sábado, 29 de abril de 2017

MORRE UMA ESTRELA (publicado em 28 mar 2005)

MORRE UMA ESTRELA (publicado em 28 mar 2005)

Uma notícia me deixou estarrecido no início desse ano. Boa parte da minha infância e certamente da infância de muita gente da minha faixa etária ou não está prestes a fechar. A Estrela, fábrica de sonhos de muitas crianças, pediu sua falência. Há muito o brilho dela não era tão intenso como, por exemplo, nos áureos tempos em que um brinquedo era fundamental para mim, mas daí a se apagar para sempre é de tocar o coração.

Como dizia a propaganda dela própria, ‘todo segredo de um brinquedo vive na nossa emoção e toda criança tem uma estrela dentro do coração.’ Infelizmente não terão mais. A (de)cadencia da Estrela vem sendo notada na falta de novos lançamentos de brinquedos, principalmente em épocas mais apelativas para o consumo dos mesmos no Natal ou no dia das crianças, e na cessão do licenciamento e comercialização de vários de seus brinquedos para outras marcas. Produtos que hoje estão associados com apresentadores de tv, como a pipoqueira da Eliana, já fizeram parte do rol da Estrela.

A exceção dos bonequinhos de Playmobil, os quais tinha em grande quantidade, meus natais e aniversários eram uma constelação só. Além de vários jogos – Jogo da Vida, Detetive, Cara a Cara – eu tinha também a coleção completa dos ‘Super Powers’, os super heróis que formavam a minha ‘Liga da Justiça’ particular. Desde Super-Homem, Batman e Robin, Mulher Maravilha até os menos requisitados Homem Elástico, Lanterna Verde e Homem Pássaro. O mecanismo deles consistia em pressionar as pernas para mexerem os braços. Poucos funcionavam ao contrário. Não tenho certeza de que eles foram os meus últimos contatos com a Estrela, mas não lembro de brinquedos posteriores a esse que eu tenha ganhado sabendo que a possibilidade era grande. Depois dessa coleção, meus interesses se voltaram para outros ramos.

Todos os nossos brinquedos foram repassados para outras pessoas. Essa minha coleção, por exemplo, dei para um primo meu, criança na época. De todos, o único que mantenho, apesar de não estar pleno das suas funções mecânicas, porém completo em suas peças, é o Ferrorama. Dele, não me desfaço. A não ser que por ventura encontre um colecionador que esteja disposto a desembolsar uma boa quantia em dinheiro e tenha um argumento convincente para que eu possa aceitar a grana que me oferecer.

Pode ser que o que eu diga agora seja um clichê, mas a minha infância não poderia ter sido melhor. A geração anterior a minha fala o mesmo, e a posterior provavelmente falará também. No entanto, as pessoas com idade entre vinte e cinco e trinta e poucos anos, não têm do que se queixar. Além dos brinquedos, e muitos da Estrela, que nos divertiam em sua grande maioria ensinando e educando, os desenhos animados, (Pica-pau, Tom e Jerry, Corrida Maluca...) os programas infantis, (Balão Mágico, Arca de Noé, Sítio do Pica-pau Amarelo, Bozo...) os discos – na época ainda feitos de vinil – contando as histórias com o toque do João de Barro, o Braguinha e as brincadeiras saudáveis que visavam uma competição sadia e uma relação de respeito, solidariedade e confraternização, infelizmente estão se perdendo com o avanço da tecnologia e a queda na qualidade da educação. Ia enumerar também a violência, porém, seria o estopim para a discussão sobre se isso tudo é causa ou conseqüência da violência.


Bem, voltando à defesa de a minha infância ser a melhor é que a minha geração pegou e acompanhou mais de perto toda a transição da tecnologia. Do vinil para CD, da máquina de escrever para o computador que também faz vês de máquina de escrever, da longa e demorada pesquisa em livros de bibliotecas para a rápida busca na internet, enfim, da água pro vinho. Mas, sobretudo, sempre guardando e cativando a estrela de nossos corações acesa, ao contrário da (de)cadência da fábrica de alguns sonhos nossos.

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