sexta-feira, 18 de agosto de 2017

INFÂNCIA SEM INOCÊNCIA

INFÂNCIA SEM INOCÊNCIA

Pegando ainda o gancho da semana passada, uma noite de setembro do ano passado eu andei até o ponto do ônibus em frente a uma favela há algumas quadras aqui de casa pra poder ir pro Rio. Em frente a esse ponto, numa lage que instalaram há um bom tempo sobre o canal e fizeram desse espaço uma praça ao ar livre com brinquedos pras crianças, um espaço de convivência, estava acontecendo um evento como quase todo fim de semana com música de DJ, comes e bebes, o que tem em toda festa. Comunidade em boa parte estava ali desfrutando do lazer oferecido numa sexta a noite.

Como em boa parte das comunidades de um modo geral a música predominante era o funk e em boa parte dos funks executados eram aqueles em que a insinuação pornográfica é gritante. O que eu ouvi nesse dia foi uma cantora que pegou uma música infantil, tema dos anões do desenho da Branca de Neve e trocou a letra. Ao invés de “eu vou pra casa agora eu vou”ela cantava “eu vou sentar agora eu vou”. Fico estarrecido quando escuto essas atrocidades e o pior é que essas crianças moradoras, criadas nessas comunidades escutam essas músicas desde pequenas. São precoces no quesito sexualidade por serem bombardeadas por esses tipos de letras obscenas.

Essa cultura deveria ser modificada. Não estou aqui querendo acabar com essas festas comunitárias e muito menos com o funk. Mas deixar crianças escutarem a esse tipo de montagem musical, essas versões eróticas é um absurdo.

Quando eu era pequeno o público infantil tinha programas voltados especificamente pra ele. Assistimos a vários especiais musicais feito pra crianças, pensado pros pequenos. Curtíamos o Sítio do Pica Pau Amarelo, víamos produtos como Arca de Noé do Vinícius de Moraes, Pirlimpimpim que também tratava do universo do Sítio do Pica Pau, Plunct Plact Zum que era literalmente uma viagem , enfim, minha geração cresceu com isso. Não fui acostumado a escutar essas versões obscenas e insinuantes de músicas.

Sempre existiu e vão existir músicas de duplo sentido. Isso é uma coisa. A Dercy Gonçalves cantando a “Perereca da Vizinha”, por exemplo, é engraçado e por mais que a gente conheça o duplo sentido chega até a ser inocente perto do que se escuta hoje em dia. Acho que isso não pode se tornar normal, comum.

Quando esses programas de TV deram espaço a outro tipo de linguagem  - esqueci de mencionar o Balão Mágico. Esse sim eu considero o meu programa de infância que era feito por criança e para criança com musicas que mantinham e respeitavam a essência da inocência da criança – surgiu a figura da apresentadora de programa infantil e foi nessa onda que a Xuxa tomou o posto de rainha dos baixinhos, começaram a dizer que as crianças começaram a se “erotizar” pelas roupas curtas que ela usava no programa e as crianças a imitando também nas roupas. Eu discordo disso.

Se ela usava um short curto e os pais achavam aquilo um absurdo era só trocar o canal, mas não tinha jeito porque caia na Angélica, Mara Maravilha e tantas outras que surgiram e sumiram. Bem, se mudar de canal não resolvia era só não comprar o mesmo tipo de roupa usada pelas apresentadoras. As músicas que elas cantavam eram apenas pra se divertir, sem esse apelo sexual, pornográfico. É só escutar Ilariê por exemplo que se percebe que não tem nada demais nela.

