que todas as páginas forem devidamente preenchidas e passadas a limpo, as terei no arquivo digital e não precisarei mais guardar esses rascunhos. Vou promover um queima de arquivo. Arquivo físico. O virtual vou manter.

O Jô já tinha voltado pra Globo quando comecei esse blog e se ele ficou no ar por dezesseis anos eu devo ter escrito por uns catorze. Acho que também já é a hora de me retirar. Hora de dizer adeus. Essa é a minha última temporada do blog. Só até o fim do ano vocês vão ter que me engolir. Ainda tem um ano pela frente. Um ano pra comentar meus comentários, críticas, elogios, sugestões e tudo tentando ser com bastante humor. Sei que tem vezes que não dá.

Nessa última temporada eu vou me propor um desafio que vai me dar um pouco de trabalho. Toda última postagem de cada mês eu vou resgatar um texto das antigas, do fundo do baú pra postar novamente. Serão doze, um pra cada mês. Não sei se vou escolher os doze melhores desses catorze anos de postagens, mas vou pescar aqueles que me prenderem mais agora quando eu relê-los. Vou tentar buscar um de cada ano pra dar equilíbrio.

Essas são as novidades pra esse ano de 2017. O resgate de algumas memórias do passado e a interrupção de um ciclo, um hábito que se consolidou a cerca de catorze anos. Hora de se jogar pra um futuro que está logo ali. Sem cara, sem definição, sem desenho, mas pronto pra ser encarado como todo futuro que se apresenta.


Eu devo dizer a mesma coisa lá pras últimas postagens, mas já de antemão eu queria agradecer a cada um de vocês que em algum momento desses anos todos pararam um pouco pra ver algumas das mais de setecentas postagens que eu coloquei aqui. Sei que são poucas pessoas, não chegam a dez. eu também nunca quis divulgar muito esse espaço e nascido no anonimato vai morrer quase no anonimato também. Mas era só pro meu bel-prazer mesmo, sem nenhum compromisso com nada. Muito obrigado mesmo. Do fundo do meu coração. Gratidão eterna a todos vocês.