No entanto, independente da moda, sabe-se que hoje as meninas a partir dos seus catorze, quinze anos predominantemente de comunidades como essas vão a bailes funk sem calcinha.
Outro dia uma amiga me mandou uma mensagem que dizia que as piores músicas feitas nos anos oitenta são melhores que as melhores feitas atualmente. Eu incluo aí os funks também.

sábado, 12 de agosto de 2017

VELHA INFÄNCIA

VELHA INFÂNCIA

Ano passado uma amiga minha me perguntou sobre a disposição do Teatro Rival, pois ela estava querendo comprar ingresso pra uma festa Ploc que aconteceu lá no fim de setembro. Festa Ploc é uma festa temática dos anos 80. Acho que em São Paulo se chama Trash.

Essa foi a década da minha infância. Minha e dos meus amigos de infância. Foi nessa época que consolidamos nossos caráteres, que crescemos e nos desenvolvemos e aprendemos a formar nossa base que nos acompanha pela nossa vida até agora e creio que eternamente. Claro que não dá e nem se pode comparar com infâncias de outras gerações. Cada uma se desenvolveu em certas condições econômicas, culturais e tecnológicas diferentes. Eu não vivi outras, por isso digo que a minha infância foi a melhor e pra mim realmente foi. Quando eu vejo o meu sobrinho mais velho grudado num telefone ou num computador jogando joguinho não consigo ver ali uma infância saudável onde ele possa interagir com outras pessoas como eu fazia com a turma do prédio onde eu morava. Mas era outra época.

Vídeo game era raro alguém ter. Um que eu tive junto com meu irmão , talvez o único da infância, foi o Atari e mesmo assim a gente jogava pouco. Preferíamos estar com nossos amigos brincando juntos. Hoje qualquer telefone celular vem com joguinhos pra crianças de qualquer idade ou aplicativos que levam a baixar esses joguinhos. Telefone celular na minha infância era coisa que víamos só nos filmes de James Bond e os telefones que quando chegaram tinham a função exclusivamente de fazer ligações hoje fazem de tudo, inclusive ligações. Não só servem pra função original dele como pra ser vídeo game, agenda, agencia de banco, maquina fotográfica entre outros.

Pra se ter uma idéia, quando eu fiz dez anos ganhei uma maquina de retrato do meu padrinho. Uma Kodak que tirava fotos tamanho 9x9 com o tipo de filme CB126. Sim, era filme negativo que depois a gente tinha que levar pra revelar. Já o meu sobrinho mais velho no Natal que ele tinha cinco anos, ou seja, metade da minha idade, ganhou um aparelho celular que inclusive tirava fotos. Mas isso foi pelo fato dos joguinhos estarem bem evoluídos e difundidos nesses aparelhos. Não que ele fique o dia todo pendurado jogando no telefone. Ele até faz outras atividades, o que eu acho bem mais saudável, como jogar bola que ele adora, e quando está com o pai andar de bicicleta entre outras coisas, mas o que faz ele ficar quieto é o joguinho eletrônico.

Somos de gerações diferentes, sou trinta anos mais velho que ele. Talvez ele brincasse como eu se tivesse nascido na mesma época que eu, ou eu fizesse o mesmo que ele se tivesse nascido a quase dez anos. Não estou julgando se é melhor ou pior. É diferente e não há comparação.

Agora me preocupa quais os valores de infância o meu sobrinho mais novo vai carregar com ele. Ainda é pequeno, tem pouco mais de um ano, mas já começa a observar o mundo e assimilar algumas coisas como toda criança nessa idade. A memória dele agora que vai começar não só a captar mas a registrar tudo o que ele vê, ouve e sente. Ele já é de uma outra geração com outra visão, outros objetivos de vida. Vida essa que tem muita pela frente.

Quando eles dois chegarem a minha idade e olharem pra trás será que eles vão dizer que valeu a pena que tiveram uma infância maravilhosa, que não podem reclamar de nada – essa acho um pouco difícil, mas uma reclamação branda, sem rancores até mesmo pela configuração de família que eles tem.


Quem vai tocar daqui a trinta, quarenta anos na festa Ploc que eles vão frequentar?  

domingo, 6 de agosto de 2017

GARRANDO NA PROSA

GARRANDO NA PROSA

Uma das coisas que eu mais gosto de fazer é jogar conversa fora. Sentar em algum lugar pra bater um papo seja com um ou um grupo de amigos. Isso me faz bem. Acho que pra todo mundo. Mas tem que ser real. O virtual só se realmente não houver jeito como por exemplo no caso do Airton que está em Londres. Aí não tem como. Só quando eu vou pra lá mesmo.

Reunir com amigos seja na casa de um ou no bar desopila, tira o peso que o dia a dia impõe sobre a gente. A gente fica mais relaxado, descontraído, fala mais bobagem, não precisa ter a formalidade que nos é conveniente, enfim, é muito bom. Gosto dos meus amigos, como gosto de me juntar a eles e quando vários se reúnem num local eu me empolgo e nem vejo a hora passar. Gosto do papo deles, gosto das idéias, das discussões sadias e construtivas, das conclusões engraçadas e das possíveis parcerias profissionais que podem sair dessas conversas também. É tão bom se ter esse contato visual, presencial, que pra mim o virtual é um complemento. Esse é mais frio, mais mecânico, dependente de uma maquininha que está se tornando cada vez mais necessária pra gente.

O ruim do celular é que tem gente que fica viciado , que não consegue largar do aparelho pra nada, que fica checando o tempo todo se chegou mensagem, por exemplo. Em alguns desses encontros que eu frequento, de vez em quando, uma amiga reclama quando os conviveres pegam no celular e ficam mais de um minuto com ele na mão não interessa fazendo o que. Ela brinca dizendo que vai colocar uma cestinha na entrada pra que deixemos nossos aparelhos lá antes de entrarmos pra curtir esse momento de reunião, de descontração, de jogar conversa fora.

Eu atualmente quero ficar o mais desconectado possível. Ficar mais de uma hora no computador sem algum objetivo acho exagero. Eu estipulo o tempo de um disco pra ficar de bobeira na frente da tela. De bobeira. Se eu faço alguma coisa mais intensa, mais trabalhosa, aí a coisa muda de configuração. Telefone é a mesma coisa. Não tenho a fissura de ver imediatamente as mensagens que me mandam. A não ser se for mensagem importante, que eu esteja esperando ou trocando, vejo as conversas em determinados horários. A hora que eu tô a fim de ver. Claro que não vou deixar de fazer nada disso até pelo fato de serem meios de comunicação e nenhum vai anular o outro.

Ainda vejo mail e os respondo quando necessário, vejo facebook e uso muito o messenger e o whats app, mas não fico o dia inteiro nisso. Acho que tem tanta coisa pra gente fazer, pra gente ver que a tecnologia não deveria ocupar o nosso tempo todo.

Comedidamente podemos fazer tudo que nos convém. No entanto acho que há um exagero das pessoas em permanecerem conectadas o tempo todo. Talvez conectada não seja a palavra certa por que eu também fico conectado o dia todo, mas eu modero o meu controle, o meu acesso. O que eu estou dizendo é que as pessoas ficam ansiosas por não terem uma mensagem lida ou respondida imediatamente, uma foto postada, curtida e comentada no facebook. Isso que eu acho um exagero.

Além de exagero chega a ser uma falta de respeito. As pessoas vão pra restaurantes pra ficarem digitando em celulares, e o pior, já vi isso em algumas apresentações teatrais. Por mais que se peça pra manter os aparelhos sonoros no modo silencioso ou no vibratório, ainda existe gente que quer ser má educada mesmo.  


Com tanta coisa bacana a ser feita, a ser aproveitada que as pessoas deixam de fazer pra ficar online o tempo todo. Sempre vai ter um livro bom perdido numa estante, todo dia tem um por do sol pra se assistir, um filme bacana de vez em quando passa no cinema, uma peça de teatro ou um show pra se assistir, um papo com os amigos, ou seja, existe vida além das telas de celular e computador.